24/05/2008

QUEM EU SOU E O QUE SOU? - Parte IV

Os seres humanos constituem o último estágio da escala evolucionária da criação. Nos seres humanos, a consciência está nítida e totalmente refletida por meio de um corpo físico constituído dos cinco fatores fundamentais, os quais derivam do corpo Cósmico da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma). Este reflexo claro da consciência é a consciência unitária (átman); e o corpo físico composto dos cinco fatores, o qual recebe este reflexo, é chamado de corpo humano. Assim, cada ser humano tem a consciência unitária (átman) e o corpo. O fato de o ser humano possuir essas duas características significa que ele não é nem uma coisa nem outra. Se os seres humanos fossem apenas o átman (consciência unitária), eles não teriam a capacidade de afirmar que são esse átman. Se, por outro lado, tivessem somente o corpo, não poderiam dizer: “Este é o meu corpo”. Eles são diferentes desses dois aspectos. Existe uma outra entidade nos seres humanos que reivindica a posse do átman e do corpo.

Essa outra entidade parece ser a dona do átman e do corpo. Então, qual é essa outra entidade?

O sentimento puro de “eu” é apenas uma idéia abstrata. Uma pequena introspecção mostraria que este sentimento de “eu existo” é uma idéia. Ele surge como resultado do pensamento. Esse sentimento de “eu” só pode existir onde há consciência. Assim, é com a consciência, ou jinána, que uma pessoa pode ter uma idéia, pensar e realizar alguma ação. Portanto, o sentimento de “eu” é uma projeção mental da consciência ou, para ser mais claro, podemos dizer que sem a consciência, ou jinána, o conhecimento da existência e, conseqüentemente, a idéia do sentimento de “eu” não pode ser formada. Átman é a consciência unitária (ou purusá unitário), e, uma vez que está dentro do domínio de Sagun'a Brahma, ele será qualificado pelos princípios de Prakrti, da mesma forma como ocorre com Purus'a em Sagun'a Brahma. Átman adquire o conhecimento da sua existência ou surge o sentimento puro do “eu” devido à influência qualificadora do princípio sutil de Prakrti. É por causa dessa idéia de existência que o sentimento de “eu” é formado; portanto, a identidade do indivíduo como “eu” é somente essa idéia. Desse modo, a idéia é somente uma projeção formada pela influência qualificadora da Prakrti sutil sobre a consciência unitária. Esse sentimento de “eu” não é, portanto, o átman (ou consciência unitária). A individualidade do ser humano ou o seu sentimento de “eu” não é a consciência unitária. É apenas uma idéia objetiva da consciência unitária, que passa a ser conhecida devido à influência qualificadora de Prakrti.

Conseqüentemente, o sentimento de “eu” do ser humano depende inteiramente da consciência unitária, assim como a existência de uma tábua de madeira depende de uma árvore. A tábua não pode ser chamada de árvore e, da mesma forma, esta entidade do “eu” não pode ser a consciência unitária. Ela é somente uma idéia, dependente da consciência unitária, formada como um resultado da influência qualificadora da Prakrti sutil sobre ela.

Mostramos anteriormente que buddhitattva surge devido à influência qualificadora do princípio sutil de Prakrti sobre a consciência unitária. Também surge o sentimento de “eu”, que cria o conhecimento da existência da consciência unitária. Dessa forma, a entidade individual do “eu” não é a consciência unitária; ela é buddhitattva, que é somente uma parte de sua mente.

A entidade do “eu” dos seres humanos é buddhitattva, que é mais sutil do que aham'tattva e citta. Então, o que são aham'tattva e citta? Já explicamos no primeiro capítulo que aham'tattva (ego) se forma por causa da influência qualificadora do princípio mutatório de Prakrti sobre buddhitattva, o qual, por sua vez, se manifesta como aham'tattva. Áham'tattva (ego), ao ser depois qualificado pelo princípio estático de Prakrti, se manifesta como citta. Na verdade, é buddhitattva (ou sentimento puro do “eu”) que se manifesta como aham'tattva (ego) e como citta, devido à influência qualificadora dos princípios mutatório e estático de Prakrti, respectivamente. Aham'tattva (ego) e citta são somente formas funcionais mais densas da entidade do “eu” do ser humano. A mente do ser humano é, conseqüentemente, uma projeção do seu sentimento de “eu” (buddhitattva), sendo composta apenas desta entidade.

A consciência unitária, ou átman, é refletida somente quando existe um corpo físico constituído pelos cinco fatores fundamentais do Macrocosmo.

Buddhitattva é criado como resultado da influência da Prakrti sutil sobre a consciência unitária; portanto, buddhitattva (ou sentimento de “eu”) também depende de um corpo físico. Uma vez que buddhitattva permeia cada partícula do corpo, a pessoa sente a presença do “eu” em cada parte do corpo, identificando esse “eu” com o corpo. Porém, já explicamos anteriormente que esse sentimento de “eu” e o corpo não são a mesma entidade. Eles são diferentes – o sentimento de “eu” é buddhitattva e o corpo físico é meramente um abrigo (ádhára) para ele.

O sentimento de “eu” de um ser humano não é, dessa forma, nem a consciência unitária nem o corpo; é apenas uma criação mental da consciência unitária, denominada buddhitattva, sendo que este “eu” se manifesta em seguida como as duas outras formas funcionais da mente – aham'tattva (ego) e citta.

P.R.SARKAR - Filosofia Elementar da Ánanda Márga.

17/05/2008

O QUE É ESTE MUNDO? - Parte III

Tendo em conta que Brahma é a multiplicidade suprema das consciências unitárias múltiplas, Ele é a consciência em sua totalidade. Já foi demonstrado anteriormente que cada consciência unitária é não-causal e também que Brahma – a multiplicidade de todas as consciências unitárias – só pode ser infinito se o múltiplo das consciências unitárias for infinito. Portanto, o número de consciências unitárias terá de ser infinito. Aqui, surge a questão a respeito de que maneira Brahma se transformou na multiplicidade de todas as consciências unitárias. Será que existia um número infinito de consciências unitárias antes de Brahma; ou será que Brahma se multiplicou em infinitas unidades, sendo por isso chamado de multiplicidade das consciências unitárias?

Foi explicado anteriormente que a consciência unitária é não-causal e que cada pessoa tem uma consciência unitária, ou átman. A história da Terra, entretanto, revela que os seres humanos não podem ser definidos como não-causais. Eles não foram sequer os primeiros seres vivos a surgir na Terra. O planeta Terra foi formado a partir do Sol. No começo, a Terra era apenas uma bola de fogo. Gradualmente, ela esfriou, ficou recoberta de água e depois surgiu a superfície sólida. Depois disso se seguiu a formação dos reinos animal e vegetal, e somente depois é que os seres humanos evoluíram. Assim, os seres humanos dependeram da Terra para surgir; portanto, não podem ser não-causais. Mas átman (ou consciência unitária), que é não-causal, não pode ter surgido junto com os seres humanos e já devia existir mesmo antes deles. A consciência unitária devia existir mesmo antes de os seres humanos surgirem, senão, como eles teriam obtido átman, ou consciência unitária? Antes da criação dos seres humanos, a consciência unitária só poderia ter existido na Consciência Cósmica, visto que ambas são não-causais e também porque a Consciência Cósmica é apenas a multiplicidade das consciências unitárias. Somente quando surgiu a criação ou quando evoluíram os seres humanos é que a consciência unitária pôde se refletir neles. A Consciência Cósmica, sendo a multiplicidade das consciências unitárias, deve ser semelhante a elas. Assim, vemos que o número infinito de consciências unitárias não era definido como unidades, originalmente. Brahma refletiu a Si mesmo em inúmeras consciências unitárias e por isso se denomina Brahma, a multiplicidade de todas as consciências unitárias. Isto também demonstra que os seres humanos obtiveram os seus átmans (ou consciências unitárias) da Consciência Cósmica, tão-somente.

Os seres humanos não são seres sem uma origem, pois a sua origem está na Terra. Se eles se originaram da Terra, devem também ter adquirido suas consciências unitárias deste planeta. Eles não poderiam tê-las adquirido de nenhuma outra entidade. Logo, deve também existir a consciência aqui na Terra. Por exemplo, a manteiga só pode ser obtida do leite porque ela existe no leite. Assim sendo, a consciência unitária existe na Terra; caso contrário, o corpo humano, que é originário deste planeta, não poderia ter a consciência unitária. A manteiga, mesmo que exista no leite, não pode ser identificada como manteiga, até que seja obtida com a ajuda de uma batedeira. Da mesma forma, a consciência unitária está imperceptível ou latente na Terra, tendo ficado perceptível somente quando a mente humana foi criada para refleti-la. Então, temos de aceitar que, até mesmo no solo da Terra, existe a consciência. A Terra surgiu do Sol – uma bola de fogo cuja existência originou-se de certos gases encontrados, primeiramente, no fator aéreo. O Sol, dessa forma, depende do fator aéreo, do qual se originou. Da mesma forma, o fator aéreo (váyu) depende do fator etéreo, porque se não houvesse éter não haveria espaço para o ar existir. A origem do ar pode ser encontrada no fator etéreo. Podemos dizer que o fator etéreo é a origem do ar, do Sol, da Terra e, finalmente, dos seres humanos.

Um ser humano tem consciência unitária; conseqüentemente, o fator etéreo também deve tê-la. Se este não tivesse consciência, como poderia o ser humano, que foi criado a partir dele, obter a consciência unitária? O fator etéreo é um fator bruto. Ele não tem forma, nem o seu tamanho pode ser mensurado. Ele nada contém, formando um vácuo; mas, mesmo assim, é considerado bruto, pelo simples fato de que o som pode ser conduzido através dele. O fato de ele permitir a formação de ondas sonoras mostra que deve haver algo que possibilite a manifestação das ondas sonoras e que dê ao fator etéreo uma natureza bruta. Embora o fator etéreo seja chamado de bruto, ele não tem nenhuma substância bruta. Ele representa o nada, o vácuo ou o espaço, tão-somente. Entretanto, logicamente, teremos de admitir que ele contenha a consciência. Do contrário, os seres humanos, que foram formados a partir do éter, não teriam obtido a consciência unitária. Portanto, a única entidade que pode existir no éter é a consciência. Por exemplo, encontramos água no gelo, porque este é feito de água e nada mais contém além de água. Da mesma forma, o éter, que nada contém, exceto a consciência, deve ser composto de consciência. A consciência está em Brahma e, portanto, o éter tem a sua origem em Brahma, tão-somente. Logo, o fator etéreo (ou vyomatattva) se originou de Brahma, assim como o resto do universo, uma vez que, como foi demonstrado, a origem do ar, do fogo, da água, da terra e de todo o reino animal e vegetal está unicamente no fator etéreo. Dessa forma, toda a criação é feita somente de Brahma. Unicamente Brahma é a causa da criação do universo.

Sagun'a Brahma (ou Consciência Qualificada) é a causa da criação do universo. Em outras palavras, o universo se originou de Sagun'a Brahma. Todavia, se Sagun'a Brahma, ou Bhagava'n, criou o universo, então surge uma pergunta muito apropriada sobre a disponibilidade da matéria-prima ou da substância com que o universo foi criado. Sagun'a Brahma também necessita de alguma matéria-prima para criar o universo, assim como o oleiro necessita de barro para fazer potes. Um oleiro consegue o barro da terra. Então, Sagun'a Brahma teria também obtido sua matéria-prima de alguma outra entidade? A matéria-prima e o seu dono, aquele de quem Sagun'a Brahma a tomou emprestada, já deviam existir muito antes de Sagun'a Brahma. Logo, terá de ser admitido o fato de que esse dono é maior do que Sagun'a Brahma. Caso contrário, não seria possível estar acessível a Sagun'a Brahma. Já aceitamos que Brahma é não-causal. Nada existia antes de Brahma; portanto, a matéria-prima a partir da qual o universo foi criado não poderia ter existido antes de Brahma. Qual seria a matéria-prima com que Sagun'a Brahma criou este universo, se nada existia antes d'Ele ou além d'Ele? O universo, que tem existência tão perceptível, não poderia ter sido criado do nada. O único material disponível para Sagun'a Brahma era o Seu próprio Ser. Portanto, temos de aceitar que esta criação é apenas Sagun'a Brahma metamorfoseado em tudo o que é encontrado neste universo.

O universo inteiro é formado a partir de Sagun'a Brahma. Apenas Sagun'a Brahma é que Se manifesta como esta criação. Seria, então, incorreto afirmar que Sagun'a Brahma é onipresente? Afirmar que Brahma está presente em um livro significaria dizer que o livro é uma entidade separada e que Brahma ocupa essa entidade. Isto nos dá a impressão de que são duas entidades separadas – Brahma e o livro, que aparentemente estaria separado de Sagun'a Brahma. Isto é totalmente incorreto, pois já dissemos que todas as coisas são feitas de Brahma e que Ele assumiu todas as formas. Portanto, o correto é dizer que o livro é Brahma ou que Ele assumiu a forma do livro. Isto demonstra que o livro e Brahma não são duas entidades separadas e que o livro não existia antes de Brahma. Só esta é a expressão correta, pois Brahma é infinito e eterno, e nada poderia existir além d'Ele ou antes d'Ele. O livro não poderia ter existido antes de Brahma. De fato, nada poderia ter existido antes de Brahma. Cada partícula de pó é tão-somente Brahma.

Brahma é a causa de toda a criação, e Brahma é o nome coletivo de Prakrti e Purus'a. Qual dos dois, então, dá origem à criação? Teremos que determinar se é Prakrti ou Purus'a a substância com a qual a criação é feita. Prakrti é uma força singular – um princípio – cuja única função é qualificar Purus'a. Uma vez que Prakrti é apenas uma força, Ela não pode adquirir um formato. Senão, ela perderia a sua função qualificadora. Além disso, se Prakrti se transformasse na criação, deveria haver uma força ou princípio que criasse as formas e imagens. A única outra entidade em Brahma que poderia dar uma forma a Prakrti seria Purus'a. Entretanto, Purus'a – que não pode perceber a própria existência sem que tenha sido qualificado por Prakrti – não poderia executar a grandiosa tarefa de dar a Prakrti a forma da criação. Diante disso, fica evidente que Prakrti não pode assumir a forma da criação e que somente Purus'a pode adquirir tal formato. Portanto, a substância de que é feita toda a criação é Purus'a. Prakrti qualifica Purus'a para lhe dar diferentes formas e Purus'a tem de seguir os desígnios de Prakrti. Por exemplo, um oleiro molda uma porção de argila de acordo com a sua intenção. A porção de argila pode ser comparada a Purus'a e o oleiro – aquele que provê a força – assemelha-se a Prakrti. Da mesma forma, Prakrti fornece todas essas formas a Purus'a de acordo com o desejo de Prakrti de criar este universo. Purus'a apenas segue os desígnios de Prakrti no processo da criação.

Apenas Purus'a é projetado em todas as diferentes formas da criação. Ele é a substância de que tudo é feito. E porque Purus'a é consciência, todas as coisas desta criação possuem consciência. Não há nada que seja denso, inanimado e sem consciência. O tijolo bruto, a madeira serrada ou mesmo a terra, que comumente são considerados como densos ou sem vida, não são de fato assim. Eles são formas da entidade consciente – Purus'a. Eles não podem ser densos e sem consciência. Mesmo assim, todos esses objetos parecem ser densos, sem vida e sem qualquer vestígio de consciência. Isto ocorre porque Purus'a segue os desígnios de Prakrti, permanecendo na condição em que Prakrti quer que Ele fique. Um tijolo é uma forma de Purus'a moldada por Prakrti, e Purus'a permanece nessa condição, conforme o desejo de Prakrti. Neste caso, Prakrti deseja que Ele fique igual a um tijolo; então, Purus'a permanece como um tijolo, passando a Se considerar como matéria bruta ou sem vida. O tijolo não é capaz de expandir a sua consciência, permanecendo num estado sem vida, devido ao fato de ter sido qualificado pelas gun'as de Prakrti. A influência de Prakrti faz com que ele se pareça com matéria inanimada, bruta, embora possua consciência. Portanto, não há nada neste mundo que seja denso. Todas as coisas são formas metamorfoseadas da consciência ou Purus'a.

Já explicamos antes que Purus'a é uma entidade sutil que, ao ser qualificada, parece densa. Neste estado, uma vez que a Sua consciência não pode se expandir, Ele parece possuir menos consciência. Purus'a, gradualmente, parece ficar cada vez mais denso e, finalmente, assume a forma mais bruta de ks'ititattva,ou terra, onde encontramos Purus'a como um objeto inanimado, com a Sua consciência totalmente adormecida. Assim, quanto maior for a influência de Prakrti, mais bruta será a aparência de Purus'a; e quanto mais branda for a sua influência, mais sutil Ele será.

O universo foi criado a partir de Purus'a. Em outras palavras, Purus'a, ao ser qualificado pelas gun'as de Prakrti, criou o universo a partir de Si mesmo. Purus'a, como sabemos, é uma entidade sutil que pode ser contemplada apenas como uma idéia. Mesmo assim, a Lua, o Sol, as estrelas e os planetas, a atmosfera e a Terra, que se constituem do Purus'a Sutil, são todos encontrados nesta criação. Temos de admitir que esta criação foi constituída a partir de uma entidade sutil, que gradualmente se tornou bruta.

Já demonstramos, através de um raciocínio lógico, que Purus'a é sutil. Assim, se este universo denso foi criado a partir dessa entidade sutil, a sua semente deveria existir nessa entidade sutil, a qual, ao ser qualificada por Prakrti, germinou este universo imenso. Do mesmo modo, só é possível extrair a manteiga a partir do leite porque ela existe no leite, num formato diferente. Se a semente do universo denso existisse em Purus'a, Ele não poderia ser chamado de sutil nem poderia ser compreendido apenas como uma idéia. Para que uma coisa seja sutil, ela só pode ser compreendida ou contemplada como uma idéia, não podendo conter nada denso. Porque o som pode ser conduzido através do fator etéreo, no qual nenhuma substância bruta perceptível pode ser encontrada, ele é chamado de bruto. O fator etéreo não tem dimensões nem é perceptível; entretanto, somente porque possui a capacidade de conduzir as ondas sonoras, ele é chamado de denso. A presença de algo o torna identificável; então, não se pode dizer que ele seja sutil ou que possa ser compreendido apenas como uma idéia. Se a semente do universo denso existisse em Purus'a, Ele não poderia ser chamado de sutil. Ele teria de ser denso. Porém, como ficou demonstrado que Purus'a é sutil, a semente do universo denso não pode existir n'Ele.

Aqui surge uma nova contradição. Foi dito anteriormente que o universo foi criado a partir de Purus'a. Entretanto, se a semente não existia em Purus'a, como o universo poderia ter sido criado? Isto soa ilógico e irracional, e a única dedução lógica a que se poderia chegar é que o universo nunca teria sido criado, uma vez que Purus'a é sutil por natureza e o universo denso não poderia ter sido criado a partir d'Ele. Todavia, foi dito anteriormente que o universo foi criado a partir d'Ele, e como isso foi logicamente provado como verdadeiro, a única afirmativa racional que nos resta é que o universo denso nunca foi uma criação real. Entretanto, a existência deste universo visível não pode ser ignorada. Na verdade, este universo denso é criado apenas como um pensamento projetado de Purus'a.

Devido à influência de Prakrti, uma onda surge na mente de Purus'a e, como resultado, toda a criação se torna uma entidade imaginária, constituída de diferentes formas. O universo é tão-somente uma entidade imaginária na mente de Purusá, e não é necessária nenhuma substância bruta para a sua criação. Objetos imaginários não são realidades brutas, pois, para criá-las, a matéria bruta é necessária. Portanto, Purus'a, que é sutil, pode facilmente criar o universo a partir de seu próprio Ser. Ao aceitarmos a criação como uma onda mental, surgem as seguintes dúvidas:

1. Se este mundo não é uma realidade densa e existe apenas como um pensamento projetado de Purus'a, como é que o experimentamos como algo real?

2. No momento em que a onda mental de Purus'a deixar de existir, deverá a criação chegar a um fim?

Já que as ondas mentais ou as entidades imaginárias são momentâneas, a sua interrupção acarretaria o aniquilamento total.

Quando uma pessoa cria uma forma imaginada em sua mente, esta forma não parece ser somente uma imaginação. A mente é que imagina e, enquanto a pessoa está sob o domínio da imaginação, cada objeto imaginado parece real. Somente depois que o encanto se desfaz é que a pessoa compreende que tudo era somente uma imaginação.

Analisemos agora a imaginação e vejamos como um objeto criado parece real na imaginação. Num capítulo anterior, foi explicado que a porção da mente que realiza todas as ações é aham'tattva (ego), e a porção que mostra o resultado da ação ou se transforma nela é chamada de citta. Por exemplo, quando aham'tattva vê um livro, citta capta o tanmátra do livro e molda a forma do livro. Do mesmo modo, quando uma pessoa imagina uma forma, aham'tattva começa a funcionar e citta tem de assumir esta forma para permitir que aham'tattva a veja. Por exemplo, Rama, situado em Bhagalpur e pensando em Chowringhee, em Calcutá, faz com que o seu aham'tattva pense em Chowringhee, enquanto a sua citta tem de assumir a forma de Chowringhee. Nesse exato momento, seu aham'tattva começa a ver Chowringhee na sua imaginação.

Para assumir a forma de qualquer objeto, citta capta o tanmátra dele e, primeiramente, se transforma no fator rudimentar (bhúta) ou estado da matéria do qual o objeto é feito. Por exemplo, ao ver um livro, citta capta o rúpa tanmátra (forma) e, antes de ser capaz de assumir a forma do livro apropriadamente, ela tem de se transformar na substância ou no estado da matéria de que o livro é feito. Se o livro for feito de papel, o qual é constituído do estado sólido da matéria (ou ks'ititattva), citta, antes de assumir a forma do livro, terá de ficar semelhante ao papel, ou ks'ititattva. Assim, é necessário que citta fique semelhante ao tattva ou bhuta (fator rudimentar) do qual o objeto é feito. Somente então citta será capaz de assumir uma forma completa e apropriada. O fato de as formas criadas na imaginação parecerem verdadeiras poderá ser facilmente compreendido, após conhecermos como uma forma imaginária é criada na mente.

As funções externas de citta são exercidas com a ajuda dos dez indriyas. De um modo mais claro, citta realiza todas as suas ações (de assumir diferentes formas) com a ajuda dos indriyas ou órgãos. Através do indriya dos olhos é que citta capta o rúpa tanmátra de um livro e assume a sua forma. Também já foi explicado anteriormente que aham'tattva compele ou comanda citta para que entre em contato com um determinado tanmátra. Por exemplo, para ouvir um som, aham'tattva envia citta ao órgão receptor dos ouvidos; para ver um livro, aos olhos; para cheirar um perfume, ao nariz. Porém, quando Rama imagina Chowringhee, não é necessário nenhum desses indriyas, porque Calcutá está a 200 quilômetros de distância de Bhagalpur e, dessa forma, muito longe do alcance de todos os indriyas. Assim, citta perde o contato com os indriyas e toma a forma de Chowringhee por si próprio. Quando citta perde o contato com os indriyas, estes perdem sua função, e o ser humano perde o senso de relações e distinções de tempo, lugar e pessoa. Rama só poderia ter conhecimento de sua presença em Bhagalpur com a ajuda de seus olhos. Porém, se citta perde o contato com todos os indriyas e, em vez disso, assume a forma de Chowringhee, Rama não é capaz de se utilizar das funções dos indriyas,que recebem os tanmátras das imediações. Isto faz Rama ver Chowringhee na sua imaginação, embora ele esteja em Bhagalpur naquele momento. Como os indriyas perdem as suas funções, citta não é capaz de receber as impressões de Bhagalpur, e aham'tattva não pode ver nada de Bhagalpur. Ele somente vê Chowringhee e se sente como se estivesse em Chowringhee. Citta só assume a forma de Chowringhee por determinação de aham'tattva. Citta não imagina; a imaginação tem de ser feita por aham'tattva, enquanto citta se transforma naquela substância e assume aquela forma. Assim que a imaginação de aham'tattva cessa, citta perde a sua forma e, no mesmo momento, os indriyas começam a funcionar. Só então Rama compreende que aquele local que estava vendo, chamado Chowringhee, existia apenas em sua imaginação. É por esse processo que o objeto imaginado parece real, enquanto dura a imaginação. No momento em que esse encanto se desfaz, ele se revela como imaginário e irreal.

Somente através do comando de aham'tattva é que citta tem a capacidade de assumir a forma de um objeto, sem precisar de tanmátras. Neste caso, a forma que citta assume é imaginária ou irreal. A imaginação por si só não é real; a forma criada não pode ser real. Mesmo que a imaginação não seja real, citta tem de assumir uma forma; e ainda que esta forma seja imaginária ou irreal, o fato de citta se transformar nela é uma realidade.

A imaginação (kalpaná) foi analisada, e a razão para que ela pareça real também foi vista. Resta-nos saber se este universo foi criado como resultado da imaginação de Sagun'a Brahma, ou não. Dissemos anteriormente que Sagun'a Brahma, ao ser influenciado por Prakrti, projeta a Si mesmo como este universo. Isto pressupõe a existência da mente, uma vez que nenhuma ação pode ser realizada sem uma mente. O múltiplo de todas as consciências unitárias é Purus'a no estágio de Sagun'a Brahma. Já vimos que cada consciência unitária obtém uma mente devido à influência de Prakrti. Tendo em vista que Purus'a de Sagun'a Brahma é o múltiplo de todas as consciências individuais, Ele também obtém uma mente, ao ser influenciado por Prakrti. Sua mente se transforma no coletivo das mentes unitárias infinitas. Do mesmo modo que cada consciência unitária é um múltiplo da Consciência Cósmica, cada mente unitária é uma parte da Mente Cósmica. A Mente Cósmica, sendo o coletivo de todas as mentes unitárias, também é composta de buddhitattva, aham'tattva e citta. Aham'tattva é a porção que atua, e citta se transforma no resultado de sua ação. O universo é, dessa forma, criado pelo Aham'tattva de Sagun'a Brahma, que faz com que seu citta assuma a forma da criação. Citta assume uma forma de duas maneiras. Sob as ordens de Aham'tattva, citta pode assumir a forma de um objeto, tanto captando tanmátras com a ajuda dos indriyas, como através das ondas mentais de aham'tattva, sem captar nenhum tanmátra. Esta última forma é chamada de kalpaná ou imaginação, ou seja, citta adota a forma e imagem de objetos criados nas ondas mentais de aham'tattva.

Nada existia antes nem além de Sagun'a; portanto, Seu citta não poderia ter assumido a forma de nenhum objeto externo, ainda que Aham'tattva assim o desejasse. Citta de Sagun'a, dessa maneira, tem de assumir as formas e figuras existentes na onda mental ou na imaginação do Aham'tattva de Sagun'a Brahma. Citta materializa o resultado das ações realizadas por Sagun'a Brahma; logo, este universo é também um resultado dessas ações. O universo, conseqüentemente, é uma manifestação do citta de Sagun'a Brahma. Citta de Sagun'a Brahma assumiu a forma deste universo como foi imaginada por Seu aham'tattva. Quando citta assume a forma por essa via, o resultado é chamado de kalpaná ou imaginação. Portanto, esta criação é a imaginação (ou kalpaná) de Sagun'a Brahma.

O universo não deveria parecer real, já que existe somente na imaginação de Sagun'a Brahma. Anteriormente, vimos que a imaginação criada pela consciência unitária parece real, enquanto perdura o efeito da imaginação. A imaginação de Sagun'a – o qual também é o múltiplo de todas as consciências unitárias – também parece real pelas mesmas razões. E isto também faz com que a Mente Cósmica considere a Sua imaginação como uma realidade. A mente unitária é apenas uma parte da Mente Cósmica, e o que quer que pareça verdadeiro para a Mente Cósmica também parecerá para a mente unitária. Portanto, embora este vasto universo exista somente na imaginação, para nós ele parece real.

Um mago hipnotizador[1], ao fazer sua encenação nas ruas, parece lançar para cima uma corda que permanece estendida no ar. Seu ajudante sobe por essa corda com uma espada nas mãos e desaparece. Depois de algum tempo, a cabeça e outras partes do corpo do ajudante, banhadas de sangue, caem uma após outra. Toda a platéia fica pasmada. O hipnotizador lamenta e chora por seu amigo, enquanto põe os pedaços do corpo em um saco e, em seguida, arrecada quatro vezes mais do que arrecadaria normalmente, devido aos sentimentos de dó e simpatia despertados na platéia. Logo depois, seu ajudante é visto saindo do meio da platéia.

Como o hipnotizador teria feito isto? Toda a cena foi realizada na frente de um grande número de pessoas, sendo difícil considerá-la como falsa. Mesmo assim, é uma demonstração tão estranha que ninguém está preparado para aceitá-la como verdadeira. As pessoas conjeturam se o hipnotizador de fato deu a vida novamente ao seu amigo, cuja cabeça e membros haviam sido cortados do corpo. A dúvida de que os olhos poderiam tê-las enganado é descartada pelo fato de que muitas outras pessoas estavam presentes e viram a mesma cena. Todos não poderiam ter cometido o mesmo erro. Devemos apurar o que faz com que este fato absurdo pareça verdadeiro.

Uma corda não pode permanecer solta no ar nem tampouco uma pessoa poderia subir por ela. Muito menos plausível é a idéia de que alguém possa voltar a viver depois de ter seus membros apartados do corpo. Como então as pessoas viram isto de forma tão clara?

Todas as pessoas viram a demonstração com a ajuda de seus indriyas – os olhos. Vimos antes que a função de ver um objeto qualquer é realizada por aham'tattva, e comentamos que citta assume a forma do objeto que aham'tattva deseja ver. Se o mago, com a ajuda de poderes sobrenaturais obtidos através da prática intuitiva, puder expandir sua mente a ponto de hipnotizar ou influenciar o aham'tattva de cada pessoa da platéia, ele bloqueará o funcionamento independente das mentes de toda a platéia. A mente expandida do hipnotizador então se torna a mente coletiva de todos os indivíduos, já que suas mentes não estão funcionando de forma independente. É a mente do hipnotizador que atua no lugar das mentes inoperantes da platéia. Quando o mago hipnotizador mentaliza a cena de sua exibição, a sua citta assume as formas correspondentes e seu aham'tattva vê tal exibição em sua imaginação. Enquanto o efeito de sua imaginação perdura, ela parece real. O aham'tattva do hipnotizador atua no lugar do aham'tattva dos espectadores e, portanto, o que quer que o hipnotizador veja como real ou verdadeiro parece real também para eles.

As ondas mentais do mago surgem como uma realidade objetiva; por isso, a exibição que existe na sua imaginação parece ser um acontecimento físico. Se o poder de projeção mental do mago fosse limitado a uma extensão de cinqüenta metros, somente as pessoas circunscritas nessa área estariam sob a influência da mente expandida do mago hipnotizador e veriam a sua exibição. Qualquer pessoa fora desse circuito estaria além do limite da mente expandida do hipnotizador e, por isso, não veria a cena como as outras pessoas inseridas nessa área. Ela veria apenas o mago de pé, com os olhos fechados e em silêncio. Não haveria nenhum vestígio da mágica maravilhosa. De fato, a única verdade em toda a exibição é que o hipnotizador permanece em pé com os olhos fechados, imaginando a exibição que a platéia, por sua vez, vê como uma cena consistente, crendo ser real. Da mesma forma, os praticantes que se desviam do caminho do Yoga passam a exibir seus poderes sobrenaturais. A partir de partículas de pó, eles podem fazer surgir moedas, cédulas de dinheiro ou doces. Na realidade, não existem moedas ou doces; o que existe é somente a demonstração da mente expandida do discípulo errante.

A exibição do hipnotizador é um claro exemplo de que este mundo material, embora sendo apenas uma imaginação ou uma onda mental de Sagun'a Brahma, parece uma grande realidade para nós. Assim como consideramos real a exibição imaginária do mago, também consideramos real a imaginação de Brahma. Aqueles que estão além da área de influência mental do hipnotizador não vêem a exibição. Eles vêem a verdade por trás dela, ou seja, o hipnotizador com os olhos fechados. Da mesma forma, aqueles que, com a ajuda da sádhaná ou prática intuitiva, conseguem ir além dos limites da Mente Cósmica, vêem este universo denso na sua verdadeira forma, como se poderia ver a verdadeira exibição do mago. Eles podem entender a realidade do universo. Uma vez que o universo denso é apenas a imaginação ou a onda mental da Mente Cósmica, ele não pode ser Satya ou Verdade Absoluta, e somente aqueles que vão além da Mente Cósmica podem entender a verdade, como no caso da exibição do mago. Salvação ou realização através da sádhaná (prática intuitiva) significa conhecer a verdade absoluta ou final, e aqueles que chegaram a conhecer esta Verdade Absoluta são chamados de satyadras't'á rs'i.

Eles dizem que somente Satya (Realidade Última) é Brahma e que o universo é falso. Vejamos se essa afirmação é verdadeira. Este universo é formado pela imaginação de Sagun'a Brahma. Se ele existisse somente na imaginação, não poderia ser uma realidade. Se kalpaná, ou imaginação, fosse uma realidade, ela seria chamada de Satya (Realidade Última) e não de imaginação. Aham'tattva de Sagun'a Brahma imagina o universo e seu citta assume tal forma, criando, assim, este universo imaginário, como um pensamento projetado de Brahma. A forma imaginária pode não ser real, ainda assim é uma forma. Do mesmo modo, a forma imaginária do universo que citta assume pode não ser real; mesmo assim, o fato é que citta assume uma forma. Porém, a forma que ele assume é apenas imaginária e não uma realidade. Citta de Brahma se manifesta na forma deste universo e, embora ela seja imaginária, o fato é que citta se manifestou na forma deste universo. Isto é uma realidade ou Satya. O universo tem uma forma, portanto, ele não pode ser considerado como irreal. Porém, uma vez que a forma existe na imaginação de Brahma, ela não pode ser Satya. Logo, o universo não deve ser considerado nem como real nem como irreal; ele é algo entre os dois: uma verdade relativa.

A criação é uma onda mental de Brahma, e no dia em que terminar o universo chegará ao seu fim. Aqui surge a questão por que a onda mental ainda não chegou ao seu fim e, se isto vier a acontecer no futuro, quando ocorrerá. O universo foi criado por Sagun'a Brahma porque Prakrti qualificou Purus'a não-condensado. Isto forma ondas mentais em Purus'a; e, como resultado, o universo é criado. Assim, este universo foi criado por Prakrti ou, para ser mais preciso, devido ao fato de Prakrti qualificar Purus'a. Se Purus'a pudesse ser libertado da influência qualificadora de Prakrti, o universo chegaria ao seu fim, já que Purus'a não teria de continuar com a Sua imaginação ou Suas ondas mentais, criadas pela influência de Prakrti. Purus'a, no estado qualificado de Sagun'a Brahma, se multiplicou em um número infinito de consciências unitárias. Devido a isto é que Brahma é o múltiplo supremo de todas as consciências unitárias. Para se libertar da influência qualificadora de Seu princípio (Prakrti), Sagun'a Brahma teria de libertar um número infinito de consciências unitárias da influência de Prakrti. Somente então a criação poderia chegar ao seu fim. Sagun'a Brahma possui a totalidade das consciências unitárias e, mesmo que dez milhões de consciências unitárias fossem libertadas da influência de Prakrti, ainda assim haveria um número infinito a ser libertado. Portanto, o que quer que seja extraído do infinito resultará em infinito. Um número infinito significa um número que não pode ser contado ou que nunca tem fim. Assim, se um milhão ou mesmo cem milhões fossem retirados de um número infinito, o restante ainda assim seria infinito. Um número não seria incontável ou infinito se, ao se retirar dele qualquer número finito, por maior que fosse, isto o tornasse menor, já que o seu fim poderia ser percebido ou concebido. Portanto, não importa o quão extenso seja o número de consciências unitárias que possam ser libertadas da influência de Prakrti, ainda assim haveria um número infinito sob sua influência em Sagun'a Brahma. Sagun'a Brahma continuaria sendo o múltiplo de uma quantidade infinita de consciências unitárias e, enquanto Sagun'a Brahma existir, a criação continuará a existir. Uma vez que o número de consciências unitárias é infinito, a criação nunca poderá terminar. As ondas mentais de Purus'a, no estágio do seu Sagun'a Brahma, são criadas devido à influência do princípio qualificador (Prakrti) e, enquanto mesmo uma consciência unitária existir sob a influência de Prakrti, a onda mental, ou a imaginação, terá de continuar, e assim também a criação.

A criação é o pensamento projetado de Sagun'a Brahma. Agora, é preciso explicar a maneira como esta criação foi elaborada na imaginação de Sagun'a Brahma. Rama, mesmo estando em Bhágalpur, pode criar Chowringhee em sua imaginação. Seu citta assume a forma de Chowringhee, quando o seu aham'tattva pensa nessa localidade. Citta de Rama é uma parte de sua mente, e nela Rama cria Chowringhee. Da mesma forma, Sagun'a Brahma criou este universo na Sua imaginação. Seu citta transformou-se neste universo como resultado do pensamento de Seu Aham'tattva. Como citta é uma parte da mente de Sagun'a Brahma, então, o universo foi criado na mente de Sagun'a Brahma. Já vimos que, para assumir a forma de Chowringhee, citta de Rama, que é uma entidade sutil, se transforma em Chowringhee, uma forma bruta. Para assumir a forma de um objeto denso, citta tem de transformar-se do estado sutil para o estado bruto. Esta mudança não pode ocorrer abruptamente. Citta tem de gradualmente ficar denso e só então assumir a forma de Chowringhee (uma forma bruta) adequadamente. Se do leite tivermos que fazer ks'iira (um tipo de doce), ele não poderá ser feito de imediato. O leite terá de ser fervido até ficar mais denso, gradualmente. Só então adotará a forma de ks'iira. Do mesmo modo, o citta sutil de Sagun'a Brahma também gradualmente se densifica e, por fim, assume a forma bruta de ks'ititattva (sólido). Portanto, a criação, que é citta transformado como conseqüência de sua própria densificação, deve ter ficado densa gradualmente, a partir de seu estado sutil.

Sagun'a Brahma criou este universo em Sua citta, através da densificação gradual do Seu ser sutil. Como é que a criação se tornou bruta a partir do sutil? Prakrti qualifica Purus'a em Sagun'a Brahma, e disto resulta a criação deste universo. Da mesma forma como ocorre com a consciência unitária, sattvagun'a (ou Prakrti sutil) primeiramente qualifica Purus'a, surgindo então buddhitattva. Isto cria em Purus'a o sentimento de “eu”. Então, rajogun'a (ou Prakrti mutatória) qualifica ainda mais Purus'a, e o Aham'tattva de Sagun'a Brahma é formado. Por último, a Prakrti estática de tamogun'a qualifica o Aham'tattva de Sagun'a Brahma e citta é formado. A mente é composta de buddhitattva, Aham'tattva e citta, e todos três são sutis por natureza. A esfera sutil ou abstrata, ou a mente de Sagun'a Brahma, é formada devido à influência qualificadora de Prakrti. Buddhitattva, Aham'tattva e citta são transformações graduais de Purus'a (ou consciência). Buddhitattva, Aham'tattva e citta são todos sutis, mas buddhitattva é o mais sutil dos três. Por ordem de sutileza, Aham'tattva é o seguinte, e o último é citta – a sua contraparte objetiva. Em buddhitattva existe a idéia do sentimento de “eu”. Em Aham'tattva encontramos outra idéia, além do sentimento de “eu”, que é a do “eu faço” (ego). Qualquer coisa que possui um grande número de fatores é mais densa do que outra que possui menos; logo, Aham'tattva é mais denso do que buddhitattva. Citta materializa o resultado da ação de Aham'tattva e, dessa forma, adquire uma objetividade, tanto sutil como densa. Ele é mais denso do que Aham'tattva. Já foi visto antes que buddhitattva é o primeiro a surgir. Em seguida, surge Aham'tattva e, por último, citta. Assim, o movimento do fluxo da criação se dá do estado sutil para o estado denso.

Foi explicado anteriormente que o universo é um pensamento projetado da Mente Cósmica. A influência de rajogun'a (princípio mutatório) cria uma onda mental em Aham'tattva de Sagun'a Brahma, e a sua contraparte objetiva, citta, assume a forma deste universo rudimentar. Citta é sutil por natureza, porém, se torna denso ao tomar a forma da criação. Para se tornar denso, citta gradualmente tem de assumir a forma dos cinco tattvas, ou fatores rudimentares, ou seja, vyomatattva ou ákásha (etéreo); maruttattva ou váyu (aéreo); tejastattva ou agni (luminoso); jalatattva (líquido); e ks'ititattva (sólido). Todos cinco são densos, e o universo foi criado a partir desses cinco fatores rudimentares. Tanmátra, como já explicamos, é a forma sutil que os indriyas (sentidos) assimilam de um objeto. Existem cinco tanmátras, ou seja, shabda (som); sparsha (vibração táctil); rúpa (forma); rasa (sabor); e gandha (odor).

Na esfera sutil, percebemos que buddhitattva é mais sutil do que Aham'tattva, por possuir somente o fator do “eu existo”, em comparação com Aham'tattva, que tem dois fatores: “eu existo” e “eu faço”. Da mesma forma, na esfera densa, uma coisa que possui mais tanmátras é mais densa do que outra que possui menos. A ausência completa de tanmátras tornaria uma coisa absolutamente fina ou sutil. Isto também mostra que os tanmátras não podem nos ajudar a perceber qualquer coisa da esfera sutil, da qual eles estão absolutamente ausentes. Para perceber essa esfera, uma pessoa precisa de bhávaná – fluxo 'introversivo' da mente objetiva – mas, para conhecer os objetos da esfera densa, os tanmátras são absolutamente necessários. É somente com a ajuda dos tanmátras que os objetos da esfera densa podem ser percebidos. Citta assume a forma da criação, que é densa, e como os tanmátras são necessários para se perceber os objetos da esfera densa, citta tem de possuir tanmátras. Com isso, tem de formar os tanmátras, já que não há nenhum outro meio de consegui-los. Dessa forma, o universo é criado a partir de citta, que, gradualmente, se manifesta como os cinco fatores rudimentares (bhútas) e como os cinco tanmátras.

Comecemos com vyoma ou ákásha tattva – o fator etéreo. O vazio, ou vácuo, que existe além da suposta atmosfera dos planetas é o vyoma ou ákásha tattva. Esse vazio indica a ausência de qualquer coisa, mesmo assim o chamamos de denso por conter o shabda tanmátra (som). A ciência o define como éter. Esse vazio, ou éter, não tem nenhuma forma ou imagem. Ele não tem peso. Ele não contém nada, e por isso é chamado de vazio, ou vácuo. Mas o som pode se locomover através dele. As ondas sonoras não teriam sido formadas se não houvesse um meio para serem transmitidas. Devido a isso, dizemos que o vácuo é denso. A presença do shabda tanmátra o torna denso. Todavia, este é o plano mais sutil da esfera densa porque possui apenas um fator: o tanmátra do som. Portanto, o primeiro fator formado nesta criação foi shabda tanmátra, juntamente com ákásha tattva (fator etéreo).

Após assumir a forma de ákásha tattva, citta se manifesta como váyu. Váyu (fator aéreo) é mais denso do que ákásha, ou éter, tendo em conta que ele contém dois tanmátras. O ar, ou váyu, tem o tanmátra de shabda (som) e o de sparsha (vibração táctil). Não seríamos capazes de escutar uns aos outros se o ar não contivesse o shabda tanmátra (do som). Ordinariamente, as ondas sonoras são transportadas de um lugar a outro através do ar; assim, a presença do shabda tanmátra (o som) é essencial. Só podemos sentir a presença do ar através do tato; logo, o sparsha tanmátra (vibração táctil) também está presente. Então, detectamos dois tanmátras em váyu (fator aéreo), enquanto em ákásha (ou fator etéreo) só há um tanmátra. Portanto, váyu (fator aéreo) é mais denso do que ákásha, e surgiu após o fator etéreo.

Citta se manifesta como tejastattva (fator luminoso) depois de váyutattva (fator aéreo). O fogo pode ser visto, por isso, podemos afirmar que ele possui imagem ou forma. Ele contém o rúpa tanmátra (vibração, que, por meio da ideação, produz uma imagem ou forma), caso contrário, não seríamos capazes de vê-lo. O fogo também pode ser tocado ou sentido. Logo, ele tem tanto o sparsha tanmátra como o shabda. Existem três tanmátrasrúpa, sparsha e shabda – no fator luminoso. Visto que possui três tanmátras, ele é mais denso do que váyu (fator aéreo), e foi criado após este fator.

Jala (líquido) foi criado após o fator luminoso. Citta assumiu uma forma ainda mais densa. A água é líquida e tem sabor; logo, contém rasa tanmátra (sabor). Além deste, ela contém os seguintes tanmátras: shabda, sparsha e rúpa. Dessa forma, é mais densa do que o fogo. O fato de que a água possui o shabda tanmátra pode ser observado ao se realizar uma experiência muito simples. Se alguém falar ao nível da água à margem de um lago será escutado na outra margem por alguém que se coloque na mesma posição. A água pode ser tocada e sua forma pode ser vista. Portanto, ela tem quatro tanmátrasshabda, sparsha, rúpa e rasa – e é mais densa do que o fator luminoso. Conseqüentemente, a água foi criada após o fogo.

Ks'ititattva (fator sólido) foi formado após jalatattva (fator líquido). Citta assumiu uma forma ainda mais densa, que foi a matéria sólida. Na matéria sólida da terra, ou ks'iti, detectamos um novo tanmátra, que é gandha (odor). Em ks'iti, encontramos todos cinco tanmátrasshabda (som), sparsha (vibração táctil), rúpa (forma), rasa (sabor) e gandha (odor). Ks'ititattva é, pois, mais denso do que os outros fatores. Ks'ititattva (sólido) tem shabda tanmátra, uma vez que constatamos que o som passa através de fios telefônicos feitos de matéria sólida. Os sólidos podem ser tocados; eles têm forma e sabor definidos. Por último, a partícula sólida é a única que tem odor. A terra, dessa forma, possui todos cinco tanmátras. Portanto, a terra, ou ks'ititattva, é o fator mais denso, tendo sido criada após todos os outros. É neste estágio final de transformação do estado sutil para o estado bruto que citta está manifestado na sua forma mais rudimentar – o fator sólido.

Devido à elaboração psíquica da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) é que esta criação foi transformada gradualmente do estado sutil para o estado rudimentar. Citta de Sagun'a, em consonância com as ondas mentais de seu Aham'tattva, gradualmente transformou-se do estado sutil para a forma mais bruta, ks'ititattva. Visto que possui todos cinco tanmátras, ks'ititattva é a forma mais bruta – um objeto inanimado. Já vimos que em citta ocorre apenas uma metamorfose gradual de Purus'a. Quando Purus'a é qualificado por Prakrti, assume a forma de citta, e este citta se torna inanimado, tomando a forma do fator mais bruto, ks'ititatattva. Assim, na medida em que é qualificada por Prakrti, se manifesta como um objeto inanimado, alcançando certamente o seu limite máximo nessa direção. Neste estado alterado, a consciência fica tão bruta quanto um objeto inanimado. Não poderia haver nada mais denso do que isso. Devido à extrema influência de Prakrti, a Consciência Cósmica chega ao estágio de um objeto inanimado, na forma da matéria mais bruta. Para qualificar Purus'a, ou Consciência Cósmica, até a mais extrema densificação, a capacidade do princípio qualificador (gun'a) é usada completamente. Com isso, Prakrti se torna incapaz de continuar qualificando Purus'a nessa direção. Assim, em ks'ititattva, tanto Prakrti como Purus'a se tornam inanimados. Purus'a não pode se tornar mais denso e Prakrti não pode continuar qualificando Purus'a, com o objetivo de torná-Lo mais denso. Quando Purus'a e Prakrti chegam ambos aos seus limites de manifestação, surge a dúvida se este é o limite da criação. Também surge o questionamento quanto ao aparecimento dos seres animados, como as plantas e os animais, considerando-se que ks'ititattva seria o estágio final da criação. Estes seres não aparecem em momento algum na fase em que a criação surgiu do estado sutil para o estado bruto. A questão sobre como e quando eles foram formados é muito pertinente.

A influência mais forte de Prakrti torna Purus'a (consciência) mais denso. Quando a sua influência é menor, Ele é mais sutil. Por isso, a influência máxima de Prakrti torna a consciência absolutamente inanimada no fator sólido. O fator sólido (ks'ititattva) parece inanimado à primeira vista. Aqui, a influência de Prakrti chegou ao seu clímax. As plantas e os animais não podem ser considerados inanimados. A consciência está refletida neles. Eles se originaram destes fatores rudimentares. Isto é, citta de Sagun'a Brahma (Entidade Suprema Qualificada), que havia se manifestado como ks'ititattva, agora assume a forma de plantas e animais. Em função disso, diz-se que a criação foi formada a partir do corpo de Brahma. Ks'ititattva é inanimado, mas as plantas e os animais, que se originaram dele, possuem uma consciência manifestada e não são inanimados. Eles certamente são mais sutis do que ks'ititattva. Portanto, Ks'ititattva deve ter-se formado antes das plantas e dos animais, visto que estes foram criados a partir daquele fator. Eles não aparecem em nenhum período da criação anterior à formação de ks'ititattva. O fato de as plantas e os animais serem mais sutis do que ks'ititattva sugere que, após a criação ter alcançado a sua forma mais bruta em ks'ititattva, ela então se direcionou para as formas mais sutis.

A criação se desenvolveu gradualmente do estado sutil para o estado bruto. Citta sutil gradualmente se transformou na matéria mais bruta, ks'ititattva. Da mesma forma, ele terá de retornar lentamente à sutileza. O ghee sólido [subproduto da manteiga, após sua fervura] não pode ser extraído de imediato. Do mesmo modo, o citta metamorfoseado em um elemento sólido, gradualmente se tornará sutil. O fato de que citta gradualmente se desenvolve do estado bruto para o sutil é demonstrado pela evolução da vida vegetal e animal na Terra. A primeira manifestação de vida vegetal apareceu como uma classe de plantas chamadas de káyii (espécies de algas e musgos primitivos). Káyii não pode ser inanimado, porque mostra alguma expressão da consciência, indiferentemente de quão difusa ela possa ser.

Depois disso, as plantas, com suas folhas e flores, surgiram. Nelas encontramos sinais claros de vida e, definitivamente, elas possuem uma expressão mais nítida da consciência do que káyii. E assim se desenvolveram os animais inferiores e em seguida os superiores. Ao final desse processo surgiram os seres humanos. Assim, vimos que o ser mais primitivo criado na Terra foi káyii e que o mais desenvolvido foi o ser humano. A consciência se reflete em káyii; porém, este reflexo é tão embotado que duvidamos de sua presença. Mas no ser humano percebemos a consciência claramente refletida. A criação se desenvolveu gradualmente a partir de plantas káyii até os seres humanos. Ao mesmo tempo, gradualmente o reflexo da consciência foi se tornando mais nítido até atingir sua expressão total nos seres humanos. A expressão da consciência é mais fraca nos objetos rudimentares, enquanto nos objetos sutis ela é mais forte. Em outras palavras, o nível da sutileza ou do embrutecimento também expressa o nível de clareza do reflexo da consciência. A vida mais primitiva da Terra, káyii, mostra muito pouca consciência, e a forma mais desenvolvida da criação, o ser humano, mostra um reflexo nítido da consciência. Isto significa que káyii é a forma de vida mais bruta da Terra e que os seres humanos são a mais sutil. Eles são mais sutis do que káyii. Conseqüentemente, o processo da criação, nesta fase, é do estado bruto para o sutil.

Já foi explicado que o estado supremo da consciência é sutil. Na fase do estado bruto para o sutil, o processo da criação avança em direção à Consciência Não-Qualificada. A partir da consciência sutil, a criação se manifesta numa forma bruta, e, pela influência qualificadora de Prakrti, novamente, se move do bruto para o sutil. Sob a pressão qualificadora de Prakrti, a consciência primeiramente assume a forma bruta e, mais tarde, move-se novamente da forma bruta para a Consciência Não-Qualificada, que é sutil. Assim, a criação como um todo possui duas fases: a primeira, o processo transformador do sutil para o bruto, e a segunda, do bruto para o sutil.

Como já explicamos, a criação é um pensamento projetado da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma). Purus'a, no estágio de Sagun'a Brahma, assume todas essas formas, sob a influência de Prakrti, que cria ondas mentais em Sagun'a Brahma, transformando Purus'a na forma mais rudimentar, que é ks'ititattva. Na próxima fase, quando a criação se move do estado bruto para o sutil, na realidade as ondas mentais de Sagun'a Brahma se movem para a sutileza. Os seres humanos são criados no estágio final e, neles, encontramos a consciência totalmente manifestada. Isto leva à conclusão de que os seres humanos são a expressão final da onda mental de Sagun'a Brahma e que, além desse estágio, ocorre a união da consciência unitária com a Consciência Cósmica. A Consciência Cósmica é abstrata ou sutil, porém, pela influência qualificadora de Prakrti, inicia Sua manifestação na criação. Primeiro, do estado sutil para o estado bruto, e depois, retorna das formas rudimentares para as sutis, ou abstratas. O estágio mais bruto da criação é ks'ititattva, no qual a consciência existe como um objeto inanimado. Assim, no processo da criação, quanto mais a consciência se move para o estado bruto, menor é o reflexo da Consciência Cósmica; e quanto mais se move do estado bruto para o sutil, o reflexo da Consciência Cósmica é proporcionalmente maior. Como a consciência está completamente manifestada nos seres humanos, isto mostra que, na sua jornada de retorno do estado bruto para o sutil, ela faz dos seres humanos a sua última morada, nos quais poderá se unir à Consciência Cósmica. A criação é apenas a onda mental de Sagun'a Brahma; e o estágio final da criação, o ser humano, é naturalmente o último estágio da onda mental. Assim, os seres humanos são os seres mais evoluídos, constituindo o estágio final de evolução da vida.

O universo denso é formado como resultado da elaboração psíquica da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma), e os seres humanos surgem no estágio final dessa elaboração, enquanto vyomatattva (fator etéreo) forma o primeiro estágio. Na criação, além de milhões de seres humanos, também encontramos animais, plantas e matéria, constituídos dos cinco fatores fundamentais: ks'iti (sólido), apa (líquido), agni (luminoso), váyu (aéreo) e vyoma (etéreo). Os seres humanos, que formam o último estágio da onda mental de Brahma no mundo atual, também devem ter existido no estágio primordial, como o primeiro estágio ou vyomatattva (fator etéreo). Eles devem, no curso da onda mental, ter-se desenvolvido até o estágio seguinte de váyutattva; contudo, o primeiro estágio de vyomatattva não poderia desaparecer completamente, porque o ar (ou váyutattva) não pode existir sem a presença do éter, ou espaço vazio. Mesmo quando o primeiro estágio da onda mental se desenvolve até o segundo estágio, vyomatattva (ou éter) continua a existir. Aqui surge a questão sobre a reposição de vyomatattva, quando este passa para o segundo estágio da onda mental. Só há uma possibilidade: a de que Brahma novamente assuma a forma de vyomatattva. No curso da criação, vyomatattva teria deixado completamente de existir, se não fosse reposto, da mesma forma que acontece com os alunos de uma escola, quando passam da primeira para a segunda série. A primeira série permaneceria vazia, se novos estudantes não fossem admitidos. E, quando os alunos da segunda série são promovidos para a terceira, eles são substituídos pelos promovidos da primeira série, na qual novas admissões são feitas. Isto também se aplica às ondas mentais de Brahma. Quando vyomatattva (fator etéreo) é convertido em váyutattva e váyutattva se transforma em agni, o vazio criado pela formação de váyu a partir de vyoma é preenchido por Brahma, que cria mais vyomatattva em Suas ondas mentais. O estudante que entra antes na primeira série obtém o seu diploma mais cedo. Da mesma forma, a consciência unitária, que se formou no primeiro estágio da onda mental de Brahma como um protozoário primitivo, após ter se desenvolvido do sutil para o bruto e do bruto para o sutil, chegará mais rápido ao estágio humano. Uma partícula de pó, que estaria hoje na etapa intermediária da evolução, como um objeto inanimado, também, um dia, irá se transformar em ser humano.

Considerando que Sagun'a Brahma é sutil e que a criação se move do estado sutil para o estado bruto e, novamente, do bruto para o sutil, concluímos que a criação surge de Sagun'a Brahma e retorna para Ele.

Purus'a é sutil por natureza. É devido à influência de Prakrti, em nível máximo, que Purus'a se torna a mais bruta matéria, em ks'ititattva. Quanto maior é a influência de Prakrti, mais denso Purus'a fica; e quanto mais fraca é Sua influência, mais sutil Ele fica. Por esta razão é que Purus'a se torna inanimado (jad'a) em ks'ititattva, estágio em que a aplicação dos princípios qualificadores de Prakrti alcança o seu clímax. Após essa fase, a criação inicia um novo movimento para o sutil, a partir de sua forma mais rudimentar, e como resultado sua aproximação do Purus'a Não-Qualificado se desenvolve lentamente. Este desenvolvimento mostra que Purus'a se libera gradualmente da influência de Prakrti. A menos que Purus'a seja libertado da influência de Prakrti, seu retorno ao estado não-qualificado não será possível. Assim, vemos que à proporção que a criação se move do estado bruto para o sutil, Purus'a gradualmente se liberta da influência qualificadora de Prakrti.

Purus'a, gradualmente, se liberta da influência dominadora de Prakrti, no movimento da criação do estado bruto para o sutil, enquanto, na outra fase da criação, Ele se deixa dominar gradualmente pela influência de Prakrti, considerando que a criação se move do estado sutil para o estado bruto. Por fim, Ele se torna inanimado (jad'a) na forma de ks'ititattva, sob a extrema influência dos princípios qualificadores de Prakrti. A propriedade de Prakrti é qualificar Purus'a. Na fase da criação em que o sutil se transforma na matéria densa, percebemos que Prakrti, gradualmente, qualifica Purus'a, privando a Ele de Sua capacidade de refletir a Consciência Cósmica, até ficar completamente destituído de consciência, como um objeto inanimado, na forma de ks'ititattva. No movimento do estado sutil para o estado bruto, Prakrti exerce sua propriedade qualificadora ao máximo. Porém, na outra fase da criação, quando o movimento é do bruto para o sutil, percebemos que, gradualmente, a expressão da consciência se torna mais nítida. Em outras palavras, Purus'a gradualmente se liberta da influência de Prakrti. Nesta fase da criação, Prakrti não é capaz de exercer a Sua qualidade dominadora apropriadamente, porque Purus'a, ao invés de ficar cada vez mais submisso à Sua influência, começa a se libertar. Faz-se necessário explicar como Purus'a se torna apto a Se libertar da influência de Prakrti, uma vez que a natureza ou a propriedade de Prakrti é justamente qualificar e influenciar Purus'a.

Por influência do princípio qualificador de Prakrti, Bhúmácaetanya ou Consciência Cósmica expressou a Si mesma como esta criação, em um número infinito de consciências unitárias. Somente algumas dessas consciências unitárias é que assumiram a forma de ks'ititattva, e, gradualmente, elas estão se libertando da influência de Prakrti, no movimento da criação do estado bruto para o sutil. Toda a criação tem sua origem em Sagun'a Brahma; e, assim, a Entidade Suprema é a causa da transformação da consciência unitária em matéria bruta, como também da sua liberação da força qualificadora. Sagun'a Brahma é que é o responsável por isto. O próprio Sagun'a Brahma terá de ser emancipado, já que Ele é o responsável pela emancipação de Suas consciências unitárias. De outra forma, Sagun'a Brahma não poderia ser a causa da emancipação das consciências unitárias. Aquele que está aprisionado não pode libertar outros. Se Rama e Shyama estivessem ambos presos, Rama nunca seria capaz de libertar Shyama enquanto estivesse preso. Rama não poderia fazer isto de dentro de uma prisão, não importando o quanto ele tentasse. Rama nunca poderia ser um instrumento da libertação de Shyama. Porém, alguém que estivesse fora da prisão poderia libertar Shyama. Até mesmo com um pequeno esforço, ele poderia ser a causa de sua libertação. Aqueles que não estão livres, não podem se tornar um caminho para a libertação de outros. Portanto, para que Sagun'a Brahma seja a causa da emancipação das consciências unitárias, Ele deve ser uma entidade que, por si só, tenha alcançado a emancipação (muktapurus'a).

Qual o significado de muktapurus'a? Em Nirgun'a Brahma, tanto Prakrti como Purus'a são independentes. Aqui, Purus'a, devido à sua independência, não está subordinado ao princípio qualificador de Prakrti; portanto, Ele é o Purus'a de Nirgun'a Brahma. Somente após alcançar a libertação da influência de Prakrti, Ele se transforma no Purus'a de Nirgun'a Brahma. Assim, aqueles que conseguiram atingir a realização de Nirgun'a Brahma através da sádhaná (práticas intuitivas) são muktapurus'a. Ao obterem a realização de Nirgun'a, eles se libertam da dominação dos princípios de Prakrti. Todavia, se tais pessoas se submeterem à influência de Prakrti por sua própria vontade, por um determinado período de tempo e com a intenção de libertar a outros, mesmo assim, elas continuarão sendo muktapurus'a. Elas não estarão submetidas à influência de Prakrti. Por sua própria vontade, elas aceitaram a influência qualificadora de Prakrti por certo período. Prakrti não poderia mantê-las sob Sua influência após o término desse período. Logo, a pessoa que alcançou o estágio de Nirgun'a através de sua sádhaná e que ficou sob a influência de Prakrti por certo período, por sua própria deliberação, com o objetivo da libertar a humanidade, é um muktapurus'a.

Um muktapurus'a não pode ser a causa da dominação de outros. Aqui, dominação quer dizer ser qualificado pelo princípio de Prakrti. Ser a causa da dominação de outros significaria estar sob a influência de Prakrti. Não é possível dominar outros sem que se esteja qualificado por Prakrti. Uma vez que os muktapurus'as estão livres da dominação de Prakrti, eles não podem ser influenciados por Ela e, conseqüentemente, nunca poderão ser a causa da dominação de outros. Uma vez que Sagun'a Brahma é muktapurus'a, Ele também não poderá ser a causa da dominação de outros.

No curso da criação, entretanto, descobrimos que este vasto universo surgiu de acordo com o desejo de Sagun'a Brahma, quando cada consciência unitária ficou sob a influência de Prakrti. Se Sagun'a Brahma é muktapurus'a, isto significa que Ele é mukta (ser emancipado). Todavia, todas as Suas unidades não estão livres individualmente e ficam sob o controle de Prakrti, por concessão do próprio Sagun'a Brahma. Assim, Sagun'a Brahma se torna a causa da dominação da consciência unitária e Ele mesmo se deixa dominar. Porém, já concluímos que Sagun'a Brahma é muktapurus'a. Se fosse assim, por que todas as Suas unidades deveriam ficar sob a influência de Prakrti e por que este universo deveria ser criado?

Enquanto explicávamos muktapurus'a, dissemos que aqueles que, após alcançarem o estágio de Nirgun'a, aceitam a influência de Prakrti, por seu próprio desejo e por um período determinado, com o objetivo de ajudar os outros, são muktas (seres emancipados). Na qualidade de muktapurus'a, Sagun'a Brahma terá de aceitar a influência de Prakrti por um certo período, após ter alcançado o estágio de Nirgun'a, com o objetivo de servir aos seres vivos (jiivas). Cada consciência unitária tem a sua origem em Sagun'a Brahma e, com o objetivo de ajudá-las, Sagun'a Brahma, livremente, aceitou a limitação de Prakrti por certo período. O maior serviço que se pode fazer à consciência unitária é conduzi-la de volta ao estado supremo, no qual estará livre da influência de Prakrti. Portanto, o bem-estar de Purus'a consiste em ser liberado da escravidão de Prakrti para que, assim, Ele possa alcançar o estado supremo. Assim, Sagun'a Brahma aceitou a influência de Prakrti por certo período com o único objetivo de também prover o status de muktapurus'a a cada uma de Suas consciências unitárias. É com esse objetivo que cada consciência unitária fica sob a influência de Prakrti por Sua deliberação. Se a emancipação de cada consciência unitária é o objetivo, o período durante o qual Sagun'a Brahma aceita a influência de Prakrti terá de durar até que cada consciência unitária seja libertada da limitação ou até que cada uma delas alcance o status de muktapurus'a, como Sagun'a Brahma.

Uma vez que Sagun'a Brahma deseja que cada uma de Suas unidades se torne liberada como Ele próprio (muktapurus'a), Ele teria de Se transformar em um número infinito de unidades para realizar o Seu desejo de libertar a todos. An'u, ou unidade, significa a menor ou mais ínfima partícula. Para dividir a Si próprio em unidades, Sagun'a Brahma teve de assumir uma forma bruta, porque não é possível dividir uma coisa sutil. Por exemplo, o fogo, que é a forma específica de tejastattva (fator luminoso), é mais sutil do que a terra ou ks'ititattva. Ele pode ser dividido ou partido em dois? Ao riscar dois fósforos separadamente produziremos duas chamas, mas se os dois fósforos forem segurados juntos, só haverá uma chama, sendo impossível distinguir as chamas produzidas pelos dois fósforos. Mesmo com todo o esforço não seríamos capazes de traçar uma linha divisória entre as chamas produzidas pelos dois fósforos. As chamas perdem as suas respectivas identidades e se tornam um único objeto ou uma única entidade. Portanto, é impossível dividir ou separar o fogo.

Porém, se dois punhados de terra forem misturados, será possível dividir a terra novamente em duas partes distintas. Logo, ao contrário do fogo, a terra pode ser dividida em partes. O fogo é mais sutil do que a terra, porém é mais denso do que o ar ou o éter. Uma vez que não é possível dividir o fogo, não surge a questão da divisão do ar, do éter ou da Consciência Cósmica (Bhúmácaetanya), que são mais sutis ainda. Não se pode dividir a água ou o éter porque, apesar de nossos esforços, seria impossível criar uma linha divisória entre as diferentes partes da água. Somente a terra (ou ks'ititattva), o fator mais rudimentar, é que pode ser apropriadamente dividida em unidades distintas. Sagun'a Brahma teve de assumir uma forma bruta para que assim pudesse dividir a Si mesmo em inumeráveis unidades. Ele existe como unidades somente em ks'ititattva (fator sólido), uma vez que Ele não pode Se dividir em unidades em nenhuma outra forma. Podemos também dizer que a expressão do universo rudimentar ou que a fase da criação que se move do estado sutil para o estado bruto foi elaborada com a única intenção de formar multiplicidades infinitas da Entidade Suprema (Sagun'a Brahma), na forma de inumeráveis consciências unitárias .

É unicamente em ks'titattva que a consciência unitária passa a existir. Sagun'a Brahma deseja que cada uma de Suas consciências unitárias seja libertada. Assim, para atingir esse objetivo, através de sua própria vontade, Ele assumiu a forma mais bruta de ks'titattva, sob a influência extrema dos princípios qualificadores de Prakrti. Também por Sua própria vontade, Ele Se move em direção à sutileza e, gradualmente, Se liberta da dominação. Para Caetanya, ou consciência, a libertação da dominação de Prakrti ocorre quando a sutileza se desenvolve, possibilitando o Seu retorno à Entidade Suprema Não-Qualificada. A fase da criação que se move do estado sutil para o estado bruto tem por objetivo fazer com que a Consciência Cósmica Se transforme nas Suas infinitas multiplicidades, como consciências unitárias. A fase seguinte, na qual o movimento ocorre do estado bruto para o sutil, é realizada com a intenção de libertar as consciências unitárias da dominação de Prakrti. Sagun'a Brahma deseja a libertação de cada uma de Suas unidades e, com esse intuito, Ele se expressa na criação, nessas duas fases, do estado sutil para o estado bruto e, depois, do bruto para o sutil. Assim, o objetivo ou a intenção de Sagun'a Brahma ao criar este universo é prover libertação a cada uma de Suas unidades (ou multiplicidades) e lhes dar a condição de muktapurus'a (ser emancipado).

Para se tornar muktapurus'a, é necessário obter a realização de Nirgun'a Brahma. O desejo de Sagun'a Brahma de libertar cada uma de Suas unidades somente será realizado quando cada consciência unitária obtiver a realização de Nirgun'a Brahma, de acordo com a atribuição de Sagun'a Brahma. É preciso examinar qual a possibilidade ou a capacidade de Sagun'a Brahma prover às Suas consciências unitárias a realização de Nirgun'a.

A criação é apenas a elaboração psíquica, ou kalpaná, de Sagun'a Brahma. Portanto, é na onda mental de Sagun'a Brahma que se forma um número infinito de consciências unitárias, como ks'ititattva. A criação psíquica, kalpaná, ou a onda mental, são somente expressões da mente, cujas atividades dependem das limitações da mente que as elabora. É exatamente como a onda mental de Rama cria Chowringhee. Tal imaginação está restrita aos limites da mente de Rama, logo, a mente de Shyama não pode vê-la. Se kalpaná, ou criação psíquica, está restrita aos limites da mente que a elabora, também a consciência unitária existente nos domínios da onda mental de Sagun'a Brahma tem de estar restrita aos limites da mente de Sagun'a Brahma. Portanto, a consciência unitária não pode ir além da mente da Entidade Suprema. Nirgun'a Brahma está além do alcance da mente de Sagun'a, por conseguinte, nenhuma das unidades de Sagun'a Brahma poderá alcançar Nirgun'a Brahma, mesmo que Sagun'a Brahma o queira. O objetivo desta criação de Sagun'a Brahma – que é libertar cada uma de suas unidades e torná-las idênticas a Ele, como um muktapurus'a – não seria alcançado e perderia o sentido, se cada consciência unitária não pudesse alcançar Nirgun'a Brahma, como é o Seu desejo. Então, temos que ver como Sagun'a Brahma faz para alcançar o Seu objetivo.

Brahma é uma entidade sem começo, assim como Prakrti. Quando Purus'a (Consciência) está menos condensado, Prakrti (Princípio Qualificador) torna Purus'a qualificado, e Brahma então é chamado de Sagun'a Brahma (Entidade Suprema Qualificada). Se Brahma é eterno, Purus'a que existe dentro d'Ele, de forma menos condensada, deve também ter existido eternamente. A influência qualificadora de Prakrti deve também estar atuando em Purus'a por toda a eternidade. Dessa forma, Sagun'a Brahma tem sido uma entidade qualificada eternamente, porque Prakrti tem influenciado Brahma, em sua forma menos condensada, por toda a eternidade. Todavia, anteriormente, vimos que Sagun'a Brahma é um muktapurus'a. Isto mostra que Sagun'a Brahma, que antes estava sob domínio, posteriormente se emancipa. Entretanto, surge a questão sobre qual é o agente que provê a libertação de Purus'a da influência de Prakrti. Não há nenhuma outra entidade exceto Prakrti, e Purus'a tem estado sob a influência de Prakrti por toda a eternidade. Na ausência de uma terceira entidade e visto que Purus'a está sob o domínio de Prakrti, o único meio possível para a Sua libertação é através de Seu próprio desejo e esforço. O esforço para se libertar do domínio de Prakrti é chamado de sádhaná.

Antes de Sagun'a Brahma se libertar da dominação, Ele é chamado Prajápati, e após obter a emancipação por meio da sádhaná, tornando-se muktapurus'a, Ele é chamado de Hiran'yagarbha.

Sagun'a Brahma deseja, mas não é capaz de prover a realização de Nirgun'a para a consciência unitária (ou Purus'a unitário) e, com isso, seu objetivo não é realizado. O objetivo de Sagun'a Brahma só poderia ser alcançado se as consciências unitárias também obtivessem a realização de Nirgun'a Brahma ao praticarem a sádhaná como Prajápati. Sádhaná significa um esforço determinado ou um esforço com um intenso desejo. Sádhaná por mukti (emancipação) significa fazer um esforço determinado e com um intenso desejo pela libertação das dominações dos princípios qualificadores de Prakrti. O esforço com um intenso desejo de alcançar a libertação do jugo de Prakrti só trará resultados se a consciência unitária estiver consciente de sua posição subserviente e compreender que está sob o jugo dos princípios qualificadores de Prakrti. Para aquele que não percebe a sua submissão e dependência, a questão da emancipação não surge. Portanto, para a libertação, é necessário estar consciente de que se está sob um domínio. Somente após compreender isto é que uma pessoa sente a necessidade de encontrar um método para a sua libertação. O reconhecimento de que está sob um domínio e o esforço regular para alcançar a liberação são necessários para que a consciência unitária alcance a emancipação. Os seres unitários devem ser desenvolvidos de tal forma que se tornem conscientes de suas submissões e possam encontrar um meio para se libertar delas.

Em ks'ititattva, os seres unitários são inanimados. Este ser unitário inanimado (jad'a), estando sob o domínio extremo de Prakrti, é incapaz até mesmo de ter consciência de sua existência e nunca poderá encontrar um meio para a sua emancipação. Sagun'a Brahma quer a liberação de cada uma de Suas unidades, mas Ele não é capaz de alcançar isto completamente no caso de jad'a. Logo, Sagun'a Brahma os liberta da influência de Prakrti até o ponto em que Sua capacidade pode chegar. Por essa razão, os seres humanos possuem consciência claramente expressada, formando o estágio final da criação. Nos seres humanos, a expansão da consciência não é completa, e eles estão incapacitados de alcançar a libertação absoluta do domínio dos princípios qualificadores de Prakrti. Porém, como a consciência dos seres humanos está claramente refletida, eles são capazes de reconhecer sua subjugação. Isto lhes dá também a capacidade de realizar esforços e praticar a sádhaná para a sua emancipação. Com a intenção de criar seres humanos capazes de realizar a sádhaná é que Sagun'a Brahma se deixou dominar por Prakrti e fez surgir esta criação. Assim, os seres humanos foram criados somente para realizar a sádhaná e alcançar a emancipação. Aqueles que não praticam a sádhaná para alcançar mukti (emancipação), mesmo tendo sido criados para este fim, vão contra os desejos da Entidade Suprema. Eles agem contra o objetivo da criação dos seres humanos.

Nos seres humanos, a consciência é um reflexo na placa mental[2], que necessita de ádhárá, ou um corpo constituído dos cinco fatores fundamentais, originados em Sagun'a Brahma. A Consciência Cósmica, entretanto, não depende de nenhum ádhára, ou corpo. Sagun'a Brahma (ou Entidade Suprema Qualificada) não tem um corpo, como o ser humano. Os seres humanos são um pensamento projetado de Sagun'a Brahma e existem dentro de Sua mente. Sagun'a Brahma também poderia conseguir um corpo, como o ser humano, se Ele existisse dentro da mente de outra entidade e houvesse sido criado como um pensamento projetado dessa entidade. Sagun'a Brahma é não-causal. Ele não tem começo e nem fim. Logo, Ele não poderia existir na mente de uma outra entidade nem adquirir um corpo. A consciência dos seres humanos é apenas um reflexo da Consciência Cósmica, enquanto a consciência de Sagun'a Brahma é a Consciência Cósmica. Os seres humanos também recebem antahkaran'a (força psíquica 'introversiva') assim como Sagun'a Brahma. Porém, a mente do ser humano é apenas uma unidade da Mente Cósmica de Sagun'a Brahma, assim como a sua consciência é apenas um múltiplo da Consciência Cósmica. O ser humano também pode criar com suas próprias ondas mentais, da mesma maneira que Sagun'a Brahma criou o universo em Suas ondas mentais.

Vimos anteriormente que a capacidade de Rama recriar Chowringhee na sua imaginação, ou nas ondas mentais, enquanto permanece em Bhagalpur, é apenas momentânea e parece real somente para ele. Por outro lado, a criação do universo por Sagun'a Brahma parece real e não é momentânea. Isto ocorre devido ao fato de que os seres humanos, como parte da criação formada pelo pensamento projetado de Sagun'a Brahma, possuem uma existência relativa, como todo o restante da criação. O Cosmo, ou Sagun'a Brahma, considera o seu pensamento projetado como real, e o ser individual dentro dele naturalmente se sente real. Portanto, os seres humanos consideram o pensamento projetado da Entidade Suprema Qualificada e a Sua criação, o universo, como uma realidade.

Visto que a mente de Rama e a projeção de sua imaginação têm um limite, dentro do qual a mente de Shyama não atua, os objetos criados na mente de Rama só podem ser vistos e considerados reais por ele, e apenas durante o período em que sua imaginação perdurar. A mente de Shyama não existe dentro da de Rama, portanto, ele não considera sua imaginação como real. Se a mente de Shyama existisse dentro da mente de Rama, ele teria visto o local chamado Chowringhee, formado nas ondas mentais de Rama, e também, como Rama, teria considerado a criação imaginária de Chowringhee como real. Por exemplo, vimos anteriormente que uma pessoa pode expandir ou projetar a sua mente para colocar a mente de outras pessoas sob seu domínio. Neste caso, as outras pessoas também vêem a imaginação dessa pessoa e a consideram como real, como no caso do hipnotizador e sua encenação com uma corda. Portanto, os seres humanos também podem criar objetos nas suas ondas mentais, porém eles serão apenas réplicas de suas experiências anteriores. Eles precisariam ter visto ou escutado algo que se referisse aos objetos criados em sua imaginação. Uma vez que Brahma é não-causal, nada existia antes d'Ele ou além d'Ele para que pudesse copiar em Suas ondas mentais. Dessa forma, os pensamentos projetados de Brahma são sempre novos. Eles não são e nem poderão estar baseados em experiências do passado, como a imaginação dos seres humanos. A principal e a mais importante diferença entre Brahma e os seres humanos se refere à sua característica específica, ou dharma. O dharma dos seres humanos é praticar sádhaná e se tornar muktapurus'a (seres emancipados), enquanto o de Sagun'a Brahma é prover oportunidade a cada uma de Suas unidades de se tornarem um muktapurus'a. De fato, cada esforço e cada preocupação da Entidade Suprema Qualificada, ao criar o universo e os seres humanos, foram direcionados apenas ao objetivo de emancipar cada um de Seus seres unitários.


[1] N.T.: O mago aqui mencionado são aquelas pessoas que desenvolvem altos poderes mentais, por meio de práticas tântricas desvirtuadas, objetivando obter ganhos financeiros.

[2] N.T.: Termo usado pelo autor para definir a mente como uma placa que reflete as ondas mentais e a consciência.

P.R.SARKAR - Filosofia Elementar da Ananda Marga