20/07/2008

POR QUE AS PESSOAS TÊM MEDO DA PRÁTICA INTUITIVA? - Parte IX

A prática intuitiva (sádhaná) é um dever fundamental de cada ser humano. No entanto, poucas pessoas cumprem esse dever. De modo geral, as pessoas têm medo de realizar a sádhaná. O medo as impede de realizar a sádhaná. Mas convém analisar se esse medo é justificável.
Primeiramente, as pessoas consideram que a renúncia à vida normal é um requisito essencial para a realização da prática intuitiva. De acordo com seu entendimento, a sádhaná não pode ser conciliada com a vida no dia-a-dia. Elas consideram que a libertação é um privilégio dos ascetas e que não é possível às pessoas comuns alcançá-la. Isto não é um requisito necessário, e nem sequer parece ser algo lógico. Se examinarmos as vantagens de seguir esse caminho, veremos que só há duas vantagens. Uma é a solidão, que isola a pessoa da sociedade humana, facilitando a prática intuitiva. E a outra é que, ao se afastar das tentações e dos problemas do mundo, a pessoa supera com maior facilidade a influência de Avidyámáyá. Estas são as duas únicas vantagens que fazem a pessoa considerar o afastamento da vida em sociedade como um requisito fundamental para a prática intuitiva.

Não se pode negar que o barulho e o corre-corre do mundo em que vivemos constituem obstáculos à realização da prática intuitiva, o que faz com que a solidão seja desejável. Mas foi explicado antes que os obstáculos são criados por Avidyámáyá, a força maligna existente em cada pessoa. Afastar-se do mundo agitado e viver numa floresta não garante a libertação de ninguém. Avidyámáyá o acompanhará nas florestas e nas montanhas e criará obstáculos à realização da sádhaná, substituindo os barulhos das cidades pelos sons perturbadores de animais. Comumente, as pessoas se acostumam ao ambiente em que vivem, superando as dificuldades. Por exemplo, seria impossível que uma pessoa acostumada a viver numa vila tranquila conseguisse dormir numa casa situada na praça Chowringhee, em Calcutá, devido ao barulho ensurdecedor de ônibus e caminhões. Contudo, uma pessoa que já vive lá há muito tempo não mais se perturba com o barulho. O contrário também é verdadeiro: uma pessoa acostumada com os barulhos da cidade terá dificuldade em dormir numa vila tranquila e isolada. Da mesma forma, a pessoa pode, no início da prática intuitiva, ter problemas com o barulho, mas logo se acostumará. Isolar-se numa floresta não parece ser muito significativo.
Vejamos se o ato de se retirar para uma floresta é significativo para evitar as tentações mundanas. Uma tentação como lobha (avareza) é um princípio de Avidyámáyá. Tal tendência só poderá ser superada se a influência de Avidyámáyá for diminuída através da prática intuitiva (sádhaná). Não se pode evitar as tentações sem superar a influência de Avidyámáyá. Isto só é possível através da prática intuitiva. Retirar-se da sociedade simplesmente e optar pela vida na floresta de nada adiantará. Não há dúvida de que, quando a pessoa se afasta de objetos atraentes, ela não tem chance de usá-los e perde o interesse por eles, e também de que, quando há proximidade de coisas mundanas, isto pode fazer com que a pessoa se sinta atraída por elas. Contudo, quando a pessoa é forçada a renunciar a algo, ela pode sofrer alguma agitação mental. Esta agitação proveniente de forte repressão pode se tornar insuportável e resultar em doença ou desânimo. Forçar alguém a levar uma vida de austeridade, para se afastar das tentações, não vai servir a este propósito. Isto causa agitação e sofrimento e ainda pode provocar depressão. Desistir da vida em sociedade, por uma vantagem duvidosa, ao invés de desenvolver firmeza de caráter e força mental, não tem nenhum valor. A pessoa corajosa vive entre as tentações, a fim de enfrentá-las e superá-las passo a passo, ao invés de evitá-las por medo. Sádhaná significa declarar guerra contra avidyá e, para vencer essa guerra, é preciso enfrentar o inimigo e não evitá-lo. Portanto, renunciar ao mundo, por medo de sucumbir às suas tentações, não é uma abordagem racional.
Fugir da vida normal na sociedade devido ao medo de suas armadilhas e seus problemas não seria uma atitude racional. Viver em sociedade é complicado, tendo em conta que se tem de assumir obrigações para com os dependentes. É preciso ganhar dinheiro para sustentá-los. A agonia das doenças e dos sofrimentos terá de ser suportada, bem como o desconforto de privações, se a pessoa não tiver uma boa renda. Tudo isto pode criar o desejo de abandonar a vida em sociedade para se ver livre das responsabilidades que não digam respeito à própria pessoa. Mas será que isto não significaria fugir das responsabilidades que se tem para com a família? Aquele que evita assumir responsabilidades demonstra imenso egoísmo. A fuga do dever e o egoísmo são atitudes más que têm conseqüências más, e até que as reações sejam vivenciadas completamente, a emancipação será uma impossibilidade. A tentativa de se livrar das responsabilidades e dos problemas do mundo não faz necessariamente a pessoa se esquecer da família abandonada. Ela certamente ocupará a mente da pessoa, fazendo com que fique sob a influência de moha ripu (atração pelo mundo material) de Avidyámáyá. O progresso da prática intuitiva não é possível diante da influência constante de Avidyámáyá, e nessa condição a mente estará fixada no pensamento da família ou daquelas pessoas abandonadas. Se afirmássemos que aqueles que resolvem abandonar a vida em sociedade estariam livres de sofrimentos e preocupações, estaríamos afirmando que eles estão acima da influência de Avidyámáyá, pois as preocupações não podem ser evitadas enquanto Avidyámáyá está influenciando os pensamentos e as ações. Para essas pessoas, seria indiferente viver na sociedade ou na floresta. Não é para superar a influência de Avidyámáyá que uma pessoa se retira para a floresta? E, se isso já tiver sido alcançado, seria irrelevante levar uma vida normal em sociedade ou viver como um asceta na floresta.
A libertação da influência de Avidyámáyá não pode ser conquistada com a mera tentativa de fuga; para alcançar esse estágio, a pessoa tem de reconduzir sua mente para o estado sutil. Por exemplo, de nada adiantará o constante esforço para afastar insetos atraídos por uma ferida exposta, se não se fizer algo para curá-la. A prática intuitiva ensinada por um grande preceptor é o bálsamo curativo; é com ela que alguém pode afastar a influência de Avidyámáyá e alcançar a libertação. Na medida em que a influência de Avidyámáyá diminui, as tentações e os problemas do mundo deixam de ser um obstáculo à prática intuitiva. Uma vez que essa é a única maneira de superar Avidyámáyá, a prática intuitiva poderá ser feita facilmente na vida em sociedade. Avidyámáyá perturbará a pessoa no início; mas, uma vez derrotada, não poderá criar nenhum obstáculo à prática intuitiva.
Levar uma vida em sociedade e ao mesmo tempo realizar a prática intuitiva é muito conveniente. A pessoa que vive normalmente numa família leva uma vantagem sobre os ascetas que renunciaram ao mundo. Retirar-se para uma floresta não é o meio de se livrar de preocupações e tentações do mundo. Há uma outra grande vantagem em viver na sociedade: a oportunidade de servir à humanidade, um aspecto muito importante na prática intuitiva. Essa grande oportunidade é negada a quem se retira para as florestas. A prática intuitiva ensinada por um grande preceptor deve ser feita com fé e devoção. Ela pode ser praticada em casa, sendo desnecessário abandonar o lar ou a família. À medida que a pessoa supera Prakrti, a influência de Avidyámáyá desaparece. A prática intuitiva é a única forma de superar Avidyámáyá. Portanto, a prática intuitiva é uma necessidade. Fazer distinção entre lugares para praticar a sádhaná, considerar um lugar mais apropriado que outro, ou achar que um local é bom e outro é ruim, seria o mesmo que fragmentar Brahma. Cada lugar desta criação é uma manifestação da Entidade Cósmica Suprema (Brahma), e considerar um lugar bom e outro ruim é como se a pessoa estivesse atribuindo essas qualidades a Brahma. Se a sádhaná se baseasse no conceito de bom e mau, nunca seria possível à pessoa desenvolver o sentimento de unidade com toda a criação. A pessoa nunca seria capaz de amar os outros como ama a si própria. Para Brahma, todos os lugares são iguais, e a sádhaná pode ser praticada em qualquer lugar. Desistir do mundo e se retirar para a floresta é algo ilógico. Não praticar a sádhaná devido ao medo de ter que abandonar o mundo é, portanto, uma idéia irracional.
Brahmacarya constitui outro temor que afasta muitas pessoas da sádhaná. Elas consideram que Brahmacarya constitui apenas uma prática de celibato ou de renúncia à relação física entre marido e mulher. Elas concluem erroneamente que, sem celibato, não é possível realizar a prática intuitiva (sádhaná). Portanto, é preciso saber o significado certo do termo Brahmacarya e também conhecer quem podemos chamar de Brahmacarii. Brahmacarya significa introverter as tendências ‘extroversivas' da mente e devotá-la completamente a Brahma. Para entender Brahmacarya claramente é preciso saber o que se quer dizer com tendências ‘extroversivas' da mente e como essas tendências podem ser introvertidas. A criação é a manifestação do estado sutil em matéria bruta, por influência de Prakrti. A criação densa é o mundo que pode ser vivenciado pelos órgãos físicos, mas a mente é a parte sutil da criação. Quando a influência de Prakrti aumenta, a mente gradualmente sofre uma transformação do estado sutil para o estado bruto. Por influência de Prakrti, a mente se torna mais extrovertida e fica atraída pelos objetos materiais, pelo denso. Emancipação significa libertar a mente da influência de Prakrti ou conduzi-la do estado denso para o sutil. Brahma é sutil por natureza e, quando a mente está atraída pelo mundo material, ela não pode se devotar a Brahma. Desviar a mente da atração pelo mundo material e reconduzi-la para o sutil é torná-la devotada a Brahma. Isto pode ser conseguido ao se diminuir a influência de Prakrti sobre a mente, pois é Prakrti que a mantém atraída pelos objetos materiais à sua volta. Brahmacarya, portanto, significa libertar a mente da influência de Prakrti, e um Brahmacarii é aquele que tem uma mente devotada a Brahma e sempre absorta em Brahma. A mente que age desse modo não é atraída pelas expressões rudimentares da criação; é absorvida pelo sutil e passa todo tempo pensando apenas em Brahma. Esse estado é alcançado através da prática intuitiva. Uma pessoa só poderá se tornar um Brahmacarii por meio da prática intuitiva. É somente por meio da sádhaná que a mente pode se libertar da influência de Prakrti e ser conduzida em direção ao estado sutil, para permanecer completamente absorta em Brahma. Comumente, diz-se que a mera superação do desejo sexual (káma ripu) é Brahmacarya. Mas, na verdade, todos os s'at'ripu (seis inimigos) e as't'a pás'ha (oito amarras - ver capítulo 6) são tendências que conduzem a mente para a extroversão. Entre essas catorze tendências, o desejo sexual é apenas uma delas, e a superação de somente esta tendência não garante que a pessoa esteja seguindo Brahmacarya. Somente quando a pessoa se torna livre da influência de todas as tendências à extroversão, de s'ad'ripu e as't'apásha, coletivamente conhecidas como Avidyámáyá, é que sua mente se torna a mente de um Bramahcarii. O domínio de Avidyámáyá (tendência a extroverter-se) é tão forte que não é possível superá-lo, a não ser com a prática intuitiva. Aqueles que tentam alcançar Brahmacarya sem a realização da prática intuitiva estão perdendo seu tempo. A prática intuitiva, gradualmente, desviará a mente do estado bruto para o estado sutil, e a pessoa, aos poucos, se tornará um Brahmacarii. A dominação dos s'ad'ripu e as't'apásha – tendência a extroverter-se – diminuirá por si própria. Com a diminuição de sua influência, a mente não mais permanecerá absorta no que é denso. Não é necessário abandonar a vida conjugal para começar a prática intuitiva. A busca de atrações mundanas, originadas da sensualidade (kama) e do apego (moha), faz com que a vida sexual seja uma necessidade. A prática intuitiva ajuda a pessoa a superar essa necessidade. A pessoa se torna indiferente a ela. Portanto, a questão de que é necessário fugir dos atrativos para realizar a prática intuitiva não faz sentido. Já foi dito anteriormente que a sádhaná significa declarar uma guerra contra Prakrti e vencê-la. A força da prática intuitiva é certamente maior do que a força de Prakrti e, por meio dela, é possível atingir Brahmacarya. Não importa quão forte seja o domínio de Avidyámáyá, eesa força sempre poderá ser destruída pela prática intuitiva. A prática intuitiva, e não o celibato, é essencial para a pessoa se tornar um Brahmacarii. É necessário mencionar aqui o significado mais popular de Brahmacarya, que é “a preservação de viirya (sêmen)”. Shukradhátu (fluido seminal) e viirya são necessários para nutrir as células e as fibras nervosas. É essencial preservá-los, a fim de manter a firmeza da mente e a vivacidade intelectual.
Algumas pessoas crêem que a prática intuitiva deve ser iniciada na velhice, quando elas começam a ter tempo livre, após terem passado os tempos áureos de suas vidas em busca de dinheiro. Elas têm medo de enfrentar incertezas e dificuldades na velhice, caso não consigam acumular riqueza suficiente antes de o corpo se enfraquecer e ficar incapacitado para o trabalho árduo. Elas consideram os tempos áureos da vida como o tempo apropriado para ganhar dinheiro e a velhice como o tempo certo para se lembrarem de Deus. Elas partem erroneamente do princípio de que não é necessário esforço árduo para a prática intuitiva e que, portanto, a velhice é o tempo adequado para isso. Quem está vivo está sujeito a morrer a qualquer tempo, sem menos esperar. Ninguém sabe se alcançará a velhice. Ainda assim, muitas pessoas reservam para a tarefa mais importante, que é a prática intuitiva, o período em que o corpo perdeu o vigor e a mente se encontra enfraquecida num emaranhado de reações acumuladas na vida, de tal modo que elas se recusam a iniciar qualquer coisa nova. Em geral, o medo causado pela proximidade da morte é que leva as pessoas a pensarem em Deus, na velhice. As más ações cometidas no passado começam a perseguir-lhes, de modo que as pessoas começam a orar e implorar a Deus para livrá-las das conseqüências de suas ações.
Não há nenhum valor em lembrar-se de Deus na velhice, quando já não é possível concentrar a mente, devido às fraquezas e às doenças do corpo e às preocupações com as reações (sams'karas) das ações desta vida. A mente então fica bloqueada pelas enfermidades do corpo, pelas doenças da velhice, pela proximidade da morte e, principalmente, pela recordação de incidentes sofridos, de tal modo que se torna impossível concentrar-se. Por essas razões, a pessoa fica impossibilitada de realizar a prática intuitiva. Há um ditado indiano que diz que somente o bambu novo pode ser dobrado e que, se você tentar dobrar um que já esteja maduro, você só conseguirá quebrá-lo. Isto é, todas as coisas novas devem ser iniciadas nos tempos áureos da vida, e assim também deve ser com a prática intuitiva.
Há pessoas que evitam a prática intuitiva (sádhaná) por medo de terem que abandonar os prazeres e os encantos do mundo. Esse medo as afasta da prática intuitiva, mas esse temor também não tem fundamento lógico. Já foi explicado que os objetos materiais encantadores são criados pela influência do princípio estático de Prakrti e que as pessoas os consideram reais devido ao domínio de Avidyámáyá, que as leva a desfrutarem desses prazeres terrenos. A prática intuitiva diminui, gradualmente, o domínio de Avidyámáyá, fazendo com que a mente se volte para as coisas sutis. Com isso, os prazeres deste mundo material perdem seu poder de atração. O desejo por objetos materiais (káma), a atração pelo mundo material (moha) e a avareza (lobha) – três princípios de Avidyámáyá – fazem com que as coisas materiais sejam desejadas, mas na medida em que essas três tendências diminuírem sua influência, a mente não mais se sentirá atraída por tais coisas. Em geral, a mente se deleita com os prazeres materiais e considera a idéia de desistir deles como uma tortura, mas quando a mente não mais se interessa por eles, a questão de desistir dos mesmos não surge. Nesse momento, a mente tenta fugir deles e sente-se aliviada de estar livre deles, ao invés de se atormentar pela sua ausência. A falta de alguma coisa só é perturbadora quando a desejamos intensamente. Se não desejarmos um objeto, não sentiremos a sua ausência quando ele não estiver por perto. Por exemplo, um alcoólatra ficará atormentado se não conseguir bebida, mas aquele que não depende de álcool nem sequer sente a sua falta. A questão de ficar atormentado não surge, pois ele jamais o desejou. A mente se volta para o mundo sutil através da prática intuitiva e não mais deseja as coisas materiais. Quando a presença de coisas materiais já não for desejável, não surgirá a questão de sentir sua falta; conseqüentemente, a mente não se perturbará por sua ausência. Algumas pessoas consideram necessário se privar, à força, dos prazeres do mundo material, a fim de realizar a prática intuitiva, e então, o medo dos próprios desejos as atormenta. Contudo, nunca será possível controlar a mente privando-a dos encantos materiais à força. Isto apenas fará com que o corpo sofra e adoeça. A prática intuitiva não requer nenhuma compulsão. O sistema de prática intuitiva ensinado por um grande preceptor é tão poderoso que desviará, de forma imperceptível, a mente dos objetos materiais, conduzindo-a para o estado sutil, de modo que o desejo pelos encantos materiais desaparecerá gradualmente, levando consigo o sofrimento por não tê-los. Deixar de seguir a prática intuitiva devido ao medo de ter de se afastar dos prazeres materiais é irracional. Aqueles que consideram isto como verdade estão enganados.
Numa análise cuidadosa, as razões que impedem as pessoas de realizarem a prática intuitiva (sádhaná) parecem sem fundamento. Evitar a sádhaná, a qual é um dever fundamental de todos os seres humanos, por medos injustificados, é apenas uma demonstração de ignorância. Portanto, é importante que ninguém evite a sádhaná devido a medos injustificados, porque através da sádhaná a pessoa se conhecerá e se identificará com a Entidade Suprema Infinita.
P.R.Sarkar - Filosofia Elementar da Ánanda Márga

03/07/2008

A PRÁTICA INTUITIVA E SUA NECESSIDADE - Parte VIII

O esforço integrado para se libertar das amarras de Prakrti é chamado sádhaná, ou prática intuitiva.

Agora, a questão que se coloca é se existe a possibilidade da libertação total das amarras de Prakrti. Se assim não o fosse, a prática intuitiva, ou sádhaná, seria uma perda de tempo. No capítulo 3, referente à criação, foi explicado que a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) – denominada Prajápati, por estar sob a influência de Prakrti (baddha-Purus'a) – tornou-se libertada (mukta) ao realizar a prática intuitiva, passando a chamar-se Hiran'yagarbha. Pode-se assim concluir que aqueles que se encontram sob a influência de Prakrti podem alcançar a libertação com a ajuda da sádhaná. Libertar-se das amarras de Prakrti significa atingir o estado de Nirgun'a. Só nessa condição a pessoa pode se libertar completamente do domínio de Prakrti. Prajapati atingiu o estado de Hiran'yagarbha, isto é, aquela Entidade tornou-se livre do domínio de Prakrti através da sádhaná. A libertação da influência de Prakrti é, portanto, possível, e o único método para alcançá-la é através da prática intuitiva, ou sádhaná.

A história da criação mostra que, na fase do movimento do estado bruto para o estado sutil, a consciência unitária adquire um reflexo claro ao tomar abrigo num corpo constituído pelos cinco fatores fundamentais derivados da Entidade Suprema Qualificada. Para obter expressão plena, a consciência unitária também adquire uma mente, pela influência qualificadora de Prakrti. Os três princípios de Prakrti – sutil, mutatório e denso ou estático – dão à mente três formas funcionais, a saber, mahattattva, aham'tattva e citta, respectivamente. Citta em seguida se projeta através dos dez órgãos físicos, ou indriyas. Isto quer dizer que, com o aumento da influência de Prakrti, a consciência unitária foi metamorfoseada em mahattattva, ou buddhitattva. Em seguida, conforme a influência foi aumentando, ela adquiriu uma forma ainda mais bruta, aham'tattva,e finalmente atingiu um estado mais bruto ainda, citta, que, com a ajuda dos dez órgãos, ou indriyas, começou a se projetar em ações físicas. A influência de Prakrti sobre a consciência unitária vai paulatinamente ganhando força, e para se libertar desse domínio, ela terá que se libertar gradativamente. Ela terá primeiro que se retrair de citta para aham'tattva, em seguida de aham'tattva para mahattattva e, finalmente, a projeção metamorfoseada como mahattattva terá de se fundir com a consciência unitária para alcançar a libertação do domínio de Prakrti. Assim, a prática intuitiva é destinada à superação gradual da influência qualificadora de Prakrti, de modo que Ela não possa mais impor suas qualidades sobre a consciência.

Já foi dito antes que a consciência (Purus'a) dos seres humanos é que tem de realizar a sádhaná (prática intuitiva). Assim sendo, a sádhaná preliminar terá que ser realizada pela consciência metamorfoseada em citta, que proporcionará a retração dessa projeção da consciência para aham'tattva. Isto faz com que restem apenas aham'tattva e mahattattva. Portanto a próxima entidade a realizar sádhaná é a consciência metamorfoseada em aham'tattva, que se dissolverá em mahattattva, para se livrar da influência qualificadora de Prakrti. O que resta agora é mahattattva, ou o puro “sentimento de eu”. Este é o estado de savikalpa samádhi, no qual permanece mahattattva, ou o puro “sentimento de eu”, que é indistinguível do “Eu Cósmico”. Depois desse estágio mahattattva realiza sádhaná e se dissolve na consciência unitária, libertando completamente a consciência das qualidades impostas por Prakrti. Esse estado de emancipação de Prakrti é chamado de nirvikalpa samádhi. Assim, a sádhaná, ou prática intuitiva, que os seres humanos devem realizar, tem início em citta, passando em seguida para aham'tattva e finalmente para mahattattva, libertando totalmente a consciência da influência qualificadora de Prakrti.

Não é fácil libertar a mente da influência qualificadora de Prakrti. Já que os seres humanos possuem uma consciência unitária, haveria então apenas uma Prakrti unitária para influenciá-la? Não, não é assim. A consciência em Nirgun'a Brahma (Entidade Suprema Não-Qualificada) não é influenciada por Prakrti, porque nesse estado Prakrti é a contraparte mais fraca. Já que a Prakrti Infinita não é capaz de influenciar a Consciência Infinita, a Prakrti unitária também não estará em condição de influenciar a consciência unitária. Seria incorreto presumir que, no estado qualificado de Brahma, seria a Prakrti unitária que estaria qualificando a consciência unitária. Se não é assim, então, qual Prakrti qualifica a consciência, uma vez que, sem a Prakrti qualificadora, não haveria Sagun'a Brahma (Entidade Suprema Qualificada)? A partir disto se poderia deduzir que duas unidades de Prakrti qualificam uma consciência unitária, já que uma única Prakrti unitária é a contraparte mais fraca da consciência unitária. Isto também levaria a crer que a Consciência Cósmica Infinita está sendo qualificada por duas Prakrtis Infinitas. Isto é ilógico e não poderia ocorrer. Prakrti é uma força única e não poderá jamais ser dividida em unidades ou partes. Assim, somente a Prakrti Infinita pode influenciar cada consciência unitária. A Prakrti Infinita qualifica cada consciência unitária através de sua influência qualificadora infinita, e a consciência unitária terá de lutar contra a Prakrti Infinita para alcançar sua emancipação. Para alcançar sua emancipação, terá de enfrentar e derrotar a Prakrti Infinita; por isso, a sádhaná não é uma tarefa fácil.

Prakrti é uma força única, que está sempre inquieta, portanto, a criação está em constante transformação. Conseqüentemente, tudo o que está manifestado neste Srs't'icakra [Círculo da Criação] é a Consciência Cósmica metamorfoseada; portanto, as mudanças no Círculo da Criação implicam mudanças na Mente Cósmica, simultaneamente. Em outras palavras, a mente cósmica se torna também inquieta, o que acarreta mudanças no fluxo da criação. Mas as mudanças no fluxo da criação são lentas e graduais, pois Prakrti leva algum tempo para efetuar uma mudança na Mente Infinita. Uma vez que a Consciência Cósmica é infinita, as mudanças são graduais e não muito velozes. Até mesmo a Prakrti mutatória leva algum tempo para contornar a Mente Cósmica infinita antes de conseguir efetuar uma mudança. Na medida em que mantém a Mente Cósmica sob tremendo controle, Prakrti também exerce influência sobre a mente unitária, proporcionando transformações e inquietações insondáveis. Devido à total influência da Prakrti Infinita, a mente unitária se torna extremamente desordenada e inconstante. Todos já conhecem a natureza inconstante e mutatória da mente. Esta qualidade da mente humana é uma dádiva singular de Prakrti, que passa Sua eterna inconstância para todos os seres criados.

Essa eterna inconstância de Prakrti é que produz Sua criação – a mente unitária – inconstante também por toda sua existência. Essa inquietação, contudo, varia de acordo com o lugar e a situação. Num certo tempo e lugar pode haver mais agitação, enquanto em outros pode haver menos movimento. A inquietação, sendo uma qualidade imposta por Prakrti, varia de acordo com a influência de Prakrti. A mente é menos agitada quando a influência de Prakrti é menor. Seu grau de influência é menor em mahattattva, atingindo seu grau máximo em citta; conseqüentemente, mahattattva é menos inconstante do que citta. A sádhaná, ou prática intuitiva, diminui a influência de Prakrti sobre a consciência unitária, e com isto a inquietação mental também diminui. Prakrti é a única responsável pela inconstância da mente. À medida que sua influência diminui, a inquietação da mente também diminui. Portanto, a estabilidade mental só ocorrerá com a libertação da consciência unitária da influência de Prakrti.

A estabilização da mente e o desenvolvimento da concentração mental são a mesma coisa. Enquanto a consciência unitária não for libertada da influência qualificadora de Prakrti, a concentração mental não será possível. Este também é o objetivo da sádhaná, ou prática intuitiva. A fim de concentrar a mente seria necessário, em primeiro lugar, libertar da influência de Prakrti a sua manifestação mais externa, ou seja, citta. O passo seguinte seria aham'tattva e finalmente mahattattva, ou buddhitattva, alcançarem a libertação de Sua influência. A mente, que é composta por citta, aham'tattva e mahattattva, deve retrair-se de cada uma de suas manifestações, gradualmente, para então atingir o estado de concentração. Portanto, a concentração mental não é senão a sádhaná, ou prática intuitiva, que liberta a consciência unitária da influência de Prakrti.

Vejamos até que ponto a concentração da mente leva à emancipação. A retração total em relação às manifestações da mente chama-se concentração, mas isto não significa o aniquilamento da mente. A mente é criada pela influência qualificadora de Prakrti sobre a consciência unitária; por isso, enquanto a mente existir, a influência de Prakrti deverá estar presente. A concentração da mente não significa a libertação do domínio de Prakrti. É apenas o caminho mais seguro para a sua emancipação. Mesmo que obtenha concentração total, a mente ainda existirá, mas a influência de Prakrti se tornará incapaz de causar inquietação. A força que Prakrti exerce para qualificar mahattattva é mínima, e quando a mente está concentrada, apenas esse aspecto se manifesta, pois os outros dois, aham'tattva e citta, se retraíram em mahattattva. Enquanto a mente não estiver aniquilada, mahattattva (ou buddhitattva) existirá. Mahattattva é o conhecimento existencial, ou o sentimento do “eu” profundo. Portanto, a concentração mental não significa a emancipação total (moks'a, ou mahá nirv'an'a). Concentração mental é apenas o estado de savikalpa sarmádhi, no qual o único sentimento que perdura é “eu sou Ele”.

A criação se torna densa, devido à influência crescente de Prakrti. Quanto mais influência existir, mais densa será; e quanto menos influência acontecer, mais sutil será. Assim, na mente unitária, mahattattva é a manifestação mais sutil; e citta, a mais densa. A sádhaná, ou prática intuitiva, só pode ser realizada através da mente. As expressões densas ou sutis dependem do grau de influência de Prakrti, e na medida em que Sua influência diminui, a mente se retrai para o estado sutil. Em geral, a mente se sente atraída pelos objetos materiais, que resultam da influência máxima de Prakrti sobre a citta Cósmica. A mente atraída pelas expressões externas brutas sofre maior influência de Prakrti. Já foi mencionado que, devido à expressão clara da consciência unitária, a mente humana tem a liberdade de agir, e com isto surge o desejo de se livrar do domínio de Prakrti. Portanto, Prakrti criou dois conceitos ilusórios e contrários, chamados de Máyá, ou seja, Avidyámáyá e Vidyámáyá. As pessoas que se utilizam de sua liberdade para buscar Vidyámáyá logo retornam à Posição Suprema, porque Vidyámáyá dirige a mente ao estado sutil. Enquanto aqueles que se refugiam em Avidyámáyá experimentam as reações de suas ações (karmaphala), o que faz com que eles vagueiem nas ondas mentais da Entidade Suprema Qualificada.

Avidyámáyá faz com que a mente das pessoas fique atraída pelos objetos materiais. Realmente, Avidyámáyá atua como a arma com a qual Prakrti subjuga a mente, acorrentando-a aos objetivos do mundo material. A sádhaná, ou prática intuitiva. conduz a mente à libertação do domínio de Prakrti, tornando-a sutil. A diminuição da influência de Prakrti conduz a mente ao sutil, fazendo com que os s'ad'ripu e as't'apásha [ver Capítulo 6] não mais perturbem e acorrentem a mente. Da mesma forma que a diminuição da influência de Prakrti liberta a mente da influência de Avidyámáyá, o contrário também acontece, ou seja, a libertação da influência de Avidyámáyá diminui a influência de Prakrti. Avidyámáyá, portanto, nunca ajudará ninguém a conseguir a emancipação, pois o seu papel é acorrentar a mente e torná-la atraída por objetos materiais, que, por sua vez, fazem com que a mente se torne cada vez mais densa, aumentando a influência de Prakrti.

Interromper a inquietação mental, concentrar a mente e torná-la sutil são os métodos para obter a libertação do domínio de Prakrti. Aqueles que buscam Avidyámáyá nunca serão capazes de realizar nenhum desses métodos. A mente que se deixa atrair pelos objetos do mundo material fica cada vez mais densa, porque isto aumenta sua instabilidade e torna impossível a concentração. Uma mente assim jamais alcançará a emancipação ou a libertação do domínio de Prakrti. Portanto, abandonar a busca por Avidyámáyá é um requisito imperativo para se alcançar a emancipação.

A consciência unitária garante a sua libertação do domínio de Prakrti e alcança a Posição Suprema por meio da sádhaná, ou prática intuitiva. Sempre que a influência de Prakrti for mais intensa, a consciência será subjugada. A consciência é o conhecimento absoluto (jinána), que abrange a intuição e o intelecto. Portanto, uma maior influência de Prakrti leva a uma ignorância muito maior, na medida em que a consciência se torna subjugada. Por outro lado, é natural que uma influência mais branda de Prakrti proporcione maior sabedoria e maior reflexo da consciência, porque a influência de Prakrti é a causa da ignorância. A prática intuitiva remove ou diminui a influência de Prakrti, levando naturalmente a um maior conhecimento (jinána) e a um reflexo maior da consciência.

Sádhaná, ou prática intuitiva, é uma guerra declarada contra a Prakrti Infinita, com o intuito de libertar a mente de Seu domínio. Prakrti é uma força única, que controla tudo e todos, até mesmo os fenômenos naturais. Portanto, sádhaná, ou prática intuitiva, significa a conquista da supremacia sobre essa força única controladora, Prakrti. Já foi visto antes que a Consciência (Purus'a) e Prakrti são inseparáveis. Prakrti, que era a entidade controladora de Purus'a antes da guerra, se submete ao controle de Purus'a ao ser derrotada nessa guerra. Então, a Consciência (Purus'a), com a ajuda da sádhaná, ou prática intuitiva, se torna dominadora da força controladora única. Prakrti se torna incapaz de exercer qualquer influência sobre Purus'a, porque Este venceu a guerra contra Ela. Desse modo, a sádhaná confere imensos poderes sobrenaturais ao seu praticante.

A sádhaná confere poderes sobrenaturais, contudo devemos abordar o uso correto e apropriado desses poderes. A posição suprema de Brahma está em Nirgun'a Não-Qualificado, no qual Purus'a e Prakrti estão juntos, embora Purus'a (Consciência) seja mais expressivo e Prakrti não seja capaz de qualificar Purus'a. Prakrti, sendo mais fraca em Nirgun'a Brahma (Entidade Não-Qualificada), poderia ser conduzida por Purus'a (Consciência). Purus'a poderia manobrar Prakrti, contudo não o faz. Uma vez que Prakrti não exerce influência sobre Purus'a, não surgirá em Purus'a o desejo de dominar Prakrti. Tal desejo só surgirá na consciência quando esta estiver influenciada por Prakrti, o que somente será possível quando a consciência se tornar mais fraca que Prakrti. Portanto, mesmo o desejo de comandar Prakrti só surgirá quando a Consciência for mais fraca, o que a colocaria numa condição inferior a Prakrti, sendo incapaz de comandar. Assim, Purus'a (Consciência) nunca será capaz de governar Prakrti. A consciência unitária liberta-se da influência de Prakrti gradualmente. A utilização do poder que Purus'a adquire com a sádhaná, visando ao domínio de Prakrti, seria um convite ao retorno da influência qualificadora de Prakrti. É somente a influência qualificadora de Prakrti que cria o desejo pelo uso de poderes. Assim, ao desejar manipular esse poder ou ao fazer seu uso efetivo, a consciência unitária, voluntariamente, se coloca sob o controle de Prakrti. Isto faz com que o esforço individual para conquistar Prakrti com a ajuda da sádhaná seja contra-atacado, colocando a mente uma vez mais sob a influência de Prakrti. Não haveria emancipação para uma pessoa que agisse dessa forma. Não se pode alcançar a libertação da influência de Prakrti desta maneira.

As pessoas utilizam-se do poder adquirido com a sádhaná para conquistar a admiração dos outros. A exibição dos poderes sobrenaturais faz com que a pessoa portadora dos mesmos seja elogiada, respeitada e até mesmo venerada. Ela seria considerada como um grande devoto (sádhaka). Esta é a única razão que leva à exibição de poderes sobrenaturais. O desejo de conquistar respeito e veneração de outras pessoas é uma armadilha de Avidyámáyá, através da vaidade (mána) e do orgulho (mada). O uso do poder para tais objetivos indica a busca de Avidyámáyá, e esta busca conduz à degradação. Assim, qualquer uso de poderes sobrenaturais coloca a pessoa sob o controle de Avidyámáyá, que inevitavelmente leva à queda e à degradação.

Muitos consideram correto usar o poder adquirido através da sádhaná para aliviar o sofrimento, por exemplo, de uma doença grave. Não há lógica nesse raciocínio. Todos têm de sofrer as conseqüências de suas ações. Portanto, as doenças, o sofrimento ou as calamidades são somente diferentes formas de fazer as pessoas sofrerem tais conseqüências. Bhagaván (Deus) é benevolente, e de acordo com Suas leis, as conseqüências das ações têm de ser sofridas. É através desse sofrimento que a pessoa aprende a evitar o mal. Este é o propósito de Deus ao fazer a pessoa sofrer as conseqüências das próprias ações. A interferência nessa lei divina com a ajuda de poderes sobrenaturais, adquiridos através da sádhaná, não é benevolência. As reações às ações (karmaphala) terão que ser sofridas, e não cabe nem mesmo ao maior dos devotos (sádhaka) interferir nesse processo. Eles podem, no máximo, adiar o sofrimento, mas o autor das ações terá de sofrer as conseqüências restantes e poderá até ter que renascer para que isto se concretize. Por se constituir em punição, o sofrimento de uma doença grave pode despertar o desejo pela prática da sádhaná, a fim de que a pessoa alcance a emancipação. Contudo, muitos discípulos errantes e ignorantes podem privar outras pessoas da oportunidade desse despertar, ao poupá-las do sofrimento, mediante a utilização de poderes sobrenaturais adquiridos através da sádhaná. Na verdade eles prestam um desserviço, ao invés de estarem prestando um serviço à pessoa que sofre.

O uso de poderes sobrenaturais adquiridos com a sádhaná tem que ser considerado como uma blasfêmia. Não seria um desafio à supremacia de Deus o ato de neutralizar a eficácia de Suas leis, utilizando-se de poderes sobrenaturais? A pessoa pode caminhar sobre as águas de um rio numa travessia, caminhar sobre brasas ardentes ou pode até fazer a cura milagrosa de uma doença incurável. Nesses casos, ela estaria usando seus poderes para anular a natureza (o dharma) da água e do fogo, e para interferir na lei de Prakrti, que faz com que a pessoa sofra as conseqüências das próprias ações. Qualquer um que ande sobre as águas de um rio deverá afundar. O fogo tem a propriedade de queimar qualquer pessoa que entre em contato com ele. Da mesma forma, todos têm de suportar as conseqüências de suas ações. Tentar evitar tais efeitos é desafiar a autoridade de Deus. Isto não constitui somente um desafio mas também uma tentativa de desfazer o objetivo da criação e de suas leis. Não pode haver maior blasfêmia do que essa.

Cada ação corresponde a uma reação, e esta terá que ser vivenciada. O uso de poderes sobrenaturais constitui também uma ação. Não é apenas uma ação, mas uma blasfêmia – uma má ação. A pessoa está destinada a sofrer as conseqüências de tal ação, e enquanto não tiver exaurido todas as reações em potencial (sam'skáras), ela não poderá obter a libertação do domínio de Prakrti. Portanto, o uso de poderes sobrenaturais, adquiridos com a prática intuitiva, em circunstância alguma se justifica. Além disso, conduz, invariavelmente, à queda e à degradação, sendo portanto essencial refrear a tentação de usar tais poderes. A emancipação pode ser alcançada através da prática intuitiva (sádhaná), e para isso deve haver uma técnica especial. Essa prática só pode ser ensinada por alguém que a conheça. Portanto, para aprendê-la, é necessário encontrar um professor capaz de ensiná-la. Isto significa que um preceptor (guru) é absolutamente necessário para se aprender a prática intuitiva e conseqüentemente obter a emancipação? Um homem numa prisão, com as mãos algemadas e os pés atados, por mais esforço que faça, jamais poderá se libertar, a não ser que alguém abra a porta da prisão e retire as suas algemas. Do mesmo modo, as pessoas foram algemadas por Prakrti e aprisionadas nesta imensa prisão – o mundo. Elas jamais conseguiriam se libertar sem a ajuda de uma outra pessoa.

Além disso, não é possível para uma pessoa aprender uma arte por si só. É necessário que haja outra pessoa para lhe ensinar ou pelo menos alguém a quem ela possa imitar. Aquele de quem se aprende uma arte é um preceptor. A prática intuitiva (sádhaná) é também uma arte a ser aprendida de um preceptor. Portanto, a emancipação não é possível sem um preceptor (guru). O guru é sempre uma necessidade prioritária para se obter a emancipação.

Aquele que se encontra aprisionado não poderá libertar outros. Aquele que tem os pés e as mãos atados não poderá remover as amarras de outros. Assim, a pessoa que não é emancipada, não pode conceder emancipação a outros. Somente um muktapurus'a (aquele que é emancipado) é capaz de se tornar um preceptor. Uma pessoa só poderá ser considerada emancipada quando tiver sido libertada da influência qualificadora de Prakrti. A única entidade que está completamente livre da influência de Prakrti é a Entidade Suprema Não-Qualificada (Nirgun'a Brahma), e somente essa Entidade pode ser considerada como realmente emancipada.

Contudo, Nirgun'a Brahma ou a Entidade Não-Qualificada jamais poderá servir de instrumento para a emancipação de outros. Na total ausência da influência de Prakrti, aquela entidade não pode sequer ter o desejo de emancipar os outros. Somente poderá ser um preceptor aquela pessoa que, através de sua sádhaná, alcançou a Posição Suprema, mas também, por sua própria iniciativa, tomou a forma humana novamente, por um determinado período de tempo, para gerar bem-estar aos seres humanos. Enquanto mantiver seu corpo físico, tal pessoa estará sob a influência de Prakrti, mas ao abandoná-lo, por ocasião da morte, ela retornará à Posição Suprema – a Entidade Suprema Não-Qualificada.

A Entidade Suprema Qualificada (Bhagaván) é emancipada, assim como o preceptor (guru). Isto mostra que não há diferença entre o preceptor e Bhagaván. Ele, ou ela, não poderá ser nenhuma outra entidade a não ser a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma). Então, ele ou ela será Sagun'a Brahma ou Bhagaván encarnado. O desejo da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) é obter emancipação para cada uma de Suas unidades, e foi com esta intenção que Ela originou a criação. Sagun'a Brahma não tem forma, não pode ser visto ou escutado. Tal entidade não pode ajudar os seres humanos a se emanciparem. Tem que assumir uma forma humana para ajudar Suas unidades e o faz na forma de um preceptor, ou guru. O preceptor é Bhagaván encarnado. Não há qualquer dúvida a esse respeito.

Embora seja difícil encontrar um mukataPurus'a, ou sadguru (grande preceptor), não é necessário sair à procura dele nas selvas, nas montanhas e nas cavernas, de acordo com a crença popular. O propósito da Entidade Suprema Qualificada manifestar a criação é obter a emancipação para cada uma de Suas unidades. A fim de realizar esse propósito, Ela terá que aparecer para aqueles que têm um imenso desejo de emancipação. Este intenso desejo ou estado mental de inquietação, causado pela determinação de alcançar a emancipação, anuncia a chegada do momento oportuno. A Entidade Suprema Qualificada, na forma de um grande preceptor, aparecerá para aqueles que alcançaram esse momento oportuno, em virtude de seu intenso desejo de libertação. Se assim não fosse, o propósito da criação não seria cumprido; seria simplesmente uma armadilha, e o criador, a Entidade Suprema Qualificada, tornar-se-ia a causa de todas as amarras. Portanto, vagar por selvas, montanhas ou cavernas em busca de um grande preceptor não faz sentido. O que é essencial é alimentar no coração um intenso desejo de emancipação.

É necessário saber quais são as qualidades de um grande preceptor, de modo que, até mesmo uma pessoa bem simples possa reconhecê-lo. Seria a característica de um grande preceptor (sadguru) mostrar que possui e pode aplicar poderes divinos ou sobrenaturais? Um grande preceptor é uma pessoa emancipada e possuidora de todos os poderes sobrenaturais, mas, teria ela que demonstrá-los, a fim de ser reconhecida como um preceptor? Vimos antes que o uso de poderes sobrenaturais, sob qualquer circunstância, leva à degradação, na medida em que coloca aquele que deles se utiliza sob o controle de Avidyámáyá. Contudo, Avidyámáyá não consegue atrair nem exercer sua influência sobre uma pessoa libertada. Tal pessoa jamais será influenciada por Avidyámáyá, sob nenhuma circunstância. Portanto, a pessoa que se considera um grande preceptor devido a seus poderes sobrenaturais ou que passa a exibi-los, é apenas uma impostora. Ela própria não é emancipada, logo não poderá libertar os outros. Tal pessoa deveria ser evitada como se evita uma cobra venenosa. A aquisição e a exibição de poderes sobrenaturais ou divinos não são as qualidades pelas quais um grande preceptor poderá ser reconhecido. Um grande preceptor é uma pessoa emancipada. Um grande preceptor é aquele que está livre da influência de Prakrti. Avidyámáyá não pode montar uma armadilha para um sadguru. Os seis inimigos – kama (desejo por objetos materiais), krodha (ira), lobha (avareza), moha (atração), mada (orgulho), mátsarya (inveja); bem como as oito amarras – lajjá (vergonha), bhaya (medo), ghrn'á (ódio), shaumká (dúvida, por medo), kula (orgulho do prestígio de família), shiila (orgulho da própria cultura), mána (vaidade) e jugupsá (maledicência e hipocrisia) – não produzem efeito num preceptor emancipado (sadguru). A fim de seguir o dharma (natureza) da criação, um sadguru vive em completa harmonia com Vidyámáyá e pratica viveka (discernimento) e vaerágya (uso apropriado das coisas materiais). Somente tal pessoa é um grande preceptor, ou sadguru.

A prática intuitiva (sádhaná) terá que ser aprendida de um grande preceptor (sadguru), e a emancipação poderá ser conseguida com sua prática sistemática. O simples fato de se ter um preceptor não significará nenhuma conquista se a prática intuitiva (sádhaná) não for levada a cabo. Todos devem realizar sádhaná. A emancipação não pode ser alcançada sem essa prática. Algumas pessoas têm a impressão de que não precisam fazer esforço para alcançar a emancipação e de que seria suficiente ter a graça do Guru. É verdade que a libertação não é possível sem a graça do grande preceptor. O engano está em achar que a libertação poderá ser alcançada sem esforço. É preciso que a pessoa mereça a bondade do Guru para recebê-la. Ela nunca será concedida a um discípulo sem mérito. Para conseguir a graça do sadguru, o discípulo terá que seguir um sistema de prática intuitiva com devoção e fé e não achar que o grande preceptor a concederá sem que ele faça qualquer esforço. Outras pessoas acham que, sendo discípulas de um grande preceptor e tendo em conta que o sadguru veio a este mundo para elevar aqueles que se encontram decaídos, o preceptor conduzirá a todos quando ele se for, assim como um pastor conduz suas ovelhas quando deixa o pasto ao cair da noite. Esta não é uma maneira correta de pensar. Um grande preceptor não vem a este mundo para conduzir seus discípulos como um pastor conduz suas ovelhas. O grande preceptor vem para libertar as pessoas, para elevá-las à divindade. As pessoas têm que fazer um esforço sincero para realizar a prática intuitiva (sádhaná). A dependência passiva do discípulo em relação ao preceptor não lhe conferirá libertação.

Quando alguém inicia a prática intuitiva, surgem problemas e obstáculos. Sádhaná é um esforço para se libertar do domínio de Prakrti. Esse domínio se mantém em função das deformações criadas pela própria mente. A fim de alcançar a libertação, a mente terá que readquirir seu estado natural, removendo as deformações. Foi demonstrado anteriormente que essas deformações constituem reações das próprias ações, as quais não podem ser removidas, a não ser que sejam vivenciadas. Portanto, a emancipação não será possível até que a pessoa tenha sofrido todas as reações de vidas anteriores. Em geral, as pessoas sofrem essas reações no dia-a-dia, e se qualquer reação persistir até a ocasião da morte, elas terão que renascer para exauri-la. Contudo, aqueles que fazem a prática intuitiva não desejam renascer para experimentar ou sofrer as reações de ações passadas. Dessa forma, com sua determinação para alcançar a libertação, elas se apressam em exaurir, nesta mesma vida, todas as reações que têm em potencial. Elas deveriam então aceitar os problemas como um bom sinal, uma vez que eles aceleram o processo de exaustão das reações remanescentes.

Sádhaná é o esforço para a libertação da influência qualificadora de Prakrti. Avidyámáyá é também uma qualidade, sendo necessário que a pessoa renuncie a Avidyámáyá. Se um inquilino estiver ocupando uma casa por muito tempo, será extremamente difícil, de uma hora para outra, retirá-lo, especialmente se ele tiver sido tratado com respeito por todo o tempo. Ele nunca deixará a casa de livre e espontânea vontade e colocará todos os tipos de obstáculos em seu caminho. Você terá que lutar contra todas as suas manobras e, somente quando estiver completamente derrotado, o inquilino atormentador lhe permitirá entrar na casa. Da mesma forma, como a pessoa tem estado à mercê de Avidyámáyá por muitas vidas, Avidyámáyá não a abandonará facilmente no início da prática intuitiva. Como o inquilino perturbador, Avidyámáyá lançará todos os obstáculos possíveis no seu caminho, sempre que a pessoa tentar livrar-se de sua influência. A sádhaná, ou prática intuitiva ensinada por um grande preceptor, é o meio para remover Avidyámáyá. Apenas o sucesso na sádhaná pode fazer com que Avidyámáyá perca sua força. Portanto, o início da verdadeira sádhaná é marcado por uma grande resistência de Avidyámáyá, que, através de obstáculos, tenta levá-lo a desistir da prática intuitiva. Por tentar subjugar Avidyámáyá, a sádhaná, naturalmente, encontrará resistência por parte da força maléfica de Avidyámáyá. Os obstáculos para a sádhaná (prática intuitiva) deveriam ser considerados como um indicativo de sucesso na tentativa de se ver livre de Avidyámáyá. Os obstáculos não são criados por Deus ou pelo grande preceptor (sadguru), pois eles desejam que cada um dos seres unitários se torne emancipado. Os obstáculos são criados por Prakrti, contra quem se declara uma guerra. Se a pessoa quiser vencer Prakrti, terá que derrotá-La com a arma da sádhaná, contra a qual Avidyámáyá se defende, colocando obstáculos no caminho. Os obstáculos ocasionados pela sádhaná deveriam ser vistos como um bom sinal, pois eles indicam que a influência de Avidyámáyá está começando a diminuir.

A Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) deu a cada um dos seres unitários uma consciência unitária totalmente refletida. Ela processa a criação e desenvolve a humanidade a fim de que o ser unitário possa realizar a prática intuitiva e alcançar a emancipação. Os outros seres vivos não possuem consciência completamente expressada; por isso, não podem realizar sádhaná nem conseguir emancipação. A consciência unitária está totalmente expressada em todos os seres humanos, então, todos têm o mesmo direito de praticar sádhaná. Nenhum outro ser vivo, até evoluir ao estágio humano, tem a capacidade de realizar a prática intuitiva.

Como todos têm o direito de realizar sádhaná, é necessário que Sagun'a Brahma (Entidade Suprema Qualificada) chegue a todos como um grande preceptor. Mas isto nem sempre acontece porque, devido ao fato de as pessoas demonstrarem desinteresse em alcançar a emancipação, elas nem podem reivindicar o direito de realizar a sádhaná. O grande preceptor só se encontra disponível para aqueles que têm um profundo desejo de libertação. Somente para eles surge o momento oportuno, e somente eles podem reivindicar o direito à prática de sádhaná e encontrar um grande preceptor (sadguru).

Os seres humanos têm o poder do discernimento, uma vez que eles possuem uma consciência unitária totalmente expressada. Eles podem discernir entre o bem e o mal e escolher viver uma vida correta. O desejo de libertação é bom, mas, como cada ação ou desejo tem que ter uma causa, este desejo tem também que ser despertado nos seres humanos. Portanto, o despertar do intenso desejo de libertação ou a reivindicação do direito de realizar a sádhaná depende exclusivamente do esforço individual. O grande preceptor não pode ser acusado de parcialidade por ensinar a prática intuitiva somente àqueles que fazem jus a ela. Sagun'a Brahma quer libertar a todos, mas é preciso que cada um faça por onde ter o direito de realizar a sádhaná por meio do próprio esforço. Embora todos os seres humanos tenham uma consciência completamente expressada, muitos não são capazes de despertar em si o desejo pela libertação. Deus não pode ser culpado pela indiferença humana pela libertação, o que impede o ser humano de encontrar um grande preceptor. É um dever de cada pessoa (dharma) criar o desejo pela emancipação, já que esta é a vontade do Senhor, e é por esta razão que o Senhor deu origem a esta criação.

O objetivo de Sagun'a Brahma é libertar cada uma de Suas unidades, e esta é a única razão pela qual ele criou este vasto universo. Todos, mais cedo ou mais tarde, alcançarão a emancipação, pois esta é a vontade do Senhor. Isto poderá acontecer logo ou demorar um tempo infinito. A única forma de alcançar a libertação é através da sádhaná; portanto, todos terão um dia de iniciar a prática intuitiva, em sua busca de libertação das amarras da criação. Aquele que é sábio deveria começar a sádhaná de imediato, para alcançar a libertação rapidamente. Ele compreende que adiar este processo é sofrer desnecessariamente sob o jugo da criação, que não é a sua morada permanente. Considerar um acampamento transitório como a morada permanente e sofrer os rigores e as dificuldades desse acampamento é tolice. Sabendo-se que esta não é a meta final e que ninguém permanecerá aqui para sempre, parece sensato fazer um esforço para partir o mais rápido possível. Cada um terá que atingir sua meta mais cedo ou mais tarde. É imperativo que todos alcancem a emancipação pela prática da sádhaná. Esta é a nossa tarefa permanente.

P.R.Sarkar - Filosofia Elementar da Ánanda Márga.