20/07/2008

POR QUE AS PESSOAS TÊM MEDO DA PRÁTICA INTUITIVA? - Parte IX

A prática intuitiva (sádhaná) é um dever fundamental de cada ser humano. No entanto, poucas pessoas cumprem esse dever. De modo geral, as pessoas têm medo de realizar a sádhaná. O medo as impede de realizar a sádhaná. Mas convém analisar se esse medo é justificável.
Primeiramente, as pessoas consideram que a renúncia à vida normal é um requisito essencial para a realização da prática intuitiva. De acordo com seu entendimento, a sádhaná não pode ser conciliada com a vida no dia-a-dia. Elas consideram que a libertação é um privilégio dos ascetas e que não é possível às pessoas comuns alcançá-la. Isto não é um requisito necessário, e nem sequer parece ser algo lógico. Se examinarmos as vantagens de seguir esse caminho, veremos que só há duas vantagens. Uma é a solidão, que isola a pessoa da sociedade humana, facilitando a prática intuitiva. E a outra é que, ao se afastar das tentações e dos problemas do mundo, a pessoa supera com maior facilidade a influência de Avidyámáyá. Estas são as duas únicas vantagens que fazem a pessoa considerar o afastamento da vida em sociedade como um requisito fundamental para a prática intuitiva.

Não se pode negar que o barulho e o corre-corre do mundo em que vivemos constituem obstáculos à realização da prática intuitiva, o que faz com que a solidão seja desejável. Mas foi explicado antes que os obstáculos são criados por Avidyámáyá, a força maligna existente em cada pessoa. Afastar-se do mundo agitado e viver numa floresta não garante a libertação de ninguém. Avidyámáyá o acompanhará nas florestas e nas montanhas e criará obstáculos à realização da sádhaná, substituindo os barulhos das cidades pelos sons perturbadores de animais. Comumente, as pessoas se acostumam ao ambiente em que vivem, superando as dificuldades. Por exemplo, seria impossível que uma pessoa acostumada a viver numa vila tranquila conseguisse dormir numa casa situada na praça Chowringhee, em Calcutá, devido ao barulho ensurdecedor de ônibus e caminhões. Contudo, uma pessoa que já vive lá há muito tempo não mais se perturba com o barulho. O contrário também é verdadeiro: uma pessoa acostumada com os barulhos da cidade terá dificuldade em dormir numa vila tranquila e isolada. Da mesma forma, a pessoa pode, no início da prática intuitiva, ter problemas com o barulho, mas logo se acostumará. Isolar-se numa floresta não parece ser muito significativo.
Vejamos se o ato de se retirar para uma floresta é significativo para evitar as tentações mundanas. Uma tentação como lobha (avareza) é um princípio de Avidyámáyá. Tal tendência só poderá ser superada se a influência de Avidyámáyá for diminuída através da prática intuitiva (sádhaná). Não se pode evitar as tentações sem superar a influência de Avidyámáyá. Isto só é possível através da prática intuitiva. Retirar-se da sociedade simplesmente e optar pela vida na floresta de nada adiantará. Não há dúvida de que, quando a pessoa se afasta de objetos atraentes, ela não tem chance de usá-los e perde o interesse por eles, e também de que, quando há proximidade de coisas mundanas, isto pode fazer com que a pessoa se sinta atraída por elas. Contudo, quando a pessoa é forçada a renunciar a algo, ela pode sofrer alguma agitação mental. Esta agitação proveniente de forte repressão pode se tornar insuportável e resultar em doença ou desânimo. Forçar alguém a levar uma vida de austeridade, para se afastar das tentações, não vai servir a este propósito. Isto causa agitação e sofrimento e ainda pode provocar depressão. Desistir da vida em sociedade, por uma vantagem duvidosa, ao invés de desenvolver firmeza de caráter e força mental, não tem nenhum valor. A pessoa corajosa vive entre as tentações, a fim de enfrentá-las e superá-las passo a passo, ao invés de evitá-las por medo. Sádhaná significa declarar guerra contra avidyá e, para vencer essa guerra, é preciso enfrentar o inimigo e não evitá-lo. Portanto, renunciar ao mundo, por medo de sucumbir às suas tentações, não é uma abordagem racional.
Fugir da vida normal na sociedade devido ao medo de suas armadilhas e seus problemas não seria uma atitude racional. Viver em sociedade é complicado, tendo em conta que se tem de assumir obrigações para com os dependentes. É preciso ganhar dinheiro para sustentá-los. A agonia das doenças e dos sofrimentos terá de ser suportada, bem como o desconforto de privações, se a pessoa não tiver uma boa renda. Tudo isto pode criar o desejo de abandonar a vida em sociedade para se ver livre das responsabilidades que não digam respeito à própria pessoa. Mas será que isto não significaria fugir das responsabilidades que se tem para com a família? Aquele que evita assumir responsabilidades demonstra imenso egoísmo. A fuga do dever e o egoísmo são atitudes más que têm conseqüências más, e até que as reações sejam vivenciadas completamente, a emancipação será uma impossibilidade. A tentativa de se livrar das responsabilidades e dos problemas do mundo não faz necessariamente a pessoa se esquecer da família abandonada. Ela certamente ocupará a mente da pessoa, fazendo com que fique sob a influência de moha ripu (atração pelo mundo material) de Avidyámáyá. O progresso da prática intuitiva não é possível diante da influência constante de Avidyámáyá, e nessa condição a mente estará fixada no pensamento da família ou daquelas pessoas abandonadas. Se afirmássemos que aqueles que resolvem abandonar a vida em sociedade estariam livres de sofrimentos e preocupações, estaríamos afirmando que eles estão acima da influência de Avidyámáyá, pois as preocupações não podem ser evitadas enquanto Avidyámáyá está influenciando os pensamentos e as ações. Para essas pessoas, seria indiferente viver na sociedade ou na floresta. Não é para superar a influência de Avidyámáyá que uma pessoa se retira para a floresta? E, se isso já tiver sido alcançado, seria irrelevante levar uma vida normal em sociedade ou viver como um asceta na floresta.
A libertação da influência de Avidyámáyá não pode ser conquistada com a mera tentativa de fuga; para alcançar esse estágio, a pessoa tem de reconduzir sua mente para o estado sutil. Por exemplo, de nada adiantará o constante esforço para afastar insetos atraídos por uma ferida exposta, se não se fizer algo para curá-la. A prática intuitiva ensinada por um grande preceptor é o bálsamo curativo; é com ela que alguém pode afastar a influência de Avidyámáyá e alcançar a libertação. Na medida em que a influência de Avidyámáyá diminui, as tentações e os problemas do mundo deixam de ser um obstáculo à prática intuitiva. Uma vez que essa é a única maneira de superar Avidyámáyá, a prática intuitiva poderá ser feita facilmente na vida em sociedade. Avidyámáyá perturbará a pessoa no início; mas, uma vez derrotada, não poderá criar nenhum obstáculo à prática intuitiva.
Levar uma vida em sociedade e ao mesmo tempo realizar a prática intuitiva é muito conveniente. A pessoa que vive normalmente numa família leva uma vantagem sobre os ascetas que renunciaram ao mundo. Retirar-se para uma floresta não é o meio de se livrar de preocupações e tentações do mundo. Há uma outra grande vantagem em viver na sociedade: a oportunidade de servir à humanidade, um aspecto muito importante na prática intuitiva. Essa grande oportunidade é negada a quem se retira para as florestas. A prática intuitiva ensinada por um grande preceptor deve ser feita com fé e devoção. Ela pode ser praticada em casa, sendo desnecessário abandonar o lar ou a família. À medida que a pessoa supera Prakrti, a influência de Avidyámáyá desaparece. A prática intuitiva é a única forma de superar Avidyámáyá. Portanto, a prática intuitiva é uma necessidade. Fazer distinção entre lugares para praticar a sádhaná, considerar um lugar mais apropriado que outro, ou achar que um local é bom e outro é ruim, seria o mesmo que fragmentar Brahma. Cada lugar desta criação é uma manifestação da Entidade Cósmica Suprema (Brahma), e considerar um lugar bom e outro ruim é como se a pessoa estivesse atribuindo essas qualidades a Brahma. Se a sádhaná se baseasse no conceito de bom e mau, nunca seria possível à pessoa desenvolver o sentimento de unidade com toda a criação. A pessoa nunca seria capaz de amar os outros como ama a si própria. Para Brahma, todos os lugares são iguais, e a sádhaná pode ser praticada em qualquer lugar. Desistir do mundo e se retirar para a floresta é algo ilógico. Não praticar a sádhaná devido ao medo de ter que abandonar o mundo é, portanto, uma idéia irracional.
Brahmacarya constitui outro temor que afasta muitas pessoas da sádhaná. Elas consideram que Brahmacarya constitui apenas uma prática de celibato ou de renúncia à relação física entre marido e mulher. Elas concluem erroneamente que, sem celibato, não é possível realizar a prática intuitiva (sádhaná). Portanto, é preciso saber o significado certo do termo Brahmacarya e também conhecer quem podemos chamar de Brahmacarii. Brahmacarya significa introverter as tendências ‘extroversivas' da mente e devotá-la completamente a Brahma. Para entender Brahmacarya claramente é preciso saber o que se quer dizer com tendências ‘extroversivas' da mente e como essas tendências podem ser introvertidas. A criação é a manifestação do estado sutil em matéria bruta, por influência de Prakrti. A criação densa é o mundo que pode ser vivenciado pelos órgãos físicos, mas a mente é a parte sutil da criação. Quando a influência de Prakrti aumenta, a mente gradualmente sofre uma transformação do estado sutil para o estado bruto. Por influência de Prakrti, a mente se torna mais extrovertida e fica atraída pelos objetos materiais, pelo denso. Emancipação significa libertar a mente da influência de Prakrti ou conduzi-la do estado denso para o sutil. Brahma é sutil por natureza e, quando a mente está atraída pelo mundo material, ela não pode se devotar a Brahma. Desviar a mente da atração pelo mundo material e reconduzi-la para o sutil é torná-la devotada a Brahma. Isto pode ser conseguido ao se diminuir a influência de Prakrti sobre a mente, pois é Prakrti que a mantém atraída pelos objetos materiais à sua volta. Brahmacarya, portanto, significa libertar a mente da influência de Prakrti, e um Brahmacarii é aquele que tem uma mente devotada a Brahma e sempre absorta em Brahma. A mente que age desse modo não é atraída pelas expressões rudimentares da criação; é absorvida pelo sutil e passa todo tempo pensando apenas em Brahma. Esse estado é alcançado através da prática intuitiva. Uma pessoa só poderá se tornar um Brahmacarii por meio da prática intuitiva. É somente por meio da sádhaná que a mente pode se libertar da influência de Prakrti e ser conduzida em direção ao estado sutil, para permanecer completamente absorta em Brahma. Comumente, diz-se que a mera superação do desejo sexual (káma ripu) é Brahmacarya. Mas, na verdade, todos os s'at'ripu (seis inimigos) e as't'a pás'ha (oito amarras - ver capítulo 6) são tendências que conduzem a mente para a extroversão. Entre essas catorze tendências, o desejo sexual é apenas uma delas, e a superação de somente esta tendência não garante que a pessoa esteja seguindo Brahmacarya. Somente quando a pessoa se torna livre da influência de todas as tendências à extroversão, de s'ad'ripu e as't'apásha, coletivamente conhecidas como Avidyámáyá, é que sua mente se torna a mente de um Bramahcarii. O domínio de Avidyámáyá (tendência a extroverter-se) é tão forte que não é possível superá-lo, a não ser com a prática intuitiva. Aqueles que tentam alcançar Brahmacarya sem a realização da prática intuitiva estão perdendo seu tempo. A prática intuitiva, gradualmente, desviará a mente do estado bruto para o estado sutil, e a pessoa, aos poucos, se tornará um Brahmacarii. A dominação dos s'ad'ripu e as't'apásha – tendência a extroverter-se – diminuirá por si própria. Com a diminuição de sua influência, a mente não mais permanecerá absorta no que é denso. Não é necessário abandonar a vida conjugal para começar a prática intuitiva. A busca de atrações mundanas, originadas da sensualidade (kama) e do apego (moha), faz com que a vida sexual seja uma necessidade. A prática intuitiva ajuda a pessoa a superar essa necessidade. A pessoa se torna indiferente a ela. Portanto, a questão de que é necessário fugir dos atrativos para realizar a prática intuitiva não faz sentido. Já foi dito anteriormente que a sádhaná significa declarar uma guerra contra Prakrti e vencê-la. A força da prática intuitiva é certamente maior do que a força de Prakrti e, por meio dela, é possível atingir Brahmacarya. Não importa quão forte seja o domínio de Avidyámáyá, eesa força sempre poderá ser destruída pela prática intuitiva. A prática intuitiva, e não o celibato, é essencial para a pessoa se tornar um Brahmacarii. É necessário mencionar aqui o significado mais popular de Brahmacarya, que é “a preservação de viirya (sêmen)”. Shukradhátu (fluido seminal) e viirya são necessários para nutrir as células e as fibras nervosas. É essencial preservá-los, a fim de manter a firmeza da mente e a vivacidade intelectual.
Algumas pessoas crêem que a prática intuitiva deve ser iniciada na velhice, quando elas começam a ter tempo livre, após terem passado os tempos áureos de suas vidas em busca de dinheiro. Elas têm medo de enfrentar incertezas e dificuldades na velhice, caso não consigam acumular riqueza suficiente antes de o corpo se enfraquecer e ficar incapacitado para o trabalho árduo. Elas consideram os tempos áureos da vida como o tempo apropriado para ganhar dinheiro e a velhice como o tempo certo para se lembrarem de Deus. Elas partem erroneamente do princípio de que não é necessário esforço árduo para a prática intuitiva e que, portanto, a velhice é o tempo adequado para isso. Quem está vivo está sujeito a morrer a qualquer tempo, sem menos esperar. Ninguém sabe se alcançará a velhice. Ainda assim, muitas pessoas reservam para a tarefa mais importante, que é a prática intuitiva, o período em que o corpo perdeu o vigor e a mente se encontra enfraquecida num emaranhado de reações acumuladas na vida, de tal modo que elas se recusam a iniciar qualquer coisa nova. Em geral, o medo causado pela proximidade da morte é que leva as pessoas a pensarem em Deus, na velhice. As más ações cometidas no passado começam a perseguir-lhes, de modo que as pessoas começam a orar e implorar a Deus para livrá-las das conseqüências de suas ações.
Não há nenhum valor em lembrar-se de Deus na velhice, quando já não é possível concentrar a mente, devido às fraquezas e às doenças do corpo e às preocupações com as reações (sams'karas) das ações desta vida. A mente então fica bloqueada pelas enfermidades do corpo, pelas doenças da velhice, pela proximidade da morte e, principalmente, pela recordação de incidentes sofridos, de tal modo que se torna impossível concentrar-se. Por essas razões, a pessoa fica impossibilitada de realizar a prática intuitiva. Há um ditado indiano que diz que somente o bambu novo pode ser dobrado e que, se você tentar dobrar um que já esteja maduro, você só conseguirá quebrá-lo. Isto é, todas as coisas novas devem ser iniciadas nos tempos áureos da vida, e assim também deve ser com a prática intuitiva.
Há pessoas que evitam a prática intuitiva (sádhaná) por medo de terem que abandonar os prazeres e os encantos do mundo. Esse medo as afasta da prática intuitiva, mas esse temor também não tem fundamento lógico. Já foi explicado que os objetos materiais encantadores são criados pela influência do princípio estático de Prakrti e que as pessoas os consideram reais devido ao domínio de Avidyámáyá, que as leva a desfrutarem desses prazeres terrenos. A prática intuitiva diminui, gradualmente, o domínio de Avidyámáyá, fazendo com que a mente se volte para as coisas sutis. Com isso, os prazeres deste mundo material perdem seu poder de atração. O desejo por objetos materiais (káma), a atração pelo mundo material (moha) e a avareza (lobha) – três princípios de Avidyámáyá – fazem com que as coisas materiais sejam desejadas, mas na medida em que essas três tendências diminuírem sua influência, a mente não mais se sentirá atraída por tais coisas. Em geral, a mente se deleita com os prazeres materiais e considera a idéia de desistir deles como uma tortura, mas quando a mente não mais se interessa por eles, a questão de desistir dos mesmos não surge. Nesse momento, a mente tenta fugir deles e sente-se aliviada de estar livre deles, ao invés de se atormentar pela sua ausência. A falta de alguma coisa só é perturbadora quando a desejamos intensamente. Se não desejarmos um objeto, não sentiremos a sua ausência quando ele não estiver por perto. Por exemplo, um alcoólatra ficará atormentado se não conseguir bebida, mas aquele que não depende de álcool nem sequer sente a sua falta. A questão de ficar atormentado não surge, pois ele jamais o desejou. A mente se volta para o mundo sutil através da prática intuitiva e não mais deseja as coisas materiais. Quando a presença de coisas materiais já não for desejável, não surgirá a questão de sentir sua falta; conseqüentemente, a mente não se perturbará por sua ausência. Algumas pessoas consideram necessário se privar, à força, dos prazeres do mundo material, a fim de realizar a prática intuitiva, e então, o medo dos próprios desejos as atormenta. Contudo, nunca será possível controlar a mente privando-a dos encantos materiais à força. Isto apenas fará com que o corpo sofra e adoeça. A prática intuitiva não requer nenhuma compulsão. O sistema de prática intuitiva ensinado por um grande preceptor é tão poderoso que desviará, de forma imperceptível, a mente dos objetos materiais, conduzindo-a para o estado sutil, de modo que o desejo pelos encantos materiais desaparecerá gradualmente, levando consigo o sofrimento por não tê-los. Deixar de seguir a prática intuitiva devido ao medo de ter de se afastar dos prazeres materiais é irracional. Aqueles que consideram isto como verdade estão enganados.
Numa análise cuidadosa, as razões que impedem as pessoas de realizarem a prática intuitiva (sádhaná) parecem sem fundamento. Evitar a sádhaná, a qual é um dever fundamental de todos os seres humanos, por medos injustificados, é apenas uma demonstração de ignorância. Portanto, é importante que ninguém evite a sádhaná devido a medos injustificados, porque através da sádhaná a pessoa se conhecerá e se identificará com a Entidade Suprema Infinita.
P.R.Sarkar - Filosofia Elementar da Ánanda Márga