04/10/2008

TANTRA - A CIÊNCIA DA LIBERAÇÃO ESPIRITUAL

Tantra significa literalmente “aquilo que liberta da obscuridade”. Suas práticas espirituais, tendo a meditação como ponto básico, consistem no esforço para remover o véu do egocentrismo e da estreiteza mental, que inibe e impede a expressão do potencial ilimitado da mente humana. As características mais significativas do Tantra são a sua visão extremamente positiva do universo e a sua explicação abrangente sobre o mundo fenomênico, como uma expressão da Consciência Essencial e Infinita.

Com a visão de que toda existência surge da mesma Consciência Infinita, o princípio inerente ao Tantra é que cada indivíduo, ao imergir no âmago de sua consciência individual, pode vivenciar a unidade em todas as coisas e transcender o fluxo turbulento da percepção sensorial e a visão fragmentada do mundo relativo. O objetivo final do Tantra é a união com a Consciência Infinita e Não-Qualificada – um estado situado além do ego limitador e sua realidade compartimentada.

Liberação da Consciência

Vivemos num mundo de mudanças fantásticas - um mundo que dá grandes saltos no conhecimento e na compreensão da vida cotidiana. A sociedade pós-industrial é considerada como a era da informação e dos meios de comunicação, que colocam ao nosso alcance uma vasta quantidade de informação.

Enquanto nossas mentes são estimuladas pela era dourada da Ciência e as empresas se lançam na corrida desenfreada pelo domínio de mercados emergentes, a sociedade está em conflito, devido à falta de compreensão da natureza espiritual do ser humano. No corre-corre das atividades cotidianas, a harmonia e a compreensão interior são sufocadas, porque nossos sistemas nervosos ficam sobrecarregados.

À medida que a sociedade global se torna mais urbanizada, o estresse e a tensão crescem exponencialmente. As pessoas sofrem diversos impactos em todos os níveis: físico, emocional e social. A vida urbana, o foco da sociedade pós-industrial, apresenta novos e mais complexos dilemas.

Atualmente, a combinação das mais diversas pressões psicológicas e ambientais tem resultado na desintegração da personalidade, talvez a mais acentuada da história humana.

O estresse, em seu ponto máximo, criou a necessidade de se encontrar meios de alcançar a quietude interior. Psicólogos e pesquisadores da área de psicologia têm comprovado a eficácia das técnicas de meditação, que expandem a mente e reintegram a personalidade. Todavia, como veremos nos capítulos seguintes, a meditação e outras práticas tântricas constituem um sistema que não se limita em amenizar o estresse, porque visam à elevação do indivíduo a um estado de liberação da consciência.

“Devemos lembrar que as teorias não são fatores de libertação dos seres humanos. O que liberta é a elevada capacidade de manter livre e desimpedida qualquer perspectiva, grande ou pequena, de uma existência sutil - a vigorosa capacidade de conciliar a dura realidade da vida com o último estágio do mundo visionário.”

Shrii Shrii Anandamurti

Por que meditar?

Grande parte da psicoterapia moderna se baseia no conceito de que, durante a sua vida, a pessoa é condicionada por fatores ambientais e sociológicos, entre os quais se incluem os pais, os amigos, os parentes, os colegas de escola e de trabalho, todos eles impondo padrões de comportamento ao indivíduo, moldando sua personalidade. Estes condicionamentos, através de diversos processos mentais, criam tensão na psique humana, acarretando diferentes neuroses e psicoses.

Muitas terapias estão baseadas no princípio de que, ao se localizar e reconhecer a fonte de uma determinada tensão mental, esta pode ser compreendida e dissolvida; ou que, ao se reviver a situação na qual uma determinada tensão foi formada, a raiz da tensão pode ser expressada e conseqüentemente eliminada.

O tipo e a gravidade do condicionamento analisado depende de cada escola de pensamento. Por exemplo, muitas escolas acreditam que, ao nascer, o indivíduo é como uma “folha em branco”, sobre a qual todos as preferências, aversões e crenças são impressas.

Outras dizem que a origem do condicionamento e da tensão está no ventre materno e nas experiências pré-natais.

Para melhor compreendermos a meditação, uma análise do condicionamento e de seu impacto psicológico também é importante no Tantra. Mas mesmo que a visão do Tantra a respeito do condicionamento seja, em vários aspectos, semelhante à análise da psicologia moderna, a sua compreensão do grau de influência do condicionamento é significativamente diferente.

No Tantra, a análise do condicionamento leva em conta a totalidade do ser. Todas as impressões obtidas pelos sentidos e todos os pensamentos vivenciados pelo indivíduo combinam-se para moldar a identidade do ego.

Assim, num estado sem condicionamentos, a mente se liberta do ego limitador e se identifica com a Consciência Universal. A individualidade cede espaço para o sentimento de unificação com todas as coisas.

Essa reprogramação do condicionamento mental é facilitada pela meditação. No processo de identificação da mente com a Consciência Essencial – que está além da visão limitadora do ego – este é gradualmente lapidado, permitindo a revelação de uma identidade mais significativa e uma nova visão do mundo, com maior clareza e sem preconceitos.

Uma questão em aberto

Podemos colocar de lado as complexidades do condicionamento e ver de forma muito mais simples a consciência espiritual obtida com a meditação.

Durante uma reflexão profunda, às vezes nos perguntamos o que somos. Nossa mente reflete sobre a questão fundamental a respeito do significado da consciência. A sensação contemplativa de que possuímos consciência é até hoje um mistério para nós. Da mesma forma que o físico questiona a origem da matéria, a mente reflexiva analisa a origem da consciência humana.

Entretanto, raramente temos essa sensação, porque estamos envolvidos com as ocupações do dia-a-dia, com as responsabilidades profissionais e com as tarefas que visam satisfazer as carências físicas e emocionais, tanto nossas quanto de outras pessoas. Gradualmente, a inspiração da consciência se desvanece, por não lhe darmos a devida atenção.

A meditação constitui uma técnica de auto-ajuda, um momento em que podemos manter contato com nossa própria consciência. Na meditação, podemos sair da superficialidade dos pensamentos da vida cotidiana e atingir o interior de nossas mentes; e, quando retornamos à nossa existência normal, ela passa a ser interpretada de forma diferente e adquire um novo significado.

A mente meditativa interrompe o processo de extroversão e deixa de ser atraída pelo mundo fenomênico, concentrando-se na consciência e criando uma nova perspectiva de vida.

Expandido o nível de consciência

Para muitos, a realidade percebida por meio dos cinco sentidos significa tudo, ou pelo menos é tratada como se assim o fosse. Assim como uma pessoa que viveu em um único lugar por toda a sua vida pensa ser aquele o único lugar no mundo, também acreditamos que nossa limitada percepção do mundo é completa.

A ciência nos mostra quão limitados são nossos sentidos. Apenas um pequeno espectro das vibrações luminosas que circundam nossa existência diária é percebido por nossos olhos e, da mesma forma, somente uma fração das ondas sonoras é captada por nossos ouvidos. Em suma, percebemos apenas uma parte da realidade – aquela que a ciência também consegue comprovar.

O mais surpreendente ainda é que, ao analisarmos o mundo perceptível, descobrimos, no nível das partículas subatômicas, uma realidade diferente da que vemos. O que vemos como matéria sólida é, em nível subatômico, um grupo de várias partículas movendo-se em alta velocidade, em grandes espaços vazios. E, para aumentar ainda mais o dilema, os físicos atuais explicam que não podem determinar se aquilo que denominamos de “partículas” possui qualquer “substância” verdadeira. Portanto, o que pensávamos ser tangível e passível de uma definição torna-se, num outro nível de análise, incompreensível, transformando nossa concepção e entendimento em algo absurdo.

Os diferentes comprimentos de ondas atestados por instrumentos sensíveis não eram de nosso conhecimento há pouco mais de um século. A Ciência está agora descobrindo essas ondas e aprendendo a utilizar esse novo conhecimento. Fica a critério de cada um especular o que a Ciência poderá descobrir no futuro. Mas o Tantra, há milhares de anos, já reconhecia a infinidade de vibrações existentes no universo e descrevia a criação como um processo de ondas de diferentes comprimentos em movimento.

A Ciência só consegue comprovar o comprimento das ondas da matéria e da energia física, enquanto o Tantra explica também a existência da mente e da energia psíquica como manifestações em forma de ondas. Aquilo que percebemos com os sentidos e a Ciência comprova com a ajuda de instrumentos, de acordo com o Tantra, é apenas um nível da realidade relativa, ou seja, o nível mais denso. Além da realidade física, há vários níveis mentais que não podem ser explorados com o uso de instrumentos físicos ou dos sentidos, mas que podem ser compreendidos com o uso de um instrumento mais sutil: a mente. A meditação é um meio para sintonizar a mente e direcioná-la para um plano superior, retirando-a da apreciação puramente física do mundo. Poderemos, então, apreciar os reinos mais sutis da existência e reconhecer a beleza mais profunda do mundo em que vivemos.

“A espiritualidade não é um ideal utópico, mas sim uma filosofia prática que pode ser aplicada e realizada na vida cotidiana. A espiritualidade prega a evolução e a elevação ao invés da superstição e do pessimismo”.

Shrii Shrii Anandamurti

Motivação ampliada

Por ser fundamentada na busca da essência da vida humana, a meditação não possui definição única, nem as pessoas que iniciam sua prática têm apenas uma motivação. A verdadeira meditação não está limitada à motivação inicial, seja ela qual for.

À medida que, através da meditação, a mente expande seus horizontes, a consciência é despertada e as razões iniciais se dissolvem, devido à gradual expansão do sentimento espiritual. Finalmente, descobrimos que aquilo que pensávamos ser as razões pessoais para a meditação, na realidade, era um reflexo do desejo de expressão da nossa natureza espiritual.

Uma visão histórica

A meditação é uma prática espiritual que vem se desenvolvendo há milhares de anos, tendo no Tantra suas raízes mais antigas. O Tantra foi difundido pelo Senhor Shiva, mestre espiritual, que viveu há 7.000 anos, na região entre as montanhas do Himalaia e o Norte da Índia.

Mesmo naquela época remota, o Tantra já era uma ciência completa da vida, cobrindo vários aspectos do desenvolvimento pessoal e social. Tal filosofia não estava restrita à meditação subjetiva, já que se estendia aos ramos da literatura, da arte, da dança e da medicina, constituindo uma abordagem holística da vida.

Ao longo dos anos, surgiram ramificações e adaptações do Tantra, que gradualmente formaram disciplinas mais especializadas, conhecidas como diferentes ramos do Yoga.

Yoga significa “união” e se refere à união da consciência individual com a Consciência Cósmica. Vários ramos de Yoga propõem a realização dessa união cósmica enfatizando determinados aspectos do Tantra, enquanto outros igualmente importantes são deixados de lado. As formas mais conhecidas de Yoga são as mencionadas a seguir.

JINANA YOGA: Literalmente significa “Yoga do Conhecimento”, que enfatiza o estudo e a abordagem filosófica para um despertar intelectual que conduza à realização do Absoluto.

KARMA YOGA: “Yoga da Ação” consiste em realizar ações voltadas para o serviço ao próximo, fazendo com que a mente se torne desapegada de sentimentos de autoria da ação, vaidade e expectativa de resultados e os entregue à Consciência Cósmica, que habita o íntimo de todas as coisas e seres.

BHAKTI YOGA: “Yoga da Devoção” cultiva a força atrativa de um amor genuíno pela Consciência Cósmica. Conduz o aspirante ao contato profundo com o Ser Adorado, de tal forma que a realização se torne possível.

HATHA YOGA: É uma abordagem com várias prescrições para o corpo, incluindo as posturas de Yoga, exercícios de respiração e outras técnicas purificadoras. O controle e a regularização das funções corporais ajudam a adquirir domínio da mente, para assim se atingir a meta individual.

RAJA YOGA: Também conhecida como Astaunga Yoga, ou Yoga dos Oito Passos, os quais são: 1) Yama e 2)Niyama (ética iogue); 3)Posturas de Yoga; 4)Controle da energia vital através da respiração; 5)Abstração das vibrações recebidas pelos sentidos; 6) Concentração, 7) Meditação e 8)Realização da meta (samádhii). Embora esse passos do Raja Yoga tenham sido praticados por iogues desde a época de Shiva, há milhares de anos, eles só foram sistematizados como Aforismos de Yoga, por Patanjali, cerca de 2.200 anos atrás.

A divisão do Tantra em áreas diferentes e especializadas fez com que ele deixasse de ser um modo de vida efetivo e completo. Diferentes escolas, ao se concentrarem em determinadas áreas, negligenciaram a sabedoria global do Tantra.

O que é meditação?

Muitas pessoas, erroneamente, acreditam que a meditação produz resultados instantâneos: pensam que basta se sentar e aguardar que o processo funcionará como um passe de mágica, encantando o meditador e levando-o a um mundo sem pensamentos, pleno de bem-aventurança, quietude e brilho. Quando essas experiências não acontecem nas primeiras semanas de meditação, os novos praticantes crêem que estão fazendo alguma coisa errada ou que a sua técnica é ineficaz. Conseqüentemente, devido a esse entendimento errôneo, eles interrompem a prática.

O que se deve esperar das primeiras semanas de meditação? “A mente é como um macaco enlouquecido por picadas de escorpiões”, disse o grande iogue Ramakrishna, e as pessoas que começam a meditar e tentam concentrar-se sabem que isto é verdade. Principalmente no começo, a mente é insubordinada e incontrolável. Quando você se senta para meditar, muitos pensamentos surgem e sua mente vagueia, por vários motivos: sons e ruídos externos desviam sua concentração, seu corpo não fica quieto e você finalmente se levanta pensando que nada aconteceu.

Mas algo mudou! Com a prática regular você desenvolve a capacidade de manter a mente firme. Assim como o corpo de um atleta adquire grande força física e vitalidade com o treinamento diário, a pessoa que medita com dedicação desenvolve força mental e capacidade para concentrar-se. Somente com o passar do tempo é que surge o estágio em que conseguimos verdadeiramente fixar nossa mente no objeto da meditação e permanecer nele - então, a verdadeira meditação é realizada.

Outra experiência intrigante para alguns é que a mente parece até mesmo mais instável após começarem a meditar. Surgem mais pensamentos do que antes, e isto leva as pessoas a pensarem que o processo não está sendo feito corretamente. O oposto é que é a verdade. A função da meditação é trabalhar o interior da mente e eliminar todas as reações de ações passadas, registradas em nosso subconsciente. É como limpar uma casa. No meio do processo, a casa pode parecer mais suja do que no início, mas perseverando e não desistindo no meio, conseguimos limpá-la. Da mesma forma, perseverando na meditação, a mente se purifica cada vez mais.

Meditação é o esforço para controlar e desenvolver a mente, a fim de realizar a verdadeira natureza do ser humano (Dharma). É o meio através do qual podemos desenvolver todo o nosso potencial em todos os níveis da existência: físico, mental e espiritual.

“A espiritualidade provê à humanidade uma força sutil e extraordinária à qual nada se compara. Assim, adotando a espiritualidade como base, deve-se desenvolver uma filosofia racional que possa solucionar os problemas físicos, psicológicos, sociais e filosóficos da vida cotidiana.”

Shrii Shrii Anandamurti


A Liberação da Mente Através do Tantra Yoga - Compilação dos ensinamentos do mestre indiano Shrii Shrii Ánandamúrti (P. R. Sarkar)