17/02/2010

DESEJO E DEVOÇÃO

No processo de evolução, no movimento do denso para o sutil, há uma tendência: o desejo de obter o objeto agradável com que se entra em contato. Você deve lembrar-se disto. Por exemplo, um homem que vive na cidade veste-se e mora de acordo com a vestimenta e moradias urbanas, e quando vive numa aldeia, sua roupa e sua casa são semelhantes às do povo da aldeia. Isso ocorre devido ao desejo despertado pela associação com as pessoas da cidade e das aldeias, respectivamente. Quando algumas pessoas tomam chá, você também tem o desejo de fazer o mesmo.
Nesse ciclo cósmico, (Brahmacakra), todas as pessoas têm seu desejo específico e individual, e todas elas estão em sua busca. Os que têm muitos desejos procuram satisfazê-los todos e assim ficam exaustos; e no final não satisfazem nenhum. Os que têm apenas um desejo o realizam muito facilmente. Portanto, ao invés de correr atrás de muitos objetos, corra à procura de Deus e segure-O, porque aqui há apenas um desejo. Quando há mais de um desejo a mente fica dividida e nada será obtido.
Os homens procuram satisfazer seus respectivos desejos, tanto devido a instinto inato como a sam'skáras impostos e, de acordo com o jogo de Prakrti (Energia Criativa), o homem tem muitos desejos. Ao correr atrás deles esquece Paramapurus'a, e assim,m o jogo (Liila) de Paramapurus'a prossegue. Quando cessa o movimento a seus desejos, os homens começam a se mover em direção ao Núcleo desses desejos.
O desejo cria prontidão para a ação. Em nenhuma circunstância deveria o homem se libertar do desejo; sem desejo haveria perturbação. Deve-se apenas observar o tipo de desejo. Onde não há desejo, a existência está aniquilada. Já que o desejo é indispensável para a existência humana, é preciso examinar que tipo de desejo se deve satisfazer.
Foi dito acima que quando o homem busca variedades, nada consegue. Às vezes pensa em se tornar ministro, às vezes secretário, às vezes, poeta. Há mil e um desejos. Por isso, o desejo não é satisfeito completamente. Ele fica exausto depois de buscar os desejos materiais e, por fim, não há sucesso na ação.
A verdadeira ação é mover-se em direção a Brahma (Entidade Suprema) e esta ação não é nada mais que uma forma de Brahma – é Sua metamorfose. Assim, tomando a ação como sendo Brahma prossiga executando ações. A ação que você fará neste estágio terá o desejo adequado por trás dela. E esse desejo será apenas um e não muitos. Em tal caso, haverá muito mais aceleração no processo de pratisaincara (evolução).
Como foi dito acima, quando o desejo é único, o trabalho será feito. Quando há muitos desejos, o trabalho não será absolutamente feito. Se alguém deseja tomar leite e fumar ao mesmo tempo, não consegue fazê-lo. Pode fazer apenas uma coisa ou outra. Assim, o desejo deve ser Paramapurus'a e nada mais; o desejo por outros objetos deve ser canalizado em direção a Paramapurus'a. Esse é o desejo correto; isso é liberação (mukti). O desejo correto para o homem é devoção.
Se o homem quer se tornar devoto do Senhor, mas no fundo de sua mente pensa que Deus o ajudará a passar em seu exame – o desejo não é um, mas dois. Quando alguma coisa é pedida a Deus, o desejo se torna duplo e o tempo será perdido. Quando esse desejo é somente em direção a Paramapurus'a, é conhecido como devoção:
“Eu quero Paramapurus'a e d'Ele não quero nada”.
Onde há devoção haverá sucesso na ação e vitória para os devotos. Esse mundo é para os devotos e para ninguém mais. Quando o desejo não é por Paramapurus'a mas por qualquer outra coisa, é conhecido como apego e não devoção. Portanto, o desejo correto é devoção.
Isso não quer dizer que o devoto apenas cantará bhajan e kiirtan. Esses não são devotos amadurecidos! O sádhaka que se move rapidamente no caminho da evolução, em direção a Paramapurus'a, nunca é alheio ao sofrimento de inúmeras pessoas ao seu redor, sofrimento esse devido à falta de um sistema social sólido de um sistema econômico sólido e de sentimentos humanos. Se ele é cego para a administração doentia do sistema social é porque não foi capaz de entender Paramapurus'a completamente. Agindo assim, seu enfoque é totalmente subjetivo, sem um ajustamento objetivo mas, quando um devoto se move em direção a Paramapurus'a,, seu enfoque é “ salvação pessoal e serviço à humanidade”. Ele se dirige a Paramapurus'a enquanto serve à humanidade. Quando a humanidade é negligenciada a “salvação pessoal” é também destruída. Portanto, o devoto deve estar sempre pronto para servir a humanidade. Sadhakas que não prestam serviço social não tem devoção real. Em sua devoção existe egoísmo. Os devotos que são egoístas não alcançam Deus. Assim, o desejo correto é devoção. Os devotos são trabalhadores. Eles nunca temerão o trabalho. Eles trabalharão ao máximo .
Porém, quando você for executar uma ação, terá que aprender a técnica de executá-la. Por isso, há necessidade de conhecimento. Os devotos verdadeiros não negligenciarão o karma (ação) e também adquirirão o conhecimento necessário para executar a verdadeira ação. Conhecimento e ação não podem levar um devoto a Paramapurus'a – a devoção pode. Para servir a humanidade e para ajustamento objetivo, o conhecimento e a ação são essenciais. Os devotos terão que aprender isso.
Quanto mais o homem se aproxima de Paramapurus'a, mais significante se torna sua vida.A existência de um homem com mente grosseira não é tão valorosa; a existência de germes e insetos não é tão valorosa, embora eles também tenham o sentimento de sua existência. A existência de cada um não tem o mesmo valor. À morte de um certo homem todos choram, mas à morte de um outro as pessoas se sentem aliviadas. Pela ação, pelo conhecimento e pela devoção, a existência passa a ter valor. Isto é apenas a verdadeira natureza prática. Quanto mais a existência de um homem se absorve em Paramapurus'a, mais valiosa ela se torna. A pessoa que não pratica o ajustamento objetivo e falha em ver os seres humanos como a Consciência Suprema, nunca atingirá Paramapurus'a, nunca poderá ser grande.
Devoção é a ponte que liga a unidade com a Consciência Cósmica. Antes de atravessar a ponte da devoção o sentimento é: “você é aquela Consciência Suprema”. Mas, enquanto se esta atravessando a ponte, sente-se “eu sou Ela”.
As pessoas que são egocêntricas não tem Paramapurus'a como objetivo. Externamente dizem que Paramapurus'a deve ser alcançado, mas em suas mentes interiores desejam outra coisa. Tais pessoas dizem, externamente, que Paramapurus'a deve ser alcançado, mas interiormente desejam fama ou riqueza; elas têm objetivo grosseiro por meta. O que a mente externa sente não é a meta do ser humano; o que mente interior diz é a meta. Se o objetivo da mente interior é um objeto grosseiro, a consciência se transformará em um objeto grosseiro. Isso é jada samádhi (samádhi grosseiro). Jada samádhi está muito abaixo da existência humana e é muito difícil de se libertar dele. Após milhões de anos, a vida humana é obtida. Veja, portanto, como é perigoso. Logo, com Paramapurus'a não tenha duas personalidades; por dentro uma coisa e por fora algo diferente. Seja o mesmo externamente e internamente, do contrário toda a sua estrutura mental, toda a sua matéria ectoplasmática será convertida no mundo material dos cinco fatores fundamentais.
Há também algumas pessoas que têm do desejo correto, mas não têm a orientação correta. Eles sabem que Paramapurus'a é o objetivo, mas não dispõem da verdadeira orientação. Diz-se que as práticas espirituais não devem ser feitas estudando-as em livros. Para elas, um preceptor é essencial. Se um homem começa a fazer sádhana pela leitura de livro ou escutando os outros, isso também é perigoso porque, nesse caso, uma concepção clara sobre o objetivo não é formada. Assim, a pessoa não sabe onde está indo. O barco está navegando, mas o marinheiro não sabe para onde vai o barco. Nessa longa jornada, o marinheiro ficará exausto e terminará sofrendo algum acidente.
Nesse caso, quando tais pessoas morrem, o estado depois da morte é conhecido como “videhillina”(mente sem corpo). Suas existências não terminam aí; seus sentimentos permanecem abstratos, no mundo das idéias. Isto é tão perigoso como jada samádhi(samádhi grosseiro). A diferença entre jada é que no primeiro está a insensatez devido ao desejo escondido, enquanto que no último não há insensatez e sim falta de uma direção correta.
Por isso, todos deveriam saber que sem direção nada pode ser feito. Tudo deve ser feito com direção apropriada, orientação correta. Grita-se alto: "revolução, revolução!" – mas revolução não significa pôr fogo em ônibus e trens ou arrancar linhas de trem. Isso causa um prejuízo ao governo, mas o governo pertence ao povo. Portanto, isso prejudica o próprio povo. Tudo isso são meios destrutivos.
Igualmente se um erro for cometido na sádhana, é devido à falta de conhecimento. Por causa disto, tanto o indivíduo quanto a sociedade são prejudicados. Isso é videhiliina, videhiliina ocorre com certeza se não há amor por Paramapurus'a.
O sádhaka que tem amor por Paramapurus'a, capacidade de ação e conhecimento e que realiza sádhana à humanidade, pode ter muita ideação cósmica e ainda assim sentir dualidade entre si e Paramapurus'a. Então, ele gozará a bem aventurança e ficará livre, temporariamente, das misérias. Esse estado de bem aventurança é bháva samádhi (êxtase ideativo). Quem alcança bháva samádhi é devoto, mas a dualidade ainda existe. Todos nascem de Paramapurus'a, então, como pode haver dois – o devoto e Paramapurus'a? Por isso em bháva samádhi o estado mais elevado não é alcançado. Enquanto a mente estiver em bháva samádhi há bem aventurança, mas, depois, o aspirante é um ser comum outra vez.
Alguns devotos vão muito além e sentem a unidade com Ele; mas, ao invés de amar o próprio Paramapurus'a, pensam mais em suas qualidades (gúnas); em tal caso eles alcançam o êxtase das qualidades. Nesse caso, os devotos também adquirem muitas qualidades, mas a unificação permanente com Paramapurus'a não é conseguida. O que acontece no êxtase das qualidades é que o devoto tem muito mais o sentimento das qualidades. Alem disso, ele pensa que sua vinda a esse universo deve ser justificada. Ele quer justificar seu corpo, sua mente, alma e toda a vida. Esses são sentimentos sutis, na verdade – mas esses devotos também não são amadurecidos!
O indivíduo deve ter a sensação de que o corpo e a mente, os quais foram dados por Paramapurus'a, serão utilizado no serviço à sociedade para agradar Paramapurus'a. Os que agradam Paramapurus'a são devotos. Sua própria natureza é dar prazer a Paramapurus'a. Os devotos de primeira ordem não desejam o êxtase das qualidades. Eles querem utilizar seus corpos, suas mentes e suas qualidades a serviço da humanidade, porque tudo pertence a Paramapurus'a. Ele se expressou em muitos objetos do universo, mesmo na folha da grama. O devoto servirá o universo porque isso dá prazer a Paramapurus'a.
Os que utilizam a si mesmos integralmente para agradar Paramapurusa são devotos classe A. Somente eles são devotos, os outros não. Quando o único fim é dar prazer a Paramapurus'a, o devoto esquece completamente de si mesmo, pois egocentrismo é agradar a si mesmo. No êxtase das qualidades, esse sentido de egocentrismo ainda existe. Mas, onde não há desejo pessoal e o único objetivo é agradar Paramapurus'a, o egocentrismo não existe em absoluto. E na ausência do egocentrismo ocorre a fusão final da existência. Com a extinção da existência, a Consciência Absoluta é estabelecida. Tudo é feito para alegria de Shiva, de Paramapurus'a. Esse estabelecimento da consciência de Shiva é conhecido como Shiva samádhi. A meta Suprema da vida é Shiva Samádhi. As pessoas se estabelecem em Shiva Samádhi através de Sádhana e do serviço à humanidade. Não há outro modo.
Pode-se perguntar como um analfabeto ou um homem fraco realizará a ação e adquirirá conhecimento. Há apenas uma resposta para isso. Se alguém é devoto, então , Paramapurus'a lhe ensinará a técnica de prestação de serviço.
Devoção é a forma de Bem Aventurança. Devoção é a vida do devoto. Devoção é serviço a Deus; devoção é dar prazer a Deus e não dar prazer a qualquer ser mundano. Devoção é amor personificado.
O homem que não tem compaixão, o homem que não derrama lágrimas pela miséria alheia, não é um homem, mas sim, uma pedra. Ele não pode fazer nenhum grande trabalho. Fique feliz com a felicidade alheia e preocupado com os problemas alheios. Somente isto é natural. Não seja antinatural. O esforço para tratar os outros como a si mesmo culmina no amor pelo Senhor – devoção é amor por Deus personificado.
A devoção é o êxtase da bem aventurança, o oceano de bem aventurança. E somente a devoção é vida para o devoto. A maior agressão aos devotos é tirar sua devoção. Nunca tente tirar a devoção dos devotos, pois ela é sua vida. O próprio Paramapurus'a ensinará o conhecimento e a técnica de fazer trabalho. Isso não é dor de cabeça dos devotos. Entregue tudo ao Senhor. Porque o homem não foi capaz de resolver seus problemas por seus próprios esforços, nem será capaz de fazê-lo, ainda assim, o devoto não deve se perturbar. Se alguém precisa de pedir alguma coisa a Deus, deve pedir apenas devoção absoluta. Quando a devoção é alcançada, Deus é realizado. Se Deus é realizado, tudo é conseguido. O que permanece inatingível?!...
Portanto, desde eras passadas as pessoas eruditas têm admitido que o homem mais sábio do mundo é o devoto. O devoto não está despojado de intelecto. Pelo contrário, ele é o mais sábio. Se você quer permanecer no mundo, permaneça como um devoto. Enquanto não houver devoção, seu coração é como um deserto; e quando a devoção é alcançada, um oásis aparece no deserto.
Você não tem que temer coisa alguma quando a devoção está com você. Não há nada que temer quando Paramapurus'a está com você. Quando há devoção, Paramapurus'a está presente. E quando Ele está aí, não tema ninguém. Em nenhum caso você deve se sentir perturbado.
Você deve lembrar que é a criação singular de Paramapurus'a. E lembrando-se disto, aprendizado, intelecto ou dinheiro não são de todo necessários. Peça e você obterá o tesouro mais barato, porém o mais inestimável.
Por isso, seja um devoto e estabeleça sua Ideologia. Se a devoção está com você, você estabelecerá sua Ideologia, qualquer que seja seu desejo e qualquer que seja o modo de desejar. Os que não têm devoção continuarão pestanejando e nunca poderão fazer qualquer coisa contra você.
Aquilo que torna a mente suave, forte e vigorosa, para que ela possa manter-se num estado equilibrado mesmo quando há dor, aquilo que cria perpetuamente um sentimento interior agradável é chamado amor. Devoção é idêntica ao amor. No momento em que a devoção é despertada surge o amor de Deus.
A Graça de Bábá - Shrii Shrii Ánandamurtijii