14/10/2010

Várias Formas de Exploração

Shrii Prabhat Ranjan Sarkar

19 de Agosto de 1980, Calcutá/Índia

Frequentemente as pessoas dizem que um indivíduo ou uma comunidade de pessoas em particular são duramente explorados. O que elas querem dizer com “explorados” é o seguinte: essas pessoas estão sendo exploradas na esfera econômica. Entretanto, se nos aprofundarmos no assunto, descobriremos que a exploração não tem ocorrido apenas na esfera econômica, mas também em outras esferas da existência humana – em diferentes formas e sob vários pretextos. Quando há exploração na esfera física, ela não é necessariamente de natureza econômica em todos os casos; frequentemente ela é [de natureza] social, e em muitos casos, indiretamente social. Por exemplo: em um certo estágio, [pessoas com] interesses escusos injetam complexos na mente do povo e, num estágio muito posterior, aproveitam-se de tais complexos psíquicos. Neste momento, a exploração pode muito bem ser física, em vez de econômica. Mas no fim das contas, essa exploração física é tão boa ou tão ruim quanto a exploração econômica.

Na primeira fase, a exploração no nível psíquico é, na maioria das vezes, perpetrada ou mantida através de dogmas. Esses dogmas são também os arautos da exploração econômica ou social. Algumas vezes a exploração na esfera espiritual também é perpetrada através de algum tipo de dogma. Na esfera espiritual, como também na esfera física, os exploradores, com o auxílio de dogmas, criam complexos de inferioridade ou de superioridade nas mentes das pessoas, e posteriormente executam a exploração econômica ou social. Quando a exploração na esfera física é de caráter diretamente econômico, até mesmo as pessoas comuns conseguem facilmente entendê-la, e não precisam se esforçar muito para compreendê-la. Isto é porque no caso da exploração econômica as pessoas exploradas podem facilmente entender quem são os exploradores. Mas no caso da exploração em outras esferas sociais, as pessoas exploradas não estão nem mesmo cientes de que estão sendo exploradas. É por isso que é fácil explorá-las na esfera social, e então criar complexos de inferioridade em suas mentes para mantê-las sob uma dominação administrativa prolongada, perpetuando a exploração. Isto é facilmente conseguido por exploradores astuciosos. E a tragédia é que a massa explorada não tenta compreender – ela não consegue entender, e até mesmo se recusa a entender – que está sendo vítima de exploração. Portanto, isto é mais perigoso.

Quando a exploração acontece diretamente no nível econômico, as pessoas podem facilmente entendê-la; mas quando a exploração é perpetrada nas esferas socioeconômica ou psicoeconômica, a situação torna-se complicada. No caso da exploração na esfera socioeconômica, as pessoas fazem um burburinho contra a exploração social, mas não conseguem se dar conta da exploração econômica que é o resultado final de tal exploração socioeconômica. E no caso da exploração psicoeconômica, as pessoas sentem-se um pouco incomodadas por estarem sendo suprimidas do ponto-de-vista psíquico, mas elas não ficam cientes de que o resultado final também é uma exploração econômica.

Atualmente em todo o mundo as pessoas têm uma consciência econômica maior do que antes – e é por isso que os exploradores ardilosos recorreram seja ao caminho da exploração socioeconômica, seja ao da exploração psicoeconômica. Os exploradores colocaram a sua armadilha sobre uma grande área, esperando fazer uma farta colheita. Eu não vou discutir tudo isto aqui em mais detalhes, porque na verdade tenho em mente escrever um livro sobre este assunto no futuro. [Subsequentemente, P. R. Sarkar escreveu “A Liberação do Intelecto: Neo-humanismo”.] [1]

No que se refere à esfera psíquica, eu posso dizer o seguinte: podem haver numerosos modos de exploração na esfera psíquica, e para compreendê-los todos, as pessoas deverão ser mais educadas e mais inteligentes. No que se refere à esfera social, os exploradores deliberadamente confudem a exploração social na esfera psíquica com a espiritualidade, e assim preparam o caminho para uma exploração prolongada. Foi assim que os dogmas surgiram no passado, e mesmo nos dias atuais esses dogmas ainda estão sendo utilizados. A Ananda Marga, pela primeira vez, está fazendo o máximo esforço para estabelecer a espiritualidade pura contra os dogmas. Aqueles que se apoiaram intensamente nos dogmas até aqui estão fazendo um monte de barulho e de gritaria contra a Ananda Marga. Eles sentem que os seus dias de exploração estão acabados, e que as pessoas não querem mais viver em um paraíso de tolos.

Será impossível estabelecer a espiritualidade genuína até que a massa de pessoas comuns sejam ensinadas a erguerem suas cabeças contra os dogmas. Por um lado, há um dito que diz que “Onde a ciência termina, a filosofia começa”, e por outro lado há outro dito que diz que “Onde a filosofia termina, a fé começa”. Isto é um absurdo total. Um dos tesouros mais valiosos da humanidade é o intelecto. Quando as pessoas são aconselhadas a deixarem de seguir o caminho da lógica e da razão, isto significa que os interesses escusos saíram para comprar a inteligência humana que está engajada na luta contra os dogmas.

Não vai ser suficiente simplesmente dizer “Não faça isso – será um pecado fazê-lo.” Se vocês disserem “Não faça isso”, vocês terão de explicar por que a pessoa não deve fazer isso. Similarmente, se vocês disserem “Faça isso”, vocês também deveriam explicar por que a pessoa deveria fazer isso. Através do movimento para a liberação do intelecto humano, através do esforço para a liberação do intelecto humano, os seres humanos acabam firmando-se na espiritualidade. A falta desse esforço faz com que os seres humanos tornem-se sectários, e o resultado são feudos em nome de uma religião.

Eu já disse que a Ananda Marga é o primeiro movimento destinado a liberar a espiritualidade das influências nocivas dos dogmas. Portanto, vocês não devem encorajar dogmas de maneira alguma. Em vez disso, vocês deveriam promover uma guerra incansável contra os dogmas. E enquanto lutam contra os dogmas, vocês irão perceber a verdade de fato, e quando vocês entrarem em contato com a verdade, vocês irão estabelecer-se na espiritualidade real. Lembrem-se: vocês têm que estabelecer-se na espiritualidade real, porque somente na espiritualidade está a mais elevada satisfação e realização da vida humana. De outro modo, mal existe alguma diferença entre seres humanos e animais. Que os seres humanos não são animais – esta é a verdade suprema e a realidade suprema. Portanto, os seres humanos têm que estabelecer-se na excelência humana e promover uma luta sem tréguas contra os dogmas.

Os aspirantes espirituais – aquelas pessoas que amam a espiritualidade, que têm uma preocupação genuína por ela, e que desejam seguir o caminho da humanidade real – não devem ficar estáticos, não devem ficar inertes. Em vez disso, eles devem ser muito ativos, firmes e habilidosos em seus trabalhos. Em resumo, eles devem ser Karma Yogis de verdade. A não ser que uma pessoa seja um Karma Yogi, ela não poderá estabelecer-se na devoção, ela não poderá ser um Bhakti Yogi. E a não ser que uma pessoa esteja primeiro enraizada no culto da devoção, a não ser que ela seja um Bhakti Yogi de verdade, ela não poderá alcançar a comunhão mais íntima com Parama Puruśa.

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Título Original: “Various Forms of Exploitation”

Tradução: Os primeiros quatro parágrafos já estavam traduzidos como parte do livro “Os Pensamentos de P. R. Sarkar” (algumas frases que haviam sido omitidas foram incluídas aqui, e foi feita uma revisão, com algumas modificações). Os parágrafos restantes foram traduzidos por: Mahesh – Florianópolis: janeiro-agosto de 2009; 12 de outubro de 2010.

Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês).

Publicado em: Prout in a Nutshell Volume 4 Part 18 [uma compilação]

(Obra ainda não publicada no Brasil.)