27/03/2011

ASTEYA


Paradravyá Paharan’otya Go’steyam’

Não se apossar do que pertence aos outros é Asteya. Isto quer dizer não roubar. Há quatro tipos de roubo:
  1. Roubo físico de qualquer objeto. Costuma-se chamar de ladrão aquele que rouba objetos materiais. Porém, não é verdade que somente as pessoas que fogem com objetos roubados ou escapam com o saque depois de terem cometido roubo à mão armada são chamadas de ladrões. Pelo uso da força bruta, de armas ou da força do intelecto, qualquer coisa tomada, seja dinheiro seja outro bem, é considerada roubo, porque nestes atos existe a intenção de se apropriar de coisas alheias, enganando os outros. Contudo, aceitar bens em troca de dinheiro, ou qualquer outra coisa, por meios legais, não é roubo (ex. terra em troca de dinheiro, dinheiro em troca de comida etc.).
  2. O segundo tipo de roubo é aquele em que você não se apossou de qualquer objeto material ou propriedade, porém o planejou mentalmente. Portanto, isso é considerado roubo porque a pessoa interiormente cometeu o roubo. O medo da lei ou das críticas o impediram de executar a ação fisicamente.
  3. Pode acontecer de você não ter se apossado do que pertence a outros, porém os privou daquilo que lhes é devido, e assim, se tornou responsável por sua perda. Isto também é roubo.
  4. Se você não despojar ninguém do que lhe é justamente devido, porém, planejá-lo mentalmente, isto também é considerado roubo.
Algumas explicações são necessárias a respeito do terceiro e do quarto tipos de roubo mencionados acima.
Você deve ter reparado que muitas pessoas educadas viajam diariamente de trem sem comprar a passagem. Elas não roubam dinheiro diretamente da administração ferroviária, porém elas a estão despojando do que lhe é devido. Pensando um pouquinho, torna-se claro que, entre os passageiros e a administração ferroviária, há uma relação de troca; portanto, a viagem de trem sem passagem é roubo dos tipos 3 e 4. Aqueles que viajam de trem desfrutam dos serviços da administração ferroviária. Comprando as passagens, eles pagam por este serviço e, por conseguinte, a administração não se deve vangloriar de estar prestando serviço social. Se a ferrovia não foi construída para prestar serviços gratuitos, o não pagamento da passagem é roubo. Pense bem: que tipo de cidadão é aquele que comete roubo de alguns centavos? No entanto, as pessoas desse gênero entregam-se a todos os tipos de conversas para se vangloriar e criticar livremente os líderes, acusando-os de corrupção ou nepotismo. Quando suas falhas são apontadas, alegam: “É difícil viver no mundo com uma moralidade tão rigorosa; os que dirigem a administração dessa maneira devem ser tratados assim; esse meu roubo é justificado”. Missionários ou ascetas que levam uma mensagem divina ou líderes políticos que têm o nobre propósito de fazer o melhor pela pátria são vistos, muitas vezes, comprazendo-se em viajar sem passagem. São coisas que acontecem diariamente. Subornar empregados do governo para desviar imposto de renda e outras taxas, ou cobrar do passageiro o preço de uma passagem de classe superior àquela em que ele viajou, tudo isso é roubar. Não é somente roubo, mas também vileza.
Todas estas tendências ao roubo são contrárias ao código de Asteya. Em muitos casos, mesmo os homens sábios agem conscientemente contra o princípio de Asteya ou se recusam a considerar os pequenos roubos como uma quebra do código. Uma vez, um empregado da rede ferroviária perguntou-me por que tinha comprado uma passagem inteira para meu sobrinho de 13 anos, quando bastaria dizer que o mesmo tinha 12 anos e teria viajado com meia passagem.
Existem moralistas que não querem enganar indivíduo algum, porém, não vêem nada de errado em enganar os ricos ou o governo. Muitos lojistas venderiam mercadorias falsificadas aos fregueses, porém, aos amigos e convidados forneceriam ou venderiam a boa. É preciso lembrar que todas as ações baseadas nessa psicologia são contra Asteya. A maneira mais fácil de praticar Asteya, como no caso de todos os outros princípios de Yama e Niyama, é a “auto-sugestão”. Se uma pessoa desde a infância lembra-se deste código e aplica a si mesma o que é correto, ela será capaz de manter um alto padrão de pensamento e caráter.
                          Shrii Shrii Ánandamúrti - Um Guia para a Conduta Humana.

SATYA


Parahitártham’ Váu Namanoso Yathárthat Vam’ Satyam

Satya significa ação da mente e uso das palavras com o espírito de proporcionar o bem-estar social. Não há sinônimo em português. A palavra “verdadeiro” ou “verdade” seria traduzida em sânscrito como: “Rta” (afirmar um fato). O Sádhaká não é solicitado a seguir o caminho de “Rta”. Ele deve praticar Satya. O aspecto prático de Satya é Parama Brahma, a Suprema Entidade Espiritual. Eis porque, freqüentemente, Brahma é chamado de “Essência de Satya”.

Satyam’ Jinánamantám’ Brahma

Mesmo que o objetivo do Sádhaka seja alcançar essa Entidade Suprema, enquanto se esforça para alcançá-la, deve lidar com a relatividade do ambiente. O homem é um ser racional, ele possui, em diversos níveis, a capacidade de fazer o que é necessário ou o que é bom para a humanidade. No reino da espiritualidade, tal pensamento, palavra ou ação é definido como Satya.
Por exemplo, uma pessoa recorre a você para refugiar-se e você não sabe se ela é culpada ou inocente, ou não tem dúvida em relação à sua inocência. Ela é perseguida por um malfeitor que quer maltratá-la. Se esta pessoa atemorizada procurasse refúgio em sua casa e o desordeiro perguntasse onde ela se encontrava, o que você faria? Aderindo a “Rta”, ou verdade, você deveria informá-lo do paradeiro da pessoa. Caso houvesse homicídio, não seria correto considerá-lo responsável pelo mesmo? Poderia ser que o seu erro resultasse na morte de um inocente. Aderindo a “Rta”, você se tornaria indiretamente culpado por um crime abominável. Mas qual deveria ser o seu dever para que Satya fosse interpretado corretamente? O seu dever seria o de não informar o paradeiro da pessoa e despistar o agressor em benefício do refugiado, para que este pudesse ir embora com segurança.
Vamos supor que sua mãe esteja comendo. Você recebe uma carta informando a morte de seu avô materno. Se sua mãe lhe perguntar a respeito da carta, que resposta você lhe daria? Se você aderir à “verdade”, vai informá-la da morte de seu pai, o que causaria um grande choque aos seus sentimentos e ela não poderia concluir sua refeição. Seria preferível, neste caso, dizer que tudo vai bem com a família. Depois de ela ter terminado de comer, poderia dizer que seu pai está doente, o que prepararia o terreno para sua mãe suportar a notícia do infortúnio. Assim, mesmo que a verdade não fosse dita, a dignidade de Satya seria preservada.

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