23/06/2011

BRAHMACARYA

Brahma Vicarana’na’m Brahmacaryam”.
O significado correto de Brahmacarya é permanecer conectado a Brahma.

Sempre que uma pessoa faz um trabalho, ou pensa em fazê-lo, considera o objeto com o qual entra em contato como uma entidade finita. Devido à constante aspiração por ganhos materiais, a mente é tão absorvida pelos objetos materiais que a sua consciência torna-se densa. O significado da prática de Brahmacarya Sádhaná é o de considerar os objetos com os quais a pessoa entra em contato como diferentes expressões de Brahma, e não como formas materiais. Por esta concepção, mesmo que a mente vagueie de um objeto a outro, ela não se afasta de Brahma porque extrai sentimentos cósmicos de cada objeto. Como resultado disso, Preya Sádhaná (enfoque extrovertido) é convertido em Shreya Sádhaná (enfoque introvertido) e Kama converte-se em Prema (Preya quer dizer atração pelos objetos materiais, enquanto Shreya quer dizer atração pela realidade derradeira. Kama quer dizer desejo pelos objetos finitos e Prema desejo pelo infinito).
Muitos interpretam erradamente Brahmacarya como sendo a preservação de sêmen. Deveria ser lembrado que nenhuma das duas palavras “Brahma” e “Carya” tem relação com a palavra sêmen. Além do mais, mesmo fisiologicamente, a preservação do sêmen é um blefe. Seja por causa de doenças em certas glândulas seja por outros processos similares, a menos que alguém se torne mutilado, não será possível observar esse tipo de Brahmacarya.
Sem dúvida é certo que, se o significado natural da palavra Brahmacarya (isto é, sentir a Entidade Cósmica em todos os objetos materiais) é aceito, o controle na vida do homem se torna essencial, porém, este controle não implica infligir as leis da natureza. O controle significaria seguir as leis da natureza de forma apropriada. A prevenção da perda seminal por algumas medidas apropriadas, ou a prevenção da formação de excedente através do jejum é, em geral e erradamente, denominada de Brahmacarya.
Mas, para aqueles que não são casados, este suposto Brahmacarya, (que na verdade não é Brahmacarya), tem importância, porque reduz a possibilidade de excitação sexual e, assim, previne a perda seminal, que pode ocorrer devido à excitação enquanto acordado, dormindo ou sonhando. Isto ocorreria porque, quando não há excesso de sêmen, não surge o desejo físico para despendê-lo. Posteriores considerações mostrarão, contudo, o quanto vale este suposto Brahmacarya. Não seriam a mesma coisa prevenir a formação de sêmen em excesso e a perder o excesso? Tudo o que deve ser dito é que a primeira alternativa é boa para os solteiros e a segunda para os casados.
As pessoas que, por diferentes métodos repressivos, tentam prevenir a perda de sêmen, na verdade, sofrem reações físicas e mentais negativas. Seus corpos se desenvolvem grosseiramente e falta-lhes vivacidade. A supressão do desejo sexual dá origem a outros desejos, especialmente a raiva, sob uma forma mais terrível. Em tempos muito antigos, apenas o sentido autêntico de Brahmacarya era aceito. Mais tarde, quando a sociedade foi dominada pelos intelectuais, a “intelligentsia”, os assim-chamados monges que tinham se dedicado à exploração, pensaram que, se fosse permitido a um cidadão comum dedicar-se às práticas espirituais, eles perderiam a qualquer momento o esquema de exploração, ao qual estavam apegados. Eles pensavam: “Se o homem comum for inspirado por ideais espirituais, sua racionalidade crescerá cada vez mais. Por isso, o povo deve ser mantido desamparado e indefeso. O medo e o complexo de inferioridade devem ser infundidos no homem para explorá-lo.” Eles sabiam que esta massa explorada consistia de gente comum, cuja maioria era de pessoas casadas. Se portanto, a perda de sêmen fosse declarada anti-religiosa, eles conseguiriam sua meta sem dificuldade. O intento foi imediatamente alcançado. O homem comum começou a pensar que, ao levar a vida de casado, cometia um grave erro, um pecado abominável, entregando-se a atividades contra Brahmacarya. Os monges observavam o celibato e se tornaram, portanto, muito superiores. Os assim-chamados reclusos aproveitavam-se da situação e exploravam a sociedade sem dificuldade.
Se esses monges são realmente Naesthika Brahmacariis (aqueles que não perdem nenhum sêmen), isto não pode ser decidido por argumentos. Isto só poderia ser decidido por um exame médico. Pode-se dizer, sem a menor dúvida, que muitos desses monges não passariam por esse exame.
O casamento é uma função natural, como tomar banho, comer, dormir etc. Portanto, nada há de condenável nele, nem ele é contra o Dharma. Uma vez que um homem honrado ou um Sádhaka elevado não está proibido de comer, não há qualquer razão para ele evitar o matrimônio. Porém, é preciso um controle adequado sobre o comer e o dormir, aliás, sobre cada passo da vida. A falta desse controle leva a doenças. A comida é necessária para a vida; porém, comer sem controle causa indigestão. O banho é refrescante, porém, a falta de controle do banho, isto é, o banho muito prolongado pode acarretar resfriado. Do mesmo modo, o casamento é útil, porém, a vida de casado sem controle pode causar doenças ao corpo e à mente.
O matrimônio é um pouco diferente das outras funções naturais da vida, tais como comer, dormir etc. O matrimônio não é tão essencial à vida como o comer e o dormir. A necessidade do casamento varia de acordo com o indivíduo. Por isso, segundo a opinião da Ananda Marga, cada indivíduo tem liberdade completa no que concerne ao casamento. Por exemplo, o casamento de pessoas que sofrem de doenças físicas ou mentais, ou as que não estão bem de finanças, ou que se acham em circunstâncias não favoráveis ao casamento (ou seja, se o casamento puder causar infelicidade), não é desejável. Aqueles que estão constantemente comprometidos no cumprimento de um ideal ou aqueles que têm de passar a maior parte do dia ganhando a própria subsistência ou com outras ocupações mentais, não deveriam se casar, porque eles não poderiam cumprir seus deveres familiares adequadamente. O casamento de tais pessoas é nocivo à sociedade em muitos casos.
Embora o casamento não seja recomendável àqueles que têm certas doenças, ou que estejam em condições pessoais desfavoráveis ao casamento, existe a possibilidade de eles se entregarem a vícios velados, devido ao fato de não serem casados. Para evitar essa possibilidade, eles devem se esforçar para atingir um ideal elevado ou se engajar em práticas espirituais laboriosas [serviço social]. A degeneração psicológica resultante da supressão das tendências naturais pode ser evitada apenas com o esforço para realizar um ideal elevado.
Foi dito anteriormente e continuo a repetir que o homem deve exercer o autocontrole em cada aspecto da vida, seja ele grande ou pequeno. Este controle não implica suprimir o desejo, mas sim controlá-lo. Desejos e tendências são atributos naturais dos seres humanos. Portanto, para aqueles que desejam suprimir os desejos, melhor seria adotar um método mais fácil, ou seja, o suicídio, ao invés de buscar práticas espirituais difíceis. Eu não vejo nenhuma razão que justifique o suposto Brahmacarya adotado por shaevas, shaktas, vaesnavas, ou aqueles que acreditam nas Puranas, porque seu Deus — Shiva, Visnu, Krs’n’a e outros mais — eram pessoas comuns. As Puranas mencionam os nomes de suas esposas e seus respectivos filhos.
O Dharma é baseado em Satya. Dharma Sahna Yatra na Satyamasti”. “Onde não há Satya não há Dharma”.
A interpretação errônea de Brahmacarya pode conter qualquer coisa, exceto Satya. Portanto, não há Dharma ou Brahma nela.
O homem deve progredir ao máximo, aceitando o que é simplesmente a verdade. Este é o caminho de um Sádhaka; este é o caminho de Dharma. Pode ser um privilégio dos profissionais religiosos parasitas negar o que é simplesmente a verdade na vida prática, porém, nesse caso a santidade de Dharma não é mantida. Não é o caminho de Satya; é o que se chama de hipocrisia.
                                      Shrii Shrii Ánandamúrti - Um Guia para a Conduta Humana