26/12/2012

Os Cinco Tipos de Consciência - Viveka



Shrii Shrii Anandamurti
DMC, 16 de Dezembro de 1957, Begusarai/India.

Viveka (consciência)1 é um gênero especial de deliberação. A deliberação (vicára) é o empenho de selecionar-se uma idéia particular dentre várias idéias. Se uma pessoa em particular for apresentada a você como sendo um criminoso, então existem duas idéias opostas perante você: a culpa do homem ou a sua inocência. O processo pelo qual chega-se a uma conclusão após deliberar sobre essas duas idéias opostas é chamado de vicára. Quando você finalmente toma a sua decisão, isto é chamado de siddhánta (conclusão).
A consciência (viveka) é definida como um tipo especial de vicára (deliberação). A denotação de vicára é mais ampla do que a de viveka. Um ladrão, ao entrar na casa da sua vítima, considera se seria melhor começar roubando a sala de jantar ou a sala de estar. Isto é um tipo de deliberação – após a qual o ladrão chega à sua conclusão. Esta deliberação é vicára, mas não viveka.

         
Figura 1: Um esquema para representar a relação entre vicára, viveka e siddhánta2.

Viveka é aquele gênero de deliberação em que há um empenho consciente de tomar-se uma decisão em favor de shreya (benevolência) quando se está confrontado com as duas idéias opostas de shreya e preya (malevolência). Existem cinco tipos de viveka, e o nome coletivo deles é viveka paincaka.

Nityánitya viveka

O primeiro tipo é nityánitya viveka (a discriminação entre o permanente e o impermanente). Sempre que uma pessoa inteligente pondera sobre alguma coisa, ele ou ela discerne os seus dois aspectos: o permanente e o impermanente. A tentativa de aceitar o aspecto permanente depois de uma deliberação apropriada é chamada de nityánitya viveka. O permanente não depende dos fatores relativos de tempo, espaço e pessoa, enquanto que o impermanente é a coletividade desses fatores relativos. A melhor maneira de reconhecer algo impermanente é que, se um dos três fatores relativos for mudado, aquilo irá sofrer uma transformação imediata. Nityánitya viveka capacita os seres humanos a entenderem a necessidade de seguirem o dharma3.
Ela os ajuda a compreenderem as diferenças fundamentais entre dharma e religião, ou doutrina. Religião é algo inteiramente relativo, enquanto que dharma é uma verdade permanente.
A primeira característica da religião é que ela dá importância excessiva a um único indivíduo. Diferentes religiões afirmam que tal e tal grande personalidade (mahápurusa) é um filho de Deus, um profeta, ou até o próprio Deus. Não importa quão grandes essas pessoas possam ter sido – ainda assim elas são mortais.
Existem também algumas pessoas que afirmam que os proponentes de outras religiões não chegaram tão próximo de Deus quanto o proponente da religião delas. Essas palavras não são apenas irracionais, mas contêm uma tentativa oculta de fazer com que o impermanente pareça ou torne-se permanente. Dharma é uma verdade eterna que se pode conceber, e que não depende de qualquer indivíduo, profeta ou avatára (descendente direto de Deus) para a sua consolidação. O objetivo do dharma é atingir-se Brahma4; a sua base e o seu movimento são centrados em Brahma. Brahma é a Entidade Absoluta – a qual independe de tempo, espaço e pessoa. Ela é permanente. A sádhaná5 de Brahma é, portanto, a sádhaná para alcançar-se a entidade permanente.
Através de nityánitya viveka os seres humanos ficam cientes da natureza fugaz dos objetos transitórios. Eles observam que com mudanças de tempo, espaço e pessoa ocorrem mudanças correspondentes na sociedade, na política, na economia e em todas as outras esferas da vida, às quais eles têm de se adaptar. Aqueles que relutam em adaptar-se às circunstâncias modificadas estão fadados à destruição. Uma religião ou um “ismo” é criado em uma certa época, sendo em si mesma um produto dos três fatores de tempo, lugar e pessoa.
Contudo, a religião não reconhece a necessidade de ajustamento com as mudanças na vida social. Ela se recusa a entender que as velhas regras e regulações da época anterior são agora apenas registros históricos que perderam a sua relevância na sociedade dinâmica atual.
Para enrijecer o progresso da humanidade, os seguidores dessas religiões mexem com os sentimentos humanos e outras fraquezas. Eles almejam perpetuar o domínio de interesses escusos pela infusão de complexos de inferioridade na mente humana. Enquanto pregam suas idéias religiosas, alguns afirmam que os seus sistemas sociais, econômicos e políticos foram criações diretas de Deus – e que, portanto, estão destinadas a serem seguidas em todas as épocas e em todos os tempos com igual veneração. Eles asseveram que aqueles que recusarem-se a seguir esse decreto divino serão condenados a queimarem no calor ardente da ira de Deus, ou serão amaldiçoados a sofrerem no fogo do inferno pela eternidade. Para impedir que as pessoas tenham a chance de verificarem a racionalidade de diferentes escrituras, eles declaram que tais e tais escrituras são infalíveis e que, portanto, ninguém tem o direito de questionar a sua veracidade. Se os textos filosóficos contradisserem as escrituras, então os proponentes dos mesmos serão declarados como ateístas.
Vê-se assim que, na ausência de nityánitya viveka, os proponentes das religiões querem deter o progresso intelectual da sociedade humana em geral. Eles conscientemente recusam-se a entender que qualquer observação com relação aos fatores espacial, temporal e pessoal, de qualquer pessoa que seja, está fadada a perder sua relevância em uma situação diferente.
Através de nityánitya viveka, tentem entender o que é permanente e o que é impermanente. Vocês certamente irão compreender que nenhuma escritura é uma revelação de Deus; pois tudo neste mundo criado por tempo, espaço e individualidade é um fenômeno transitório. Não se pode negar a necessidade de objetos mundanos transitórios para um corpo transitório e para uma mente transitória. Mas, mesmo que essas coisas sejam necessárias, ainda assim elas são transitórias.
Na fase introversiva da imaginação cósmica6, o progresso intelectual dos seres humanos está fadado a acontecer e, consequentemente, o controle deles sobre a matéria gradualmente irá aumentar. No processo de ampliar o desenvolvimento intelectual, as velhas idéias e valores da vida subdesenvolvida ficarão ultrapassados. Você já devem ter notado que pessoas com idéias velhas, obsoletas, muito comumente lamentam-se de que a presente geração mais jovem não tem nenhuma inclinação espiritual. “Tudo está perdido”, elas lamentam. Talvez elas não compreendam, ou talvez conscientemente recusem-se a acreditar que o conhecimento científico esteja aumentando, e dramaticamente. A juventude moderna está se familiarizando com invenções e descobertas mais novas. Esses jovens estão aprendendo muitas coisas novas e aceitando-as do fundo dos seus corações. Como resultado, o atraso intelectual do passado parece totalmente absurdo para eles. Quanto mais conhecimento científico eles adquirem (no movimento de pratisaincara do ciclo cósmico, eles certamente irão avançar), tanto mais eles irão tentar libertar-se do garrote da religião e de “ismos”, e assim avançarão mais adiante no caminho do dharma – diretamente e cientificamente apoiados pelo julgamento racional. Será que os proponentes de ismos não estão cientes desse fato? Eles sabem muito bem, e é por isso que eles deliberadamente criticam a ciência material sempre que podem. Mas esse tipo de criticismo não impressiona as pessoas intelectuais.
Não é suficiente igualar as escrituras assim-chamadas religiosas com a filosofia transitória. Em vez disso, essas escrituras são [até mesmo inferiores que] a ciência material. Mesmo que as ciências materiais ainda sejam imperfeitas dos pontos-de-vista ideológico e prático, elas não impedem o progresso científico da humanidade – apesar de que engessam o progresso intelectual sutil e espiritual. Mas as conspiradoras teologias religiosas querem prender os pés das pessoas, fazendo-as ficarem tão estáticas quanto pássaros sentados em um poleiro numa gaiola. Com excessiva frequência tais pessoas [religiosas] ficam satisfeitas com a quantidade de progresso científico que elas herdaram, e não se preocupam com seu desenvolvimento posterior. Para elas, melado é sagrado, enquanto que o açúcar feito numa usina é profano porque é um produto da ciência. Para elas, carros de boi e botes a remo são sagrados, enquanto trens e barcos a vapor são profanos também porque são produtos da ciência. Mas mesmo assim, se esses proponentes da religião pensarem um pouco mais profundamente, eles vão entender que tanto o melado quanto o açúcar [industrializado] são produtos da ciência. A época do melado foi uma época de ciência subdesenvolvida. O açúcar [industrializado] foi produto de uma época comparativamente mais desenvolvida7.
Não podemos aconselhar os seres humanos de hoje em dia a voltarem à idade das velas e dos lampiões a óleo e negligenciarem a luz elétrica. Mas algumas religiões difundem tais ensinamentos. Os seres humanos terão de entender o espírito correto de nityánitya viveka e ajustarem-se à era prevalecente. Eles terão de aceitar sem reservas a situação da época particular na qual nasceram. Não servirá de nada desperdiçar o próprio tempo debochando do passado.
Nityánitya viveka é uma parte inseparável da prática do dharma. O dharma estabelece diretrizes claras para que se avance em perfeito ajustamento com a situação prevalecente. O dharma é a faculdade vital pulsante dos seres vivos. No dharma, não há lugar para inércias acumuladas da estaticidade8.
Somente Brahma é uma Entidade Eterna, e a sádhaná de Brahma é a prática verdadeira do dharma. As regulações ritualísticas centradas em torno dos fatores espacial e temporal não podem ajudar na realização da Entidade Eterna, Parama Brahma9. O esforço continuado de purificação psíquica é a única maneira de se tornar uno com Ele. Pessoas que seguem rituais ostentatórios depois de indulgirem em atividades antisociais variadas podem ser vistas como pessoas corretas do ponto-de-vista religioso, mas se elas forem testadas pelo padrão de medida do dharma, as suas naturezas pecaminosas serão reveladas.
Como as religiões dependem de vários fatores que passam por mudanças, elas diferem amplamente umas das outras. Elas criticam e zombam umas das outras, exagerando os defeitos das outras e recusando-se a reconhecer as qualidades positivas delas. Como elas não têm uma Entidade Eterna como a meta delas, elas são influenciadas mais pelas alianças entre os membros da sua própria seita do que por qualquer amor pela humanidade. Mas o verdadeiro dharma ensina que todos os seres vivos do universo pertencem a uma única família; todos estão ligados pelo toque comum da fraternidade. O universo inteiro é o lar de cada um, e todas as entidades animadas e inanimadas são as expressões diversas de um único e mesmo Ser Supremo.
Hararme Pitá Gaorii Mátá svadesha bhuvanatrayam.

[Parama Purus’a é o meu Pai, Parama Prakrti é a minha Mãe,
 e o universo inteiro é o meu lar.]10

Mas, muito estranhamente, muitas religiões ensinam o oposto. Elas proclamam a grandeza exclusiva de um país, raça, montanha ou rio particulares. Mas no dharma não há espaço para intolerância, pois o dharma baseia-se na fundação sólida do vigor que deriva do amor universal. A meta da religião é uma entidade nãointegral, e portanto tem-se como resultado uma perspectiva estreita. A meta do dharma, entretanto, é o Brahma infinito. Portanto, ao seguir o dharma, a visão da pessoa progressivamente se amplia. Algumas vezes nota-se um tipo de aliança entre as religiões, mas trata-se de uma aliança inteiramente externa. A
conversa de síntese das religiões é totalmente absurda; trata-se meramente de uma demonstração aparente de honestidade e de grandiloquência para ludibriar as pessoas comuns. O dharma sempre é singular em número, jamais plural. Portanto, não surge a questão de síntese religiosa no dharma. As religiões são sempre em número plural – jamais singular. A síntese das religiões significa a aniquilação delas. Onde quer que entidades impermanentes sejam adoradas como meta através de parafernálias ritualísticas variadas, não há espaço para síntese.
A religião é praticada para a satisfação de aspirações mundanas. Essa é a razão de por que uma classe de clérigos formou-se em torno da religião. Por fim, os adeptos dessas religiões tornam-se meros instrumentos nas mãos de interesses escusos. Com o despertar de nityánitya viveka nas mentes humanas e com a abertura da porta do conhecimento científico, não será possível enganar as pessoas em nome da religião ou lançando-se a isca da felicidade no mundo do além. Os interesses escusos estão bem cientes deste fato e portanto esforçam-se para manter as massas perdidas na escuridão da ignorância. Como parasitas, eles movimentam-se para apropriarem-se indevidamente – injetando complexos de medo e de inferioridade – da fatia do leão daquilo que as massas ignorantes adquirem com seu suor e sangue.
Exploradores religiosos mantêm uma aliança profana com os exploradores capitalistas. Com as mãos  erguidas, um preceptor religioso abençoa os ricos mercadores para terem prosperidade no futuro, mas recusa-se a olhar para os rostos dos seus discípulos pobres que não conseguem dar-lhe um generoso pranámii (um tributo para a benção do padre). Vocês irão perceber que em muitas religiões dá-se mais importância a estórias e fábulas mitológicas do que à ciência e a idéias racionais, porque elas contêm amplo espaço para a exploração das fraquezas humanas.
Mas nas análises científicas e racionais não há espaço para exploração. Se você se considera como sendo da casta brâmane, então você terá de admitir, indiretamente, que os brâmanes originaram-se da boca de um deus chamado Brahma. Mas será que o seu intelecto científico irá concordar com esse tipo de interpretação irracional? Analogamente, se você se considera como um guerreiro (ksatriya) ou um mercador (vaeshya) ou um trabalhador (shúdra), então você terá de aceitar que você nasceu das mãos, coxas ou pernas de Brahma.
A antropologia, a arqueologia e a história humana não podem aceitar tais noções absurdas. Mas os adeptos de tantas e tantas religiões têm de se conformar, mais ou menos, com algumas estórias mitológicas que são totalmente contrárias à ciência. Ao desenvolver nityánitya viveka você será capaz, com pouco esforço, de limpar a sua mente do lixo causado por tais superstições. Nityánitya viveka ensina que as entidades que dependem de tempo, espaço e pessoa são todas transitórias. A única entidade além do escopo de tempo, espaço e pessoa é Paramátma11, e portanto Ele é o Eterno, Nityam_ Vastrekam_ Brahma.

Dvaetádvaeta viveka

O segundo tipo de viveka paincaka é dvaetádvaeta viveka. Através de dvaetádvaeta viveka a pessoa adquire a capacidade de analisar se a entidade eterna é uma ou mais de uma, e chegar a uma conclusão correspondente (dvaeta significa dualístico e advaeta significa não-dualístico). Não pode haver nenhuma diferenciação de svagata, svajátiiya e vijátiiya na entidade que está além de tempo, espaço e pessoa12.
Portanto, não é possível que a Entidade Eterna seja mais que uma. Diferentes crenças sobre os assim chamados deuses – de que um deus derrotou outro em uma batalha, mas depois foi profundamente ferido pela vingança irada do seu adversário; que um certo deus espalha ou cura uma certa doença; e que outro deus distribui riqueza ou ensinamentos – são contrários a dvaetádvaeta viveka.
Na prática espiritual, nityánitya viveka não é suficiente: dvaetádvaeta viveka também é necessária. Para obter-se sucesso na prática espiritual, tanto nityánitya viveka quanto dvaetádvaeta viveka são indispensáveis. Elas capacitam as pessoas a perceberem que todos os objetos circunscritos a tempo, espaço e individualidade são transitórios, enquanto que a Entidade que está além da periferia de tempo, espaço e individualidade é permanente. Ela é una e não há outra.

Átmánátma viveka

O terceiro tipo de consciência é átmánátma viveka (literalmente consciência de eu e não-eu). O papel desse tipo de consciência é analisar se a Entidade Permanente, Não-dualística, é Consciência (Átmabháva) ou não consciência (anátmabháva).
Tudo neste universo é uma forma metamorfoseada da Consciência. Essa metamorfose ocorre devido à influência do princípio estático. A criação do mundo das formas pelo princípio estático continua como resultado das mudanças no fluxo de ondas infindáveis. As formas são expressões daquilo que não tem forma, devido à influência da Prakrti estática13. Portanto, a Consciência, no processo de crudificação, transforma-se em matéria sólida e assume a forma de um objeto perceptível, ficando desprovida da sua qualidade original de entidade testemunhal. Ou seja, a Consciência (Átmabháva) torna-se metamorfoseada em não-consciência (anátmabháva). Da mente até a matéria sólida há a dominação da não-consciência e consequentemente a existência de três fatores: o conhecedor, o conhecimento e o que pode ser conhecido.
Quando aspirantes espirituais aplicam átmánátma viveka, eles podem facilmente discernir esses três fatores e chegar ao entendimento de que todos os três são mutáveis e perceptíveis, e consequentemente que são por natureza não-consciência. E a entidade que está acima desses três fatores, que é Una sem uma segunda, que é a Entidade Testemunhal, não é outra que não a Consciência.
Na realidade mundana as pessoas correm atrás de dinheiro. Qual é a natureza desse dinheiro? Dinheiro é importante para se comprar objetos físicos grosseiros. Ele não é uma entidade consciente; ele é não consciência.
A sua falta é sentida pela mente unitária. O dinheiro pode ser conhecido e desfrutado, e o prazer derivado do dinheiro é o [seu] desfrute. Mas, sendo não-consciência, ele não pode ser a causa de felicidade ilimitada. Mesmo assim, as pessoas farão quase qualquer coisa para conseguir dinheiro: suborno, assassinato, adulteração, contrabando, hipocrisia e assim por diante. Tais pessoas são adoradoras da não consciência, investindo toda a sua energia vital na busca de matéria. Apliquem átmánátma viveka em todas as ações e em todos os pensamentos. No campo da ação, átmánátma viveka tem uma importância maior do que dvaetádvaeta viveka. Se vocês a utilizarem como uma parte indispensável da sua vida diária, a verdadeira forma do universo irá aparecer diante de vocês. É claro que isto jamais acontecerá se uma pessoa mantiver pensamentos pecaminosos enquanto finge ser correta.
Átmánátma viveka irá lhes ensinar que a Entidade Eterna Singular na forma da Consciência deveria ser o seu único objeto de ideação. Vocês verão as cores da religião desvanecerem diante dos seus olhos, na medida em que a pura efulgência branca do dharma reluzir com brilho cada vez maior.
Todos os ismos prevalecentes no mundo hoje em dia podem facilmente ser incluídos na categoria de religiões. Todos os defeitos das religiões também encontram-se nos “ismos”. Nenhum dos “ismos” políticos, sociais ou econômicos está livre de superstições – nenhum possui retidão; todos estão cheios de excessiva hipocrisia. Em todos os “ismos”, doutrinas e religiões, a autoridade das escrituras é suprema. Não há espaço para o funcionamento dos cinco tipos de consciência; não há lugar para serviço, amor ou devoção. Com o apoio da falsidade e da imoralidade, esses “ismos”, doutrinas e religiões caluniam e fazem acusações umas contra as outras. Elas fazem promessas atraentes para as pessoas enquanto escondem os seus próprios pecados internos. Na verdade, falsa piedade não é o caminho do dharma – o qual leva ao bem-estar – e sim o oposto do dharma, a negação do bem-estar. Elas podem ser comparadas a asnos em peles de leão: tire as peles de leão e a verdadeira forma delas será revelada. Elas não têm outro propósito do que o de conseguirem votos e usurparem o poder. A mentalidade de primeiro conseguir votos e depois servir as pessoas não é o verdadeiro espírito do serviço social desinteressado; em vez disso, é a mentalidade de materialistas sedentos de poder.
Vocês terão de avançar com o verdadeiro espírito do serviço social genuíno, porque a característica intrínseca do dharma é de promover a causa do bem-estar. Dharma e bem-estar são inseparáveis. A religião e a intolerância causaram enorme dano ao mundo; fizeram com que correntes de sangue manchassem os rios de vermelho. No século vinte, as religiões assumiram a forma de “ismos”14.
As pessoas dos tempos medievais faziam lutas entre seus clãs e comunidades, e as pessoas de hoje em dia estão lutando por seus “ismos”. Assim como as religiões no passado, os “ismos” estão criticando uns aos outros, revelando o seu espírito de intolerância ao tentarem calar as vozes uns dos outros. Parece que eles não têm outro objetivo além de reclamar, criticar e caluniar uns aos outros. Eles estão enganando as massas ignorantes ao pintarem um quadro cor-de-rosa de serviço, paz e felicidade. Por outro lado, eles mesmos estão rapidamente se afastando do caminho do serviço altruísta e do bem-estar. Para emancipar as massas da influência doentia dos “ismos” não há alternativa além do universalismo. Somente o universalismo está isento dos defeitos de quaisquer estreitismos, porque toda e cada coisa deste universo inteiro encontra um lugar dentro da sua vasta periferia.
Somente com a ajuda de átmánátma viveka é que os seres humanos conseguirão sair do atoleiro desse século vinte e mover-se em direção ao universalismo com passos firmes. Por mérito de átmánátma viveka, as pessoas poderão compreender que Brahma é a Entidade Singular Eterna, pura Consciência.

Paincakosa viveka

O quarto tipo de consciência é paincakosa viveka (a consciência dos paincakosas ou cinco camadas da existência). Algumas vezes as pessoas confudem as diferentes camadas da sua existência com a consciência unitária. Com o auxílio de paincakosa viveka as pessoas conseguem facilmente discernir que annamaya kosa (o corpo físico), kamamaya kosa (a mente grosseira), manomaya kosa (a mente sutil), atimanas, vijinánamaya e hiranyamaya kosas ([coletivamente denominadas de] a mente causal) são camadas separadas e que a Consciência está acima de todas as cinco kosas15. Sádhaná espiritual significa a ideação na própria consciência da pessoa, para além dessas kosas, e não a ideação em qualquer uma dessas kosas em si mesmas. Através do conhecimento uma pessoa precisa analisar e parar de adorar essas kosas. O movimento em direção à consciência é o verdadeiro espírito da sádhaná. Não é possível seguir o culto espiritual sem cultivar apropriadamente paincakosa viveka.
Pegue por exemplo o caso de um grande problema na sociedade: o problema de alimentação e vestuário. Comidas e roupas são essenciais para a preservação da existência humana16, mas elas não são o objetivo da vida. Elas são necessárias para o corpo físico (annamaya kosa) e em alguma medida para as outras kosas também, mas não são tudo. Por meio delas não é possível alcançar-se satisfação mundana completa. Para alcançar-se a benevolência suprema, a entidade microcósmica que consiste das cinco kosas é uma necessidade, e para isso precisa-se de comida e roupas. Mas a luta em busca de comida e roupas é apenas um estágio grosseiro da sádhaná, e não o estágio final e absoluto. As pessoas cuja sádhaná inteira é aplicada somente na procura de comida e roupas dificilmente podem ser chamadas de seres humanos; elas são melhor descritas como animais subdesenvolvidos.

Mahávákya viveka

Mahávákya viveka, o quinto estágio da consciência, é o resultado dos outros quatro. Os primeiros quatro tipos de consciência ajudam um sadhaka17 a compreender que a Entidade Eterna, Brahma, é Una sem uma segunda, a Consciência personificada, e conhecedora das cinco kosas. Mahávákya viveka ensina aos seres humanos que Ela não pode ser atingida meramente pelo conhecimento. Para liberar a consciência dessas cinco kosas, a ação e a devoção são indispensáveis. Aqueles que pensam que Ela pode ser alcançada somente através do culto do conhecimento estão enganados. Cultivando os primeiros quatro tipos de consciência, uma pessoa de conhecimento pode vir a estabelecer-se em mahávákya viveka. Nesse estágio, ele ou ela compreendem que uma mera busca do conhecimento não pode propiciar paramártha (o meio de alcançar-se a meta suprema). Ele ou ela então entendem que o conhecimento já adquirido não é conhecimento verdadeiro porque leva à vaidade.
Se pessoas ignorantes desejarem adquirir mais conhecimento, elas deveriam ser encorajadas a fazê-lo. Mas se os assim-chamados intelectuais (jinániis), inflados com a vaidade do conhecimento, desejarem obter mais conhecimento, eles deveriam ser aconselhados a primeiro aperfeiçoarem o culto da ação e da devoção, esmagando assim a vaidade deles. Assim, deixe que um jinánii diga às massas que Brahma somente pode ser alcançado através da auto-entrega, do questionamento apropriado e do serviço altruísta: pránipátena, pariprashnena, sevayá.
Continue servindo as pessoas, e enquanto você está prestando serviço, atribua a qualidade de Brahma àquelas a quem você estiver servindo. Tente fazê-las felizes com toda a doçura do seu coração. Ajude os outros com o verdadeiro espírito de serviço, e não com a intenção de propagar os seus interesses ou do seu grupo, ou de qualquer outro “ismo” ao qual você possa aderir. Pense que a Entidade Suprema veio até você na forma de pessoas necessitadas para testar o seu senso de dever. Esse tipo de serviço altruísta é karma yoga. A sua única motivação no serviço deveria ser a promoção do bem-estar das pessoas sofredoras. Aqueles que servem os pobres para convertê-los de alguma maneira, ou aqueles políticos oportunistas que os servem para conseguirem os seus votos e tornarem-se ministros, não são os verdadeiros benfeitores da sociedade humana, mas mercadores tendenciosos.
Junto com o serviço, os aspirantes espirituais também deveriam cultivar pariprashnena (o questionamento apropriado). Quando um aspirante espiritual segue o caminho da espiritualidade, surgem muitas questões, dúvidas e confusões na mente. Pariprashnena significa fazer perguntas às pessoas certas que vão fornecer respostas apropriadas para ajudar a pessoa a resolver qualquer problema que ela possa encontrar no caminho espiritual. Isto permite que a pessoa avance mais rapidamente em direção à meta espiritual. Através do
cultivo dos cinco estágios da consciência, todas as questões serão facilmente respondidas. Quem não segue o caminho espiritual, ou quem não desenvolve a consciência quíntupla, permanece constantemente preocupado com os objetivos materiais de desfrute.
Juntamente com o serviço altruísta e com o questionamento apropriado, pranipátena, ou entrega completa, também é essencial. Cultive o conhecimento e preste serviço a outros com o melhor da sua capacidade, mas não pense que isto irá bastar; pois o seu pequeno eu ainda continuará existindo. Você precisa entregar o seu pequeno eu para o Eu Cósmico: este é o espírito de pranipátena. É por isso que se diz que os cinco tipos de consciência alcançam a sua culminação através de jinána yoga, karma yoga e bhakti yoga18.
Então, os cinco tipos de consciência começam com nityánitya viveka e terminam na devoção. A esfera do conhecimento é vasta, mas, mesmo assim, é árida como um deserto. A esfera da ação começa em um ponto em que não há o tempo, mas, ainda assim, ela não pode transcender as barreiras do tempo. A devoção traz abundância, enriquecimento, efulgência e dinamismo. A devoção é o mais valioso tesouro da vida humana, porque ela fornece vitalidade infinita.

Bhaktirbhagavato sevá bhaktih premasvarúpiniih,
Bhaktirándarúpá ca bhaktih bhaktasya jiivanam19.

* * *
Título original:
The Five Kinds of Conscience (Viveka)
Tradução e revisão:
Mahesh – Florianópolis
julho - agosto de 2010; dezembro de 2012.
Fonte:
Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7;
Ananda Marga Ideology and Way of Life in a Nutshell Part 7;
Subhásita Sam_graha Part 6.


1 Nota do Tradutor (N.T.): Os termos em língua estrangeira são em sânscrito.
2 N.T.: Figura adicionada pelo tradutor. Não pertence à publicação original.
3 N.T.: O autor dará ao longo do discurso uma explicação contextual do significado de dharma.
4 N.T.: Em outro discurso, o autor explica que: “A palavra Brahma significa “incomparavelmente Grande”. Ele é a maior entidade de todas: Brhattvád Brahma. Ficando absortas no pensamento sobre Ele, todos os seres tornam-se Brahma; ou seja, Ele tem o poder de fazer com todo e cada ser torne-se Brahma: Brm_hanatvád Brahma.”
[“The Intuitional Science of the Vedas – 4” (1955). Subhásita Sam_graha Part 2.]
5 N.T.: Sádhaná pode ser entendido como “esforço para alcançar a meta” ou como o processo de “completar o caminho”. Neste contexto, trata-se da meta suprema da vida humana – Brahma, a Entidade Suprema – e, por extensão, aqui sádhaná denota em especial práticas espirituais.
O autor dará ao longo do discurso uma explicação contextual do significado de sádhaná.
6 N.T.: Denominada em sânscrito como pratisaincara, e que sucede-se à primeira fase, extroversiva, ou saincara. “Imaginação cósmica” refere-se à noção de que o universo existe como uma criação dentro da Mente Cósmica de Brahma, a Entidade Suprema.
A fase extroversiva refere-se ao movimento que vai da entidade mais sutil à mais densa, e a fase introversiva corresponde ao movimento oposto.
7 N.T.: Não obstante não ser este o ponto que o autor está destacando neste parágrafo, pode-se mencionar que o uso de açúcar refinado é bastante criticado. Entre outros motivos, isto é porque, com o processo de refino do qual resulta, o açúcar refinado fica desprovido dos nutrientes presentes nas formas menos refinadas do produto – como o açúcar mascavo e o próprio melado –, fazendo com que se torne um produto químico altamente concentrado (tipicamente 99,5% de sacarose) e de valor basicamente calórico. Entretanto, a questão de uso apropriado coloca-se a todos os potenciais alimentos, utensílios e materiais de interesse para
a vida humana.
8 N.T.: A estaticidade denota um dos três princípios qualificadores que compõe Prakrti, o princípio operativo, que realmente é um nome coletivo daqueles três princípios. (Vide nota 13.) Esse princípio da estaticidade, ou tamah guna, é em geral o princípio dominante na fase extroversiva da evolução do universo, responsável pelo surgimento de entidades cada vez mais densas, até um certo ponto máximo de densificação, no qual surgem as condições para uma inversão desse processo e a consequente diminuição gradual da influência do princípio estático sobre as entidades criadas, culminando numa condição de máxima sutileza que está além da influência até mesmo do próprio princípio qualificador sutil, ou sattva guna. Essa condição que transcende a influência dos princípios qualificadores ou limitadores de Prakrti é a meta suprema da vida humana.
9 N.T.: Parama significa “supremo”.
10 N.T.: Esta citação – feita pelo autor em diversas outras ocasiões – pode ser melhor interpretada à luz da própria filosofia do autor. Em especial, o primeiro enunciado do seu tratado filosófico Ánanda Sutram diz que “Brahma é composto de Shiva e de Shakti” – ou, em outras palavras, de Purusa e de Prakrti. Que denotam, respectivamente, os princípios cognitivo e operativo do universo (na terminologia do autor), os quais são aspectos de uma única entidade – caracterizando um monismo, e não um dualismo. Quando o princípio operativo (Prakrti), inicialmente em estado latente, passa a atuar sobre o princípio cognitivo, inicia-se o processo de extroversão ou criação do universo.
Sem dúvida que ambos esses princípios estão além das distinções biológicas de gênero, e por isso a sugestão feita nesse sentido na citação referida é meramente figurativa de que esses dois princípios, quando começam a interagir, geram o universo e todas as suas entidades.
11 N.T.: O eu supremo ou alma suprema.
12 N.T.: Em outro discurso, o autor diz o seguinte:
“Quais são os critérios da relatividade? Sempre que houver svajátiiya, vijátiiya e svagata bheda (diferenças
intraespecíficas, interespecíficas e intraestruturais), diremos que a entidade em questão é relativa. No momento em que essas diferenças são removidas, a entidade relativa funde-se no Absoluto.”
[“Abhedajiṋána and Daeshika Vyavadhána Vilopa (1969). Ánanda Vacanámrtam Part 33.]
Depois desse trecho ele passa a explicar resumidamente cada uma das três diferenças citadas.
13 N.T.: Prakrti designa o princípio operativo pré-existente à criação do universo e que encontra-se latente na Consciência (Purusa), ou princípio cognitivo, e passa a atuar sobre parte dessa Consciência e a transformá-la através de seus três princípios qualificadores: sutil, mutativo e estático. Prakrti é o nome coletivo para esses três princípios.
14 N.T.: Dada a data do discurso, o autor refere-se ao “presente século vinte”.
15 N.T.: As cinco kosas referem-se às cinco camadas da mente, sendo que nessa contagem exclui-se annamaya kosa ou corpo físico.
16 N.T.: Esta é uma afirmação de caráter geral, pois naturalmente que as roupas não são essenciais em alguns lugares de clima quente, ainda que sejam em outros.
17 N.T.: Isto é, aspirante espiritual – pessoa que está engajada na sádhaná que conduz à meta suprema da vida humana.
18 N.T.: Jinána, karma e bhakti significam, respectivamente, conhecimento, ação e devoção. E yoga, na definição aceita pelo autor, significa a fusão da consciência unitária na Consciência Cósmica.
19 N.T.: Em outro discurso o autor explica o significado dessa citação, tirada do Bhakti Shástra:
Bhaktirbhagavato sevá– “Devoção é o serviço a Bhagavat ou Bhagaván”. Aqui, Bhagaván significa “Aquele que tem bhaga”, ou seja, Aquele que incorpora todas as seis qualidades acima referidas. Bhakti é o serviço a Bhagaván. Bhaktih premasvarúpinii” significa “devoção é amor puro”. Bhaktiránandarupá ca” – “O único desejo dos devotos é dar prazer a Bhagaván.” “Bhakti bhaktasya jiivanam” – “Devoção é a vida dos devotos.” Assim como um peixe não pode viver fora da água, devotos não podem sobreviver sem devoção. A devoção é a essência da vida, a sua própria fonte. Qual é então a coisa mais preciosa da vida humana? É a devoção. Se a pessoa adquiriu devoção, então ela conseguiu tudo e nada fica por fazer. Os devotos têm de servir ao Senhor. Agora, o que é o verdadeiro serviço? Servir a Sua criação é o verdadeiro serviço.
[“Devotion” (1978). Ánanda Vacanámrtam Part 1.]