20/01/2013

Krishna Das - Live On Earth - 2 (Complete Album)

EXPERIÊNCIAS PESSOAIS COM SHRII SHRII ÁNANDAMÚTIJII

       Fui iniciado na Ánanda Márga no ano de 1975, em Porto Alegre, quando estudava na escola de técnicas agrícolas - ETA, em Viamão, RS, e após três anos de práticas espirituais contínuas, minha relação devocional era exclusivamente do tipo impessoal.
AUTO-REALIZAÇÃO E SERVIÇO
AO UNIVERSO
Fazia minhas práticas espirituais regularmente, porém meditava sempre com um Pratik (símbolo ideológico adotado pela Ánanda Márga, e que significa Auto-realização e Serviço ao Universo) à minha frente, pois a fotografia de Bábá não me inspirava nenhuma devoção específica. Isto em parte acontecia em razão da influência das idéias de J. Krishnamurti, adotadas por mim até então, e com as quais buscava estabelecer um paralelo com os revolucionários pensamentos sociais, filosóficos e espirituais de Shrii Shrii Ánandamúrtijii.
       No Retiro Setorial de fevereiro de 1978, em Porto Alegre, em determinada circunstância, o Dádá Sumitánanda, SS do setor GT, solicitou-me por recado para que fosse até seu quarto para algo em particular. Chegando em seu quarto, não encontrei ninguém, e então naturalmente pensei não há ninguém aqui! Porém, neste mesmo instante, para minha súbita surpresa, algo me chamou a atenção de forma especial; uma foto de Bábá sobre um pequeno altar (tratava-se de uma foto que somente as pessoas que têm a sexta lição a possuem e que mostra Bábá sentado em barábhayá mudrá, um mudrá especial que significa “bênção sem medo”).
Barábhayá mudrá
Barábhayá Mudrá
Embora já tivesse visto-a e mesmo admirado-a, não tinha sentido nada de extraordinário em específico até então, com exceção da expressão em si da postura do mudrá, que é um tanto inédita por si mesma. No entanto, naquele específico momento, ao olhar esta fotografia novamente, algo muito diferente naquele específico instante me chamou a atenção, fazendo-me como que ficar com o olhar petrificado admirando-a por um curto momento. Meus olhos fixaram-se na foto como que atraídos por algo muito especial e mágico, de forma compulsória. A sensação que tive foi a de que naquele instante específico Bábá era como um pequeno ser vivo, em miniatura e absolutamente real, existindo dentro da própria foto. Isso durou alguns segundos e senti então que dentro daquele quarto, emanava de fato a Sua divina presença. Não era como eu havia pensando inicialmente, que ali não havia ninguém, pois Ele ali estava presente, existindo realmente dentro da foto. Sai do quarto e fiquei um tanto atônito tentando analisar racionalmente a curiosa e extraordinária situação que havia vivenciado. Imediatamente me veio a inspiração de caminhar em um bosque próximo para melhor absorver tal inusitada experiência. Contudo, aquela imagem da foto de Bábá em barábhayá mudrá permanecia nitidamente fixa em minha mente, no meu citta ou placa mental e assim busquei ficar isolado neste bosque por algum tempo numa tentativa de melhor absorver tão especial momento de graça e especial benção.
       Neste mesmo dia, durante a noite houve um programa cultural previsto na agenda do retiro, denominado katha kiirtan, com histórias devocionais sobre  Bábá. Nesse programa, como de rotina, foi feito um círculo, acendendo-se várias velas em uma sala escura, em torno das 10:00 horas das noite, com diversos ácáryas contando histórias devocionais e inspirativas sobre Bábá, alternadas com kiirtans entre cada uma destas estórias. Durante determinado momento, eu estava meditando muito emocionado, tanto pelas histórias inspirativas contadas quanto pela experiência de Sua revelação anterior, quando num determinado momento senti a presença de Bábá no alto, sobre o círculo do grupo, com todos sentados. Daí Bábá foi descendo, descendo lentamente até fundir-Se em meu corpo em particular. Durante este momento, experimentei uma extraordinária sensação de Unidade plena com Bábá e de Infinitude,  de algo não dimensionável, ou seja, algo impossível de descrever, mais ou menos assim; uma sensação de como eu fosse uma montanha muito, muito grande, por exemplo, como o Himalaia, e sentindo profundamente um estado de união muito gratificante, de beatitude e íntima relação com o meu guru Bábá, algo até então nunca experimentado por mim.
       Curiosamente, há mais ou menos um mês atrás eu havia pedido intimamente a Bábá em minhas meditações diárias por uma revelação Sua, devido exatamente por sentir falta de uma relação mais íntima e pessoal com Ele, como comentado no início, já que, como disse, eu havia sido iniciado já há bastante tempo mas não possuía uma relação devocional especificamente com Ele, ou melhor, personalizada n’Ele, pelo contrário era totalmente impessoal, o que começou a mudar radicalmente a partir desta gratificante experiência. 
       Em outra experiência, quando em 1979 ainda estava morando no Rio de Janeiro e cursava biologia na universidade, em Valença, nesta ocasião, Bábá, após ter saído da prisão, estava viajando pelo mundo, visitando vários setores. Então, surgiram notícias de que Ele viria visitar a América do Sul, e que iria a Buenos Aires, já que no Brasil havia sido negado seu visto de entrada, porém a data não estava claramente definida. Embora não tivesse plena certeza de que Bábá viria ou mesmo uma data específica, decidi desistir do curso universitário e partir a Buenos Aires para aguardar Sua possível e inusitada visita ao nosso continente sul americano, pensando; acho que é mais oportuno estudar a ciência do Yoga, pois biologia tem muita gente que estuda. Naquela ocasião eu estava lendo o famoso e clássico livro da literatura Indu, denominado Bhagavad Gitá, na tradução do pensador e ex-padre Huberto Rohden. Na leitura durante a viagem uma passagem que me impressionou bastante foi o momento em que o Senhor  Kris’n’a revela a plenitude de Si mesmo ao seu discípulo Arjuna. Foi a partir de então que uma questão muito forte surgiu em minha mente: “Como eu poderia estar viajando para encontrar Parama Purus'a, a Consciência Suprema, na forma humana? Como eu poderia merecer tão grande graça?”, pois Bábá é considerado na filosofia da Ánanda Márga como um Taraka Brahma, a ponte entre a Suprema Consciência e o mundo finito manifesto, no mesmo nível do Senhor Shiva e Senhor Kris’n’a. Comecei então a pensar que talvez tivesse feito algo muito extraordinário em vidas passadas para ser merecedor de tão especial graça, e isto me trouxe um certo e natural complexo de superioridade. Porém, no momento seguinte, comecei a pensar que há três anos estava na Ánanda Márga, e não havia realizado serviço social suficiente, como, por exemplo, ter fundado alguma escola ou iniciado algum grande projeto social, embora já tivesse tido a grata oportunidade de ter feito um curso intensivo de LFT (trabalhador local de tempo integral) para trabalhar em Sua missão, no qual fiquei por três meses juntamente com outros quatro márgiis em um sítio em São Paulo, tendo práticas espirituais (sádhaná) e aulas de filosofia espiritual e social diárias, pela manhã, tarde e noite, com um Dada e uma Didi. Tais sentimentos de apreensão fizeram surgir um outro complexo, que agora era de inferioridade, exatamente por não ter feita uma aplicação mais efetiva ou extraordinária de tais ensinamentos, com amplo e efetivo serviço social, embora houvesse até mesmo já viajado ao RS e ao Uruguai e trabalhado por algum tempo em Dharma Pracar, serviço de divulgaçãomas que, por problemas pessoais de saúde, havia voltado aos meus estudos regulares. Assim, segui minha viagem ao encontro de Bábá, alternando continuamente entre estes dois complexos, ora de superioridade, ora de inferioridade. Curiosamente, no ônibus que seguia, havia muitos turistas argentinos que reclamavam bastante do nosso país, comentando sobre problemas com trombadinhas, etc., durante todo o percurso entre São Paulo e Porto Alegre, o que me incomodou bastante, pois estavam a menosprezar nosso querido Brasil. Fato este que possibilitou um certo sentimento de inferioridade em mim, como brasileiro. No entanto, já no trecho entre Porto Alegre e Buenos Aires, curiosamente desceu um passageiro e subiu um novo passageiro argentino na rodoviária, que se sentou na poltrona ao meu lado e durante todo o resto da viagem passou a elogiar nosso país e falar bem dos brasileiros, de forma muito gentil, invertendo completamente a situação anterior. Este argentino era alguém de tão boa índole que ao lhe comentar sobre meu encontro com meu guru  Bábá, este se prontificou até mesmo a comprar a minha passagem de volta ao Brasil de forma antecipada, já que estava viajando somente com a passagem de ida, sem a volta. Tal fato acentuou ainda mais a dicotomia em que eu estava envolvido, ora me sentindo superior, ora inferior. Ainda assim, continuando a ler o Bhagavad Gitá, pensava "cá com meus botões", merecendo ou não ir ao Seu encontro, a verdade é que este ônibus segue em Sua direção, logo de alguma maneira mereço encontrá-Lo, buscanso assim equilibrar meu pobre e conflitante ego.
       Quando cheguei à jágrti em Buenos Aires, após ler um determinado texto místico denominado de Desideratum, encontrado aleatoriamente sobre uma mesa, tive um insight com o entendimento claro de que, quando nós sentimos complexo de superioridade, um sentimento de arrogância surge naturalmente em nossa mente, impedindo-nos de realizar qualquer trabalho coletivo. Da mesma forma, quando o complexo de inferioridade nos domina, isto nos torna impotentes, diminuindo assim a nossa disposição psíquica para a ação e serviço social. Neste momento, de súbito, tive um outro insight – “Tudo é manifestação de Deus, e portanto,  ninguém neste universo é superior ou inferior”.  E em seguida, somente por Sua inspiração, obtive mais um outro insight – “O kiirtan é a melhor ferramenta para a manutenção desta sublime idealização,  possibilitando de forma prática aos devotos tal sentimento de Unidade com o Todo de forma contínua e permanente, pois como sugere o significado do mantra Bábá nám kevalam – Tudo é manifestação d’Ele, Somente o pensamento n'Ele."
       Logo em seguida, caminhava tranqüilamente buscando conhecer a nova jágrti, já em um certo estado de graça motivado por tais insights, quando, ao abrir a porta de um determinado quarto, encontrei dois dádás avadhutas fazendo kiirtan lalita totalmente em um estado de enlevo devocional.
    Este especifico kiirtan em particular que eles cantavam subitamente me afetou de forma profunda, pois a sensação que tive era a de que eles estavam dançando em pleno e sublime Samadhi. Daí em diante este kiirtan magicamente permaneceu em minha mente, como se fosse uma gravação mental interna, e que tocava de forma automática e ininterrupta. Algo, portanto absolutamente inexplicável, e que, com o kiirtan mental soando continuamente em minha mente, acentuava ainda mais o insight da concepção de que "Tudo é Ele",  ninguém é superior,  ninguém é inferior.
       Alguns dias após, Bábá explicou sobre este mesmo assunto durante Seu segundo darshan em Caracas, quando disse
  “Vejam vocês, uma pessoa nunca deve ser dominada por nenhum tipo de complexo, ou seja, o aspirante espiritual deve estar livre de todos os tipos de complexos — complexo de superioridade, complexo de medo, complexo de derrota e complexo de inferioridade. Quer dizer, a mente deve estar completamente equilibrada. Agora, quando se sofre de algum complexo de superioridade, você se acha melhor que os outros. Como resultado disso, você se torna incapaz de perceber de uma maneira apropriada as ondas externas. Dessa maneira, seus pensamentos contaminados se tornam distorcidos e, como resultado disso, muitos outros processos mentais, como a memória, deformam-se e debilitam-se. Você não deve ter nenhum complexo de superioridade. Você deve aprender que não é superior a ninguém. Todos são crianças do Pai Supremo, todos são descendentes do criador supremo. Ninguém é superior a ninguém.”
       No dia seguinte finalmente chegou à notícia que Bábá visitaria apenas Caracas na Venezuela, pois a Argentina, assim como o Brasil, havia negado Seu visto de entrada. Diante de tal notícia muitos Dadas e márgiis ficaram altamente contrariados, pois havia sido anunciado que Bábá definitivamente não viria a Buenos Aires. No entanto, na minha sádhana em particular, já totalmente absorto na idéia do Todo pelo kiirtan que se expressa por si mesmo em minha mente, tanto quanto pelos insights, pouco me importava tal situação da negação de Seu visto pela embaixada argentina, da Sua não presença física entre nós, pois no meu íntimo Sua divina presença acontecia de forma contínua e interna. Assim que, após minha meditação matinal iniciei meu Guru Pújá (um mantra cantado com mudrás através do qual o devoto oferece seu Ego e apegos ao Guru), e ao colocar todas as minhas expectativas nesta entrega, tive então um curiosa sensação de que Bábá estava sorrindo amorosamente, de forma real através da foto colocada no altar a minha frente. Tal sensação imediatamente me emocionou intensamente, pois quanto mais eu olhava para a foto de Bábá, na tentativa de ter certeza desta inédita situação, mais ainda Ele amorosamente sorria de minha particular situação de espanto e surpresa. De imediato uma onda vibracional começou na altura de meu peito e garganta, no meu anáhata cakra e principalmente no vishuddha cakra, os quais começaram a pulsar como se fossem corações, fazendo-me chorar compulsivamente. E assim, sentido sua divina presença, após o Guru Pujá,  mesmo assim fiz todas as demais práticas de rotina, como kaoshikii, tandava e asanas sempre completamente emocionado e internamente chorando compulsivamente em êxtase, em razão da Sua bem-aventurada e contínua presença.
       No ônibus, durante minha volta para o Brasil, a sensação da presença de Parama Purus'a continuou forte em minha mente, sempre com a sublime sensação de Sua Suprema proteção e presença espiritual contínua e universal, bem como o som do kiirtan que por si só continuava ocorrendo mentalmente. Durante esta viagem, inspirado por Ele, decidi fazer o meu segundo treinamento para LFT, agora em Porto Alegre, e lá, nas minhas sádhanás diárias e durante o curso, freqüentemente gozava da mágica presença de Bábá. Bábá não esteve presente fisicamente em Buenos Aires, porém, somente por Sua Graça, Ele lá esteve sim, de forma espiritual, de forma particular e toda especial.
Ramesh - Acre/1996