21/03/2013

Prańipátena, Pariprashnena e Sevayá

Shrii Shrii Anandamurti
25 de julho de 1980
Udaipur, Índia

Sevá

A própria existência dos seres humanos é uma existência tríplice. O corpo de vocês, que consiste dos cinco fatores primordiais [1], é uma camada. A mente de vocês, que pode ser chamada de ser ectoplásmico de vocês, é outra camada. E então há a alma de vocês – que também é outra camada. Assim, o que quer que vocês venham a expressar estará circunscrito a esses três níveis.
       
 Agora, vamos olhar a estrutura física ou organismo de um ser humano.
 O corpo humano é uma máquina.[2] Esse organismo consiste de ossos, carne, glândulas e veias.[3] O corpo humano é realmente uma grande máquina que consiste na combinação desses elementos.

Então, trata-se de uma máquina muito boa – uma máquina de primeira categoria. O corpo humano é uma máquina classe A. Vocês não conseguirão encontrar nenhuma outra máquina como essa no mundo. A habilidade artística sutil revelada nessa máquina é algo único.

Vamos assumir que essa máquina é notável. Mas se nós não a operarmos, ou se óleo e eletricidade não forem fornecidas a ela, então qual será o resultado final? A máquina vai ficar inutilizável; ela irá enferrujar. Similarmente, se alguém dotado com um corpo humano não utilizá-lo apropriadamente, mas desperdiçar o seu tempo comendo e dormindo, então qual será o resultado final? O corpo irá enferrujar. E quando uma máquina enferruja, surgem muitos tipos de doenças.

Além disso, existe outro ponto.  O corpo mecânico, com sua natureza quinquelementar, – esse corpo físico composto dos cinco elementos rudimentares – contém um certo número de veias e artérias, células nervosas e fibras nervosas, o cérebro etc. Ainda que esses [elementos] sejam densos, no mundo sutil eles estão relacionados com a mente. O que quer que a mente sinta ou expresse, tudo é realizado pelos nervos. Todos esses nervos, por sua vez, são controlados pelas glândulas mestras, subglândulas, células nervosas e pelo cérebro. Isso, entretanto, não é tudo. Todos os vrttis [propensões] da mente humana (cinquenta propensões primárias e mil propensões secundárias [4]] dependem, em suas atividades, da capacidade do corpo. Os braços e pernas precisam fazer trabalho; todas as partes do corpo devem ser utilizadas adequadamente; vocês deveriam realizar trabalho com elas, trabalho duro – isso é uma necessidade. Do contrário, a secreção hormonal das glândulas e subglândulas [endócrinas] ficará prejudicada.  E a hiperatividade ou hipoatividade das propensões são causadas pela secreção hormonal. Na verdade, se a secreção não for apropriada, se ela for excessiva ou escassa, poderá haver uma reação adversa no corpo e na mente humanos. É por isso que vocês deveriam ficar atentos em cuidar para manter o corpo de vocês preparado para trabalho duro. Vocês terão de realizar trabalho com a máquina corpórea de vocês. Essa máquina deveria ser sempre mantida em perfeitas condições de funcionamento.

Nós obtivemos essa estrutura física [humana] para trabalhar, não para o descanso ininterrupto. Mas assim como se deve deixar uma máquina descansar depois de um dia de trabalho duro, também o corpo humano, quando fica exausto após um dia de trabalho duro, precisa descansar para recompôr-se e recomeçar de novo com energia renovada. É apenas por essa razão que o organismo humano precisa de descanso: não para um tempo livre prolongado, mas para que depois se possa de novo trabalhar duro. Além disso, deveria-se manter em mente que as partes mais sutis deste corpo com o qual trabalhamos – tais como as células nervosas, as glândulas e as secreções hormonais –, ainda que sejam densas, estão relacionadas ao sutil.

A mente também está intimamente ligada com essas partes. Portanto, aqueles que dizem que não há necessidade de se fazer trabalho físico e defendem que se faça apenas meditação espiritual, adorações etc. não estão certos. O que acontecerá se o corpo físico não for devidamente utilizado? O corpo irá quebrar; e por conseguinte a mente também será afetada de forma negativa. Agora há pouco eu disse que às vezes as glândulas [endócrinas] não são adequadamente exercitadas e que a secreção hormonal das glândulas e subglândulas [endócrinas] não é correta; nesse caso, que medidas deveríamos tomar?

Bem, nós vamos ter que trabalhar. As pessoas deveriam dedicar-se ao karma yoga[5]
Por que é que se chama isso de karma yoga?

Façam com que as suas mentes fiquem saudáveis através do trabalho físico. Se vocês direcionarem a mente de vocês para Paramátmá [a Alma Suprema], ela se unificará com Paramátmá. É por isso que se denomina de karma yoga.[6] Com relação a isso as escrituras dizem: Sevayá.

Prańipátena pariprashnena sevayá.[7] Os seres humanos têm que se mover em frente sem parar. Foi indicado que a existência humana é tridimensional ou tridirecional. Por exemplo, um fazendeiro ara a terra – ele faz isso com o corpo físico denso dele. Ou, de novo, um ferreiro bate com um martelo – isso também é trabalho físico. Mas esses tipos de trabalho físico não são parte da dharma sádhaná [prática espiritual]. Somente aquele tipo particular de trabalho físico que é realizado como parte das atividades espirituais pode ser considerado como sevá – quer dizer, satisfazer Parama Puruśa [a Consciência Suprema] usando seu corpo físico para realizar serviço social.

O serviço social é possível de várias formas. Educar, dar assistência à saúde, alimentar os pobres etc. – o serviço pelo bem-estar da sociedade pode ser feito, e é feito, de todas essas formas. Utilizem o seu corpo em tais trabalhos; utilizem a sua mente; utilizem seu corpo e a sua mente ao máximo. Isto é chamado de sevá; isto é chamado de karma yoga. Atualmente temos carência desse tipo de karma yoga. Mas qual é exatamente o benefício do karma yoga? Ele irá nutrir aquela parte da sua mente que está conectada com o seu corpo. Existe um benefício duplo no karma yoga: de que desse modo não somente se presta serviço social ao mundo, mas também o seu desenvolvimento individual é promovido.

Pariprashna

A mente humana nunca pára ou fica estática. Ela sempre está envolvida em pensar numa coisa ou noutra; não é possível esvaziar a mente completamente.Sarvacintá parityágo nishcinto yoga ucyate [“Quando a mente fica completamente livre de pensamentos, quando a mente fica completamente sem pensamentos, esse estado mental é chamado de yoga”] – do ponto de vista da psicologia aplicada, essa idéia é defeituosa. A mente tem de ter ao menos algum conteúdo; sempre tem de haver uma contra-parte objetiva da mente. Então, se uma pessoa não tem a oportunidade de entrar em contato com o mundo sutil, a sua mente naturalmente irá se voltar para o mundo quinquelementar, o mundo material. Pensamentos relacionados ao mundo quinquelementar, entretanto, nem sempre são sutis ou nobres. Nesse caso, o que deveríamos fazer? Motivados por um auto-interesse medíocre, nós nos envolveremos em atividades indesejáveis, e como consequência teremos de passar por uma decadência. Por esse motivo, nossas mentes têm que ser supridas com algum pabulum [8] sutil.

Então, o que as pessoas deveriam fazer? Elas têm que se mover adiante no caminho da síntese, ao invés de no da análise. A fonte do progresso mental não está no esforço de dividir o uno em muitos, e sim em unificar muitos em um. Esse empreendimento, essa abordagem sintética, essa perspectiva integral, é chamada depariprashna nas escrituras.

Prashnas [perguntas] são de dois tipos.

Um tipo é fazer uma pergunta simplesmente para saber. Mas qual é o benefício de simplesmente perguntar para saber? Depois de muito trabalho e pesquisa, vocês ficaram sabendo que neste distrito de Udaipur existe um tal número de formigas. Mas, no fim das contas, como é que esse conhecimento pode beneficiar vocês? Existe algum benefício? Não, não existe nenhum benefício. Qual é a utilidade de as pessoas saberem o número de formigas em Udaipur? Mas, tendo utilidade ou não, certamente isso exigiu um bocado de trabalho.

Isso, entretanto, não é pariprashna. Perguntar “Quantas formigas existem em Udaipur?” apenas para saber não pode ser chamado de pariprashna. Por outro lado, se você disser: “Minha mente está muito agitada; por muito tempo eu quis praticar meditação e concentração, mas não consegui; qual é a técnica certa?” – isto épariprashna. Assim que você conseguir uma resposta a essa pergunta, você começará a trabalhar de acordo.

A Deusa do Sono

Agora que eu vejo que alguns de vocês estão ficando com sono, eu me lembro de uma história. É uma história mitológica. Ela conta que enquanto Rama e Laksmana estavam vivendo exilados na floresta, o dever de Laksmana era ficar todo o tempo vigiando – o que se chama de “dever de segurança”. Mas um dia ele foi vencido pelo sono e seus olhos se fecharam. Ele ficou furioso e, agarrando seu arco, lançou um ataque contra a deusa do sono. Ao recuar, a deusa do sono perguntou a Laksmana: “Que tipo de herói é você, apontando as suas flechas contra uma mulher indefesa? Isso vai te dar mais prestígio? Que vergonha!”

Laksman respondeu: “Eu estou há catorze anos em exílio aqui na floresta e o dever de segurança é a minha tarefa sagrada. Como é que eu posso ficar sonolento? Você pode voltar daqui a catorze anos.”

Por então a deusa do sono concordou, dizendo: “Está bem, que assim seja.”

Por fim o período de exílio de Rama e Laksmana acabou. Eles voltaram para Ayodhya. A cerimônia de coroação de Rama estava em andamento e Laksmana estava de pé ao lado de Rama, com a maior das devoções, abanando-o com um cámara [leque cerimonial]. Então, como os catorze anos estipulados chegaram ao fim, a deusa do sono novamente fez a sua aparição; e as pálpebras de Laksmana se fecharam de sono. Todas as pessoas presentes começaram a rir com essa cena. Visivelmente irritado, Laksmana bradou: “Ó deusa do sono! Você veio justo agora! Você não tem bom senso! A cerimônia de coroação de Ramchandra está acontecendo e eu fiquei confiado com uma tarefa especial – você não consegue ver isso?”

A deusa do sono argumentou: “Você mesmo me disse para vir depois de catorze anos.”

“Mas não agora”, protestou Laksmana.

 Entretanto, a deusa do sono continuou insistindo: “Mas eu agora eu vim com toda minha energia. Onde é que eu posso ir agora?”

 Laksmana respondeu: “Veja se você não consegue encontrar alguma pessoa pecadora que está assistindo algum discurso religioso, então vá e sente-se nas pálpebras dessa pessoa.”

De qualquer modo, no decorrer da nossa discussão sobre pariprashna, eu estava contando a vocês sobre técnicas de meditação e concentração, e como se pode fazer progresso nas práticas espirituais; essas perguntas não são perguntas sem sentido. As pessoas entram em ação de acordo com as respostas que elas encontram para essas perguntas. Isso explica por que pariprashna é uma necessidade. Ela é necessária para o desenvolvimento mental e para o progresso mental.

Prańipáta

E qual é a terceira coisa? Prańipátena pariprashnena sevayáPariprashna, como eu disse, é basicamente uma cultura intelectual. Assim como karma yoga é necessário para a saúde – como eu expliquei –, jiṋána yoga [9] é necessário para a realização intelectual.

Pariprashna irá melhorar a nossa cultura intelectual. Mas que tipo de conhecimento será cultivado assim? Será o tipo de conhecimento que irá ajudar vocês a avançarem no caminho do progresso. Esse conhecimento não é um conhecimento árido e seco – é um conhecimento prático. Através de pariprashna vocês gradualmente conseguirão enriquecer [seu estoque d]esse conhecimento. Vocês estão se movendo em direção a Paramátmá, movendo-se continuamente; a mente de vocês está ficando cada vez mais sutil; mas está faltando a concentração mental necessária para o progresso. É verdade que vocês estão se movendo para cada vez mais perto de Paramátmá; mas se não houver amor profundo e devoção por Paramátmá, como é que vocês conseguirão superar completamente a distância? Vocês terão de ficar a uma certa distância Dele, ou terão de interromper a jornada de vocês. Nessa situação, o que vocês deveriam fazer? A mente já ficou concentrada em certa medida através de pariprashna; agora vocês terão de fazer com que essa mente concentrada mova-se em frente até o destino final, atéParama Puruśa.

E qual é o melhor método de fazer com que a mente se mova em direção a Parama Puruśa?

O melhor método é a entrega completa a Ele [10]. Portanto, entreguem-se completamente com todas as suas capacidades e propensões perante o Ser Supremo; ofereçam o seu eu inteiro a Ele. Isto é prańipáta.

Pra – ni – pat + ghaiṋ = prańipátaPrańipáta significa oferecer-se aos pés divinos de Parama PuruśaPrańipáta também é conhecido como bhakti [devoção].

Ananyamamatá Viśńormamatá premasaḿgatáh – “Deveríamos nos mover adiante não em direção a objetos de apego mundano e sim em direção de Parama Puruśa, em direção de Viśńu.[11] ” Quando se conseguir estabelecer um apego completo e de todo coração por Viśńu, isso é chamado de bhaktiBhaktir Bhagavato sevá bhaktih prema svarúpińii [“Bhakti é serviço a Deus; bhakti é a forma que o amor divino assume”]. Qual é a coisa que é da máxima necessidade para o progresso espiritual? A coisa mais importante requerida para o progresso espiritual, para a unificação do eu individual com Paramátmá, é bhakti.

Portanto, vemos que três coisas são muito preciosas na vida humana. E do que se necessita para que aconteça a unificação com Paramátmá no estágio final? Debhakti. E a respeito de karma yoga jiṋána yoga? Elas são fases preparatórias necessárias para bhakti. Vocês têm de praticar karma yoga jiṋána yoga. Através dessa prática vocês por fim irão se estabelecer em bhakti. Assim que vocês estiverem se estabelecido em bhakti, tudo será de vocês; vocês não terão mais nada por alcançar.

*      *      *
Título Original: “Prańipátena Pariprashnena Sevayá”

Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês).

Publicado em:
Ánanda Vacanámrtam Part 20
(Obra ainda não publicada em inglês.)

Discourses on Krśńa and the Giitá [compilação]
(Obra ainda não publicada no Brasil.)

Tradução e Notas: Mahesh – Florianópolis
(5 a 7 de março de 2013)






[1] Nota do Tradutor (N.T.): Que o autor também denomina de cinco fatores fundamentais, ou ainda cinco elementos rudimentares (como o autor falará mais adiante), a saber: os fatores etéreo, gasoso, luminoso, líquido e sólido.
[2] N.T.: Essa comparação ou identificação do corpo com uma máquina pode vir a ser interpretada de modo distinto do pretendido pelo autor – talvez especialmente quando entendida em relação a um pano de fundo filosófico de materialismo ou reducionismo, o qual certamente não corresponde à posição do autor.
[3] N.T.: Sem dúvida o autor está simplificando a exposição a respeito dos elementos componentes do corpo, provavelmente para ser didático e poder chegar mais facilmente ao ponto que visa apresentar.
[4] N.T.: Em outros discursos o autor explica que os 50 vrttis ou propensões mentais podem ser expressados com relação a cada um dos 10 órgãos sensores e motores, e que essa expressão pode ser tanto interna quanto externa, donde tem-se: 50 x 10 x 2 = 1000 propensões secundárias, controladas pelo sahasrara chakra (cujo nome deriva justamente desse número 1000).
[5] Nota do Editor da versão em inglês (N.E.): A prática espiritual que enfatiza a ação altruísta. [N.T.: Explicação originalmente entre colchetes no texto em inglês; colocada aqui como nota de rodapé.]
[6] Nota do Tradutor da versão em inglês (N.T.i).: Karma significa “ação” e yoga significa “unificação” da alma unitária com a Alma Suprema.
[7] N.T.i: [Citação do] Bhagavad Giitá.
[8] N.T.: Termo em latim que significa uma substância ou algo que alimenta e nutre. Ou seja, refere-se a um “alimento” (em sentido literal) para o corpo ou (em sentido figurado) para a mente. O termo deriva do verbo latim pascere, “alimentar”.
[9] N.E.: A prática espiritual que enfatiza a discriminação ou entendimento intelectual. [N.T.: Explicação originalmente entre colchetes no texto em inglês; colocada aqui como nota de rodapé.]
[10] N.T.: Em inglês o pronome é Him, “Ele”. Poderia ser traduzido como “Ela” tendo em vista a concordância com “a Consciência Suprema” (tradução de Parama Puruśa). Mas traduziu-se aqui como “Ele” para manter concordância com “o Ser Supremo”, que aparece logo em seguida no mesmo parágrafo.
[11] N.T.: Em outros discursos o autor explica esse termo:

“O significa derivativo de Viśńu é ‘todo-pervasivo’, i.e., a entidade que permeia tudo, desde moléculas e átomos até o grande criador Brahmá, é Viśńu.”
[“Bhakti and Krpá”, c. 1969.]

“A raiz verbal sânscrita ‘vish’ significa ‘entrar’. Parama Puruśa é chamado de Viśńu em sânscrito (viś + nu) porque Ele é a entidade que se encontra escondida em todas as outras entidades.
[...]
A entidade que permeia o universo inteiro é Viśńu. Portanto, pessoas inteligentes e ponderadas jamais odeiam objeto algum. Elas olham para todo e cada objeto como uma manifestação de Viśńu.”
[“Ideation on Brahma”, 1970.]

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