30/10/2015

O MICROCOSMO E SEU OBJETO DE IDEAÇÃO

Shrii Shrii Anandamurti, 12 de maio de 1979, Fiesch, Suíça.

 O discurso de hoje é “O microcosmo e seu objeto de Ideação". 

 O microcosmo é uma conação macropsíquica [1] e, portanto, todas as atribuições do Macrocosmo, todas as regras do Macrocosmo, também estão presentes no microcosmo, mas em forma de miniatura. Por natureza, o microcosmo é uma... contraparte objetivada do Macrocosmo. E, por estar dentro do âmbito infinito do Macrocosmo, ele continua movendo-se e movendo-se. O caminho é infinitamente longo. O microcosmo vai continuar movendo-se até atingir aquela meta específica. Qual seria a meta? Uma das regras psíquicas é que qualquer objeto toma a forma de sua meta, ou seja, ele é transmutado em seu próprio objeto. Portanto, o objeto de ideação do microcosmo deve ser selecionado com muito cuidado. 



Agora vejamos: qual deve ser o melhor objeto de ideação? 

Primeiramente, consideremos o caso do tempo, o Tempo Eterno.

O que é isto? Trata-se de uma medição psíquica da motividade da ação. Agora, será que ela pode ser o objeto de ideação? 

Ela não pode ser o objeto de ideação, porque a primeira coisa é que ela é uma medição psíquica. Para ocorrer uma medição psíquica, deve haver um corpo psíquico, ou seja, um corpo psíquico unitário. E se o corpo psíquico unitário mede o tempo, o tempo não pode ser a Entidade Suprema. Por isso, ele não pode ser o objeto de ideação.

A segunda coisa é [...] que se trata de uma medição psíquica. [2] [...] Medição psíquica significa mobilidade psíquica. E mobilidade psíquica significa uma mudança de lugar. A entidade que requer uma mudança psíquica de lugar ou de espaço não pode ser a Entidade Suprema. Por esta razão também, o Tempo Eterno não pode ser o objeto de ideação de vocês. 

A terceira coisa é que esta medição depende da mobilidade ou motividade da ação. O que é motividade ou mobilidade? Ela também baseia-se na mudança de lugar ou de espaço físicos. Para isso se requer que este mundo físico seja criado, e depois que a medição da ação seja feita pelo corpo psíquico do Macrocosmo. 

Portanto, o fato é que a entidade cuja própria existência depende destes fatores físicos ou psicofísicos não pode ser a Entidade Suprema. Então, vemos assim que o Tempo Eterno não é a nossa meta; ele não é algo psíquico, e nem sequer é algo abstrato. É algo pior do que o abstrato. Portanto, ele é algo mais grosseiro do que os seres humanos; ao invés disso, os seres humanos é que são os criadores desta entidade. Portanto ela não é o nosso objeto de ideação; ela não pode ser o nosso objeto de meditação; ela não pode ser o nosso objeto de adoração ou de exaltação. 
 
Agora tomemos o caso da natureza. 

 Há algumas pessoas, ou houve algumas pessoas no passado que eram adoradoras da natureza, adorando árvores, adorando o céu, e assim por diante. Será que a natureza pode ser o objeto de ideação?

 Não, certamente não. O que é a natureza? A natureza é o nome de um estilo particular segundo o qual o Princípio Operativo [3] funciona. Ela é simplesmente um estilo. Esse estilo não pode ser o objeto de meditação ou de ideação. E a segunda coisa é que, como a natureza não é nada mais do que um estilo, se esse estilo torna-se o objeto, então a própria entidade será convertida somente em um estilo – em um mero estilo. É uma idéia tola. Portanto, tais adoradores da natureza podem ser estudiosos eruditos, mas na verdade eles vivem no paraíso dos tolos. A natureza não pode ser o nosso objeto de ideação.

 Terceiro, o Destino. Houve, e há, muitas pessoas que são fatalistas. Os adoradores do destino. “Fatalista” significa adorador do destino – adorador da sorte e do destino. Eles são piores que os adoradores da natureza. O que é o destino? 

Não há nada chamado de destino neste universo. No que diz respeito à filosofia, não pode haver qualquer coisa chamada de destino. O que é o destino? Toda e cada pessoa terá que sujeitar-se à reação de suas ações anteriores. Quando a ação original é conhecida, dizemos que esta é a reação daquela ação. Suponha que o seu dedo entre em contato com o fogo. Você vai sentir dor, você vai ter que sofrer – mas, nessa hora, você irá dizer, ou você irá sentir, que foi porque o seu dedo entrou em contato com o fogo que você está sofrendo. Mas quando a reação ocorre [4] mais tarde e quando a ação original não é conhecida ou foi esquecida, ou quando a ação original aconteceu em uma vida passada, e você não sabe qual foi a ação original [5]– neste caso você diz que isto “é o destino, é o destino”. Mas na verdade não existe destino. O que você chama de destino na verdade é a reação de nossas ações passadas. Em sânscrito isto é chamado de samskára. Samskára. Em latim, momenta [6reativos. 

Então, a terceira coisa... Portanto, o destino não pode ser o objeto de ideação. Destino é simplesmente a reação da ação original. E quando não existir uma ação original, não pode haver qualquer reação. Então a reação é uma criação da própria ação de vocês. Se a reação é uma criação da própria ação de vocês, vocês são os criadores, vocês são os pais da reação. Então, como pode a reação ser o objeto de ideação de vocês?

 Não. O ser humano não deve ser fatalista, o ser humano não deve ser adorador do destino, o ser humano deve ser firme. Você deve enfrentar firmemente todas as dificuldades, todas as conseqüências. Lembrem-se: vocês não devem ser fatalistas. Portanto, o destino não pode ser o objeto de meditação. Lute contra o destino. 

Então, algumas pessoas dizem que esta Terra é uma criação do acaso. Este universo é uma criação do acaso. O acaso é a causa essencial desta criação. Então, o acaso é o deus, porque ele criou o mundo. E portanto o acaso deverá ser o objeto de ideação.

 Esta também é uma idéia tola. O que é acaso ou acidente? 

Não existe nada chamado de acidente – tudo é incidente. Quando uma ação é materializada num intervalo de tempo curto – num intervalo de tempo muito curto – ou quando a causa básica da ação não é conhecida por nós – nós apenas estamos vendo a reação, apenas estamos vendo o incidente – o aspecto causal do incidente não é conhecido por nós – ou quando o aspecto causal é traduzido em ação dentro de um intervalo de tempo muito curto, nós dizemos que isto é um acidente. Mas na verdade nada é acidente, tudo é incidente. Por causa da nossa futilidade, ou por causa da nossa falta de conhecimento, nós dizemos que é um acidente. Quando o aspecto causal, quando o fator causal é traduzido em ação dentro de um intervalo muito curto – digamos, alguns segundos –, nós dizemos que é um acidente. E quando ele é traduzido em ação lentamente, nós não dizemos que é um acidente; nós dizemos que é um incidente. Portanto, um acidente não é algo providencial; ou, o nosso acidente não é algo fora do âmbito de tempo, espaço e pessoa. Porque todo acidente ocorre – todos os acidentes ocorrem dentro do escopo de tempo, espaço e pessoa. A entidade que está dentro – não fora – da periferia de tempo, lugar e pessoa não pode ser a meta de vocês, não pode ser o objeto de ideação de vocês, não pode ser o objeto de meditação de vocês e não pode ser... o criador ou a fonte de exaltação de vocês. 

Algumas pessoas dizem... que esses fatores quinqüelementais [7]  dos quais este universo é feito... 

Esses fatores quinqüelementais: o que são esses fatores? Eles não são nada além de uma forma condensada de energia.
 E o que é energia?
 Ela não é nada mais que uma forma condensada de estamina psíquica. Então, como podem esses fatores quinqüelementais deste mundo expresso ser o objeto de ideação? [8] 
 Eles não podem ser a meta de vocês; eles não podem guiar vocês no caminho da beatitude. Portanto, aqueles que são adoradores ou meditadores dos fatores quinqüelementais são pessoas malorientadas. Eles estão apenas desperdiçando a sua energia por nada. 

Algumas pessoas são da opinião de que a Energia Cósmica [9] é a fonte original ou matriz causal do universo. Portanto, esta matriz causal deveria ser o objeto de ideação. 

Mas o que é esta matriz causal? 
Matriz causal... Essa Energia Cósmica não pode considerada como a matriz causal porque ela é uma força cega. A energia é uma força cega. A eletricidade é uma força cega. Ela é controlada pelo intelecto humano. Portanto, como a Energia Cósmica não tem apoio intelectual atrás de si, ela não pode ser a matriz causal. Porque em todos os lugares deste universo, vemos que todas as coisas seguem um estilo ordenado. Ou seja, existe algo intelectual por trás da Energia Cósmica. E é por isso que existe ordem em toda a parte. Existe sistema em toda a parte. Toda a criação tem uma ordem sistemática e por isso ela não pode ser criação de uma força cega ou de uma energia cega. Deve haver alguma força intelectual por trás dela. Portanto, a Energia Cósmica não pode ser tratada como a matriz causal, e não pode atribuir a ela... – não se pode atribuir nenhuma divindade a ela. Ela não pode receber a qualificação de matriz causal. 

 Algumas pessoas são da opinião de que existe a alma, de que existe um espírito em toda e cada estrutura e que esse espírito é a meta da nossa vida. 

Vejam vocês, existem muitos espíritos e almas associados a muitos microcosmos. Mas eles têm que funcionar sob certas limitações. Eles não podem ir além da abrangência do microcosmo. Um objeto, ou melhor, uma entidade que tenha um alcance limitado como esse, tal como o espírito unitário ou a faculdade cognitiva unitária, não pode ser o objeto de ideação de vocês, não pode ser o Criador Supremo. 

Então, quem é o objeto de ideação de vocês? Quem deve ser o objeto de ideação de vocês? Qual é o poder que criou vocês, que alimenta vocês e que põem vocês no Seu colo quando chega o momento apropriado? 

Ele é a Força Cognitiva [10] por trás da Energia Cósmica. Ele controla a Energia Cósmica com o Seu poder intelectual e intuitivo. Ele é a Consciência Suprema. E na verdade Ele é a matriz causal, e Ele deveria ser o único objeto de ideação, o único objeto de meditação de vocês. E Ele é o Pai Supremo. [11] Não há outra alternativa a não ser mover-se ao longo do caminho Dele. Ele sabe tudo. Unam-se com Ele. 

Agora, desde o exato início das suas vidas no passado distante até o ponto culminante de todos os seus movimentos e marchas, vocês estão com Ele, vocês estarão com Ele e... em nenhuma circunstância vocês estarão distantes Dele. Por isso, Ele é o único objeto de ideação – essa Consciência Suprema.

 A raiz do significado do termo bábá é “o mais querido” ou “o mais próximo”. Como Ele é o Pai Supremo, a Consciência Suprema, Ele é Bábá de toda a criação. E como vocês são os seres criados, vocês são as amadas crianças Dele – vocês também são Bábá Dele – porque bábá significa “mais próximo e mais querido”. 
Como ele é o único objeto de ideação de vocês, e como o nome Dele é a única... projeção da entidade microcósmica de vocês, a única projeção de pensamento, a única projeção introversiva – projeção introversiva e extroversiva [12] –, então o nome Dele deveria estar sempre... com vocês, nas suas mentes, nas suas línguas, nas suas cordas vocais, em todos os lugares.
 E eu sinto, e eu também compreendo, e é por isso que eu digo: que quando os devotos Dele, as crianças Dele, cantam Bábá Nám Kevalam, Ele também canta Bábá Nám Kevalam.[13] 

 Kalyáňamastu!!! [Que haja bem-estar.] 

* * *
1 Nota do Tradutor (N.T.): Este é um aspecto da teoria cosmológica do autor. Tal afirmação equivale aproximadamente a dizer-se que todos os seres ou entidades unitárias (microcosmos) existem dentro de uma Mente Cósmica (Macrocosmo). Ou seja, suas existências dependem do funcionamento da Mente Cósmica – e mais: suas existências são propriamente pensamentos ou criações mentais (conações) dessa Mente Cósmica, e não possuem nenhuma existência separada da mesma. 2 N.T.: Nesta altura, três frases do autor foram omitidas pois não estão completamente audíveis ou inteligíveis no áudio do discurso original. O que foi possível transcrever é o seguinte (incluindo as frases imediatamente precedente e subsequente): “Second thing is: […] that it is psychic measurement. Who measures? It is a […]. Now, psychic measurement means psychic mobility.”
3 N.T.: Aqui o autor lança mão de outro aspecto de sua teoria cosmológica – a saber: o Princípio Operativo é um dos dois princípios os quais, juntos, são inteiramente responsáveis pela criação do universo manifesto, e inclusive da própria Mente Cósmica dentro da qual o mesmo existe. A interação desses dois princípios se dá com a operação ou atuação do Princípio Operativo sobre o outro princípio, o Princípio Cognitivo; mas o início dessa operação se dá por uma determinação de parte do Princípio Cognitivo, e não do Princípio Operativo. 4 N.T.: Nesta altura, uma palavra do autor foi omitida pois não está completamente audível ou inteligível no áudio do discurso original. 5 N.T.: Esta última frase foi adaptada pois parte dela não está completamente audível ou inteligível no áudio do discurso original. O que foi possível transcrever é o seguinte: “…or the original action took place in another past life, [there is] not know what was the original action”. 6 N.T.: plural de momentum - significando “impulso”, ou “quantidade de movimento”.
7 N.T.: Os chamados cinco fatores fundamentais. Em sua teoria cosmológica, o autor explica que esse cinco fatores fundamentais foram criados um após o outro, sucessivamente, dentro da Mente Cósmica, e que qualquer entidade material do universo manifesto é composto por uma combinação particular dos mesmos. 8 N.T.: Esta última frase foi adaptada pois parte dela não está completamente audível ou inteligível no áudio do discurso original. O que foi possível transcrever é o seguinte: “Then how […] these quinquelemental factors of this expressed world can be the object of ideation?” 9 N.T.: O termo “Energia Cósmica” aqui é um sinônimo do antes mencionado “Princípio Operativo”.
 10 N.T.: Aqui, o termo “Força Cognitiva” é um sinônimo do antes mencionado “Princípio Cognitivo”. (Vide nota 2.) 11 N.T.: Como já explicado na nota 2, quando o Princípio Operativo, subordinado ao Princípio Cognitivo, começa a atuar sobre este último, inicia-se o processo de criação do universo manifesto. Neste caso, a referência à Consciência Suprema, ou ao Princípio Cognitivo, como “Pai Supremo”, é em sentido figurado. De modo semelhante, o Princípio Operativo, ou “Energia Cósmica”, ou “Força da Natureza”, também pode ser representada como uma “Mãe Suprema”. Entretanto, de acordo com a teoria cosmológica do autor, pode-se apontar que no estágio primordial a Energia Cósmica permanecia sem nenhuma atuação sobre a Força Cognitiva, e esta por sua vez permanecia sem nenhuma expressão. E enquanto não houve a iniciativa do Princípio Cognitivo em “permitir” a atuação da Energia Cósmica, nada aconteceu. É neste sentido que se conclui a subordinação da Energia Cósmica (uma força cega) ao Princípio Cognitivo. 12 N.T.: “intro-cum-extroversial”, em inglês. 13 N.T.: O termo “bábá” já foi explicado pelo autor. “Nám” é uma raiz verbal em sânscrito que significa “Eu me entrego”. E “kevalam” significa que “é o único caminho, que não há alternativa”. De modo que o significado geral desse mantra pode ser entendido como “Somente a esse objetivo, a essa meta, eu me entrego” ou também “Eu estou tomando o nome da Entidade Suprema”.
 Observação: As palavras em negrito correspondem aproximadamente a partes do discurso às quais o autor deu maior ênfase através da elevação do seu tom de voz.
 Revisão da transcrição do arquivo de áudio original, tradução e revisão da tradução: Mahesh Florianópolis: 20 a 22 de março; 18 de setembro de 2009; 16 de março de 2011. 
 Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês) Publicado em: Subhasita Samgraha Part 12 Ba ba in Fiesch (obras ainda não publicadas em português)

RETIRO EM ANANDA KIIRTANA DE ANO NOVO 2016


11/10/2015

PRINCÍPIOS DE PROUT

1. Varnapradhanata cakradharayam

“No movimento dos ciclos sociais, sempre há uma classe que domina.”

Significado: Uma vez que nenhum sistema social evoluiu de forma coesa nos primórdios da civilização, podemos denominar aquela época de era Shudra. Naqueles tempos todas as pessoas obtinham seu sustento através do trabalho braçal. Depois veio a era dos líderes de clãs — dos fortes e destemidos, a qual podemos chamar de era Ksattriya. A esta seguiu-se a era dos intelectuais — também conhecida como era Vipra. Finalmente veio a era dos capitalistas — a era Vaeshya.
Quando guerreiros e intelectuais são subjugados como trabalhadores braçais, devido à exploração promovida pela era Vaeshya [Capitalista], ocorre a revolução dos shudras. Mas os shudras não conseguem formar um sistema social coeso nem têm intelecto suficientemente desenvolvido para governar a sociedade. Por conseguinte, o poder na era pós-capitalista passa logo para as mãos daqueles que comandam a revolução dos shudras — os líderes fortes e corajosos. Assim, começa a segunda era Ksattriya.
Desta forma, as eras Shudra, Ksattriya, Vipra e Vaeshya sucedem-se, acompanhadas de revoluções; e em seguida começa uma segunda ordem cíclica. Assim, os ciclos sociais (samaja cakra) prosseguem em seu processo de rotatividade.
 


2. Cakrakendre sadviprah cakraniyantrakah

“Os sadvipras devem se estabelecer no núcleo do ciclo social e controlar os ciclos sociais.”

Significado: Aquelas pessoas que são moralistas inabaláveis e espiritualistas sinceras e que desejam acabar, mesmo com a utilização de força, com a imoralidade e a exploração são chamadas de sadvipras. Elas não devem atuar na periferia dos ciclos sociais, porque delas é a responsabilidade de controlar a sociedade, portanto, elas devem permanecer firmemente estabelecidas no núcleo dos ciclos sociais.
O movimento rotatório dos ciclos sociais, sem dúvida, prosseguirá, mas se ocorrer de os dominadores — sejam as pessoas dotadas de espírito guerreiro da era Ksattriya, sejam os intelectuais da era Vipra, sejam os capitalistas da era Vaeshya — se degenerarem em exploradores ambiciosos, ao invés de atuar como governantes benevolentes, será um dever sagrado dos sadvipras proteger as pessoas honestas e exploradas e subjugar os exploradores malévolos, mesmo utilizando-se de força.
3. Shaktisampatena cakragatibardhanam krantih

“Uma aceleração no movimento dos ciclos sociais com o uso de força é denominada evolução.”

Significado: Quando se verificar que guerreiros tenham se degenerado em exploradores, os sadvipras deverão estabelecer a era Vipra, após subjugar os exploradores guerreiros. Conseqüentemente, o advento da era Vipra, que deveria ser de forma natural, ocorrerá em função do uso deforça. A uma mudança de eras em tais circunstâncias denomina-se “evolução” (kranti). A diferença entre evolução e mudança natural (svabhavika parivarttana) é apenas esta: no processo evolutivo, o movimento dos ciclos sociais é acelerado com a aplicação de força.
4.Tiivrashaktisampatenagatibardhanam viplavah

“Uma aceleração no movimento dos ciclos sociais com o uso de uma força extraordinária denomina-se revolução.”

Significado: Quando, num curto período de tempo, uma determinada era é substituída pela seguinte, ou quando uma força extraordinária é aplicada para desmontar o domínio fortemente estabelecido em uma era qualquer, tal mudança é denominada “revolução” (viplava).

5.Shaktisampatena vipariitadharayam vikrantih

“Uma reversão no movimento dos ciclos sociais com o uso de força é denominada contra-evolução.”

Significado: Se houver reversão de uma era para a precedente, devido à utilização de força, a tal mudança dá-se o nome de “contra-evolução” (vikranti). Por exemplo, o estabelecimento da era Ksattriya em seguida à era Vipra representa uma contra-evolução. A permanência desta contra-evolução é extre­mamente curta. Isto é, em pouco tempo ela é substituída pela era seguinte ou por aquela que viria imediatamente após esta última. Em outras palavras, se a era Ksattriya suceder, repentinamente, a era Vipra, devido à contra-evolução, então a permanência da era Ksattriya não será muito longa. Em pouco tempo, ela será substituída pela era Vipra ou, como seria natural, pela era Vaeshya.

6. Tiivrashktisampatena vipariitadharayam prativiplavah
“Uma reversão no movimento dos ciclos sociais resultante do uso de uma força extraordinária chama-se contra-revolução.”

Significado: Da mesma forma, se num curto período de tempo o ciclo social for revertido em função do uso de uma força extraordinária, a tal mudança dá-se o nome de “contra-revolução” (prativiplava). A contra-revolução tem uma duração menor ainda do que a contra-evolução.

7. Purnavartanena parikrantih

“Uma rotação completa do ciclo social denomina-se evolução periférica”.

Significado: Uma rotação completa do ciclo social, culminando com a revolução Shudra, é chamada de “evolução periférica” (parikranti).

8. Vaecitryam prakrtadharmah samanam na bhavisyati

“A diversidade, e não a igualdade, é uma lei da natureza.”

Significado: A característica inata do Princípio Operativo Supremo (Prakrti) é a diversidade, e não a igualdade. Dois objetos deste universo nunca são idênticos, sejam dois corpos, duas mentes, duas moléculas, ou dois átomos. Esta diversidade é uma tendência inerente ao Princípio Operativo Supremo.
Aqueles que quiserem tornar tudo igual certamente falharão, porque estarão indo de encontro à característica inata do Princípio Operativo Supremo. Apenas no estado em que o Princípio Operativo Supremo não possui expressão1 tudo é igual. Aqueles que pensam em tornar todas as coisas iguais, inevitavelmente, pensam na destruição de todos.

9. Yugasya sarvanimnaprayojanam sarvesam vidheyam

“As necessidades mínimas de uma era devem ser garantidas a todos.”

Significado: Hararme pita Gaorii mata savadeshah bhuvanatrayam. Isto é, a Consciência Suprema (Purusa) é meu pai, o Princípio Supremo Operativo (Prakrti), minha mãe e os três mundos2 são minha terra natal. Toda as riquezas do universo formam o patrimônio comum de todos, ainda que duas coisas em todo o universo não sejam absolutamente iguais. Portanto, as necessidades mínimas da vida devem estar ao alcance de todos. Em outras palavras, alimentação, vestuário, assistência médica, habitação e educação devem ser proporcionados a todos. As necessidades mínimas dos seres humanos, no entanto, mudam de acordo com a mudança de eras. Por exemplo, no que diz respeito aos meios de transporte, a bicicleta pode ser a necessidade básica numa era, enquanto que o avião poderá sê-lo em outra. As necessidades mínimas devem estar ao alcance de todos, de acordo com a era em que se estiver vivendo.

10. Atirikitam pradatavyam gunanupatena

“O excedente de riqueza deve ser distribuído entre as pessoas meritórias, de acordo com seu mérito.”

Significado: Depois que forem garantidas as necessidades básicas de todos, a cada era, o excedente de riqueza terá de ser distribuído entre as pessoas meritórias, de acordo com o mérito de cada uma. Numa era em que a bicicleta se constituir uma necessidade mínima para as pessoas comuns, um carro será necessário a um médico. Em reconhecimento ao mérito das pessoas e para que lhes sejam dadas maiores chances de prestar serviços à sociedade, elas terão direito a um carro. O ditado “sirva de acordo com sua capacidade e ganhe conforme sua necessidade” soa agradável ao ouvido, mas não colherá resultado algum no solo árido da terra.

11. Sarvanimnamanabardhanam samaja jiivalak-sanam

“A melhoria do padrão de vida básico das pessoas indica a vitalidade da sociedade”.

Significado: As pessoas meritórias devem receber algo mais além dos requisitos mínimos assegurados às pessoas em geral, como também deve-se fazer esforços incessantes para elevar o padrão de vida básico. Por exemplo, enquanto hoje a necessidade mínima de uma pessoa comum seria uma bicicleta, a de uma pessoa meritória seria um automóvel, mas esforço apropriados devem ser feitos para que as pessoas comuns tenham acesso aos automóveis. Depois que estas tiverem adquirido carros, poderá ser necessário dar às pessoas meritórias a oportunidade de ter um avião. Depois que estas tiverem um avião, esforços deverão ser feitos para proporcionar às pessoas comuns um avião, elevando-se, então, o padrão de vida mínimo. Desta forma, os esforços para elevar o padrão de vida mínimo devem ser incessantes, e deles dependerão o desenvolvimento material e a prosperidade dos seres humanos.

12. Samajadeshena vina dhanasaincayah akartavyah

“Nenhum indivíduo deve acumular qualquer riqueza material sem a permissão ou a aprovação clara do corpo coletivo”.3

Significado: O universo é uma propriedade de todos. Todas as pessoas têm direito ao usufruto mas não à má utilização da propriedade coletiva. Se uma pessoa adquire e acumula riqueza em excesso, ela diretamente priva outros de seu conforto e felicidade na sociedade. Tal comportamento é flagrantemente anti-social. Portanto, ninguém deveria acumular riqueza sem o consentimento da sociedade.

13. Sthulasuksmakaranesu caramopayogah prakartavyah vicara samarthitam vantanainca

“Deve haver máxima utilização e distribuição racional de todo o potencial do universo, nos planos mundano, supramundano e espiritual .”

Significado: As riquezas e os recursos disponíveis dos mundos denso, sutil e causal devem ser desenvolvidos para o bem-estar de todos. Todos os recursos inexplorados no mundo qüinqüelemental — sólido, líquido, luminoso, aéreo e etéreo — devem ser utilizados em sua totalidade, e o esforço nesse sentido garantirá o desenvolvimento máximo do universo. As pessoas devem explorar com pertinácia a terra, o mar e o espaço, para descobrir, extrair e processar as matérias-primas fundamentais às suas necessidades.
Deve haver uma distribuição racional da riqueza acumulada da humanidade. Em outras palavras, todas as pessoas devem ter garantidas as necessidades mínimas. Além disso, as necessidades das pessoas meritórias e, em certos casos, das pessoas com carências especiais devem ser consideradas.

14.Vyastisamastishariiramanasadhyatmika sambhavanayam caramo payogashca

“Deve haver máxima utilização dos potenciais físico, metafísico e espiritual da sociedade humana, tanto do indivíduo como do corpo coletivo “.

Significado: A sociedade deve assegurar o desenvolvimento máximo do corpo coletivo, da mente coletiva e do espírito coletivo. Não deve ser esquecido que o bem-estar coletivo consiste no indivíduo e que o bem-estar individual consiste na coletividade. Se o conforto individual não for garantido, por meio da provisão apropriada de gêneros alimentícios, luz, ar, acomodação e cuidados médicos, o bem-estar do corpo coletivo não poderá jamais ser conseguido. Motivados pelo espírito de melhorar o bem-estar coletivo, nós devemos promover o bem-estar individual
O desenvolvimento da mente coletiva será impossível de ser alcançado, se não houver um desenvolvimento apropriado da conscientização social para encorajar o espírito de serviço social e despertar o conhecimento em cada indivíduo. Assim, inspiradas no pensamento de promover o bem-estar da mente coletiva, as pessoas devem fomentar o bem-estar da mente individual.
A ausência de moralidade espiritual e de espiritualidade nos indivíduos quebrará a espinha dorsal da coletividade. Assim, para garantir o bem-estar coletivo, é necessário despertar a espiritualidade nos indivíduos. A mera existência de meia dúzia de pessoas fortes e bravas, de um número reduzido de intelectuais ou de alguns poucos espiritualistas não indica o progresso de toda a sociedade. A potencialidade para o desenvolvimento nos planos físico, mental e espiritual é inerentes a todos os seres humanos. Esta potencialidade tem que ser desenvolvida e desfrutada.

15. Sthulasuksmakaranopayogah susantulitah vidheyah

“Deve haver um ajuste apropriado quanto à utilização nos planos físico, metafísico, mundano, supramundano e espiritual.”

Significado: Para que o bem-estar de indivíduos e da coletividade seja garantido, deve haver um ajuste apropriado quanto à utilização nas esferas física, mental e espiritual e nos mundos denso, sutil e causal. Por exemplo, a sociedade tem a responsabilidade de prover os requisitos mínimos de cada indivíduo. Mas se alimentação e habitação forem asseguradas sob o impulso dessa responsabilidade, a iniciativa individual será menosprezada. As pessoas, gradualmente, ficarão letárgicas. Portanto, a sociedade deve garantir que as pessoas, através de seu trabalho e de acordocom sua capacidade, possam ganhar o dinheiro suficiente para a aquisição das necessidades mínimas. Para elevar o nível das necessidades básicas das pessoas, a melhor política é aumentar o seu poder aquisitivo.
Por “ajuste apropriado” entende-se que a sociedade deve adotar uma política equilibrada quanto à utilização de serviços de uma pessoa capacitada, em qualquer um dos planos: físico, mental e espiritual. Quando utilizar os serviços de uma pessoas, a sociedade deverá levar em consideração sua habilidade predominante, seja no plano físico, seja no intelectual, seja no espiritual. Em relação àqueles que tiverem maior desenvolvimento físico e intelectual, a sociedade deve adotar uma política equilibrada, exigindo deles mais serviço intelectual e menos serviço físico, porque a capacidade intelectual é comparativamente mais sutil e rara. Daqueles que são física, mental e espiritualmente desenvolvidos, a sociedade deve obter o máximo de serviço espiritual, um pouco de serviço intelectual e muito menos de serviço físico.
No que diz respeito ao bem-estar social, aqueles providos de força espiritual podem prestar os melhores serviços, seguidos daqueles providos de capacidade intelectual. Aqueles que só têm força física, embora sejam importantes, não podem fazer nada de forma independente. O que quer que façam, o fazem instruídos por pessoas providas de capacidade intelectual ou espiritual. Desta forma, a responsabilidade de controlar a sociedade não deve ficar nas mãos daqueles que só têm força física, ou nas mãos de pessoas que só são corajosas, ou ainda nas mãos daqueles que são apenas desenvolvidos intelectualmente, ou das pessoas providas de conhecimento exclusivamente do mundo material. O controle social deve ficar nas mãos das pessoas que são, ao mesmo tempo, espiritualmente elevadas, inteligentes e corajosas.

16. Deshakalapatraeh upayogah parivarttante te upayogah pragatishiilah bhaveyuh

“O método de utilização deve variar de acordo com as mudanças de tempo, lugar e pessoa e a utilização deve ser de natureza progressiva.”

Significado: A utilização apropriada de qualquer objeto varia de acordo com as mudanças de tempo, lugar e pessoa. Aqueles que desconhecem este princípio simples permanecem apegados ao esqueleto do passado e como resultado são descartados pelo dinamismo da sociedade. Sentimentos mesquinhos baseados em nacionalismo, regionalismo, orgulho de linhagem etc., tendem a manter certas pessoas afastadas deste princípio fundamental e, por isso, elas nunca o aceitam, sem reservas, como uma verdade elementar. Em conseqüência, essas pessoas, depois de causarem danos indescritíveis a seus países, aos cidadãos e a si próprios, são forçadas a sair furtivamente para o anonimato.
O método de utilização de cada objeto varia de acordo com os fatores tempo, lugar e pessoa. Isto tem de ser aceito e, após reconhecerem este fato, as pessoas terão de utilizar cada objeto e cada idéia de maneira progressiva. Por exemplo, a energia despendida por uma pessoa forte para manusear uma marreta deveria, com a ajuda de recursos científicos, ser utilizada para manejar mais de um equipamento, evitando-se desperdícios de energia com o manejo de uma só ferramenta. Em outras palavras, a pesquisa científica dirigida por idéias progressistas deve utilizar cada vez mais o potencial humano. Não é sinal de progresso o uso de tecnologia defasada numa era de desenvolvimento da ciência.
A sociedade terá de enfrentar bravamente os diferentes tipos de obstáculos, grandes ou pequenos, que surjam no processo de utilização de recursos e materiais diversos com idéias progressistas e tecnologia de ponta. Através da luta, a sociedade terá de seguir em direção à vitória, no caminho da realização plena da vida.

Pragatishiila upayogatattvamidam’ sarvajanahita’rtham’ sarvajanasukha’rtham’ praca’ritam

Esta é a Teoria da Utilização Progressiva, que foi elaborada para a felicidade e o bem-estar geral de todos.

Jamalpur, 28 de junho de 1961
Ananda Sutram

1 O universo infinito é composto de dois princípios: Princípio Cognitivo Supremo ou Consciência Suprema (Paramá Purusa, em sânscrito) e Princípio Operativo Supremo ou Energia (Prakrti, em sânscrito). A Consciência Suprema, que domina a Energia no estágio em que não há criação, permite, num momento que não pode ser definido em termos de tempo e lugar, que a Energia atue sobre Ela e inicie a criação, mas a Consciência permanece a observar, como uma Testemunha, todo o processo da criação, mantendo-se em seu estado imperturbável de absoluta paz e igualdade, onde a Energia não tem qualquer expressão. Para um maior aprofundamento na filosofia espiritual, recomendamos a leitura de outros livros publicados pela editora.

2 Os três mundos significam as três forças (ou atributos) do Princípio Operativo: sutil, mutatória e estática. Elas atuam em conjunto no universo e nunca de forma isolada. Em cada coisa do universo físico ou metafísico uma dessas forças prevalece sobre as outras duas. A força sutil ajuda na elevação da consciência individual, a força estática degrada a consciência individual e força mutatória faz o elo entre essas duas forças.

3 Os princípios de números 12 a 16 são denominados os “Cinco Princípios Fundamentais de PROUT”. Foram originalmente enunciados, em inglês, em 5 de junho de 1959, no discurso denominado The Cosmic Brotherhood, do livro Idea and Ideology. Dois anos depois, ao lançar o livro Ananda Sutram, no capítulo 5, o autor enunciou os onze primeiros princípios e acrescentou a estes cinco seus “significados” e os aforismos em sânscrito.


Tantra e os Poderes Sobre-naturais

A ciência da espiritualidade desenvolveu-se através do desejo inato presente nos seres humanos de descobrir o mistério da criação. Os seres humanos começaram a procurar o segredo da causa de todos os aspectos, bonitos e aterradores, da natureza. Eles procuraram à sua volta nos rios e mares, nas distantes montanhas, nos relâmpagos, no som dos trovões, nos rugidos de animais ferozes – e começaram e mergulhar nas profundezas desses mistérios. É a este esforço para se alcançar a verdade escondida de todas as coisas que chamamos de Tantra. Como estes esforços foram feitos em diferentes alturas, em diferentes lugares e por diferentes grupos ou indivíduos, encontramos diferentes metodologias nas várias escolas de Tantra.

Tantra teve origem no sul da Ásia, e os seus originadores foram os Austrics, os Dravidians e os Mongolians. Destes, os Dravidians e os Mongolians eram os mais desenvolvidos e os Austrics os menos desenvolvidos. Os praticantes do Tantra mais desenvolvido tinham uma abordagem mais ampla de todas as coisas, renunciando a todo o tipo de pensamentos limitados. Eles faziam sempre um esforço para trazer um maior bem-estar para as massas. Através desse serviço desinteressado, eles ultrapassavam as limitações da mente, como o ódio e a vergonha. Os praticantes do Tantra menos desenvolvido comportavam-se de maneira oposta. Ocupavam-se com as castas, ódios e invejas em relação a outros grupos.

A superação das limitações materiais simboliza o maior dos progressos humanos. A palavra tantra significa que uma pessoa se “libertou de todas as amarras de crueza” e, por isso, Tantra é considerado o melhor tipo de prática espiritual. Sadashiva foi o primeiro mestre deste tipo de Tantra. Ele desenvolveu algumas regras, assegurando assim o progresso total em todas as esferas da vida humana. Criou um sistema perfeito, revisando e coordenando todos os ramos do Tantra. Investigou e provou a eficácia de ambos os aspectos externos e internos do Tantra. O aspecto externo do Tantra consistia em sa´dhana´ com caveiras, em cemitérios. O aspecto interno consistia na prática de yoga. É, ultimamente, através do Tantra interno que os seres humanos podem atingir o culminar do sucesso espiritual.

Os seres humanos nunca poderão atingir a libertação só por lisonjear Prakrti. Uma entidade que é lisonjeada torna-se orgulhosa. Os seres humanos não se devem tornar escravos da matéria. Mas se os sa´dhakas adorarem Purus´a e ignorarem Prakrti, vão ver que Prakrti irá começar automaticamente a lisonjeá-los.

Não existe nada de “sobre-natural” neste mundo. Todos os tipos de poderes estão latentes nos seres humanos. Às vezes temos vislumbres destes poderes latentes. Usando uma terminologia mais desenvolvida, estes vislumbres podem ser chamados de “intuição”. Os seres humanos podem desenvolver tudo isso, atingindo, eventualmente, poderes extraordinários. Aos olhos das pessoas comuns, estes poderes parecem sobre-naturais, mas na verdade eles são naturais. É um facto que as pessoas comuns não conseguem fazer essas coisas extraordinárias e por isso é que quando vêem esses poderes, os chamam de sobre-naturais.

O Tantra é uma fonte de tais poderes extraordinários. Num curto espaço de tempo, quebram-se todos as pa´shas e ripus [amarras e inimigos da mente] que limitam a mente. Enquanto a mente permanece amarrada, tende a mover-se em direcção a objectos materiais crus; isto é, a mente associa-se inevitavelmente à matéria. Mas uma vez que essas correntes se quebrem, através da prática de Tantra, a mente desassocia-se desses objetos crus. Isto implica uma elevação dos seres humanos porque é através desse desapego que o progresso físico, psíquico e espiritual se torna possível.

Quando falamos dos ripus [inimigos] da mente, referimo-nos apenas aos inimigos internos, ou inatos. Para um ser humano, trazer esses ripus sob o seu controlo representa uma importante vitória. Essas pessoas que o conseguem fazer atingem um elevado controlo sobre as forças da matéria e podem realizar feitos que aos olhos das massas são interpretados como algum tipo de poder sobrenatural.

No Tantra, o esforço para estabelecer o controlo sobre a matéria ou sobre forças externas é chamado avidya´ sa´dhana´. E a prática que leva à auto-realização é chamada de vidya´ sa´dhana´. E o ramo do Tantra que não é nem vidya´ nem avidya´ sa´dhana´ é chamado upavidya´ sa´dhana´. Apenas vidya´ sa´dhana´ contribui para o bem-estar da humanidade; as outras duas práticas são um mero desperdício de tempo. A prática de avidya´ conduz à degradação. Sada´shiva, o professor original do Tantra, reuniu e sistematizou todos os ramos do Tantra, mas não encorajou a prática de Avidya´ porque é um tipo inferior de sadhana´. Quando as pessoas praticam sa´dhana´ com o objectivo de atingir poderes “sobre-naturais”, os seus objectos mentais tornam-se crus, pois após atingirem esses poderes, usam-nos para vinganças ou para o seu auto-engrandecimento.

Vidya´ sa´dhana´ esteve quase extinta nos últimos 1200 anos. E agora existem apenas alguns Avidya´ Tantrics – o resto são charlatões e hipócritas. Após morrerem, estas pessoas vão renascer como minhocas e insectos.

Os seres humanos praticam sa´dhana´ para se tornarem um com Brahma, não para se tornarem fantasmas ou espíritos maus. Para se tornarem um com Brahma, têm que praticar Vidya´ Tantra, e não Avidya´ Tantra. Claro que, através de qualquer tipo de sadhana´, os sa´dhakas libertam-se das pa´shas e ripus. Mas a diferença entre estes dois tipos de sa´dhana´ é que os praticantes de Vidya´ Tantra canalizam o seu poder espiritual para alcançar Parama´tma´, enquanto que os praticantes de Avidya´ Tantra utilizam os seus poderes para benefícios mundanos. Através de Vidya´ Tantra uma pessoa “liga-se” (ganha) Prama´tma´, enquanto que através de Avidya´ Tantra “liga-se” (domina) outros seres vivos. Os Vidya´ Tantrics aceitam Parama´tma´ como o seu objecto supremo de adoração e, para se tornarem um com Ele, canalizam todos os seus poderes em direcção a Ele.

Também de um ponto de vista médico, a Tantra sa´dhana´ tem a sua utilidade. Em tempos remotos existiam muitos peritos Védicos em a´yurveda. Mas como não eram Tantricos, tinham limitações em utilizar por inteiro todo o seu conhecimento médico para curar pacientes. Por causa dos seus preconceitos – o seu ódio em relação a certos grupos, as suas crenças nas castas, etc – eles hesitavam em tocar os corpos de certos pacientes; enquanto que os médicos Tantricos, graças ao seu controlo sobre tais limitações mentais como o ódio, medo e vergonha, realizavam o serviço médico de uma forma mais apropriada. As práticas da dissecação e cirurgia estavam somente nas mãos dos médicos Tantricos.

P.R.Sarkar-Julho 1960, Muzaffarpur

Publicado em:
Ánanda Vacanámrtam Part 25
Discourses on Tantra, Volume Two

23/02/2015

PRIMEIROS ANOS E MINHA INICIAÇÃO

               Quando revejo os 36 anos de convivência com o meu Guru, Bábá, muitas coisas me vêm à mente. Ele me abençoou com experiências espirituais maravilhosas. As palavras parecem ser inadequadas para descrever a bem-aventurança que ele me deu. Muitas experiências são extremamente pessoais para serem reveladas. No entanto, farei o melhor possível para narrar a minha vida espiritual com Bábá, no interesse de todos e especialmente dos que buscam a espiritualidade.
 

            Nasci em junho de 1919. Quando menino, eu era muito magro e frágil. Tinha gênio perverso e vivia arrumando encrencas. Certa vez, eu fui derrotado em uma briga, diante de muitos espectadores. Isto me desmoralizou. No colégio, também era um fracasso.
            Aos treze anos de idade, tinha um pequeno defeito físico, e minha timidez me impedia de contar isso a alguém. Então, por intuição tive a idéia de praticar ásanas (posturas de ioga) para curar esse problema, só que não sabia como começar.
            Pela graça de Deus, um senhor me perguntou se eu queria aprender ásanas. Fiquei contente com sua oferta e aceitei. Bastante satisfeito, aprendi várias posturas, as quais praticava diariamente com exagerado interesse. Mesmo depois de meu problema ter desaparecido, continuei a praticar ioga, porque me sentia mais saudável e mais forte.
            Exatamente um mês depois, me veio a idéia de começar a meditar diariamente. Queria saber em que parte do corpo deveria me concentrar, durante minha meditação. A resposta intuitiva me dizia que eu deveria me concentrar na parte do corpo mais preciosa para mim. Decidi que seria o coração: a parte mais querida. Então, comecei a meditar fixando-me em meu anahata cakra, o centro psíquico situado no tórax.
            Na escola eu era o aluno mais fraco. Sentia-me tão frustrado que queria abandonar os estudos. Pedi a meu tio, que era meu tutor, permissão para sair da escola, mas ele a recusou. Eu queria ser um grande homem, então, me dei conta de que, se abandonasse os estudos, provavelmente, não poderia alcançar esse objetivo. Decidi permanecer na escola, e, embora o meu aproveitamento fosse péssimo, continuei a praticar ásanas e meditação.
            Após alguns meses, me veio a idéia de renunciar a tudo, queria deixar todas as coisas mundanas e tornar-me um sannyásii, como os santos de quem tinha ouvido falar. Decidi que deixaria a minha casa na manhã seguinte, às 4 horas da manhã, para nunca mais voltar.
            Mas quando o momento chegou, fiquei com medo. Para onde deveria seguir? Eu nada sabia sobre a vida dos sannyásiis, e ainda era um menino. Não sabia o que fazer àquela hora da manhã, bem cedo. Pedi a Deus que por favor me liberasse da minha promessa, pois eu não poderia adotar esse novo sistema de vida. Espontaneamente, disse que iria para Ele quando eu tivesse 45 anos.
             Depois disso, minha vida mudou. Sem tomar uma decisão consciente, me tornei intelectual. Era como se a força obtida da prática espiritual fosse reconduzida para os estudos.
            Comecei a estudar profundamente e passei a ter grande interesse pelos estudos. Comecei a melhorar na escola. Fiquei mais sério, calmo e quieto. Embora não tivesse dado conta do fato, minha vida tinha melhorado de forma extraordinária, porque estava praticando ásanas e meditação.
            Comecei a adquirir as virtudes de sempre: falar a verdade e não causar danos aos outros. Comecei a dormir no chão e não mais na cama. Evitei todos os maus hábitos e segui uma vida de disciplina e trabalho árduo. Comecei também a perceber a graça de Deus. Estas mudanças assombraram os meus colegas e familiares.
            Comecei a jejuar nos dias ekadashi (o 11° dia após a lua cheia e lua nova), esta prática espiritual é amplamente reconhecida na Índia, mas às vezes eu adoecia e tinha outros problemas físicos. Pensei que talvez isto fosse causado pelo jejum, então, suspendi a prática depois de alguns meses.
            Quando entrei para o curso secundário, também parei de meditar e fazer ásanas, pois o ambiente não era propício. Porém, a minha vida de trabalho árduo e a sede de estudar continuaram.
            Por causa dessas experiências, acredito agora que, na vida espiritual, só podemos seguir sozinhos até uma certa distância, mas com um guia espiritual é possível termos sucesso. Se eu tivesse um Guru àquela época, teria continuado as minhas práticas espirituais sem interrupção. (Voltei a jejuar nos dias ekadashii mais tarde, em 1956, após ler Caryácarya, um dos livros de Bábá, no qual Ele recomenda o jejum para uma vida longa e o desenvolvimento espiritual. Fiquei muito satisfeito de receber essa instrução.)
             Sempre que algum iogue ou santo visitava nossa cidade para falar de espiritualidade, eu ia ouvi-lo. Muitos deles me pediam que os seguisse, então, eu lhes perguntava: “Você tem solução para a falta de alimentos para o povo da Índia? Se tiver, eu me juntarei à sua missão”. Como ninguém tinha, dei continuidade aos meus estudos.
             Após ter completado os estudos, fui trabalhar no Departamento Central de Tarifas e Aduana, em 1944, aos 25 anos.
            Uma tarde, ainda no meu primeiro ano de trabalho, fui caminhar com um colega. Estávamos na confluência do rio Ganges com o rio Kosi, perto de Kursela, na província de Bihar. Esse lugar é considerado um ponto espiritual pelo povo da Índia. A tarde estava muito calma e bonita.
            Meu colega me falou sobre um grande espiritualista da Índia, sobre o qual comentou que fazia coisas maravilhosas. Perguntei então quem era esse grande iogue e onde ele morava, mas meu amigo não sabia.
            Atualmente está bem nítida para mim a definição do meu colega. O próprio Bábá estava me atraindo para ele.
            Sempre que alguém tiver um desejo sincero de um mestre espiritual, isto será satisfeito pela Entidade Cósmica.
             Dez anos mais tarde, em 1954, ao trabalhar em Purnia, Bihar, encontrei Naginajii, que era superintendente de Departamento. Eu tinha grande respeito por ele, pois tinha ouvido meus colegas falarem sobre a sua generosidade, bondade e destemor. Ele também aparentava gostar de mim. Foi a primeira pessoa a me contar sobre Bábá. Ele foi um dos primeiros discípulos de Bábá e era um dos mais ardorosos. Naquela época, a Organização ainda não existia e não havia livros publicados. Naginajii me aconselhou a tomar as lições de prática espiritual com Bábá.
            Disse a Naginajii que iria refletir e que decidiria depois. Preocupava-me ser iniciado por esse Guru, pois teria que levar a sério os seus ensinamentos. Percebi que deveria seguir estritamente o código de disciplina e ser muito regular nas minhas práticas. Estava com medo de perder a minha liberdade.
            Após uns trinta dias, quando encontrei novamente com Naginajii, ele queria saber da minha decisão sobre a sua proposta de aprender sádhaná. Eu ainda não tinha me decidido. Porém, quando ele me perguntou, resolvi aceitar e participar. Eu não podia me recusar. Disse-lhe, então, que estava pronto.
            Naquela época, era necessário obter permissão antecipada de Bábá para ter iniciação. Naginajii me disse que iria escrever a Bábá para obter a minha permissão.
            Após alguns dias, veio uma resposta afirmativa, autorizando-me a receber a iniciação. Ele me pediu que fosse a Jamalpur, uma cidade distante a nove horas de viagem de trem, onde Bábá então vivia. Marcamos uma data.
            Na data marcada fui à estação. Na plataforma, encontrei alguns colegas que disseram que Naginajii acabara de ser rebaixado do cargo de superintendente para vice-superintendente. Eles contaram que a causa de seu rebaixamento foi Bábá. Achei que Bábá estava sendo mal-agradecido com seu devoto. Esta notícia me perturbou muito. Por isso, resolvi não ir à iniciação
            Algum tempo depois, Naginajii esteve comigo e perguntou por que eu não tinha ido. Contei-lhe então o que tinha ouvido e falei-lhe da minha preocupação. Ele ficou chateado e disse que aquilo não era verdade; que seus próprios samskaras foram a causa de seu rebaixamento; e que era uma injustiça para com Bábá culpar-Lhe pelo acontecido. Naginajii comentou que eu tinha errado ao perder o encontro marcado para a iniciação com Bábá.
            Pedi desculpas e solicitei nova permissão para ir a Jamalpur.
            Ele me disse que poderia obter permissão mais uma vez, mas se eu faltasse de novo não teria outra chance.
            Então Naginajii solicitou permissão de Bábá para que eu fosse. Shrii Bhavani Shankarjii, de Patna, um grande amigo meu, e que era mais antigo que eu no Departamento Aduaneiro, também conseguiu a permissão na mesma data. Fomos juntos a Jamalpur. Estávamos no final do ano de 1954.
            Jamalpur, a cidade onde Bábá nasceu, era um local pacato e de uma paz maravilhosa para a prática da meditação. Naquela época, Bábá era um funcionário da área administrativa da Rede Ferroviária. Fomos aos seus humildes aposentos na Vila Ferroviária.
            Bábá tinha então 33 anos. Ele parecia muito novo e esguio. Possuía uma personalidade charmosa e atraente. Durante a iniciação, sentou-se numa cadeira e então me ensinou a primeira e a segunda lição de sádhaná da Ánanda Márga.
            Após a iniciação, Bábá afetuosamente pediu que eu me sentasse em seu colo. Um pouco relutante, eu disse: “Você é magro e eu sou gordo e pesado, assim vou lhe causar problemas”; Bábá insistiu, então, sentei em Seu colo e Ele me abençoou.
            Muitas vezes vi Bábá olhar a Seus discípulos com mais amor do que um pai olha para seus filhos, então, compreendi que lhe é totalmente adequado o nome espiritual Shrii Shrii Ánandamúrtijii, que significa “A personificação da Bem-aventurança que atrai a todos”.
As palavras não são o meio mais adequado de expressão para descrever o meu sentimento interior por Bábá. Sinto que posso expressar melhor a devoção a Ele através de gestos, posturas e lágrimas. Na meditação profunda, quando o corpo se torna totalmente calmo e quieto como uma estátua, nos damos conta de que Ele está além de todas as palavras, todas as formas e todas as idéias.
            Depois, acompanhei Bábá numa caminhada. Eu pensava ter sido um grande homem na minha vida passada. (Doze anos mais tarde, em 1965, quando me sentei com Bábá na tumba do tigre em Jamalpur, Ele me disse que há 150 anos eu tinha levado uma vida muito bem-aventurada com Ele em outro planeta. Eu não tinha nenhuma idéia ou recordação desse fato afortunado. Só depois percebi, na minha sádhána, o quanto aquilo significava termos de bem-aventurança).
            Bábá orientou-me para que aprendesse ásanas com o ácárya local. (Ele tinha recém-designado os dois primeiros ácáryas de família). O ácárya me passou algumas posturas. Aprendi com ele que dentre as 40.000 ásanas existentes, Bábá selecionara apenas 42 para os aspirantes espirituais. A sua prática regular corrige desequilíbrios glandulares e melhora a saúde em geral. Em combinações diferenciadas, elas podem curar todas as doenças que impedem nossa evolução espiritual.
            Por exemplo, a Shirásana (Postura da Bananeira) é muito popular hoje em dia, mas ela danifica alguns nervos sensíveis no topo da cabeça, no sahásrára cakra, e causa irritabilidade. Em substituição a ela, Bábá recomenda Sarvaungásana (Postura da Vela) e Matsyamudra (Postura do Peixe). Estas posturas possuem todos os benefícios da Shirásana, sem os seus efeitos colaterais.
            O ácárya explicou que, para praticar ásanas, eu deveria seguir estritamente a dieta vegetariana; no que concordei imediatamente.
             A iniciação é extremamente importante. As escrituras de ioga dizem que há quatro estágios na vida humana.
            Janmaná jayate shudrah
            Sam’skárát dvijaucyate
            Vedapátham’ bhavet vipra
            Brahma jánáti sah Bráhman’am
            O primeiro estágio significa que ao nascer todos são shudras, aquela pessoa cujo objetivo na vida é desfrutar do mundo material.
            O segundo estágio, o renascimento, é alcançado na iniciação, porque muitas mudanças começam a acontecer. Aprendemos e começamos a seguir os princípios morais de Yama e Niyama, que são:
1.    Ahims’á: Não infligir dor ou causar danos intensionalmente a outros por pensamentos, palavras ou ações.
2.    Satya: Usar corretamente as palavras, tendo em vista o bem-estar coletivo.
3.    Asteya: Não se apoderar do que pertence a outros, ou seja, não roubar.
4.    Brahmacarya: Manter a mente absorta na Consciência Suprema, vendo todas as pessoas, bem como outros seres vivos e objetos inanimados como diferentes expressões do Supremo.
5.    Aparigraha: Não ser indulgente no gozo daquelas amenidades e confortos desnecessários a preservação da vida.
6.    Shaoca: Manter a limpeza externa e a pureza mental interna
7.    Santos’a: Manter um estado de contentamento e tranqüilidade mental.
8.    Tapah: Sacrificar-se ou penitenciar-se no serviço a outros.
9.    Svádhyáya: Estudar as escrituras espirituais para obter um entendimento claro de seu verdadeiro significado.
10.Iishvara Pran’idhána: Estabelecer-se na Idéia Cósmica, aceitando o Supremo como único ideal e movendo-se com velocidade acelerada em direção a esse abrigo supremo.
             Durante a iniciação, aprendemos um mantra pessoal e uma técnica de meditação a ser praticada regularmente duas vezes ao dia. Isto concentra a mente e expande-a em direção à Consciência Suprema.
            A prática da meditação transforma a personalidade do indivíduo. Ele passa ter uma concepção espiritual e gradualmente obtém equilíbrio emocional, compaixão, visão universal, sabedoria e devoção. Ao mesmo tempo em que esta transformação interna acontece nos damos conta do grande valor de satsaunga, companhia de outros espiritualistas. Este convívio ajuda o sádhaka a manter um ajuste entre o seu desenvolvimento interno e o mundo externo.
            Quando um aspirante espiritual estuda filosofia profundamente com sua nova compreensão espiritual, ele alcança o terceiro estágio e se torna um táttvika — aquele que conhece filosofia espiritual e pode ensiná-la a outros. Finalmente ele torna-se um ácárya, que significa aquele que alcança o conhecimento de Deus e que, com o próprio exemplo e conduta, ensina outros a se moverem em direção à meta mais elevada.
            Infelizmente, esta escritura em particular tem sido deliberadamente mal-interpretada para perpetuar o sistema hereditário de castas. Quando compreendida em seu verdadeiro sentido, ela significa que mesmo uma pessoa humilde, tanto de nascimento como profissionalmente, torna-se dvija, ou renascido, quando inicia a prática espiritual.
            Riqueza, conhecimento, fama e posição são os critérios atuais de status de alguém. O que distingue os seres humanos de todos os outros animais é a nossa consciência mais elevada. Então o desenvolvimento da consciência deve ser nosso critério para avaliar as pessoas.
            Aquele que aceita a orientação do Guru e se inicia na prática espiritual, começa uma jornada interior para a auto-realização. É por isso que ele é chamado de pessoa renascida e que merece o reconhecimento da sociedade como aquele que tem uma consciência mais elevada que os não-sádhakas.
             Mais tarde Bábá me perguntou se eu, aos treze anos de idade, pensava que algum dia iria existir uma sociedade na qual as pessoas seriam julgadas por seu padrão de moralidade e espiritualidade. Eu afirmei que sim.
            Jamais contei a qualquer pessoa sobre isso, naquela época ou depois. Mesmo assim, Bábá sabia meus pensamentos juvenis. Então disse a Bábá: “Naquela época, esta idéia parecia só um desejo. Mas agora você a tornou realidade, na Ánanda Márga”. Bábá sorriu.
            Este incidente me convenceu de que espiritualmente Bábá tem estado comigo desde o início da minha vida e que ficará até o fim.
            Acredito que isto é válido para todos. Muitos anos mais tarde, na canção Prabhat Sanguiita de número 1.103, Bábá disse:
            Jiivanera prathama prabhate se chilo amarai sathe
            Thakibe se sathe sathe
            Jiivanera shes'a khanete
“Ele estava comigo na primeira manhã da vida e Ele permanecerá comigo até o fim da minha vida.”
            Compreendo agora que a fase dos treze anos (a puberdade) é a mais crucial, pois é quando surgem as mudanças naturais. Uma vez escutei de Bábá que esta é a melhor idade para começar a vida de sannyásii, porque todas as glândulas já se desenvolveram naquela idade. Isto traz mudanças significativas no caráter e no comportamento da pessoa.
            Acredito que se as crianças forem bem cuidadas desde a concepção, elas podem fazer um progresso enorme. Quanto mais nova é uma criança mais receptiva é sua mente. Elas podem facilmente aprender o que lhes é ensinado.
            Por isso, pais e professores devem conduzir cuidadosamente as crianças nos planos físico, mental e espiritual. Na verdade, a educação de uma criança começa ainda no útero. A história de Abhimanyu do épico Mahábhárata é um exemplo glorioso disto. Ele aprendeu muitos segredos da vida e da guerra ainda no útero, ouvindo seu pai Arjuna dar explicações à sua mãe Subhadra.
             Bábá normalmente falava comigo de maneira muito informal. Todos percebiam que Ele sempre agia como um perfeito cavalheiro.
            Ele generosamente nos transmitia constantemente conselhos valiosos. Pensamentos e palavras benevolentes sempre fluíam de sua mente. Sua graça nos fascinava e eu ansiosamente procurava entender tudo.
            Bábá ensinou-me que a persistência e a determinação são bons hábitos. Se ouvirmos uma boa idéia devemos trabalhar arduamente até que ela seja concretizada, senão ela será inútil. Persistência é essencial.
            Ele discursava freqüentemente sobre diferentes tópicos: literatura, filologia, ciência, tecnologia, astronomia, astrologia, comércio, indústria, energia, todas as diferentes escolas de filosofia, tantra, música, dança e muitas outras coisas. Aqueles que dentre nós estavam por perto todos os dias, arrependem-se, hoje, de não terem sido capazes de gravar tudo. Na verdade, parecia impossível fazê-lo, pois também tínhamos muito trabalho para fazer na organização.
            Sentia como se Bábá estivesse tentando nos dar muitos litros de leite todos os dias, mas nós só possuíamos uma caneca para guardá-lo, devido à estreiteza de nossas mentes; nenhum de nós conseguia compreender e lembrar de tudo que Bábá dizia. Então, Ele nos ensinou a expandir e aumentar nossas mentes com a prática de sádhaná, serviço e sacrifício. Isto nos ajudou a utilizar mais os talentos de Bábá. Esta é a nossa meta. Atualizar todos os conselhos de Bábá no campo físico, mental, moral, social e espiritual para o benefício da humanidade.

MINHA VIDA ESPIRITUAL COM BÁBÁ - Acárya Shraddhánanda Avadhúta