11/10/2015

Tantra e os Poderes Sobre-naturais

A ciência da espiritualidade desenvolveu-se através do desejo inato presente nos seres humanos de descobrir o mistério da criação. Os seres humanos começaram a procurar o segredo da causa de todos os aspectos, bonitos e aterradores, da natureza. Eles procuraram à sua volta nos rios e mares, nas distantes montanhas, nos relâmpagos, no som dos trovões, nos rugidos de animais ferozes – e começaram e mergulhar nas profundezas desses mistérios. É a este esforço para se alcançar a verdade escondida de todas as coisas que chamamos de Tantra. Como estes esforços foram feitos em diferentes alturas, em diferentes lugares e por diferentes grupos ou indivíduos, encontramos diferentes metodologias nas várias escolas de Tantra.

Tantra teve origem no sul da Ásia, e os seus originadores foram os Austrics, os Dravidians e os Mongolians. Destes, os Dravidians e os Mongolians eram os mais desenvolvidos e os Austrics os menos desenvolvidos. Os praticantes do Tantra mais desenvolvido tinham uma abordagem mais ampla de todas as coisas, renunciando a todo o tipo de pensamentos limitados. Eles faziam sempre um esforço para trazer um maior bem-estar para as massas. Através desse serviço desinteressado, eles ultrapassavam as limitações da mente, como o ódio e a vergonha. Os praticantes do Tantra menos desenvolvido comportavam-se de maneira oposta. Ocupavam-se com as castas, ódios e invejas em relação a outros grupos.

A superação das limitações materiais simboliza o maior dos progressos humanos. A palavra tantra significa que uma pessoa se “libertou de todas as amarras de crueza” e, por isso, Tantra é considerado o melhor tipo de prática espiritual. Sadashiva foi o primeiro mestre deste tipo de Tantra. Ele desenvolveu algumas regras, assegurando assim o progresso total em todas as esferas da vida humana. Criou um sistema perfeito, revisando e coordenando todos os ramos do Tantra. Investigou e provou a eficácia de ambos os aspectos externos e internos do Tantra. O aspecto externo do Tantra consistia em sa´dhana´ com caveiras, em cemitérios. O aspecto interno consistia na prática de yoga. É, ultimamente, através do Tantra interno que os seres humanos podem atingir o culminar do sucesso espiritual.

Os seres humanos nunca poderão atingir a libertação só por lisonjear Prakrti. Uma entidade que é lisonjeada torna-se orgulhosa. Os seres humanos não se devem tornar escravos da matéria. Mas se os sa´dhakas adorarem Purus´a e ignorarem Prakrti, vão ver que Prakrti irá começar automaticamente a lisonjeá-los.

Não existe nada de “sobre-natural” neste mundo. Todos os tipos de poderes estão latentes nos seres humanos. Às vezes temos vislumbres destes poderes latentes. Usando uma terminologia mais desenvolvida, estes vislumbres podem ser chamados de “intuição”. Os seres humanos podem desenvolver tudo isso, atingindo, eventualmente, poderes extraordinários. Aos olhos das pessoas comuns, estes poderes parecem sobre-naturais, mas na verdade eles são naturais. É um facto que as pessoas comuns não conseguem fazer essas coisas extraordinárias e por isso é que quando vêem esses poderes, os chamam de sobre-naturais.

O Tantra é uma fonte de tais poderes extraordinários. Num curto espaço de tempo, quebram-se todos as pa´shas e ripus [amarras e inimigos da mente] que limitam a mente. Enquanto a mente permanece amarrada, tende a mover-se em direcção a objectos materiais crus; isto é, a mente associa-se inevitavelmente à matéria. Mas uma vez que essas correntes se quebrem, através da prática de Tantra, a mente desassocia-se desses objetos crus. Isto implica uma elevação dos seres humanos porque é através desse desapego que o progresso físico, psíquico e espiritual se torna possível.

Quando falamos dos ripus [inimigos] da mente, referimo-nos apenas aos inimigos internos, ou inatos. Para um ser humano, trazer esses ripus sob o seu controlo representa uma importante vitória. Essas pessoas que o conseguem fazer atingem um elevado controlo sobre as forças da matéria e podem realizar feitos que aos olhos das massas são interpretados como algum tipo de poder sobrenatural.

No Tantra, o esforço para estabelecer o controlo sobre a matéria ou sobre forças externas é chamado avidya´ sa´dhana´. E a prática que leva à auto-realização é chamada de vidya´ sa´dhana´. E o ramo do Tantra que não é nem vidya´ nem avidya´ sa´dhana´ é chamado upavidya´ sa´dhana´. Apenas vidya´ sa´dhana´ contribui para o bem-estar da humanidade; as outras duas práticas são um mero desperdício de tempo. A prática de avidya´ conduz à degradação. Sada´shiva, o professor original do Tantra, reuniu e sistematizou todos os ramos do Tantra, mas não encorajou a prática de Avidya´ porque é um tipo inferior de sadhana´. Quando as pessoas praticam sa´dhana´ com o objectivo de atingir poderes “sobre-naturais”, os seus objectos mentais tornam-se crus, pois após atingirem esses poderes, usam-nos para vinganças ou para o seu auto-engrandecimento.

Vidya´ sa´dhana´ esteve quase extinta nos últimos 1200 anos. E agora existem apenas alguns Avidya´ Tantrics – o resto são charlatões e hipócritas. Após morrerem, estas pessoas vão renascer como minhocas e insectos.

Os seres humanos praticam sa´dhana´ para se tornarem um com Brahma, não para se tornarem fantasmas ou espíritos maus. Para se tornarem um com Brahma, têm que praticar Vidya´ Tantra, e não Avidya´ Tantra. Claro que, através de qualquer tipo de sadhana´, os sa´dhakas libertam-se das pa´shas e ripus. Mas a diferença entre estes dois tipos de sa´dhana´ é que os praticantes de Vidya´ Tantra canalizam o seu poder espiritual para alcançar Parama´tma´, enquanto que os praticantes de Avidya´ Tantra utilizam os seus poderes para benefícios mundanos. Através de Vidya´ Tantra uma pessoa “liga-se” (ganha) Prama´tma´, enquanto que através de Avidya´ Tantra “liga-se” (domina) outros seres vivos. Os Vidya´ Tantrics aceitam Parama´tma´ como o seu objecto supremo de adoração e, para se tornarem um com Ele, canalizam todos os seus poderes em direcção a Ele.

Também de um ponto de vista médico, a Tantra sa´dhana´ tem a sua utilidade. Em tempos remotos existiam muitos peritos Védicos em a´yurveda. Mas como não eram Tantricos, tinham limitações em utilizar por inteiro todo o seu conhecimento médico para curar pacientes. Por causa dos seus preconceitos – o seu ódio em relação a certos grupos, as suas crenças nas castas, etc – eles hesitavam em tocar os corpos de certos pacientes; enquanto que os médicos Tantricos, graças ao seu controlo sobre tais limitações mentais como o ódio, medo e vergonha, realizavam o serviço médico de uma forma mais apropriada. As práticas da dissecação e cirurgia estavam somente nas mãos dos médicos Tantricos.

P.R.Sarkar-Julho 1960, Muzaffarpur

Publicado em:
Ánanda Vacanámrtam Part 25
Discourses on Tantra, Volume Two

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