16/01/2009
THE PERSONIFICATION OF ÁNANDA V-1.0
28/12/2008
A ESPIRITUALIDADE PERFEITA E O NEO-HUMANISMO
O tópico do discurso de hoje é A espiritualidade perfeita e o neo-humanismo. O espírito interno do caminho da Sádhaná é expresso no verso abaixo:
Yacchet Va’un Manasi Pra’jinas’
Tad Yacchet Jina’nama’tmani
Jina’nama’tmani Mahati Niyacchate
Tad Yacchet Cha’ntamatmani
A fase completa do culto divino está dividida em diferentes subfases. Na primeira fase, a pessoa retrai sua mente do mundo físico externo e se estabelece no domínio do “eu-objetivado” (Citta[1]), isto é, no sentimento do “eu” objetivado (o “eu” objetivado externo-interno e não o “eu” objetivado intro-externo). E, sob tais circunstâncias, o que acontece? Certamente ela estabelece controle total ou parcial sobre o mundo físico, ficando assim na posição de poder ajudar o mundo nessa área, senão totalmente por certo parcialmente. Porém, quando a mente é guiada por certos dogmas, ela não pode ter uma idéia clara do mundo físico. Assim chegará o dia em que ela falhará no cumprimento de sua obrigação na esfera do movimento extro-interno.
Da mesma forma, na segunda fase, o “eu-objetivado”, os sentimentos do eu-objetivado da mente são retraídos da esfera da ação e estabelecidos no sentimento puro do “eu-realizador” (Ahamtattva). Sob tais circunstâncias, é natural que as pessoas sintam todas as agonias e sofrimentos, todos os prazeres e alegrias da mente humana e ajudem o mundo de acordo com as necessidades – ajudem o mundo inteiro, não apenas o mundo vivo, mas também o inanimado, tornando-se assim legados para toda a sociedade humana. Quer dizer, a sua abordagem deve ser neo-humanista. Porém, se a mente não estiver pura, se estiver influenciada por dogmas, então, certamente, mesmo que as pessoas sejam aspirantes espirituais, não poderão se tornar um legado para a sociedade humana. Mesmo que façam Sádhaná 20 horas por dia, podem estar certos de que a Sádhaná delas não será a do caminho correto, porque o seu caminho não será o do neo-humanismo. Será um caminho imperfeito – um caminho dividido pelos dogmas.
E a terceira fase é quando o ego (Ahamtattva) se une ao sentimento do “eu” puro (Mahatattva). Aqui a pessoa experimenta o encanto não somente de todas as mentes humanas, mas o encanto de todas as criaturas vivas – na verdade, o encanto da vida em todo o universo.
Pra’na’n’h Yatha’tmano’bhiist’ah
Bhu’ta’na’m Api te Tatha’
A’tmaopamyena Bhu’ta’na’m
Dayam’ Kurvanti Sa'dhavah.
“Da mesma forma que a vida de uma pessoa é preciosa para ela, a vida das outras criaturas é igualmente preciosa para elas. Aqueles que percebem esta verdade são os verdadeiros Sádhakas.”
Nesta fase da Sádhaná, os Sádhakas adquirem a consciência de que os seres vivos são semelhantes a eles. Participando da dor e da alegria de todos os seres vivos, eles ajudam todas as criaturas.
E vocês sabem, este charme da vida não está associado apenas à flora e à fauna, mas também a todas as entidades, mesmo os objetos inanimados – o ouro, o ferro, a água e todas as coisas – porque todas essas coisas vivem neste universo, tudo está dançando no ritmo de Parama Purusá.
Mas onde essa mentalidade está ausente, quando as pessoas são guiadas mais por Ahamtattva (ego), elas dizem “Eu faço, eu dou. Isto foi feito por mim, aquilo foi feito por mim etc.” No final, isto culminará no sentimento puro do eu (Mahatattva), o qual não é afetado por nenhum senso de ego ou vaidade. Mas, embora as pessoas neste estágio estejam se movendo no caminho da Sádhaná, mesmo assim ainda existe alguma imperfeição nelas. Suas mentes não inspiram e nem sensibilizam as mentes dos outros. Elas não despertam sentimentos de sublimação do “eu” nos outros, porque estão muito preocupadas consigo mesmas. A sua abordagem é defeituosa; o seu caminho não é o caminho do neo-humanismo.
Quando os aspirantes espirituais entrarem na fase final e se tornarem um com Parama Purusá, por certo não permanecerá nenhuma dualidade neles. Eles irão para Ele, todas as coisas virão d’Ele, permanecerão n’Ele e retornarão a Ele. Não haverá qualquer dualidade para eles. Todas as coisas serão deles, e eles serão de todos os seres.
Assim, sob tais circunstâncias, as pessoas não podem afirmar: “Eu sou o mensageiro de Deus, e o que eu digo é a verdade. Aqueles que me seguem são abençoados e os outros são amaldiçoados.” Aqueles que pensam assim não são guiados pelo espírito do universalismo, e, deve-se compreender que eles nunca alcançarão o Objetivo Supremo da vida. Eles não são nem apóstolos, nem profetas, nem almas realizadas. Eles mesmos estão seguindo um caminho imperfeito – não um caminho do neo-humanismo – e explicam as coisas de uma forma errada para os outros. Até agora, as pessoas os têm obedecido por medo, mas, na realidade, eles apenas as confundem.
Agora, a questão final é que aqueles que estão estabelecidos no Conhecimento Cósmico, no Principio Cognitivo Cósmico, certamente fazem alguma coisa pelo universo, tanto através de seus atos como de seus pensamentos. Aqueles que nada fazem estão distantes dessa Posição Suprema ou a perderão no último momento, exatamente antes de alcançarem a salvação.
Porém, aqueles que de fato alcançaram a salvação, a emancipação final, devem se estabelecer no neo-humanismo no momento exato de sua união com Parama Purusá – nem que seja por alguns momentos. De outra forma, será impossível para eles se estabelecerem na espiritualidade perfeita e alcançarem Parama Purusá. O neo-humanismo é a última palavra para alcançar Parama Purusá.
Aqueles que não aceitaram o neo-humanismo desde o princípio – que só o aceitaram no estágio final – também seguiam um caminho imperfeito. Talvez, pessoalmente, eles não tenham perdido nada, mas certamente houve perda coletiva para toda a humanidade, pois o mundo foi privado de seus serviços. Se eles realmente tivessem aceito o neo-humanismo desde o primeiro passo de seu movimento espiritual, então, as árvores, as plantas e os animais e as outras criaturas – todo o mundo animado e inanimado teriam sido muito beneficiados. Mas como eles não aceitaram isso na sua jornada inicial, o mundo saiu perdendo.
E aqueles que declaram estar estabelecidos na espiritualidade pura, na espiritualidade perfeita, mas não mostram nenhum reflexo do neo-humanismo ao lidar com o mundo material – aqueles que têm as suas mentes tomadas por tendências que propiciam a divisão, que querem manter uma comunidade separada da outra e criar confusão na mente dos outros, em nome das escrituras – é preciso que fique bem claro que, o quer que tenha sido dito sobre essas pessoas, não é verdadeiro. Se o caminho que alguém segue não é verdadeiro, então, é impossível chegar ao objetivo. O neo-humanismo é o único caminho – os seres humanos terão que aceitá-lo mais dia, menos dia.
P.R.SARKAR (S.S. Parte XVI – D.M.C., Ánanda Nagar, 01/01/1983)
[1] N.T.: A mente humana possui três estados: 1) o estado mais denso é Citta¸ ou placa mental, que é onde se formam as imagens captadas pelos sentidos; 2) Ahamttava, ou ego, representa o sentimento de “eu faço” – é parte que julga o que é ouvido, visto ou sentido, determinando se é bom ou ruim e se aquilo deve ser desejado ou evitado; 3) Boddhi, ou Mahattatva, é o sentimento de “eu existo” – a parte que leva a pessoa a se questionar se sua existência está relacionada como Cosmo, com o Todo. Além desses, existe Atma, ou alma, que é a contraparte da Consciência Cósmica no indivíduo, dando uma razão divina para sua existência.
16/12/2008
OS DOGMAS E O INTELECTO HUMANO

P.R.SARKAR(A.V.M. – XII, 22/09/1979 – Kingston, Jamaica)
29/11/2008
SUPERAÇÃO DE TODOS OS COMPLEXOS
23/11/2008
EXPLORAÇÃO – NUNCA MAIS

P.R. Sarkar(AV.M., 7/66)
09/11/2008
UMA VIDA IDEAL
09/10/2008
MEDITAÇÃO: DIRECIONANDO O FLUXO DA CONSCIÊNCIA
A meditação é geralmente considerada como uma prática em que a pessoa fica sentada calmamente, contemplando os pensamentos ou analisando os problemas pessoais. Ou ainda como um treinamento em que a mente não pensa em nada, dando a sensação de paz, devido ao alheamento dos problemas diários. Mas nenhuma dessas idéias corresponde efetivamente ao conceito iogue de meditação.
Na terminologia iogue, meditação é chamada dhyana, que literalmente significa “deixar a mente fluir”. É um estado de pura concentração, no qual a mente flui livremente em direção à Consciência Cósmica. A princípio, a pessoa que medita pode ser capaz de se concentrar por apenas alguns segundos a cada vez, mas com o esforço regular, sua habilidade para direcionar a energia mental aumenta.

Quando a meditação se torna tão profunda que todos os sentimentos de individualidade são absorvidos pelo pensamento único da Consciência Cósmica, o aspirante atinge a absorção mental total, conhecida como samadhi. Nesse estado, sente-se o êxtase da união transcendental com a Consciência Cósmica.
Os iogues referem-se a essa bem-aventurança cósmica como Anandam. Aqui, a mente é libertada de todos os apegos, submergindo na realização bem-aventurada da Consciência Universal.
As práticas de meditação do Tantra ajudam a controlar e direcionar de forma sistemática a energia mental. Para controlar a mente durante a meditação, precisamos de um ponto sobre o qual possamos nos concentrar. A mente segue sempre em direção àquilo que é agradável; portanto, através do uso do “mantra”, ou vibração sonora especial, a mente é direcionada àquilo que é mais agradável - a bem-aventurança da Consciência Cósmica. Mantra literalmente significa “aquilo que liberta a mente” – é uma palavra sobre a qual a mente se concentra durante a meditação.
Os mantras são prescritos em sânscrito – um idioma muito antigo, conhecido por sua sutileza e exatidão no significado das palavras. Foi desenvolvido há milhares de anos por iogues que se submeteram a estados de profunda intuição. Há vários tipos de mantras, tais como os mantras cantados e os mantras exclusivos para a meditação. O mantra mais efetivo para meditação é o Ista mantra (Ista significa “meta”). Este é um mantra pessoal, através do qual o aspirante identifica o próprio ser com a meta de sua meditação, a Consciência Cósmica.
Qualidades do Ista mantra
1. PULSANTE: O mantra é composto de duas sílabas, que podem ser entoadas de acordo com o ritmo da respiração - uma sílaba é usada na inspiração e a outra, na expiração. Dessa forma, com a ajuda do mantra, a respiração natural mantém um fluxo calmo na mente e o mantra, por sua vez, regula o ritmo da respiração. A respiração profunda e pausada acalma a pessoa, que absorve mais oxigênio, induzindo-a a praticar meditação. Já a respiração curta, rápida e irregular está relacionada com os estados mentais de agitação e excitamento.
2. CONCENTRADOR: A imersão da mente no oceano de consciência pura é comumente entendida de forma enganosa, como se a mente se tornasse vazia. Entretanto, a mente não pode funcionar sem que ela tenha um objeto ou um pensamento. O mantra ajuda a pessoa a se fixar num ponto de focalização, desligando-a do contínuo fluxo de pensamentos e imagens mentais.
3. IDEATIVO: Cada palavra se constitui num símbolo. Ao ser pronunciada, ela cria uma imagem mental. Por exemplo, se alguém menciona a palavra “flor”, nossas mentes criam imagens de flores. Essa associação mental é chamada de paralelismo psicofísico, pois a vibração de uma determinada forma física cria outra vibração semelhante na mente.
A afirmação de que “somos aquilo que pensamos”, neste caso, se aplica perfeitamente. As pessoas que se apegam demasiadamente a objetos materiais têm dificuldade de sintonizar-se com pensamentos expansivos e idéias magnânimas. Sua visão do mundo é geralmente limitada e egocêntrica. Por outro lado, aqueles que se preocupam com o bem-estar dos outros e se esforçam em desenvolver ideais mais profundos, mantendo pensamentos elevados, estes são os que mais facilmente conseguem a expansão mental. É mais ampla ainda a visão daqueles que refletem sobre a Consciência Infinita e vêem Sua expressão em todas as coisas. Tal associação mental é chamada de paralelismo psicoespiritual.
Para ajudar os praticantes a desenvolverem um paralelismo psicoespiritual mais profundo, o significado fundamental de todos os Ista mantras é inspirar a união do indivíduo com o Ser Infinito.
4. ENTITATIVO (VIBRAÇÃO AJUSTADA À PESSOA): A vibração sonora do mantra deve se ajustar à vibração mental do indivíduo. Normalmente, uma pessoa tem preferência por coisas que tenham uma vibração semelhante à sua vibração interior. Os povos de diferentes nações têm suas preferências em relação à música, às cores etc., de acordo com sua própria vibração mental.
Assim como um tipo de música pode acalmar uma pessoa e não representar nada para outra, os mantras pessoais também têm a propriedade de se ajustar à vibração individual.
O método de utilização do mantra é importante, pois se o mantra for utilizado sem uma preparação adequada da mente, muito de sua eficácia se perderá. A mente deve, em primeiro lugar, se libertar de tensões, apegos e distrações da vida diária e, então, se desligar dos sentidos. Somente depois de cumpridos tais requisitos, o mantra poderá atingir a sua total eficácia. Importantes processos são ensinados juntamente com o Ista Mantra.
Mantra e kundalinii
Além dos efeitos acima mencionados, o Ista Mantra tem ainda uma importante função: despertar a “divindade adormecida”, ou a energia espiritual latente nos seres humanos. Essa energia espiritual, conhecida como “kundalinii”, está relacionada com o despertar de diferentes centros de energia psíquica conhecidos por cakras (pronuncia-se “tchácras”, e sua explicação consta do Capítulo 8). A energia da kundalinii, quando passa através dos diferentes cakras, proporciona o controle das propriedades físicas e psíquicas que eles detêm. Controlando suas tendências, é possível desenvolver o controle total da mente, permitindo que ela atinja o estado da realização absoluta - a expressão plena da Consciência Imaculada.
A iniciação
A iniciação é um dos eventos mais significativos na vida do aspirante espiritual. Além de ser a ocasião em que a técnica individual de meditação é ensinada, o mais importante é que nesse momento a potencialidade espiritual latente (a kundalini) é despertada.
No Tantra, diz-se que, quando o discípulo está pronto, o Mestre aparece. Quando a pessoa desenvolve um desejo intenso pelo despertar espiritual, não é por mero acaso que ela entra em contato com o Mestre, seja em uma experiência mística com o Mestre, seja por meio do contato com alguém que o conduza ao caminho espiritual.
O processo individual de meditação e o mantra são ensinados por pessoas que receberam treinamento especializado na ciência do Tantra, baseados em instruções e recomendações do Guru, que também tratou de purificar e fortalecer a vibração dos mantras usados desde os tempos antigos. Embora o Guru não esteja presente fisicamente, é o seu poder espiritual, embutido no mantra, que proporciona o despertar espiritual.
A iniciação é o começo. Após receber os instrumentos e os mapas necessários para a jornada, o aspirante deve então seguir o caminho com sua própria força e determinação.
“A verdadeira educação é aquela que conduz à liberação”.
Shrii Shrii Anandamurti
Prática regular
Para ser efetiva, a meditação requer uma prática regular. Portanto, ao receber a iniciação, o aspirante espiritual é aconselhado a meditar duas vezes ao dia, começando com um período de 15 a 20 minutos a cada vez. Os melhores horários para a meditação são antes das refeições e durante o nascer do sol e o pôr-do-sol, pois nesses horários as vibrações da natureza são propícias para a reflexão e a prática espiritual.
A meditação feita de manhã cedo proporciona um início de dia com atitude mental positiva e ideação no Ser Infinito; a meditação da tarde ajuda a desconectar a mente das atividades normais do dia-a-dia, reconduzindo-a a um estado elevado de consciência. Com uma ideação bem direcionada, a pessoa mantém um novo padrão de comportamento, eliminando a ansiedade e o estresse emocional e conseguindo calma interior e contentamento.
Benefícios práticos
Os benefícios da meditação só podem ser sentidos integralmente através da experiência pessoal. Mas esforços da Ciência para compreender os estados mais elevados de consciência, durante a meditação, têm dado bons resultados. Pesquisas sobre as mudanças psicofísicas ocorridas durante a meditação permitiram sua utilização prática.
Por exemplo, comprovou-se que sua prática regular leva a redução da pressão sanguínea de pacientes com hipertensão, devido à estimulação do hipotálamo, que causa um efeito chamado “resposta de relaxamento”. A diminuição da atividade do sistema nervoso simpático durante a prática da meditação pode também ser notada ao longo do dia.
Entre outros efeitos se incluem: melhor oxigenação, o que diminui a produção de ácidos láticos e seu acúmulo nos músculos e, conseqüentemente, evitando a fadiga nos mesmos; redução significativa da pulsação cardíaca - eletrocardiogramas comprovam uma redução média de 8 batimentos por minuto; melhora da vitalidade da pele; aumento da percepção auditiva, bem como do reflexo e da coordenação motora; registros de eletroencefalogramas demonstram que o ritmo alfa aumenta sua amplitude, diminui a freqüência e atinge maiores áreas do cérebro. Esses sintomas exercem um grande efeito para o tratamento de certas doenças.
“As pessoas que se dedicam por completo ao pensamento do Grandioso e à inspiração do Ser Supremo são os verdadeiros heróis. Tais heróis certamente são virtuosos, somente eles podem fazer com que a história da humanidade seja levada da obscuridade para a luz.”
Shrii Shrii Ánandamúrti
04/10/2008
TANTRA - A CIÊNCIA DA LIBERAÇÃO ESPIRITUAL
Tantra significa literalmente “aquilo que liberta da obscuridade”. Suas práticas espirituais, tendo a meditação como ponto básico, consistem no esforço para remover o véu do egocentrismo e da estreiteza mental, que inibe e impede a expressão do potencial ilimitado da mente humana. As características mais significativas do Tantra são a sua visão extremamente positiva do universo e a sua explicação abrangente sobre o mundo fenomênico, como uma expressão da Consciência Essencial e Infinita.
Com a visão de que toda existência surge da mesma Consciência Infinita, o princípio inerente ao Tantra é que cada indivíduo, ao imergir no âmago de sua consciência individual, pode vivenciar a unidade em todas as coisas e transcender o fluxo turbulento da percepção sensorial e a visão fragmentada do mundo relativo. O objetivo final do Tantra é a união com a Consciência Infinita e Não-Qualificada – um estado situado além do ego limitador e sua realidade compartimentada.
Liberação da Consciência
Vivemos num mundo de mudanças fantásticas - um mundo que dá grandes saltos no conhecimento e na compreensão da vida cotidiana. A sociedade pós-industrial é considerada como a era da informação e dos meios de comunicação, que colocam ao nosso alcance uma vasta quantidade de informação.
Enquanto nossas mentes são estimuladas pela era dourada da Ciência e as empresas se lançam na corrida desenfreada pelo domínio de mercados emergentes, a sociedade está em conflito, devido à falta de compreensão da natureza espiritual do ser humano. No corre-corre das atividades cotidianas, a harmonia e a compreensão interior são sufocadas, porque nossos sistemas nervosos ficam sobrecarregados.
À medida que a sociedade global se torna mais urbanizada, o estresse e a tensão crescem exponencialmente. As pessoas sofrem diversos impactos em todos os níveis: físico, emocional e social. A vida urbana, o foco da sociedade pós-industrial, apresenta novos e mais complexos dilemas.
Atualmente, a combinação das mais diversas pressões psicológicas e ambientais tem resultado na desintegração da personalidade, talvez a mais acentuada da história humana.
O estresse, em seu ponto máximo, criou a necessidade de se encontrar meios de alcançar a quietude interior. Psicólogos e pesquisadores da área de psicologia têm comprovado a eficácia das técnicas de meditação, que expandem a mente e reintegram a personalidade. Todavia, como veremos nos capítulos seguintes, a meditação e outras práticas tântricas constituem um sistema que não se limita em amenizar o estresse, porque visam à elevação do indivíduo a um estado de liberação da consciência.
“Devemos lembrar que as teorias não são fatores de libertação dos seres humanos. O que liberta é a elevada capacidade de manter livre e desimpedida qualquer perspectiva, grande ou pequena, de uma existência sutil - a vigorosa capacidade de conciliar a dura realidade da vida com o último estágio do mundo visionário.”
Shrii Shrii Anandamurti
Por que meditar?
Grande parte da psicoterapia moderna se baseia no conceito de que, durante a sua vida, a pessoa é condicionada por fatores ambientais e sociológicos, entre os quais se incluem os pais, os amigos, os parentes, os colegas de escola e de trabalho, todos eles impondo padrões de comportamento ao indivíduo, moldando sua personalidade. Estes condicionamentos, através de diversos processos mentais, criam tensão na psique humana, acarretando diferentes neuroses e psicoses.
Muitas terapias estão baseadas no princípio de que, ao se localizar e reconhecer a fonte de uma determinada tensão mental, esta pode ser compreendida e dissolvida; ou que, ao se reviver a situação na qual uma determinada tensão foi formada, a raiz da tensão pode ser expressada e conseqüentemente eliminada.
O tipo e a gravidade do condicionamento analisado depende de cada escola de pensamento. Por exemplo, muitas escolas acreditam que, ao nascer, o indivíduo é como uma “folha em branco”, sobre a qual todos as preferências, aversões e crenças são impressas.
Outras dizem que a origem do condicionamento e da tensão está no ventre materno e nas experiências pré-natais.
Para melhor compreendermos a meditação, uma análise do condicionamento e de seu impacto psicológico também é importante no Tantra. Mas mesmo que a visão do Tantra a respeito do condicionamento seja, em vários aspectos, semelhante à análise da psicologia moderna, a sua compreensão do grau de influência do condicionamento é significativamente diferente.
No Tantra, a análise do condicionamento leva em conta a totalidade do ser. Todas as impressões obtidas pelos sentidos e todos os pensamentos vivenciados pelo indivíduo combinam-se para moldar a identidade do ego.
Assim, num estado sem condicionamentos, a mente se liberta do ego limitador e se identifica com a Consciência Universal. A individualidade cede espaço para o sentimento de unificação com todas as coisas.
Essa reprogramação do condicionamento mental é facilitada pela meditação. No processo de identificação da mente com a Consciência Essencial – que está além da visão limitadora do ego – este é gradualmente lapidado, permitindo a revelação de uma identidade mais significativa e uma nova visão do mundo, com maior clareza e sem preconceitos.
Uma questão em aberto
Podemos colocar de lado as complexidades do condicionamento e ver de forma muito mais simples a consciência espiritual obtida com a meditação.
Durante uma reflexão profunda, às vezes nos perguntamos o que somos. Nossa mente reflete sobre a questão fundamental a respeito do significado da consciência. A sensação contemplativa de que possuímos consciência é até hoje um mistério para nós. Da mesma forma que o físico questiona a origem da matéria, a mente reflexiva analisa a origem da consciência humana.
Entretanto, raramente temos essa sensação, porque estamos envolvidos com as ocupações do dia-a-dia, com as responsabilidades profissionais e com as tarefas que visam satisfazer as carências físicas e emocionais, tanto nossas quanto de outras pessoas. Gradualmente, a inspiração da consciência se desvanece, por não lhe darmos a devida atenção.
A meditação constitui uma técnica de auto-ajuda, um momento em que podemos manter contato com nossa própria consciência. Na meditação, podemos sair da superficialidade dos pensamentos da vida cotidiana e atingir o interior de nossas mentes; e, quando retornamos à nossa existência normal, ela passa a ser interpretada de forma diferente e adquire um novo significado.
A mente meditativa interrompe o processo de extroversão e deixa de ser atraída pelo mundo fenomênico, concentrando-se na consciência e criando uma nova perspectiva de vida.
Expandido o nível de consciência
Para muitos, a realidade percebida por meio dos cinco sentidos significa tudo, ou pelo menos é tratada como se assim o fosse. Assim como uma pessoa que viveu em um único lugar por toda a sua vida pensa ser aquele o único lugar no mundo, também acreditamos que nossa limitada percepção do mundo é completa.
A ciência nos mostra quão limitados são nossos sentidos. Apenas um pequeno espectro das vibrações luminosas que circundam nossa existência diária é percebido por nossos olhos e, da mesma forma, somente uma fração das ondas sonoras é captada por nossos ouvidos. Em suma, percebemos apenas uma parte da realidade – aquela que a ciência também consegue comprovar.
O mais surpreendente ainda é que, ao analisarmos o mundo perceptível, descobrimos, no nível das partículas subatômicas, uma realidade diferente da que vemos. O que vemos como matéria sólida é, em nível subatômico, um grupo de várias partículas movendo-se em alta velocidade, em grandes espaços vazios. E, para aumentar ainda mais o dilema, os físicos atuais explicam que não podem determinar se aquilo que denominamos de “partículas” possui qualquer “substância” verdadeira. Portanto, o que pensávamos ser tangível e passível de uma definição torna-se, num outro nível de análise, incompreensível, transformando nossa concepção e entendimento em algo absurdo.
Os diferentes comprimentos de ondas atestados por instrumentos sensíveis não eram de nosso conhecimento há pouco mais de um século. A Ciência está agora descobrindo essas ondas e aprendendo a utilizar esse novo conhecimento. Fica a critério de cada um especular o que a Ciência poderá descobrir no futuro. Mas o Tantra, há milhares de anos, já reconhecia a infinidade de vibrações existentes no universo e descrevia a criação como um processo de ondas de diferentes comprimentos em movimento.
A Ciência só consegue comprovar o comprimento das ondas da matéria e da energia física, enquanto o Tantra explica também a existência da mente e da energia psíquica como manifestações em forma de ondas. Aquilo que percebemos com os sentidos e a Ciência comprova com a ajuda de instrumentos, de acordo com o Tantra, é apenas um nível da realidade relativa, ou seja, o nível mais denso. Além da realidade física, há vários níveis mentais que não podem ser explorados com o uso de instrumentos físicos ou dos sentidos, mas que podem ser compreendidos com o uso de um instrumento mais sutil: a mente. A meditação é um meio para sintonizar a mente e direcioná-la para um plano superior, retirando-a da apreciação puramente física do mundo. Poderemos, então, apreciar os reinos mais sutis da existência e reconhecer a beleza mais profunda do mundo em que vivemos.
“A espiritualidade não é um ideal utópico, mas sim uma filosofia prática que pode ser aplicada e realizada na vida cotidiana. A espiritualidade prega a evolução e a elevação ao invés da superstição e do pessimismo”.
Shrii Shrii Anandamurti
Motivação ampliada
Por ser fundamentada na busca da essência da vida humana, a meditação não possui definição única, nem as pessoas que iniciam sua prática têm apenas uma motivação. A verdadeira meditação não está limitada à motivação inicial, seja ela qual for.
À medida que, através da meditação, a mente expande seus horizontes, a consciência é despertada e as razões iniciais se dissolvem, devido à gradual expansão do sentimento espiritual. Finalmente, descobrimos que aquilo que pensávamos ser as razões pessoais para a meditação, na realidade, era um reflexo do desejo de expressão da nossa natureza espiritual.
Uma visão histórica
A meditação é uma prática espiritual que vem se desenvolvendo há milhares de anos, tendo no Tantra suas raízes mais antigas. O Tantra foi difundido pelo Senhor Shiva, mestre espiritual, que viveu há 7.000 anos, na região entre as montanhas do Himalaia e o Norte da Índia.
Mesmo naquela época remota, o Tantra já era uma ciência completa da vida, cobrindo vários aspectos do desenvolvimento pessoal e social. Tal filosofia não estava restrita à meditação subjetiva, já que se estendia aos ramos da literatura, da arte, da dança e da medicina, constituindo uma abordagem holística da vida.
Ao longo dos anos, surgiram ramificações e adaptações do Tantra, que gradualmente formaram disciplinas mais especializadas, conhecidas como diferentes ramos do Yoga.
Yoga significa “união” e se refere à união da consciência individual com a Consciência Cósmica. Vários ramos de Yoga propõem a realização dessa união cósmica enfatizando determinados aspectos do Tantra, enquanto outros igualmente importantes são deixados de lado. As formas mais conhecidas de Yoga são as mencionadas a seguir.
JINANA YOGA: Literalmente significa “Yoga do Conhecimento”, que enfatiza o estudo e a abordagem filosófica para um despertar intelectual que conduza à realização do Absoluto.
KARMA YOGA: “Yoga da Ação” consiste em realizar ações voltadas para o serviço ao próximo, fazendo com que a mente se torne desapegada de sentimentos de autoria da ação, vaidade e expectativa de resultados e os entregue à Consciência Cósmica, que habita o íntimo de todas as coisas e seres.
BHAKTI YOGA: “Yoga da Devoção” cultiva a força atrativa de um amor genuíno pela Consciência Cósmica. Conduz o aspirante ao contato profundo com o Ser Adorado, de tal forma que a realização se torne possível.
HATHA YOGA: É uma abordagem com várias prescrições para o corpo, incluindo as posturas de Yoga, exercícios de respiração e outras técnicas purificadoras. O controle e a regularização das funções corporais ajudam a adquirir domínio da mente, para assim se atingir a meta individual.
RAJA YOGA: Também conhecida como Astaunga Yoga, ou Yoga dos Oito Passos, os quais são: 1) Yama e 2)Niyama (ética iogue); 3)Posturas de Yoga; 4)Controle da energia vital através da respiração; 5)Abstração das vibrações recebidas pelos sentidos; 6) Concentração, 7) Meditação e 8)Realização da meta (samádhii). Embora esse passos do Raja Yoga tenham sido praticados por iogues desde a época de Shiva, há milhares de anos, eles só foram sistematizados como Aforismos de Yoga, por Patanjali, cerca de 2.200 anos atrás.
A divisão do Tantra em áreas diferentes e especializadas fez com que ele deixasse de ser um modo de vida efetivo e completo. Diferentes escolas, ao se concentrarem em determinadas áreas, negligenciaram a sabedoria global do Tantra.
O que é meditação?
Muitas pessoas, erroneamente, acreditam que a meditação produz resultados instantâneos: pensam que basta se sentar e aguardar que o processo funcionará como um passe de mágica, encantando o meditador e levando-o a um mundo sem pensamentos, pleno de bem-aventurança, quietude e brilho. Quando essas experiências não acontecem nas primeiras semanas de meditação, os novos praticantes crêem que estão fazendo alguma coisa errada ou que a sua técnica é ineficaz. Conseqüentemente, devido a esse entendimento errôneo, eles interrompem a prática.
O que se deve esperar das primeiras semanas de meditação? “A mente é como um macaco enlouquecido por picadas de escorpiões”, disse o grande iogue Ramakrishna, e as pessoas que começam a meditar e tentam concentrar-se sabem que isto é verdade. Principalmente no começo, a mente é insubordinada e incontrolável. Quando você se senta para meditar, muitos pensamentos surgem e sua mente vagueia, por vários motivos: sons e ruídos externos desviam sua concentração, seu corpo não fica quieto e você finalmente se levanta pensando que nada aconteceu.
Mas algo mudou! Com a prática regular você desenvolve a capacidade de manter a mente firme. Assim como o corpo de um atleta adquire grande força física e vitalidade com o treinamento diário, a pessoa que medita com dedicação desenvolve força mental e capacidade para concentrar-se. Somente com o passar do tempo é que surge o estágio em que conseguimos verdadeiramente fixar nossa mente no objeto da meditação e permanecer nele - então, a verdadeira meditação é realizada.
Outra experiência intrigante para alguns é que a mente parece até mesmo mais instável após começarem a meditar. Surgem mais pensamentos do que antes, e isto leva as pessoas a pensarem que o processo não está sendo feito corretamente. O oposto é que é a verdade. A função da meditação é trabalhar o interior da mente e eliminar todas as reações de ações passadas, registradas em nosso subconsciente. É como limpar uma casa. No meio do processo, a casa pode parecer mais suja do que no início, mas perseverando e não desistindo no meio, conseguimos limpá-la. Da mesma forma, perseverando na meditação, a mente se purifica cada vez mais.
Meditação é o esforço para controlar e desenvolver a mente, a fim de realizar a verdadeira natureza do ser humano (Dharma). É o meio através do qual podemos desenvolver todo o nosso potencial em todos os níveis da existência: físico, mental e espiritual.
“A espiritualidade provê à humanidade uma força sutil e extraordinária à qual nada se compara. Assim, adotando a espiritualidade como base, deve-se desenvolver uma filosofia racional que possa solucionar os problemas físicos, psicológicos, sociais e filosóficos da vida cotidiana.”
Shrii Shrii Anandamurti
A Liberação da Mente Através do Tantra Yoga - Compilação dos ensinamentos do mestre indiano Shrii Shrii Ánandamúrti (P. R. Sarkar)

