02/11/2012

TESOURO INTERIOR

Ao discutir o neo-humanismo, eu disse que o estudo e a mente racional são requisitos necessários para neutralizar o geo-sentimento e disse também que a espiritualidade proto-psíquica é necessária para resistir ao sócio-sentimento. 
Entretanto o geo-sentimento, o sócio-sentimento e os meios para enfrentá-los são assuntos do mundo objetivo. O geo-sentimento é completamente restrito às fronteiras geográficas (confina em uma área), enquanto o sócio-sentimento é restrito a certos grupos. Ao resistir a estes dois sentimentos (um relacionado ao espaço e o outro às pessoas), utilizando-se de racionalidade e Sama-Samája Tattva, respectivamente, é possível mover-se em direção à Subjetividade Suprema. Portanto, esses dois sentimentos estão completamente relacionados com o mundo exterior. Por sua vez, o movimento dos seres humanos para a vida interior é apenas uma questão interna, uma questão de devoção. É um caminho para o mundo interior através da devoção como culto, como missão. No mundo da racionalidade, os seres humanos não atingem qualquer nível que seja da vida interior, e no campo da devoção não há “ïsmo” que possa estabelecer a humanidade na Estância Espiritual Suprema. Somente através da devoção, os seres humanos tornam-se resplandecentes em sua própria glória. Este é um processo completamente interior. Para isto, há o caminho da devoção, o espírito devocional e a doce missão da devoção. Nesta situação, há somente duas entidades – Eu e meu Senhor. Não há ninguém para impor barreiras, ninguém para explorar, ninguém para impor o geo-sentimento ou o sócio-sentimento; o ser humano é a única entidade. Assim, a cada passo, os seres humanos prosseguem em direção à Consciência Suprema. Isto está além do estudo e da abordagem racional e não diz respeito à mente objetiva.
Entretanto, na jornada do mundo interior, não se pode negar completamente a visão racional da vida exterior. Isto também é necessário, porque, na ausência da racionalidade, os pensamentos internos podem ficar perturbados. Mas é também verdade que a mente deve, sem sombra de dúvida, dirigir-se à Consciência Suprema, porque as virtudes interiores individuais são diretamente nutridas pelo pensamento no Supremo e por sua intensa procura. O estudo e a visão racional são necessários para facilitar este movimento progressivo em direção ao Supremo. Eu não anseio tornar-me um monarca. Disto não tenho o mínimo desejo. Eu tenho uma casinha de taipa. Eu desejo apenas a palha necessária para seu teto. Uma pessoa verdadeiramente virtuosa deve estar sempre pronta para responder ao chamado do Supremo – à Sua atração irresistível. 
O Dolyatra de Shrii Krs’n’a (festival das cores), que Maháprabhu introduziu em Bengala cerca de quinhentos e cinqüenta anos atrás, possui dois aspectos – o social e o espiritual. Maháprabhu trouxe este festival de Vrindaban, mas ele lhe deu um sentido espiritual e o chamou de “O Dolyatra de Shrii Krs’n’a”. Quando os seres humanos se lançam em direção ao Supremo, podem às vezes pensar. “Eu sou um pecador. Cometi tantos pecados, que estou imerso neles”. As cores mentais específicas da mente dos pecadores são a combinação de tantos pensamentos pecaminosos, que podem deixar profunda impressão na mente. Como resultado, a velocidade de seu movimento será automaticamente retardada. O significado interior de Dolyatra de Shrii Krs’n’a é o seguinte: “Através da entrega de todas as cores de minha mente a Você, eu quero tornar-me incolor”. Esta entrega à Consciência Suprema impulsiona os seres humanos em direção a Ele. Dessa forma, esse festival das cores não é uma mera representação externa, mas sim um fenômeno puramente psicoespiritual. Este mesmo fenômeno psicoespiritual está em operação no processo de Varn’árghyadan (Guru Puja, ou oferenda das cores mentais à Consciência Suprema); “Senhor, tornai minha mente sem cores, a fim de que possa mover-me em sua direção sem qualquer hesitação”. Quanto mais os seres humanos estiverem estabelecidos no neo-humanismo, tanto mais eles estarão absorvidos nas cores mais profundas de suas mentes, ao invés de serem influenciados pelas cores do mundo exterior. Isso não quer dizer que eles devam evitar as festividades sociais, no festival de cores de Dolyatra (referente ao mundo externo), mas o lado social não deve se tornar a meta final. Pelo contrário, ao ofertar todas as suas cores psíquicas à Consciência Suprema, a sua preocupação maior será com as suas cores mentais e não com as externas. Esta intensa e íntima proximidade do Supremo é o verdadeiro Vrindaban, o Vrindaban do mundo mental (estado de absoluta pureza mental). É natural para os seres humanos sujarem-se com a poeira na sua jornada pelo mundo físico. Mas isto não continuará para sempre. Eles devem tornar suas mentes absolutamente sem manchas, através da oferenda de todas as suas cores mentais ao Supremo. Esquecendo-se do aspecto externo da representação das cores, devem aceitar o jogo interno das cores como o ponto culminante da vida humana – e assim estabelecerem-se no verdadeiro Vrindaban, o destino supremo da vida humana. 
P.R.Sarkar - A Liberação do Intelecto

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