18/10/2026 · Ronaldo da Rocha Braga (Ramesh), com assessoria da IA Claude.
Introdução
Sodoma e Gomorra não são apenas cidades
destruídas num passado remoto. São um espelho. O relato de Gênesis 18 e 19 fala
de uma sociedade próspera que se fechou em si mesma, e de uma mulher que, ao
fugir, não conseguiu deixar de olhar para trás.
Neste texto, procuro ler essa história em
três camadas: a histórica, a moral e a psicoespiritual. Nesta última, os
ensinamentos de Shrii Shrii Ánandamurti, P. R. Sarkar, oferecem uma chave de
leitura surpreendentemente precisa.
O que a arqueologia diz
O relato bíblico provavelmente guarda a
memória de uma catástrofe real na região do Mar Morto, recontada e fixada por
escrito muitos séculos depois. A região fica sobre uma grande falha tectônica e
é rica em betume e enxofre. Terremotos e incêndios ali não seriam nada
improváveis.
Duas hipóteses principais disputam a
localização:
•
Bab edh-Dhra e Numeira, na margem
sudeste do Mar Morto: cidades da Idade do Bronze Antigo, abandonadas por volta
de 2350 a.C., com sinais de destruição por fogo.
•
Tall el-Hammam, ao nordeste do Mar
Morto: uma cidade grande destruída por volta de 1650 a.C. Em 2021, um estudo
propôs que a causa teria sido a explosão de um meteoro no ar, algo que
lembraria a "chuva de fogo e enxofre". A hipótese ganhou fama, mas
foi duramente contestada.
Qual das duas combina com Abraão e Ló?
Depende da cronologia adotada.
•
Cronologia bíblica literal. Somando as
idades dos patriarcas e partindo de 1 Reis 6:1, chega-se a cerca de 2070 a.C.
para a destruição. Essa data fica uns 300 anos depois de Bab edh-Dhra e uns 400
anos antes de Tall el-Hammam. Nesse critério, a primeira hipótese sai um pouco
à frente.
•
Contexto cultural. Muitos arqueólogos
situam as narrativas patriarcais na Idade do Bronze Médio (c. 2000–1550 a.C.),
pelos nomes, costumes e modo de vida seminômade que descrevem. Esse critério
favorece Tall el-Hammam.
•
Leitura crítica. A maioria dos
estudiosos críticos considera que as datas bíblicas foram construídas depois,
com números simbólicos. Para eles, Abraão e Ló não servem como calendário.
Não há consenso. Para o que nos interessa
aqui, basta saber que uma catástrofe física foi transformada pela tradição em
lição moral.
O verdadeiro pecado de Sodoma
A leitura popular associa Sodoma sobretudo
à moral sexual. Essa interpretação existe e tem seus defensores, mas não é a
única, nem a mais antiga. A própria Bíblia, em Ezequiel 16:49, aponta outra
coisa: soberba, fartura de pão, ociosidade próspera e a recusa em amparar o
pobre e o necessitado.
A tradição rabínica aprofundou esse tema. O
Midrash descreve Sodoma como uma cidade rica que fez leis contra a
hospitalidade e punia quem dava pão a um estrangeiro. Na Mishná (Pirkei Avot
5:10), a atitude "o que é meu é meu, o que é teu é teu" recebe o nome
de "medida de Sodoma".
Nessa leitura, o pecado de Sodoma é a
riqueza que se fecha, a indiferença transformada em lei. Abraão e Ló, que
acolhem os visitantes, representam o oposto: a mente que se abre ao outro.
A mulher de Ló: o olhar que prende
Na fuga, os anjos dão uma única ordem: não
olhem para trás. A mulher de Ló olha, e se torna uma coluna de sal. O texto não
diz por que ela olhou. É nesse silêncio que a interpretação trabalha.
Minha leitura é que ela olhou para o que
ficou: a casa, os bens, a vida confortável de Sodoma. Seu coração não saiu da
cidade junto com seus pés. E o sal é mineral, matéria inerte e cristalizada.
Ela se torna exatamente aquilo a que estava apegada: matéria.
Essa leitura não é forçada. O próprio
Jesus, em Lucas 17:31-33, diz que, no dia da crise, quem estiver no terraço não
deve descer para buscar seus bens. E acrescenta: "Lembrai-vos da mulher de
Ló". A advertência está ligada justamente ao apego aos bens materiais.
Sarkar: a mente que regride à matéria
Shrii Sarkar ensina que a mente assume a
forma daquilo em que pensa. Ele ilustra isso com a antiga imagem indiana do bhramara-kiita: o inseto que, de tanto
contemplar a vespa que o aprisiona, acaba se tornando semelhante a ela.
"Assim como pensas, assim te tornas."
Sarkar leva esse princípio até as últimas
consequências. Se a mente se fixa de forma exclusiva e intensa num objeto
material, como ouro ou prata, ela se torna cada vez mais grosseira. No limite,
pode regredir até o próprio nível da matéria sólida. É o caminho inverso da
evolução: em vez de pratisaincara, o
retorno da mente à Consciência, ocorre uma involução, uma cristalização da
mente na matéria.
A ideia tem ecos na tradição indiana. Na
Bhagavad Gita (8:6), aquilo que se lembra na hora da morte define o destino do
ser. No Bhagavata Purana, o sábio Jada Bharata renasce como cervo por ter se
apegado a um filhote de cervo. São regressões ao nível animal. A descida ao
nível mineral é bem mais rara.
Ela aparece em poucas tradições. O jainismo
ensina que a alma pode renascer em "corpos de terra" (prithvikaya), como pedras e metais. A
Cabala de Isaac Luria admite a transmigração da alma até o reino inanimado (domem). E há mitos de petrificação, como
Ahalya no Ramayana e Níobe na mitologia grega.
Em todos esses casos, porém, a queda ao
mineral é um castigo cármico, divino ou uma maldição aplicada de fora. A
originalidade de Sarkar está no mecanismo: para ele, é a própria mente que,
fixada inteiramente num objeto material, se condensa em matéria. Isso decorre
de sua cosmologia, na qual mente e matéria são graus de um mesmo contínuo,
percorrido na descida (saincara) e no
retorno (pratisaincara).
Vista assim, a mulher de Ló não é punida de
fora. Ela simplesmente se torna aquilo em que sua mente estava fixada. O sal é
o retrato da mente que se cristalizou no apego.
Sodoma hoje
Se o pecado de Sodoma foi a riqueza fechada
em si mesma, nossa civilização tem muito de Sodoma. Sarkar não comentou
diretamente esse relato, até onde sei, mas seus conceitos se aplicam com
naturalidade.
•
Acumulação e PROUT. O primeiro princípio
da PROUT diz que ninguém deve acumular riqueza física sem a permissão clara do
corpo coletivo. É quase o oposto exato da "medida de Sodoma". Para
Sarkar, a acumulação desmedida é uma doença psíquica, não só econômica.
•
O ciclo social. Sodoma lembra a fase
final da era vaishya, quando o
capital domina e exclui até provocar a ruptura. A destruição pode ser lida como
o colapso de um sistema que deixou de servir à vida.
•
Neo-Humanismo. A hostilidade de Sodoma
ao estrangeiro é o que Sarkar chama de geossentimento e sociossentimento: o
apego ao território e ao grupo, que estreita a mente. O tratamento dado hoje a
migrantes e refugiados é um sinal disso.
•
A crise ecológica. O "fogo do
céu" pode ser lido, simbolicamente, como as consequências climáticas do
consumo excessivo. A natureza devolve o desequilíbrio que provocamos.
E há uma dimensão individual. Uma sociedade
que só pensa em ouro produz mentes que se cristalizam no ouro. A mulher de Ló é
o retrato de cada um de nós quando a mente fica presa ao que possuímos.
Sarkar considerava as yugas (Satya, Kali e as demais) um mito simbólico. Mas, se
compararmos nossa época à Kali Yuga, estamos na era da comilança: a era
materialista, a fase vaishya do ciclo
social. Ezequiel descreveu Sodoma justamente pela "fartura de pão" e
pela "ociosidade próspera". O que antes era uma cidade, hoje é a
civilização inteira.
Ainda assim, Sarkar não via nisso um
destino fatal. O ciclo social gira, e a fase vaishya acaba provocando sua própria ruptura. Para ele, pessoas
conscientes, os sadvipras, podem
acelerar e humanizar essa virada.
Há ainda um espelho político. Leitores
conservadores costumam ver em Sodoma o pecado sexual e a decadência moral.
Leitores progressistas costumam ver a riqueza fechada, o abandono do pobre e a
hostilidade ao estrangeiro. Cada lado encontra em Sodoma o pecado do
adversário.
Sarkar não cabe nesse eixo. Ele criticou o
capitalismo e o comunismo como duas faces do materialismo. Valorizava a
espiritualidade e a liberdade de pensamento, mas também defendia limites à
acumulação, cooperativas e descentralização econômica. A PROUT foi pensada como
um caminho acima dessa polarização. E o ciclo social ajuda a entender por que
os opostos se alternam: quem hoje está no poder amanhã é oposição, muitas vezes
repetindo os vícios que criticava. Sair de Sodoma, nesse sentido, é também sair
da lógica do "nós contra eles".
Conclusão: não olhar para trás
A história de Sodoma fala de duas
destruições. Uma é coletiva: a de uma sociedade que acumulou, excluiu e se
fechou. A outra é interior: a de uma mente que, apegada ao que deixou, se
cristalizou em matéria.
O caminho oposto é o que Sarkar propõe. No
plano social, a distribuição justa e a cooperação. No plano interior, a
sadhana, que dirige a mente para o Infinito em vez de prendê-la ao finito.
"Não olhar para trás" significa, afinal, não deixar que o apego
decida para onde a mente vai.
Que cada um de nós saia de sua própria
Sodoma sem olhar para trás. Namaskar.

