03/07/2008

A PRÁTICA INTUITIVA E SUA NECESSIDADE - Parte VIII

O esforço integrado para se libertar das amarras de Prakrti é chamado sádhaná, ou prática intuitiva.

Agora, a questão que se coloca é se existe a possibilidade da libertação total das amarras de Prakrti. Se assim não o fosse, a prática intuitiva, ou sádhaná, seria uma perda de tempo. No capítulo 3, referente à criação, foi explicado que a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) – denominada Prajápati, por estar sob a influência de Prakrti (baddha-Purus'a) – tornou-se libertada (mukta) ao realizar a prática intuitiva, passando a chamar-se Hiran'yagarbha. Pode-se assim concluir que aqueles que se encontram sob a influência de Prakrti podem alcançar a libertação com a ajuda da sádhaná. Libertar-se das amarras de Prakrti significa atingir o estado de Nirgun'a. Só nessa condição a pessoa pode se libertar completamente do domínio de Prakrti. Prajapati atingiu o estado de Hiran'yagarbha, isto é, aquela Entidade tornou-se livre do domínio de Prakrti através da sádhaná. A libertação da influência de Prakrti é, portanto, possível, e o único método para alcançá-la é através da prática intuitiva, ou sádhaná.

A história da criação mostra que, na fase do movimento do estado bruto para o estado sutil, a consciência unitária adquire um reflexo claro ao tomar abrigo num corpo constituído pelos cinco fatores fundamentais derivados da Entidade Suprema Qualificada. Para obter expressão plena, a consciência unitária também adquire uma mente, pela influência qualificadora de Prakrti. Os três princípios de Prakrti – sutil, mutatório e denso ou estático – dão à mente três formas funcionais, a saber, mahattattva, aham'tattva e citta, respectivamente. Citta em seguida se projeta através dos dez órgãos físicos, ou indriyas. Isto quer dizer que, com o aumento da influência de Prakrti, a consciência unitária foi metamorfoseada em mahattattva, ou buddhitattva. Em seguida, conforme a influência foi aumentando, ela adquiriu uma forma ainda mais bruta, aham'tattva,e finalmente atingiu um estado mais bruto ainda, citta, que, com a ajuda dos dez órgãos, ou indriyas, começou a se projetar em ações físicas. A influência de Prakrti sobre a consciência unitária vai paulatinamente ganhando força, e para se libertar desse domínio, ela terá que se libertar gradativamente. Ela terá primeiro que se retrair de citta para aham'tattva, em seguida de aham'tattva para mahattattva e, finalmente, a projeção metamorfoseada como mahattattva terá de se fundir com a consciência unitária para alcançar a libertação do domínio de Prakrti. Assim, a prática intuitiva é destinada à superação gradual da influência qualificadora de Prakrti, de modo que Ela não possa mais impor suas qualidades sobre a consciência.

Já foi dito antes que a consciência (Purus'a) dos seres humanos é que tem de realizar a sádhaná (prática intuitiva). Assim sendo, a sádhaná preliminar terá que ser realizada pela consciência metamorfoseada em citta, que proporcionará a retração dessa projeção da consciência para aham'tattva. Isto faz com que restem apenas aham'tattva e mahattattva. Portanto a próxima entidade a realizar sádhaná é a consciência metamorfoseada em aham'tattva, que se dissolverá em mahattattva, para se livrar da influência qualificadora de Prakrti. O que resta agora é mahattattva, ou o puro “sentimento de eu”. Este é o estado de savikalpa samádhi, no qual permanece mahattattva, ou o puro “sentimento de eu”, que é indistinguível do “Eu Cósmico”. Depois desse estágio mahattattva realiza sádhaná e se dissolve na consciência unitária, libertando completamente a consciência das qualidades impostas por Prakrti. Esse estado de emancipação de Prakrti é chamado de nirvikalpa samádhi. Assim, a sádhaná, ou prática intuitiva, que os seres humanos devem realizar, tem início em citta, passando em seguida para aham'tattva e finalmente para mahattattva, libertando totalmente a consciência da influência qualificadora de Prakrti.

Não é fácil libertar a mente da influência qualificadora de Prakrti. Já que os seres humanos possuem uma consciência unitária, haveria então apenas uma Prakrti unitária para influenciá-la? Não, não é assim. A consciência em Nirgun'a Brahma (Entidade Suprema Não-Qualificada) não é influenciada por Prakrti, porque nesse estado Prakrti é a contraparte mais fraca. Já que a Prakrti Infinita não é capaz de influenciar a Consciência Infinita, a Prakrti unitária também não estará em condição de influenciar a consciência unitária. Seria incorreto presumir que, no estado qualificado de Brahma, seria a Prakrti unitária que estaria qualificando a consciência unitária. Se não é assim, então, qual Prakrti qualifica a consciência, uma vez que, sem a Prakrti qualificadora, não haveria Sagun'a Brahma (Entidade Suprema Qualificada)? A partir disto se poderia deduzir que duas unidades de Prakrti qualificam uma consciência unitária, já que uma única Prakrti unitária é a contraparte mais fraca da consciência unitária. Isto também levaria a crer que a Consciência Cósmica Infinita está sendo qualificada por duas Prakrtis Infinitas. Isto é ilógico e não poderia ocorrer. Prakrti é uma força única e não poderá jamais ser dividida em unidades ou partes. Assim, somente a Prakrti Infinita pode influenciar cada consciência unitária. A Prakrti Infinita qualifica cada consciência unitária através de sua influência qualificadora infinita, e a consciência unitária terá de lutar contra a Prakrti Infinita para alcançar sua emancipação. Para alcançar sua emancipação, terá de enfrentar e derrotar a Prakrti Infinita; por isso, a sádhaná não é uma tarefa fácil.

Prakrti é uma força única, que está sempre inquieta, portanto, a criação está em constante transformação. Conseqüentemente, tudo o que está manifestado neste Srs't'icakra [Círculo da Criação] é a Consciência Cósmica metamorfoseada; portanto, as mudanças no Círculo da Criação implicam mudanças na Mente Cósmica, simultaneamente. Em outras palavras, a mente cósmica se torna também inquieta, o que acarreta mudanças no fluxo da criação. Mas as mudanças no fluxo da criação são lentas e graduais, pois Prakrti leva algum tempo para efetuar uma mudança na Mente Infinita. Uma vez que a Consciência Cósmica é infinita, as mudanças são graduais e não muito velozes. Até mesmo a Prakrti mutatória leva algum tempo para contornar a Mente Cósmica infinita antes de conseguir efetuar uma mudança. Na medida em que mantém a Mente Cósmica sob tremendo controle, Prakrti também exerce influência sobre a mente unitária, proporcionando transformações e inquietações insondáveis. Devido à total influência da Prakrti Infinita, a mente unitária se torna extremamente desordenada e inconstante. Todos já conhecem a natureza inconstante e mutatória da mente. Esta qualidade da mente humana é uma dádiva singular de Prakrti, que passa Sua eterna inconstância para todos os seres criados.

Essa eterna inconstância de Prakrti é que produz Sua criação – a mente unitária – inconstante também por toda sua existência. Essa inquietação, contudo, varia de acordo com o lugar e a situação. Num certo tempo e lugar pode haver mais agitação, enquanto em outros pode haver menos movimento. A inquietação, sendo uma qualidade imposta por Prakrti, varia de acordo com a influência de Prakrti. A mente é menos agitada quando a influência de Prakrti é menor. Seu grau de influência é menor em mahattattva, atingindo seu grau máximo em citta; conseqüentemente, mahattattva é menos inconstante do que citta. A sádhaná, ou prática intuitiva, diminui a influência de Prakrti sobre a consciência unitária, e com isto a inquietação mental também diminui. Prakrti é a única responsável pela inconstância da mente. À medida que sua influência diminui, a inquietação da mente também diminui. Portanto, a estabilidade mental só ocorrerá com a libertação da consciência unitária da influência de Prakrti.

A estabilização da mente e o desenvolvimento da concentração mental são a mesma coisa. Enquanto a consciência unitária não for libertada da influência qualificadora de Prakrti, a concentração mental não será possível. Este também é o objetivo da sádhaná, ou prática intuitiva. A fim de concentrar a mente seria necessário, em primeiro lugar, libertar da influência de Prakrti a sua manifestação mais externa, ou seja, citta. O passo seguinte seria aham'tattva e finalmente mahattattva, ou buddhitattva, alcançarem a libertação de Sua influência. A mente, que é composta por citta, aham'tattva e mahattattva, deve retrair-se de cada uma de suas manifestações, gradualmente, para então atingir o estado de concentração. Portanto, a concentração mental não é senão a sádhaná, ou prática intuitiva, que liberta a consciência unitária da influência de Prakrti.

Vejamos até que ponto a concentração da mente leva à emancipação. A retração total em relação às manifestações da mente chama-se concentração, mas isto não significa o aniquilamento da mente. A mente é criada pela influência qualificadora de Prakrti sobre a consciência unitária; por isso, enquanto a mente existir, a influência de Prakrti deverá estar presente. A concentração da mente não significa a libertação do domínio de Prakrti. É apenas o caminho mais seguro para a sua emancipação. Mesmo que obtenha concentração total, a mente ainda existirá, mas a influência de Prakrti se tornará incapaz de causar inquietação. A força que Prakrti exerce para qualificar mahattattva é mínima, e quando a mente está concentrada, apenas esse aspecto se manifesta, pois os outros dois, aham'tattva e citta, se retraíram em mahattattva. Enquanto a mente não estiver aniquilada, mahattattva (ou buddhitattva) existirá. Mahattattva é o conhecimento existencial, ou o sentimento do “eu” profundo. Portanto, a concentração mental não significa a emancipação total (moks'a, ou mahá nirv'an'a). Concentração mental é apenas o estado de savikalpa sarmádhi, no qual o único sentimento que perdura é “eu sou Ele”.

A criação se torna densa, devido à influência crescente de Prakrti. Quanto mais influência existir, mais densa será; e quanto menos influência acontecer, mais sutil será. Assim, na mente unitária, mahattattva é a manifestação mais sutil; e citta, a mais densa. A sádhaná, ou prática intuitiva, só pode ser realizada através da mente. As expressões densas ou sutis dependem do grau de influência de Prakrti, e na medida em que Sua influência diminui, a mente se retrai para o estado sutil. Em geral, a mente se sente atraída pelos objetos materiais, que resultam da influência máxima de Prakrti sobre a citta Cósmica. A mente atraída pelas expressões externas brutas sofre maior influência de Prakrti. Já foi mencionado que, devido à expressão clara da consciência unitária, a mente humana tem a liberdade de agir, e com isto surge o desejo de se livrar do domínio de Prakrti. Portanto, Prakrti criou dois conceitos ilusórios e contrários, chamados de Máyá, ou seja, Avidyámáyá e Vidyámáyá. As pessoas que se utilizam de sua liberdade para buscar Vidyámáyá logo retornam à Posição Suprema, porque Vidyámáyá dirige a mente ao estado sutil. Enquanto aqueles que se refugiam em Avidyámáyá experimentam as reações de suas ações (karmaphala), o que faz com que eles vagueiem nas ondas mentais da Entidade Suprema Qualificada.

Avidyámáyá faz com que a mente das pessoas fique atraída pelos objetos materiais. Realmente, Avidyámáyá atua como a arma com a qual Prakrti subjuga a mente, acorrentando-a aos objetivos do mundo material. A sádhaná, ou prática intuitiva. conduz a mente à libertação do domínio de Prakrti, tornando-a sutil. A diminuição da influência de Prakrti conduz a mente ao sutil, fazendo com que os s'ad'ripu e as't'apásha [ver Capítulo 6] não mais perturbem e acorrentem a mente. Da mesma forma que a diminuição da influência de Prakrti liberta a mente da influência de Avidyámáyá, o contrário também acontece, ou seja, a libertação da influência de Avidyámáyá diminui a influência de Prakrti. Avidyámáyá, portanto, nunca ajudará ninguém a conseguir a emancipação, pois o seu papel é acorrentar a mente e torná-la atraída por objetos materiais, que, por sua vez, fazem com que a mente se torne cada vez mais densa, aumentando a influência de Prakrti.

Interromper a inquietação mental, concentrar a mente e torná-la sutil são os métodos para obter a libertação do domínio de Prakrti. Aqueles que buscam Avidyámáyá nunca serão capazes de realizar nenhum desses métodos. A mente que se deixa atrair pelos objetos do mundo material fica cada vez mais densa, porque isto aumenta sua instabilidade e torna impossível a concentração. Uma mente assim jamais alcançará a emancipação ou a libertação do domínio de Prakrti. Portanto, abandonar a busca por Avidyámáyá é um requisito imperativo para se alcançar a emancipação.

A consciência unitária garante a sua libertação do domínio de Prakrti e alcança a Posição Suprema por meio da sádhaná, ou prática intuitiva. Sempre que a influência de Prakrti for mais intensa, a consciência será subjugada. A consciência é o conhecimento absoluto (jinána), que abrange a intuição e o intelecto. Portanto, uma maior influência de Prakrti leva a uma ignorância muito maior, na medida em que a consciência se torna subjugada. Por outro lado, é natural que uma influência mais branda de Prakrti proporcione maior sabedoria e maior reflexo da consciência, porque a influência de Prakrti é a causa da ignorância. A prática intuitiva remove ou diminui a influência de Prakrti, levando naturalmente a um maior conhecimento (jinána) e a um reflexo maior da consciência.

Sádhaná, ou prática intuitiva, é uma guerra declarada contra a Prakrti Infinita, com o intuito de libertar a mente de Seu domínio. Prakrti é uma força única, que controla tudo e todos, até mesmo os fenômenos naturais. Portanto, sádhaná, ou prática intuitiva, significa a conquista da supremacia sobre essa força única controladora, Prakrti. Já foi visto antes que a Consciência (Purus'a) e Prakrti são inseparáveis. Prakrti, que era a entidade controladora de Purus'a antes da guerra, se submete ao controle de Purus'a ao ser derrotada nessa guerra. Então, a Consciência (Purus'a), com a ajuda da sádhaná, ou prática intuitiva, se torna dominadora da força controladora única. Prakrti se torna incapaz de exercer qualquer influência sobre Purus'a, porque Este venceu a guerra contra Ela. Desse modo, a sádhaná confere imensos poderes sobrenaturais ao seu praticante.

A sádhaná confere poderes sobrenaturais, contudo devemos abordar o uso correto e apropriado desses poderes. A posição suprema de Brahma está em Nirgun'a Não-Qualificado, no qual Purus'a e Prakrti estão juntos, embora Purus'a (Consciência) seja mais expressivo e Prakrti não seja capaz de qualificar Purus'a. Prakrti, sendo mais fraca em Nirgun'a Brahma (Entidade Não-Qualificada), poderia ser conduzida por Purus'a (Consciência). Purus'a poderia manobrar Prakrti, contudo não o faz. Uma vez que Prakrti não exerce influência sobre Purus'a, não surgirá em Purus'a o desejo de dominar Prakrti. Tal desejo só surgirá na consciência quando esta estiver influenciada por Prakrti, o que somente será possível quando a consciência se tornar mais fraca que Prakrti. Portanto, mesmo o desejo de comandar Prakrti só surgirá quando a Consciência for mais fraca, o que a colocaria numa condição inferior a Prakrti, sendo incapaz de comandar. Assim, Purus'a (Consciência) nunca será capaz de governar Prakrti. A consciência unitária liberta-se da influência de Prakrti gradualmente. A utilização do poder que Purus'a adquire com a sádhaná, visando ao domínio de Prakrti, seria um convite ao retorno da influência qualificadora de Prakrti. É somente a influência qualificadora de Prakrti que cria o desejo pelo uso de poderes. Assim, ao desejar manipular esse poder ou ao fazer seu uso efetivo, a consciência unitária, voluntariamente, se coloca sob o controle de Prakrti. Isto faz com que o esforço individual para conquistar Prakrti com a ajuda da sádhaná seja contra-atacado, colocando a mente uma vez mais sob a influência de Prakrti. Não haveria emancipação para uma pessoa que agisse dessa forma. Não se pode alcançar a libertação da influência de Prakrti desta maneira.

As pessoas utilizam-se do poder adquirido com a sádhaná para conquistar a admiração dos outros. A exibição dos poderes sobrenaturais faz com que a pessoa portadora dos mesmos seja elogiada, respeitada e até mesmo venerada. Ela seria considerada como um grande devoto (sádhaka). Esta é a única razão que leva à exibição de poderes sobrenaturais. O desejo de conquistar respeito e veneração de outras pessoas é uma armadilha de Avidyámáyá, através da vaidade (mána) e do orgulho (mada). O uso do poder para tais objetivos indica a busca de Avidyámáyá, e esta busca conduz à degradação. Assim, qualquer uso de poderes sobrenaturais coloca a pessoa sob o controle de Avidyámáyá, que inevitavelmente leva à queda e à degradação.

Muitos consideram correto usar o poder adquirido através da sádhaná para aliviar o sofrimento, por exemplo, de uma doença grave. Não há lógica nesse raciocínio. Todos têm de sofrer as conseqüências de suas ações. Portanto, as doenças, o sofrimento ou as calamidades são somente diferentes formas de fazer as pessoas sofrerem tais conseqüências. Bhagaván (Deus) é benevolente, e de acordo com Suas leis, as conseqüências das ações têm de ser sofridas. É através desse sofrimento que a pessoa aprende a evitar o mal. Este é o propósito de Deus ao fazer a pessoa sofrer as conseqüências das próprias ações. A interferência nessa lei divina com a ajuda de poderes sobrenaturais, adquiridos através da sádhaná, não é benevolência. As reações às ações (karmaphala) terão que ser sofridas, e não cabe nem mesmo ao maior dos devotos (sádhaka) interferir nesse processo. Eles podem, no máximo, adiar o sofrimento, mas o autor das ações terá de sofrer as conseqüências restantes e poderá até ter que renascer para que isto se concretize. Por se constituir em punição, o sofrimento de uma doença grave pode despertar o desejo pela prática da sádhaná, a fim de que a pessoa alcance a emancipação. Contudo, muitos discípulos errantes e ignorantes podem privar outras pessoas da oportunidade desse despertar, ao poupá-las do sofrimento, mediante a utilização de poderes sobrenaturais adquiridos através da sádhaná. Na verdade eles prestam um desserviço, ao invés de estarem prestando um serviço à pessoa que sofre.

O uso de poderes sobrenaturais adquiridos com a sádhaná tem que ser considerado como uma blasfêmia. Não seria um desafio à supremacia de Deus o ato de neutralizar a eficácia de Suas leis, utilizando-se de poderes sobrenaturais? A pessoa pode caminhar sobre as águas de um rio numa travessia, caminhar sobre brasas ardentes ou pode até fazer a cura milagrosa de uma doença incurável. Nesses casos, ela estaria usando seus poderes para anular a natureza (o dharma) da água e do fogo, e para interferir na lei de Prakrti, que faz com que a pessoa sofra as conseqüências das próprias ações. Qualquer um que ande sobre as águas de um rio deverá afundar. O fogo tem a propriedade de queimar qualquer pessoa que entre em contato com ele. Da mesma forma, todos têm de suportar as conseqüências de suas ações. Tentar evitar tais efeitos é desafiar a autoridade de Deus. Isto não constitui somente um desafio mas também uma tentativa de desfazer o objetivo da criação e de suas leis. Não pode haver maior blasfêmia do que essa.

Cada ação corresponde a uma reação, e esta terá que ser vivenciada. O uso de poderes sobrenaturais constitui também uma ação. Não é apenas uma ação, mas uma blasfêmia – uma má ação. A pessoa está destinada a sofrer as conseqüências de tal ação, e enquanto não tiver exaurido todas as reações em potencial (sam'skáras), ela não poderá obter a libertação do domínio de Prakrti. Portanto, o uso de poderes sobrenaturais, adquiridos com a prática intuitiva, em circunstância alguma se justifica. Além disso, conduz, invariavelmente, à queda e à degradação, sendo portanto essencial refrear a tentação de usar tais poderes. A emancipação pode ser alcançada através da prática intuitiva (sádhaná), e para isso deve haver uma técnica especial. Essa prática só pode ser ensinada por alguém que a conheça. Portanto, para aprendê-la, é necessário encontrar um professor capaz de ensiná-la. Isto significa que um preceptor (guru) é absolutamente necessário para se aprender a prática intuitiva e conseqüentemente obter a emancipação? Um homem numa prisão, com as mãos algemadas e os pés atados, por mais esforço que faça, jamais poderá se libertar, a não ser que alguém abra a porta da prisão e retire as suas algemas. Do mesmo modo, as pessoas foram algemadas por Prakrti e aprisionadas nesta imensa prisão – o mundo. Elas jamais conseguiriam se libertar sem a ajuda de uma outra pessoa.

Além disso, não é possível para uma pessoa aprender uma arte por si só. É necessário que haja outra pessoa para lhe ensinar ou pelo menos alguém a quem ela possa imitar. Aquele de quem se aprende uma arte é um preceptor. A prática intuitiva (sádhaná) é também uma arte a ser aprendida de um preceptor. Portanto, a emancipação não é possível sem um preceptor (guru). O guru é sempre uma necessidade prioritária para se obter a emancipação.

Aquele que se encontra aprisionado não poderá libertar outros. Aquele que tem os pés e as mãos atados não poderá remover as amarras de outros. Assim, a pessoa que não é emancipada, não pode conceder emancipação a outros. Somente um muktapurus'a (aquele que é emancipado) é capaz de se tornar um preceptor. Uma pessoa só poderá ser considerada emancipada quando tiver sido libertada da influência qualificadora de Prakrti. A única entidade que está completamente livre da influência de Prakrti é a Entidade Suprema Não-Qualificada (Nirgun'a Brahma), e somente essa Entidade pode ser considerada como realmente emancipada.

Contudo, Nirgun'a Brahma ou a Entidade Não-Qualificada jamais poderá servir de instrumento para a emancipação de outros. Na total ausência da influência de Prakrti, aquela entidade não pode sequer ter o desejo de emancipar os outros. Somente poderá ser um preceptor aquela pessoa que, através de sua sádhaná, alcançou a Posição Suprema, mas também, por sua própria iniciativa, tomou a forma humana novamente, por um determinado período de tempo, para gerar bem-estar aos seres humanos. Enquanto mantiver seu corpo físico, tal pessoa estará sob a influência de Prakrti, mas ao abandoná-lo, por ocasião da morte, ela retornará à Posição Suprema – a Entidade Suprema Não-Qualificada.

A Entidade Suprema Qualificada (Bhagaván) é emancipada, assim como o preceptor (guru). Isto mostra que não há diferença entre o preceptor e Bhagaván. Ele, ou ela, não poderá ser nenhuma outra entidade a não ser a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma). Então, ele ou ela será Sagun'a Brahma ou Bhagaván encarnado. O desejo da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) é obter emancipação para cada uma de Suas unidades, e foi com esta intenção que Ela originou a criação. Sagun'a Brahma não tem forma, não pode ser visto ou escutado. Tal entidade não pode ajudar os seres humanos a se emanciparem. Tem que assumir uma forma humana para ajudar Suas unidades e o faz na forma de um preceptor, ou guru. O preceptor é Bhagaván encarnado. Não há qualquer dúvida a esse respeito.

Embora seja difícil encontrar um mukataPurus'a, ou sadguru (grande preceptor), não é necessário sair à procura dele nas selvas, nas montanhas e nas cavernas, de acordo com a crença popular. O propósito da Entidade Suprema Qualificada manifestar a criação é obter a emancipação para cada uma de Suas unidades. A fim de realizar esse propósito, Ela terá que aparecer para aqueles que têm um imenso desejo de emancipação. Este intenso desejo ou estado mental de inquietação, causado pela determinação de alcançar a emancipação, anuncia a chegada do momento oportuno. A Entidade Suprema Qualificada, na forma de um grande preceptor, aparecerá para aqueles que alcançaram esse momento oportuno, em virtude de seu intenso desejo de libertação. Se assim não fosse, o propósito da criação não seria cumprido; seria simplesmente uma armadilha, e o criador, a Entidade Suprema Qualificada, tornar-se-ia a causa de todas as amarras. Portanto, vagar por selvas, montanhas ou cavernas em busca de um grande preceptor não faz sentido. O que é essencial é alimentar no coração um intenso desejo de emancipação.

É necessário saber quais são as qualidades de um grande preceptor, de modo que, até mesmo uma pessoa bem simples possa reconhecê-lo. Seria a característica de um grande preceptor (sadguru) mostrar que possui e pode aplicar poderes divinos ou sobrenaturais? Um grande preceptor é uma pessoa emancipada e possuidora de todos os poderes sobrenaturais, mas, teria ela que demonstrá-los, a fim de ser reconhecida como um preceptor? Vimos antes que o uso de poderes sobrenaturais, sob qualquer circunstância, leva à degradação, na medida em que coloca aquele que deles se utiliza sob o controle de Avidyámáyá. Contudo, Avidyámáyá não consegue atrair nem exercer sua influência sobre uma pessoa libertada. Tal pessoa jamais será influenciada por Avidyámáyá, sob nenhuma circunstância. Portanto, a pessoa que se considera um grande preceptor devido a seus poderes sobrenaturais ou que passa a exibi-los, é apenas uma impostora. Ela própria não é emancipada, logo não poderá libertar os outros. Tal pessoa deveria ser evitada como se evita uma cobra venenosa. A aquisição e a exibição de poderes sobrenaturais ou divinos não são as qualidades pelas quais um grande preceptor poderá ser reconhecido. Um grande preceptor é uma pessoa emancipada. Um grande preceptor é aquele que está livre da influência de Prakrti. Avidyámáyá não pode montar uma armadilha para um sadguru. Os seis inimigos – kama (desejo por objetos materiais), krodha (ira), lobha (avareza), moha (atração), mada (orgulho), mátsarya (inveja); bem como as oito amarras – lajjá (vergonha), bhaya (medo), ghrn'á (ódio), shaumká (dúvida, por medo), kula (orgulho do prestígio de família), shiila (orgulho da própria cultura), mána (vaidade) e jugupsá (maledicência e hipocrisia) – não produzem efeito num preceptor emancipado (sadguru). A fim de seguir o dharma (natureza) da criação, um sadguru vive em completa harmonia com Vidyámáyá e pratica viveka (discernimento) e vaerágya (uso apropriado das coisas materiais). Somente tal pessoa é um grande preceptor, ou sadguru.

A prática intuitiva (sádhaná) terá que ser aprendida de um grande preceptor (sadguru), e a emancipação poderá ser conseguida com sua prática sistemática. O simples fato de se ter um preceptor não significará nenhuma conquista se a prática intuitiva (sádhaná) não for levada a cabo. Todos devem realizar sádhaná. A emancipação não pode ser alcançada sem essa prática. Algumas pessoas têm a impressão de que não precisam fazer esforço para alcançar a emancipação e de que seria suficiente ter a graça do Guru. É verdade que a libertação não é possível sem a graça do grande preceptor. O engano está em achar que a libertação poderá ser alcançada sem esforço. É preciso que a pessoa mereça a bondade do Guru para recebê-la. Ela nunca será concedida a um discípulo sem mérito. Para conseguir a graça do sadguru, o discípulo terá que seguir um sistema de prática intuitiva com devoção e fé e não achar que o grande preceptor a concederá sem que ele faça qualquer esforço. Outras pessoas acham que, sendo discípulas de um grande preceptor e tendo em conta que o sadguru veio a este mundo para elevar aqueles que se encontram decaídos, o preceptor conduzirá a todos quando ele se for, assim como um pastor conduz suas ovelhas quando deixa o pasto ao cair da noite. Esta não é uma maneira correta de pensar. Um grande preceptor não vem a este mundo para conduzir seus discípulos como um pastor conduz suas ovelhas. O grande preceptor vem para libertar as pessoas, para elevá-las à divindade. As pessoas têm que fazer um esforço sincero para realizar a prática intuitiva (sádhaná). A dependência passiva do discípulo em relação ao preceptor não lhe conferirá libertação.

Quando alguém inicia a prática intuitiva, surgem problemas e obstáculos. Sádhaná é um esforço para se libertar do domínio de Prakrti. Esse domínio se mantém em função das deformações criadas pela própria mente. A fim de alcançar a libertação, a mente terá que readquirir seu estado natural, removendo as deformações. Foi demonstrado anteriormente que essas deformações constituem reações das próprias ações, as quais não podem ser removidas, a não ser que sejam vivenciadas. Portanto, a emancipação não será possível até que a pessoa tenha sofrido todas as reações de vidas anteriores. Em geral, as pessoas sofrem essas reações no dia-a-dia, e se qualquer reação persistir até a ocasião da morte, elas terão que renascer para exauri-la. Contudo, aqueles que fazem a prática intuitiva não desejam renascer para experimentar ou sofrer as reações de ações passadas. Dessa forma, com sua determinação para alcançar a libertação, elas se apressam em exaurir, nesta mesma vida, todas as reações que têm em potencial. Elas deveriam então aceitar os problemas como um bom sinal, uma vez que eles aceleram o processo de exaustão das reações remanescentes.

Sádhaná é o esforço para a libertação da influência qualificadora de Prakrti. Avidyámáyá é também uma qualidade, sendo necessário que a pessoa renuncie a Avidyámáyá. Se um inquilino estiver ocupando uma casa por muito tempo, será extremamente difícil, de uma hora para outra, retirá-lo, especialmente se ele tiver sido tratado com respeito por todo o tempo. Ele nunca deixará a casa de livre e espontânea vontade e colocará todos os tipos de obstáculos em seu caminho. Você terá que lutar contra todas as suas manobras e, somente quando estiver completamente derrotado, o inquilino atormentador lhe permitirá entrar na casa. Da mesma forma, como a pessoa tem estado à mercê de Avidyámáyá por muitas vidas, Avidyámáyá não a abandonará facilmente no início da prática intuitiva. Como o inquilino perturbador, Avidyámáyá lançará todos os obstáculos possíveis no seu caminho, sempre que a pessoa tentar livrar-se de sua influência. A sádhaná, ou prática intuitiva ensinada por um grande preceptor, é o meio para remover Avidyámáyá. Apenas o sucesso na sádhaná pode fazer com que Avidyámáyá perca sua força. Portanto, o início da verdadeira sádhaná é marcado por uma grande resistência de Avidyámáyá, que, através de obstáculos, tenta levá-lo a desistir da prática intuitiva. Por tentar subjugar Avidyámáyá, a sádhaná, naturalmente, encontrará resistência por parte da força maléfica de Avidyámáyá. Os obstáculos para a sádhaná (prática intuitiva) deveriam ser considerados como um indicativo de sucesso na tentativa de se ver livre de Avidyámáyá. Os obstáculos não são criados por Deus ou pelo grande preceptor (sadguru), pois eles desejam que cada um dos seres unitários se torne emancipado. Os obstáculos são criados por Prakrti, contra quem se declara uma guerra. Se a pessoa quiser vencer Prakrti, terá que derrotá-La com a arma da sádhaná, contra a qual Avidyámáyá se defende, colocando obstáculos no caminho. Os obstáculos ocasionados pela sádhaná deveriam ser vistos como um bom sinal, pois eles indicam que a influência de Avidyámáyá está começando a diminuir.

A Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) deu a cada um dos seres unitários uma consciência unitária totalmente refletida. Ela processa a criação e desenvolve a humanidade a fim de que o ser unitário possa realizar a prática intuitiva e alcançar a emancipação. Os outros seres vivos não possuem consciência completamente expressada; por isso, não podem realizar sádhaná nem conseguir emancipação. A consciência unitária está totalmente expressada em todos os seres humanos, então, todos têm o mesmo direito de praticar sádhaná. Nenhum outro ser vivo, até evoluir ao estágio humano, tem a capacidade de realizar a prática intuitiva.

Como todos têm o direito de realizar sádhaná, é necessário que Sagun'a Brahma (Entidade Suprema Qualificada) chegue a todos como um grande preceptor. Mas isto nem sempre acontece porque, devido ao fato de as pessoas demonstrarem desinteresse em alcançar a emancipação, elas nem podem reivindicar o direito de realizar a sádhaná. O grande preceptor só se encontra disponível para aqueles que têm um profundo desejo de libertação. Somente para eles surge o momento oportuno, e somente eles podem reivindicar o direito à prática de sádhaná e encontrar um grande preceptor (sadguru).

Os seres humanos têm o poder do discernimento, uma vez que eles possuem uma consciência unitária totalmente expressada. Eles podem discernir entre o bem e o mal e escolher viver uma vida correta. O desejo de libertação é bom, mas, como cada ação ou desejo tem que ter uma causa, este desejo tem também que ser despertado nos seres humanos. Portanto, o despertar do intenso desejo de libertação ou a reivindicação do direito de realizar a sádhaná depende exclusivamente do esforço individual. O grande preceptor não pode ser acusado de parcialidade por ensinar a prática intuitiva somente àqueles que fazem jus a ela. Sagun'a Brahma quer libertar a todos, mas é preciso que cada um faça por onde ter o direito de realizar a sádhaná por meio do próprio esforço. Embora todos os seres humanos tenham uma consciência completamente expressada, muitos não são capazes de despertar em si o desejo pela libertação. Deus não pode ser culpado pela indiferença humana pela libertação, o que impede o ser humano de encontrar um grande preceptor. É um dever de cada pessoa (dharma) criar o desejo pela emancipação, já que esta é a vontade do Senhor, e é por esta razão que o Senhor deu origem a esta criação.

O objetivo de Sagun'a Brahma é libertar cada uma de Suas unidades, e esta é a única razão pela qual ele criou este vasto universo. Todos, mais cedo ou mais tarde, alcançarão a emancipação, pois esta é a vontade do Senhor. Isto poderá acontecer logo ou demorar um tempo infinito. A única forma de alcançar a libertação é através da sádhaná; portanto, todos terão um dia de iniciar a prática intuitiva, em sua busca de libertação das amarras da criação. Aquele que é sábio deveria começar a sádhaná de imediato, para alcançar a libertação rapidamente. Ele compreende que adiar este processo é sofrer desnecessariamente sob o jugo da criação, que não é a sua morada permanente. Considerar um acampamento transitório como a morada permanente e sofrer os rigores e as dificuldades desse acampamento é tolice. Sabendo-se que esta não é a meta final e que ninguém permanecerá aqui para sempre, parece sensato fazer um esforço para partir o mais rápido possível. Cada um terá que atingir sua meta mais cedo ou mais tarde. É imperativo que todos alcancem a emancipação pela prática da sádhaná. Esta é a nossa tarefa permanente.

P.R.Sarkar - Filosofia Elementar da Ánanda Márga.



30/06/2008

QUAL É O OBJETIVO DA HUMANIDADE? - Parte VII

O desvendar do mistério da criação mostra que a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma), a fim de prover emancipação a cada um de Seus seres unitários, tem que gerar a criação. Ela tem que se transformar no fator sólido rudimentar, apenas para dividir Seu ser sutil em seres unitários. Isto comprova que Sagun'a Brahma é uma Entidade Onisciente Infinita (Jinátá), a qual, por ser sutil, não pode se subdividir em unidades. A criação é apenas a imaginação (kalpaná) da Entidade Onisciente Infinita, na qual Ela imagina a Si mesma dividida em diferentes partes. A criação também mostra que essa onda mental imaginário surge dessa Entidade Infinita com o único propósito de retornar a Ela, e que a humanidade constitui o último elo dessa onda mental. Os seres humanos, portanto, mais cedo ou mais tarde terão que se unir a Sagun'a Brahma sutil (Entidade Suprema Qualificada) no curso de Suas ondas mentais. Uma vez que Sagun'a Brahma é infinito e sutil, nenhum ser humano manterá identidade separada, mesmo sendo sutil, a partir do momento em que se unir a Ele. Não é possível haver duas entidades similares quando uma é infinita. Assim, depois da fusão, os seres humanos se tornarão Sagun'a Brahma. Podemos tomar como exemplo uma gota d'água que, ao se misturar com a água de um copo, perde sua própria identidade e se torna uma com o restante da água do copo. O indivíduo, da mesma forma que essa gota d'água, perde completamente sua identidade individual ao se unir à Entidade Suprema Infinita.
A união da consciência unitária com a Entidade Suprema Qualificada não preenche completamente o propósito da criação. A consciência unitária, antes de alcançar a Posição Não-Qualificada (Nirgun'a), terá de unir-se à Entidade Qualificada (Sagun'a), perdendo sua identidade e tornando-se a própria Entidade Suprema Qualificada. Isto anula o propósito da Entidade Suprema Qualificada ao Se manifestar na criação.
O desejo da Entidade Suprema Qualificada é a união de todos os seres unitários com a Entidade Não-Qualificada, ou seja, o retorno de cada um deles à Posição Suprema. Isto não seria cumprido somente com a união da consciência unitária com a Entidade Suprema Qualificada, seja pelo esforço da sádhaná (prática intuitiva) seja pelo desenrolar natural do fluxo de ondas mentais da Entidade Qualificada. Esta união com a Entidade Suprema Qualificada é denominada mukti, que significa libertação do movimento das ondas mentais do Supremo, na criação. Essa libertação, ou mukti, não é a emancipação, na realidade. A consciência unitária emerge da Entidade Suprema Qualificada sutil nas suas ondas mentais e reinicia o Srs't'icakra, ou Brahma Cakra (Círculo da Criação, ou Círculo Cósmico), tendo que percorrer de novo o caminho da emancipação. Assim, mukti não é a emancipação completa, uma vez que a intenção da Entidade Suprema Qualificada de prover a posição não-qualificada a cada de Suas unidades não teria sido cumprida.

A libertação do domínio de Prakrti é a união com a Entidade Suprema Não-Qualificada, ou a realização do Estágio Supremo, denominado moks'a. A união com o Brahma Não-Qualificado liberta o ser unitário das influências da Prakrti Suprema; e, uma vez que Ela não pode influenciar Brahma, será incapaz de trazer o ser unitário de volta para a criação. Assim, a unidade será libertada de sua jornada através da criação, cumprindo a finalidade ou a intenção da Entidade Suprema Qualificada. Portanto, a meta dos seres humanos não é fundir-se com a Entidade Suprema Qualificada e obter mukti. É mais elevada do que isto. A meta é a obtenção da Posição Suprema, isto é, obter moks'a ou kaevalya mukti.

P.R. Sarkar - Filosofia Elementar da Ánanda Márga

24/06/2008

COMO OS SERES HUMANOS DEVERIAM VIVER NESTE MUNDO? - Parte - VI

Os seres humanos têm uma consciência claramente refletida, que os torna capazes de agir com independência e também de discernir entre o bem e o mal. O bem e o mal são ideias relativas; é preciso determinar o que é bem e o que é mal.
O objetivo da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) em gerar a criação é libertar todos os seres unitários e torná-los seres emancipados como Ela própria se tornou. É com essa única intenção que, na última fase do movimento evolucionário do estado bruto para o sutil, os seres humanos, constituindo apenas uma porção ínfima de seres, surgem com uma consciência claramente refletida.


A influência que Prakrti (Energia ou Força Cósmica) exerce sobre a consciência unitária diminui na medida em que essa consciência progride em direção ao estado sutil. Vemos então que, nos seres humanos, a consciência está sob a influência de Prakrti em menor grau do que a consciência unitária dos animais. Essa diminuição da influência de Prakrti sobre a consciência unitária, obviamente, é determinada por Sagun'a Brahma.
A Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) e Prakrti devem ter entrado em comum acordo desde o início da criação para que isso acontecesse; caso contrário, Prakrti, cuja natureza é qualificar Purus'a (Consciência Cósmica) ao máximo, não libertaria Purus'a de Sua influência. Na fase da criação em que o movimento é do estado bruto para o sutil, observa-se que Prakrti liberta a Consciência (Purus'a) de seu domínio, por Sua própria vontade. Ainda assim, a consciência unitária permanece sob o domínio de Prakrti, porque o movimento da criação do estado bruto para o sutil não chegou ao fim. Por estar em posição de subordinação, qualquer entidade consciente que agir de forma independente será punida por Prakrti, pois essa é a Sua natureza. Como resultado da punição, o movimento evolucionário da consciência unitária em direção ao sutil é temporariamente afetado.
Na criação, observa-se que a influência de Prakrti é menor quando o reflexo da consciência é mais nítido. Se a consciência unitária expandir e ampliar o seu reflexo, ela aumentará sua velocidade em direção ao estado sutil, na medida em que Prakrti diminui Sua influência sobre ela. Dessa forma, a consciência unitária poderá retornar, rapidamente, ao estado de sutileza total.
Portanto, boas ações são aquelas ações que aumentam o reflexo da consciência e não contrariam as leis de Prakrti. A obediência às leis de Prakrti e a atuação de acordo com os Seus ditames eliminarão o sofrimento do resultado das ações (karmaphala), do mesmo modo que a expansão do reflexo da consciência diminuirá o domínio de Prakrti. Isto torna o ser humano capaz de voltar ao estágio supremo rapidamente. As ações que fazem com que a pessoa siga as leis de Prakrti e que, ao mesmo tempo, ampliam o reflexo da consciência são chamadas de uttama karma (ações ideais) e também são conhecidas como Vidyámáyá – um princípio que está associado com vaerágya e viveka.
O termo vaerágya é comumente interpretado como a atitude da pessoa que abandona o mundo e leva uma vida de extrema austeridade. Vaerágya não significa isso, e não quer dizer que a pessoa tenha de se tornar reclusa. O único significado de vaerágya é tentar compreender o uso correto das coisas e usá-las adequadamente (obviamente, agir sem se deixar dominar pelos objetivos rudes da mente). Por exemplo, o álcool é um produto tóxico, que causa dano tanto ao corpo quanto à mente; por conseguinte, seu uso deve ser evitado. Contudo, os médicos prescrevem remédios compostos de álcool para a cura de várias doenças; então, o álcool, um produto tóxico, transforma-se em remédio, aliviando a dor de seus pacientes. Assim, uma mesma substância usada em circunstâncias diferentes altera a sua natureza, mudando a sua característica de produto tóxico para a condição de remédio. A utilização do álcool como remédio é correta, e a pessoa que o utiliza com o propósito de curar doenças não se coloca sob seu efeito dominante. Vaerágya é a correta utilização de uma coisa. A utilização correta de qualquer objeto, obedecendo à idéia de vaerágya, não escraviza a mente ao desejo compulsivo por esse objeto. A pessoa torna-se indiferente a ele. Quando desenvolve a indiferença ou não se sente atraída constantemente por coisas materiais, a mente se torna sutil. O movimento da mente em direção ao sutil significa que Prakrti diminuiu a sua influência sobre a mente, e isto constitui um progresso em direção à libertação (mukti), uma vez que a libertação só é possível quando a pessoa está livre da influência de Prakrti.
O discernimento entre o bem e o mal é viveka. Viveka é considerar o uso do álcool como maléfico, quando consumido como um produto tóxico, e como algo benéfico, quando é utilizado como remédio. Uma coisa pode ser boa ou má, dependendo do uso que se der a ela; e a este discernimento entre os dois usos dá-se o nome de viveka. Apenas quando usa o discernimento é que a mente pode determinar se uma coisa é benéfica ou maléfica de acordo com o seu uso. Viveka, portanto, é um requisito necessário para seguir vaerágya, e vaerágya é um fator que contribui para atingir a emancipação (mukti). Assim, somente vaerágya e viveka constituem boas ações, ou Vidyámáyá. Más ações, ou Avidyámáyá, são exatamente o oposto disto. As ações que diminuem a expressão da Consciência e levam a pessoa a infringir as leis de Prakrti são consideradas más ações.
A evolução da consciência unitária é medida apenas pelo reflexo da consciência, que se torna cada vez mais nítido e mais intenso, na medida em que a mente se torna mais sutil. Isto só será possível se a velocidade do movimento em direção ao estado sutil for aumentada, pois só assim a mente será capaz de se tornar sutil.
Quanto mais a mente é absorvida pelos objetivos do mundo material, tanto mais a consciência unitária regride, porque o reflexo da consciência unitária se torna enfraquecido na medida em que aumenta a expressão de Prakrti. Enquanto a mente está absorvida pelo mundo rudimentar, ela permanece sob maior influência de Prakrti, interrompendo, dessa forma, a marcha progressiva da consciência unitária. Assim, as ações que levam a pessoa a infringir as leis de Prakrti interrompem sua marcha evolutiva em direção ao estado sutil, porque as conseqüências da punição aplicada por Prakrti têm que ser sofridas antes de haver qualquer progresso, ficando então a consciência unitária impedida, durante esse tempo, de alcançar o estado sutil.
Aquelas ações que conduzem a mente para os objetivos materiais ou densos e que fazem a pessoa agir de forma contrária às leis de Prakrti são más, ou inspiradas em Avidyámáyá.
Avidyámáyá é a criadora dos seis inimigos, ou s'ad'ripu, e das oito amarras, ou as't'apásha.
OS SEIS INIMIGOS:
1) Kama (desejos por coisas materiais)
2) Krodha (ira)
3) Lobha (avareza)
4) Moha (apego às coisas materiais)
5) Mada (orgulho)
6) Mátsarya (inveja)

OITO AMARRAS:
1) Bhaya (medo)
2) Lajjá (vergonha)
3) Ghrn'á (ódio)
4) Shaunká (dúvida por medo)
5) Kula (orgulho de nome ou prestígio de família)
6) Shiila (orgulho da própria cultura)
7) Mána (vaidade)
8) Jugupsá (maledicência e hipocrisia)

S'at significa seis; e ripu, inimigos. Essas seis faculdades dos seres humanos são chamadas de inimigos, pois elas fazem com que a mente fique absorvida pelos objetos do mundo material, impedindo-a de seguir adiante em sua jornada para o estado sutil. O estágio supremo da consciência unitária é a sutileza, e todas as coisas que a impedem de atingir essa meta são consideradas suas inimigas. Essas seis faculdades da mente são, portanto, denominadas suas seis inimigas.

As't'apásha significa oito amarras. Qualquer pessoa atada por grilhões perde a capacidade de se movimentar. Na criação, vemos que o movimento dos seres humanos é do estado bruto para o estado sutil. Quer dizer, eles terão que se conduzir em direção ao estado sutil, mas como estão atados pelas oito amarras (lajjá, bhaya, ghrn'a etc.), ficam absorvidos pelas coisas mundanas, e o seu progresso em direção ao sutil é interrompido.
Seguir Vidyámáyá seria considerado uma boa ação, enquanto seguir Avidyámáyá seria uma má ação. Vidyámáyá leva a pessoa gradualmente ao estado sutil, enquanto Avidyámáyá impede o progresso em direção à sutileza. De acordo com a norma da criação, o movimento humano deve ser em direção ao sutil, devendo os seres humanos seguir Vidyámáyá, para que seu movimento em direção ao estado sutil seja acelerado e eles voltem rapidamente ao Estágio Supremo.
Aqueles que seguem Vidyámáyá podem ser classificados em quatro categorias.
Em primeiro lugar estão as pessoas boas, as que seguem as leis de Prakrti e se esforçam pelo progresso da consciência unitária. Em segundo, estão aquelas pessoas que seguem as leis de Prakrti, mas que não se esforçam para garantir o progresso da consciência unitária. Em terceiro, estão aquelas pessoas que não seguem as leis de Prakrti e que são indiferentes aos esforços que visam ao progresso da consciência unitária. Estas são consideradas as de categoria inferior. E em quarto lugar estão aquelas pessoas que não apenas não seguem as leis de Prakrti, como também contribuem para a degradação de suas próprias consciências unitárias. Estas são as de categoria ainda mais inferior.
O propósito da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) ao criar os seres humanos foi fazer com que eles seguissem seu rumo em direção ao estado sutil, de forma a reconduzi-los ao Estágio Supremo. Isto constitui a natureza (Dharma) dos seres humanos. Para retornar ao Estágio Supremo é necessário um esforço que eleve a consciência unitária, bem como é preciso que as ações individuais sigam as leis de Prakrti, para que Prakrti não crie obstáculos ao progresso. Portanto, as pessoas da primeira categoria, isto é, as pessoas boas, são “naturais” (prakrta manusya), uma vez que elas agem de acordo com sua natureza (Dharma) e somente elas servem ao propósito para o qual a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) as criou.
Os animais também seguem as leis de Prakrti, mas devido à ausência de manifestação clara da consciência unitária, eles não são capazes de fazer qualquer esforço para a elevação de sua consciência. As pessoas da segunda categoria, que apenas seguem as leis de Prakrti, não são diferentes dos animais. Elas não fazem uso de sua consciência unitária claramente expressada. Elas podem ser consideradas como nada mais do que animais na forma humana.
Aquelas pessoas da terceira e da quarta categoria são inferiores aos animais. Os animais seguem as leis de Prakrti, embora não façam nenhum esforço para a elevação de sua consciência unitária, já que esta, neles, não está claramente manifestada. Por estarem na completa dependência de Prakrti em todas as suas ações, os animais, com o passar do tempo, desenvolvem uma consciência unitária com reflexo pleno. Mas os seres humanos das categorias inferiores não fazem uso da consciência manifestada em si, agindo contra as leis de Prakrti; e os da categoria mais baixa proporcionam a degradação de suas próprias consciências unitárias por meio de suas ações. Estes, não só agem como animais na forma humana, como são até inferiores aos animais.
No capítulo anterior foi mencionado que as reações resultantes das ações (karmaphala) têm de ser vivenciadas. Ninguém é poupado dessas reações: as reações a cada uma das ações devem ser sofridas por quem as praticou. Há muitas pessoas que, com a intenção de se livrar do sofrimento resultante das suas próprias ações, tentam diversos métodos. Será abordado adiante até que ponto seus métodos e tentativas são baseados em um raciocínio lógico e se essas pessoas conseguem se livrar das reações.
Muitos acreditam que, neutralizando a influência das estrelas (grahashánti) ou fazendo rituais de sacrifício e arrependimento (práyashcitta), seria possível se livrar das conseqüências de suas ações. Essa crença não está correta porque, de acordo com as leis de Prakrti, cada ação deve ser seguida por sua reação. A mente precisa retornar ao seu estado normal através da reação. Esta é a lei de Prakrti, e ninguém pode se livrar deste princípio.
Há, contudo, maneiras de acelerar ou retardar a velocidade das reações que restituem o estado normal da mente. Reações que levariam um mês para reconduzir a mente ao estado normal podem, com a ajuda do Tantra, ter seu processo acelerado ou retardado e ser experimentadas num dia ou num ano, embora não seja possível evitá-las completamente. Por exemplo, alguém pode fazer um empréstimo de cem rúpias, sob a condição de devolver essa soma no período de um mês. Entretanto, será possível persuadir a pessoa que emprestou o dinheiro a prolongar o prazo de devolução em até um ano ou mesmo dois, mas não será possível livrar-se dessa dívida. Da mesma forma, uma pessoa que tenha depositado em sua conta a quantia de 150 rúpias, com a intenção de gastá-la em um mês, usando cinco rúpias por dia, poderá gastar as 150 rúpias em um único dia, ou seguir a programação original e gastar no período de um mês o valor depositado. O dinheiro será usado apenas pela pessoa para quem ele foi creditado, quer esse uso seja feito em um dia ou em um mês.
Como nos exemplos anteriores, com a ajuda de práticas tântricas, o modo de experimentar a reação à ação original pode sofrer transformações, mas a experiência da reação em si (ou destino) não pode ser evitada. O karmaphala – conseqüências, ou reações às próprias ações – terá que ser suportado pela pessoa. Quando muito, a intensidade do sofrimento dessas experiências poderá ser reduzida ou aumentada, ao se acelerar ou desacelerar a velocidade das reações. É possível que a devolução das 100 rúpias do exemplo anterior em uma única parcela seja muito difícil para a pessoa que pediu o dinheiro emprestado, mas essa mesma devolução, feita em parcelas menores, poderá não afetar o devedor. O período de sofrimento, então, seria dilatado com a ajuda das práticas tântricas, de tal forma que a pessoa não sentisse a intensidade do sofrimento. Com isso, ela poderia concluir erroneamente que a experiência das reações (karmaphala) teria sido afastada ou eliminada, devido ao efeito de grahashánti, isto é, ao efeito neutralizante das estrelas. Por exemplo, se ao ler o futuro de uma pessoa for verificado que ela terá de suportar o sofrimento mental causado pela fratura de um braço, é possível, com a ajuda de grahashánti, evitar a fratura do braço, exatamente, mas a quantidade de sofrimento mental não poderá ser modificada ou mesmo suprimida. O sofrimento poderá ser distribuído por um longo período de tempo, através de numerosos incidentes de menores proporções. Assim, neste caso, a mão da pessoa poderá sofrer uma pancada que venha a deixá-la doente, e ela poderá sofrer reações menores até que a quantidade de incidentes se iguale ao sofrimento mental que ela estava destinada a passar com a fratura do braço, como no exemplo acima, em que o devedor pagou a dívida em pequenas parcelas até que a divida de 100 rúpias foi liquidada. Aqui, o pagamento do débito total representa o sofrimento mental do braço fraturado, como se a dívida fosse paga em uma única parcela. Contudo, através de uma apelação e da insistência dirigida ao credor, isto é, através do efeito neutralizante das estrelas (grahashánti), a dívida foi paga em pequenas parcelas. Mas até que toda a dívida seja paga, os pagamentos terão que continuar a ser feitos.
Da mesma forma que é possível estender o período de vivência das ações com a ajuda de grahashánti, também é possível diminuir esse período. Algumas pessoas, por exemplo, acreditam que certas pedras preciosas, como a safira, podem mudar a forma de experimentar as reações. Ao usar tais pedras, pode-se ganhar uma fortuna numa loteria ou uma promoção no trabalho, fazendo com que a pessoa acredite que sua sorte ocorreu por causa do efeito de grahashánti, mas na verdade isso não teria ocorrido. O destino ou o quantum de experiências resultantes das próprias ações não podem ser evitados ou mudados. Foi explicado anteriormente que as ações que geram felicidade aos outros dão ao seu autor a mesma quantidade de felicidade, em termos de satisfação mental. O quantum de felicidade e sofrimento a ser experimentado não pode ser mudado. Somente o período de duração da experiência pode ser aumentado ou diminuído. No exemplo anterior, referente ao depósito de 150 rúpias, vimos que o beneficiado pode utilizar a quantia depositada gastando cinco rúpias por dia, ao longo de um mês, ou encurtar esse período, gastando-a em apenas um dia. Qualquer alteração no destino, provocada por grahashánti, é semelhante a isso. Por exemplo, um prêmio de mil rúpias ganho na loteria, devido ao poder da safira, representa a quantia que a pessoa deveria ganhar em pequenas parcelas num longo período de tempo. Esse dinheiro é recebido numa única parcela, desequilibrando o recebimento de futuras parcelas. Contudo, ao receber essa quantia de uma só vez, a pessoa acredita que grahashánti ou o uso da safira azul mudou seu destino.
Na verdade, o destino, ou a experiência das reações (karmaphala), jamais pode ser mudado. Apenas o tempo de duração da experiência é que pode ser mudado. Por isso, as pessoas que realizam práticas intuitivas (sádhaná) com a intenção de alcançar a emancipação, experimentam prazer e dor, felicidade e sofrimento rapidamente, de modo a completarem a experiência de suas reações tão rápido quanto possível.
Aqueles que desejam emancipação (mukti) querem realizá-la nesta vida, e assim vivenciam rapidamente suas reações (sam'skaras), para que nada seja deixado para uma outra vida e para que possam ser libertados das amarras de Prakrti.
Algumas pessoas pensam que as conseqüências das más ações podem ser compensadas ou eliminadas pelo resultado das boas ações. Elas acreditam que, se as más ações forem equivalentes às boas ações, não haverá saldo de reações a ser experimentado. Isto não tem acontecido e seria impossível que acontecesse. Já foi visto antes que tanto as boas ações como as más causam deformação na mente. No processo de readquirir a forma normal, a deformação é removida por uma reação igual e contrária. Portanto, as deformações causadas pelas más ações não podem ser removidas pelas boas ações, pois estas também causam deformação. Deve haver uma reação independente, de efeito igual e contrário a cada ação. Tendo em conta que cada deformação é removida por uma reação independente, a pessoa terá que sofrer as reações das boas e das más ações separadamente. Assim, o resultado das boas ações não pode ajudar a pessoa a se livrar do sofrimento resultante das más ações. As conseqüências das boas e das más ações terão que ser experimentadas separadamente. Esta é a lei de Prakrti.
Foi logicamente comprovado que não é possível se livrar das conseqüências (karmaphala) de uma ação. Assim sendo, é tolice culpar a Deus (Bhagaván) pelas conseqüências de nossas ações ou rezar para Ele nos livrar delas. Aquele que pratica as ações deve, por conseguinte, sofrer as reações. Se você colocar sua mão no fogo, é certo que se queimará. Culpar a Deus por você ter queimado a sua mão é ignorância ou estupidez. A natureza do fogo é queimar, e quem quer que entre em contato com ele se queimará. Da mesma forma, a lei de Prakrti é que todas as ações dêem origem a reações. Deus (Bhagaván) não é, de forma alguma, responsável por isto. O responsável é o autor da ação. O autor da ação é responsável por sua reação, uma vez que Deus não realiza ações e conseqüentemente não pode ser responsabilizado pelas reações. As pessoas são as únicas responsáveis pelas ações, bem como pelas reações correspondentes.
Oração é uma forma de fazer um pedido com fervor. É um meio de fazer uma súplica ao Ser Supremo, para que um benefício seja concedido. Ora-se a Deus para pedir aquilo que não se possui ou que alguém pensa que não possui. Pede-se um favor tendo-se a fé de que Deus concederá tudo e que, de acordo com a Sua simples vontade, todos os desejos serão satisfeitos. Através da oração ou da súplica, a pessoa deseja despertar a vontade de Deus para obter o que lhe falta. Pensando racionalmente, não seria isto uma tentativa da pessoa de despertar o desejo de Deus para preencher suas necessidades e atender aos seus desejos individuais, uma tentativa de lembrar a Deus que Ele lhe deve conceder as dádivas que Ele próprio se negou a dar? Não é necessário lembrá-Lo disso em orações ou tentar despertar Sua vontade para fazer algo. Por exemplo, digamos que alguém precise de dinheiro e faça uma oração, tendo fé em Deus de que Ele lhe irá conceder o dinheiro necessitado. Isto não seria uma tentativa de responsabilizar a Deus por ter mantido a pessoa sem dinheiro, já que é somente Ele que pode concedê-lo? Apenas Deus seria o culpado, e ao pedir dinheiro, a pessoa estaria apontando Sua parcialidade em não lhe conceder o dinheiro de que precisa. Portanto, a oração ou o pedido a Deus serve apenas para indicar que o Provedor Único errou ao conceder Seus favores. Isto pressupõe apenas que Deus não seria imparcial, responsabilizando-o por tornar uns ricos e outros pobres. Rogar a Deus favores não é senão culpá-Lo de parcialidade. Uma vez que a oração leva a essa conclusão, pode-se dizer que é ignorância pedir favores. Aquele que realiza ações deve sofrer as conseqüências. Portanto, acusar a Deus de parcialidade não fará com que a pessoa se livre das conseqüências de suas próprias ações.
Uma mão colocada no fogo certamente queimará. Nenhuma oração será capaz de livrar a pessoa disto. Para atender a um pedido como este, Deus teria que remover a propriedade calorífica do fogo ou mudar a composição da mão, de modo que esta não fosse afetada pelo fogo e não se queimasse. Isto não é possível. Na criação Divina não há falhas, porque todas as coisas, pequenas ou grandes, seguem sua própria natureza (Dharma). Do contrário, teria havido desordem a cada passo. Orações que servem apenas para lembrar a Deus de Sua parcialidade não podem induzi-Lo a mudar as leis da criação. Aquele que espera que Deus mude Suas leis, por meio de orações, demonstra uma grande ignorância.
De acordo com as leis de Prakrti, a toda ação corresponderá uma reação, que terá de ser experimentada pela pessoa que a praticou. Esta lei é imutável, e rezar para mudá-la seria uma perda de tempo. As orações não podem mudar o destino; logo, a vivência das reações (karmaphala) é inevitável.
Stuti significa louvar ou elogiar as qualidades de Deus por meio de um hinário ou um cântico, mas isto constitui apenas uma forma de adulação. Normalmente, adula-se aquele que pode garantir favores ou aquele de quem se espera algum favor. Ao cantar, louvando as qualidades de Deus, a pessoa certamente tem a intenção de agradá-Lo, do contrário não faz sentido dizer a Deus que Ele é onisciente, onipotente, benevolente e misericordioso. A intenção por trás do elogio a Deus é a de adulá-Lo, a fim de que Ele possa derramar sua misericórdia sobre o adulador. Como Ele é Todo-Poderoso, poderá livrar a pessoa das conseqüências das suas ações por Sua própria autoridade. Stuti ou louvar as qualidades de Deus constitui, portanto, apenas uma adulação que tem por trás um interesse. Dessa forma, stuti é tão ineficaz quanto a oração, e se dedicar a isto é uma perda de tempo.
Orações e stuti (elogios) não servem a nenhum propósito, e dedicar-se a isto constitui apenas uma perda de tempo, já que as súplicas e os elogios não levam à realização de nada. Bhakti ou devoção, por sua vez, não é a mesma coisa. Vejamos o que é bhakti. Bhakti é uma palavra sânscrita derivada de bhaj + ktin, que significa “chamar com devoção”. Não é o mesmo que stuti, ou elogio. Também é diferente de fazer orações. É apenas dirigir-se a Deus com devoção. Vejamos o valor disto.
A consciência unitária que segue o propósito da criação instituído pela Entidade Suprema Qualificada, fazendo esforços para retornar à Consciência Cósmica Onipresente, ou aqueles que desejam alcançar a emancipação precisam recorrer a bhakti. O único caminho que conduz à Consciência Cósmica é o de se devotar inteiramente a Ela, chamando-A.
A qualidade ou a natureza da mente humana é transformar-se na idéia ou na entidade a que se devota. Por exemplo, se uma pessoa começa a pensar que está com raiva, ela realmente se zanga, pois a sua mente fica amplamente tomada pela idéia da raiva. Da mesma forma, se a pessoa se imagina com uma doença, pensando na doença o tempo todo, ela realmente desenvolve a doença. A mente humana é constituída de tal modo que possui a capacidade de se transformar no objeto ao qual está apegada. A consciência unitária que desejar retornar rapidamente à Consciência Cósmica terá que se dedicar à Consciência Cósmica; e isto é bhakti.
”Eu sou Aquela Entidade” é a idéia a que a consciência unitária terá que se devotar a fim de um dia se transformar n'Ela. Assim, bhakti (devoção ou invocação da Consciência Cósmica) leva a pessoa a se tornar a própria Consciência Cósmica.
Bhakti, ou devoção, não é nem oração nem stuti. Algumas pessoas, entretanto, dizem que o desejo de unir-se à Consciência Cósmica, ou o desejo de emancipar-se, constitui um favor que se busca através de bhakti e que, portanto, bhakti também é uma oração. Mas não é assim, porque o propósito de Deus, ao criar a humanidade, foi fazer com que a consciência unitária se torne emancipada, como Ele próprio, retornando à Posição Suprema. Esta é a vontade de Deus, e tudo o que existe na criação tem esse propósito e está voltado para esse fim. Aquele que faz esforços através de bhakti, com o intuito de alcançar esse propósito, para o qual foi criado, ou com a intenção de realizar o desejo de Deus, não está suplicando nenhum favor. Pois, mesmo que a pessoa não faça esforços ou se desvie do caminho, mais cedo ou mais tarde, ela será levada a retomar o caminho. Assim, bhakti, ou devoção, não é nem oração nem elogio a Deus (stuti). Estas duas práticas não ajudam ninguém a alcançar qualquer resultado, constituindo-se em mera perda de tempo. bhakti é o método pelo qual a pessoa pode devotar-se completamente à Consciência Cósmica, sendo esta a única maneira de realizar rapidamente o retorno à Posição Suprema.
É necessário que as conseqüências das ações (karmaphala) sejam vivenciadas. Não há como evitá-las, nem mesmo com a oração ou o louvor às qualidades de Deus. Qual é, então, a maneira de se livrar dessas conseqüências? A única maneira é não cometer más ações, as quais colocam o seu autor sob o jugo de Prakrti, que aplica uma lição quando a pessoa experimenta as reações. Por exemplo, se a pessoa colocar a mão no fogo, esta se queimará, não havendo meio de evitar que isto aconteça, nem mesmo através de orações. A única maneira de evitar a queimadura é não colocar a mão no fogo. Da mesma forma, se não houver más ações, também não haverá más reações.
A regra de Prakrti de que cada um tem de suportar as conseqüências de suas ações, deve ter um outro propósito por trás, visando ao bem-estar da humanidade. O propósito de toda a criação é fazer com que cada ser criado seja capaz de alcançar a emancipação. Este é o grande objetivo da Entidade Suprema Qualificada ao gerar a criação; por isso, Ela deveria ser chamada unicamente de a Grande Benfeitora. Embora seja emancipada, essa entidade se sujeitou à influência de Prakrti para prover bem-estar a cada ser unitário. Karmaphala, ou seja, a absorção das conseqüências das próprias ações constituiu-se como uma regra muito estrita, visando apenas ao bem-estar dos seres humanos, já que este é o meio pelo qual Ele (Bhagaván) evita que os seres humanos cometam más ações, conduzindo-os à emancipação.
Deus, através da punição, ensina aos seres humanos que não se habituem à prática de más ações. Contudo, estes, por ignorância, acusam-No de fazê-los sofrer. Acusar a Deus de ser imparcial e sem misericórdia, por infligir dor e sofrimento, ou mesmo orar ou louvar a Deus para aliviar o sofrimento não constitui o curso correto da ação. O sábio considera a dor e o sofrimento como uma lição através da qual o Grande Benfeitor o ensina a evitar as más ações e a desenvolver discernimento. Portanto, abster-se das más ações é a atitude do sábio e o dever de cada ser humano.
P.R.SARKAR - Filosofia Elementar da Ananda Marga

18/06/2008

QUAL É A MINHA RELAÇÃO COM O UNIVERSO E A ENTIDADE CÓSMICA? - Parte V

Nirgun'a Brahma é o estágio supremo de Brahma, e este estágio é conseguido quando a consciência não está sob a influência qualificadora de Prakrti. Sagun'a Brahma – a Entidade Suprema Qualificada – está sob a influência qualificadora de Prakrti. Sagun'a Brahma também é chamado de Bhagaván. A Consciência (Purus'a), ao se libertar do domínio de Prakrti, alcança o estágio supremo, chegando ao nível de Nirgun'a – a Consciência Não-Qualificada. Átman, ou consciência unitária, por ser um múltiplo da consciência na Entidade Suprema Qualificada, também é um múltiplo de Bhagaván. Portanto, a consciência unitária também é Bhagaván e, ao se libertar do domínio de Prakrti, ela se une a Nirgun'a, alcançando o estágio supremo. No capítulo anterior foi explicado que o sentimento de “eu” do ser humano não é o átman (ou consciência unitária). O conhecimento existencial, ou sentimento de “eu”, é diferente da consciência unitária. Foi também explicado que esse sentimento de “eu” é apenas uma projeção metamorfoseada da consciência unitária. Portanto, o “eu” do ser humano não é Bhagaván. É uma forma modificada ou assumida de Bhagaván. Por exemplo, Rama, enquanto atua numa peça de teatro no papel de Shahjahan, é chamado de Shahjahan e não de Rama. Enquanto atua como Shahjahan, Rama não assume a sua personalidade verdadeira. Ele é somente uma personalidade assumida ou transformada e, enquanto permanece atuando nesse papel, é chamado de Shahjahan e não de Rama. Da mesma forma, enquanto o sentimento de “eu” está conectado à identidade individual, a pessoa é diferente de seu átman (ou Bhagaván) e essa pessoa com esse sentimento de “eu” é apenas uma forma modificada ou assumida da consciência unitária (ou átman). Assim, verifica-se que é o sentimento de “eu” que mantém a pessoa afastada de sua consciência unitária. Na verdade, é este sentimento de “eu” que torna o ser humano uma entidade diferente de Bhagaván. Quando termina a peça em que Rama faz o papel de Shahjahan, ele retorna à sua personalidade original e volta a ser chamado de Rama. Do mesmo modo, ao se libertar deste sentimento de “eu”, a forma modificada ou assumida da consciência unitária deixa de existir, e a consciência unitária (átman) se transforma em nirgun'a (não-qualificado), pois a forma assumida surge somente pela influência qualificadora de Prakrti. O término desta forma modificada ou assumida da consciência unitária significa a libertação do domínio de Prakrti. Portanto, é o sentimento de “eu” que cria a diferença entre a pessoa e sua consciência unitária. Na realidade, é este sentimento de “eu” que mantém a consciência unitária, ou átman, afastada do estágio supremo. O sentimento de “eu” do ser humano é apenas a consciência unitária metamorfoseada; ainda assim, esse “eu” individual é diferente da consciência unitária (ou Bhagaván). Logo, a consciência unitária não é a responsável pela realização das ações e nem é ela que experimenta as suas conseqüências, já que as ações são executadas por esse “eu”. Por exemplo, as conseqüências das ações realizadas por Rama no palco, ao fazer o papel de Shahjahan, não afetam Rama. Podemos afirmar que somente Shahjahan seria afetado, visto que quem age na peça é o personagem representado e não Rama com sua personalidade original. Rama, na sua condição original, apenas testemunha tudo o que o personagem faz ou experimenta. Do mesmo modo, a forma projetada (ou transformada) do “eu” é que age e também experimenta o resultado de todas as ações. A consciência unitária não realiza nenhuma ação nem experimenta nenhum resultado. Ela apenas testemunha as ações e suas conseqüências. No primeiro capítulo, foi dito que a consciência unitária é a entidade conhecedora. Somente ela pode ser considerada como a entidade testemunhal ou conhecedora, enquanto o sentimento de “eu” dos seres humanos é uma outra entidade que lhes proporciona conhecimento existencial e também estabelece a sua existência. A consciência unitária sempre permanece como uma entidade testemunhal, e qualquer ação realizada pelo “eu” individual não tem nenhum efeito sobre ela. Uma entidade conhecedora ou testemunhal não reivindica a autoria de nenhuma ação; portanto, a condição de consciência unitária permanece imutável, como uma testemunha apenas. Somente aquele que semeia é que irá colher. Portanto, somente a entidade com o sentimento de “eu” irá experimentar o resultado de todas as ações, visto que este sentimento é o causador de todas as ações. A entidade testemunhal (ou entidade conhecedora) permanece apenas como espectadora, sem experimentar nenhum resultado, tendo em vista que não atua. Por exemplo, Rama, ao testemunhar um jogo de futebol, nunca terá nenhum mérito de vencer o jogo. Somente o jogador, Shyama, será considerado como vencedor. De fato, o verdadeiro jogador, Shyama, ganhará ou perderá o jogo e somente ele se sentirá cansado por sua participação no jogo. Rama, que é apenas um espectador, não ganhará nem perderá, nem se sentirá esgotado ou cansado. Rama, o espectador, testemunhará o jogo e também o resultado das ações. Ele só conhecerá o resultado do jogo e verá Shyama exausto por ter jogado. Da mesma forma, a consciência unitária, ou átman, é uma espectadora que testemunha todas as ações realizadas pelos seres humanos, e as conseqüências experimentadas por eles. Esta consciência unitária não realiza nenhuma ação e, portanto, não experimenta nenhum resultado. Ela é somente uma força testemunhal – a entidade onisciente. O sentimento de “eu” do ser humano é buddhitattva. Este “eu” proporciona a idéia do conhecimento existencial. Ele não propicia nenhuma idéia de realização de uma ação. O simples sentimento de existência não indica que este “eu” realiza qualquer ação; portanto, não é buddhitattva que age. Já dissemos no primeiro capítulo que aham'tattva, que surgiu por meio da influência qualificadora de Prakrti sobre buddhitattva, é a porção da mente que atua. Aham'tattva (ego) não é buddhitattva, visto que aquele é formado a partir deste último. É uma manifestação mais densa de buddhitattva. É aham'tattva (ego) que atua, e é somente ele que experimenta o resultado das ações. Buddhitattva, entidade distintamente separada de aham'tattva, é meramente o puro sentimento de “eu” e não realiza nenhuma ação; conseqüentemente não poderia vivenciar o resultado das ações. Porém, através de profunda reflexão, vemos que nenhuma ação pode acontecer sem o sentimento de “eu”, ou o conhecimento existencial. Senão, quem mais faria aham'tattva agir? É o sentimento de “eu” e o conhecimento existencial que inspiram aham'tattva a agir. Assim, vemos que buddhitattva, na verdade, não realiza nenhuma ação; mesmo assim, é por conta do conhecimento existencial e do sentimento de “eu” criados por ele que uma pessoa é capaz de trabalhar através de seu aham'tattva. O sentimento de “eu”, portanto, é responsável por realizar as ações e também por assumir o resultado das ações. Para ilustrar isso, podemos citar o exemplo de dois senhores feudais em conflito, que colocam seus trabalhadores em confronto. Disso resulta que as pessoas que participam do confronto, quer dizer, os trabalhadores dos latifundiários ficarão feridos ou até mesmo morrerão, porém, os latifundiários aparentemente permanecerão ilesos. Entretanto, estes são os responsáveis pela luta, uma vez que ela começou devido às suas instigações sobre as pessoas. Assim, aparentemente a pessoa que luta é afetada diretamente, mas na verdade os latifundiários são os que, de modo indireto, experimentam o resultado da luta entre os seus empregados. Só eles serão ganhadores ou perdedores. Da mesma forma, buddhitattva também é responsável indiretamente pelo resultado das ações realizadas por aham'tattva, apesar de o verdadeiro executor das ações ser aham'tattva, que, aparentemente, suporta as conseqüências das ações. No primeiro capítulo, explicamos que citta é criado pela influência qualificadora do princípio estático de Prakrti sobre aham'tattva. Assim, aham'tattva é que se manifesta em uma forma mais densa como citta. O resultado das ações realizadas por aham'tattva é formado em citta. No primeiro capítulo, explicamos em detalhes que, com a ajuda dos dez órgãos (indriyas), citta assume a forma das ações de buddhitattva e aham'tattva. Por exemplo, o próprio citta tem de assumir a forma de um livro, a fim de possibilitar que aham'tattva veja o livro. A mesma coisa se aplica ao som. Citta é uma manifestação densa de aham'tattva, que, por sua vez, é uma manifestação de buddhitattva. Logo, citta é a parte mais densa de buddhitattva, sendo incapaz de realizar ações independentes. Nenhuma ação independente de um ser consciente da ação é tolerada por Prakrti, que tenta se contrapor a cada ação independente da pessoa. Uma vez que os seres humanos possuem consciência plenamente manifestada, eles são capazes de perceber a sua submissão e tentam desafiar a autoridade de Prakrti. Nesse esforço para superar a influência de Prakrti, os seres humanos agem de forma contrária aos desígnios de Prakrti, a qual, por sua vez, coloca-se contra os esforços dos seres humanos de todas as formas possíveis, com o intuito de manter o seu domínio sobre eles. As ações da pessoa, portanto, são inspiradas pela consciência, com o objetivo de vencer o domínio de Prakrti, e os resultados que ela experimenta são reações impostas por Prakrti com o propósito de mantê-la sob o seu domínio. Vejamos, agora, como uma ação é executada e por que uma pessoa tem de suportar as suas conseqüências, na forma de uma reação. Cada ação é originada e realizada pela mente, ou seja, por seus três componentes, buddhitattva, aham'tattva e citta. Já foi explicado que citta tem de assumir a forma ou se transformar no resultado de qualquer ação realizada por um ser humano. Isto significa que citta abandona seu formato original e é metamorfoseado no formato resultante de uma ação. Por exemplo, citta tem de tornar-se um livro, para que se possa ver o livro. A mente de uma pessoa tem de deixar a sua forma normal e se deformar para completar uma ação. A criação e a existência da mente se devem à influência de Prakrti sobre a consciência e, quando a consciência deforma a condição normal da mente, ao inspirá-la a atuar, isto não é tolerado por Prakrti. Prakrti, por ser o fator dominante, impõe uma reação a cada ação, conduzindo a mente à sua condição anterior. Isto é chamado de “karmaphala”. Assim, karmaphala é uma manifestação de buddhitattva. Buddhitattva e o sentimento de “eu” são a mesma entidade. Dessa forma, somente o sentimento de “eu” de um ser humano é que, ao se tornar denso, se transforma em citta. Vimos que um livro só pode ser visto quando citta se torna como o livro. Uma vez que citta é uma transformação do sentimento de “eu”, a verdade é que o sentimento de “eu” de um ser humano se transforma em livro, mas não que o livro seja visto pela pessoa. É o próprio ser que se transforma em livro. É este sentimento transmutado do “eu”, conhecido como citta, que se transforma em livro, ao captar a vibração ideativa da forma (rúpa tanma'tra) criada pelos nervos. Para ouvir uma vibração sonora, a pessoa terá de se transformar no próprio som. Portanto, os próprios seres humanos se transformam no resultado de suas ações, e o que quer que uma pessoa veja, ouça, toque ou cheire será o seu próprio sentimento de “eu” ou o seu próprio “eu” transformado. Buddhitattva cria a inspiração para que atuemos. Aham'tattva executa a ação, e citta tem de se transformar no resultado dessa ação. Buddhitattva, aham'tattva e citta constituem a mente, portanto, é a mente que atua. Somente a mente sofrerá as conseqüências. Aquele que planta, colhe. A consciência unitária (átman) está além da esfera mental, portanto, ela não atua nem sofre as conseqüências. Ela apenas permanece como uma espectadora no corpo humano. A consciência (Purus'a) e o Seu princípio qualificador (Prakrti) não recebem nenhuma influência de um sobre o outro enquanto se situam no estágio da Entidade Suprema Não-Qualificada (Nirgun'a), no qual a consciência mantém a Sua posição suprema. No estágio da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma), a Consciência (Purus'a) submete-se às limitações de Prakrti, o que resulta na criação do universo, de acordo com os desígnios de Prakrti. Aquele processo ou reação que restabelece a forma original da mente, deformada por suas ações, é experimentado como karmaphala (resultado das ações). A mesma intensidade com que uma ação é realizada, deformando a mente, será aplicada à reação (ou karmaphala). A pressão empregada contra Prakrti, ao causar a deformação da mente, será equivalente à pressão aplicada para restaurar o formato normal da mente. Por exemplo, uma bola de borracha pressionada por um dedo da mão cria uma deformação, porém, quando solta, ela volta à sua forma original ou normal. O dedo experimentará uma força igual e contrária no momento da reação. Aqui, a bola de borracha é comparável à mente e o dedo, ao “eu” do ser humano, que faz a mente atuar, criando deformações na mente. Portanto, para a mente retornar à sua forma original, uma pessoa sentirá a reação com a mesma intensidade empregada para criar a deformação. As intenções de Prakrti de restaurar a forma original da mente e também de punir o “eu” que inspira a mente a agir são ambas alcançadas por esse processo de reação. De acordo com as regras de Prakrti, é da natureza da mente retornar à sua forma original por meio de uma reação para cada ação. Portanto, através de reações (karmaphala), os seres humanos sentem as conseqüências de cada ação. De acordo com a lei de Prakrti, a pessoa experimentará a reação de todas as suas ações, sejam elas boas ou más. Por exemplo, se uma pessoa roubar e causar sofrimento a outra pessoa, ela criará uma distorção em sua mente ao usar sua capacidade de infligir dor. A mente reagirá para remover essa distorção, e a pessoa causadora da dor experimentará um sofrimento semelhante (em medida mental) como resultado dessa reação. Da mesma forma, se uma pessoa, através de seus atos, proporcionar felicidade aos outros, ela experimentará felicidade semelhante, como resultado da reação mental imprimida para recuperar o seu estado normal. Isto ocorreria porque, de acordo com as leis de Prakrti, a pessoa experimenta uma reação igual e contrária para que a mente restabeleça a sua forma normal. Assim, Prakrti leva o ser humano a suportar as conseqüências (karmaphala) de todas as suas ações com a ajuda do instrumento por Ela criado: a mente. Por isso, independentemente do que o ser humano fizer, seja o bem ou o mal, ele terá de experimentar uma reação similar (karmaphala). Ninguém vive sem realizar uma ou outra ação. Mesmo quando a pessoa está sentada em sossego, ela está fazendo uma ação – o corpo físico poderá não estar se exercitando, entretanto, a mente estará sempre ativa e inquieta. Mesmo quando não ocorre uma ação física, a mente está envolvida em ações, por meio do pensamento ou da imaginação. Uma pessoa poderá pensar mal de alguém, poderá até mesmo planejar matar alguém ou pensar em como ajudar os outros em seus sofrimentos. Tudo isso são ações que não precisam de movimento ou exercício físico. Mesmo a ação física é apenas uma conseqüência da atividade mental. Já explicamos anteriormente que todas as ações são exercidas pela mente e pelos dez órgãos sensoriais e motores (indriyas), sendo estes apenas uma extensão de citta, com o objetivo de transformar as ações mentais em atividades físicas. Todas as ações podem ser classificadas em ações físicas e mentais. As ações realizadas pela mente com a ajuda dos órgãos (indriyas) são físicas, enquanto as ações realizadas sem tal ajuda, e somente pela mente, são ações mentais. Tanto as ações físicas como as ações mentais causarão deformação na mente e provocarão uma reação, a qual terá de ser experimentada, para que a mente recupere o seu estado normal. Portanto, qualquer ação, seja mental ou física, fará o seu autor experimentar uma reação (karmaphala). A consciência totalmente expressada nos seres humanos faz com que eles percebam a sua submissão ao domínio de Prakrti. Como não querem continuar nesse estado de sujeição, eles atuam de forma independente contra Prakrti, que também age, infligindo-lhes punições na forma de reações (karmaphala) às suas ações. Neste planeta somente o ser humano possui uma consciência totalmente expressada. Assim, nenhum ser vivo, exceto o ser humano, pode agir de forma independente. As leis de Prakrti só punem as ações realizadas de forma independente, ou contra o Seu desejo. Aqueles que são incapazes de executar ações independentes não serão punidos por Suas mãos. Portanto, vemos que, com exceção do ser humano, nenhum outro ser vivo experimenta karmaphala por suas ações. Karmaphala terá de ser experimentado por cada ação, benéfica ou maléfica. Os seres humanos não podem permanecer sem agir nem por um só instante, então continuam agindo até o momento da morte. Como isso, ninguém está livre de experimentar reações após a sua morte. Unicamente aqueles que agem é que deverão experimentar as respectivas reações (karmaphala); ninguém poderá substituí-los nessa função. No próximo parágrafo veremos como uma pessoa morta, com seu corpo físico cremado ou enterrado, poderá vivenciar as reações (karmaphala). A consciência unitária (átman) é imortal. Ela é sempre imutável. No seu movimento do estado bruto para o estado sutil, a consciência unitária está completamente expressada no corpo humano, que se constitui dos cinco fatores fundamentais criados pela Consciência Cósmica (Bhúmá Purus'a). Purus'a e Prakrti (a Consciência e o Seu princípio) são inseparáveis. Portanto, a consciência unitária (Purus'a) e seu princípio (Prakrti) residem conjuntamente no corpo humano. Prakrti impõe Sua influência sobre a consciência unitária, provendo-lhe uma mente. A mente – que é uma expressão da consciência unitária – e Prakrti existirão enquanto estes dois, Purus'a e Prakrti, existirem. A consciência unitária e o seu princípio (ou seja, Purus'a unitário e sua prakrti) são contrapartes inseparáveis. Portanto, a mente só existirá junto com a consciência unitária. É apenas na mente que a pessoa conserva o sentimento de “eu” e, enquanto ela existir, o sentimento de “eu” também existirá. Uma vez que a consciência unitária é imortal, a mente conectada a ela não morrerá; e, junto com ela, também o sentimento de “eu” continuará a existir. Concluímos, então, que o sentimento de “eu” também permeia o corpo físico, quando a consciência unitária (átman) se abriga num corpo humano. No momento em que a consciência unitária deixa o corpo, Prakrti, que é a contraparte inseparável da consciência unitária, também o deixa. A mente, que é uma criação de Prakrti, naturalmente abandona o corpo com Ela. Disto resulta a morte do corpo físico. Assim, a morte não significa o fim da consciência unitária e da mente, significa apenas a desintegração do corpo físico. A consciência unitária (átman) e a mente simplesmente deixam o corpo físico que haviam adotado como abrigo. Isto nos leva a questionar a razão pela qual a consciência unitária abandona o corpo físico. A consciência unitária poderia continuar a sua marcha para o estado sutil com o mesmo corpo físico, até que ela se unisse, total e definitivamente, com a Consciência Cósmica mais sutil (Bhúmácaetanaya). Os corpos dos seres humanos são constituídos dos cinco fatores fundamentais, os quais, como vimos, são formas densas metamorfoseadas da Consciência Cósmica. Os cinco fatores fundamentais surgem na fase da criação em que a Consciência Cósmica se movimenta do estado sutil para o estado bruto. Também o corpo humano físico é formado a partir dessa fase, de acordo com os desígnios de Prakrti e, obviamente, adquire um grande número de fatores que estão em diferentes estágios em sua marcha para o estado bruto. Haverá alguns no estágio do fator etéreo, e outros no aéreo, no luminoso, no líquido e no sólido. Aqueles que estão no fator etéreo terão de mover-se para o aéreo e assim por diante, até que se transformem no mais rudimentar, que é o fator sólido. Este é o desejo de Prakrti e, na criação, a Consciência Cósmica move-se segundo este padrão. Se este padrão – que é a lei de Prakrti – tem de ser seguido, a mudança do corpo humano será inevitável e, para realizar essa mudança, a morte se faz necessária. Se presumíssemos que a consciência unitária poderia continuar em um corpo até que se unisse à Consciência Cósmica, nos defrontaríamos com a possibilidade de um corpo permanecer vivo por milhões de anos, tendo em conta que a cadeia de ações e reações não libertaria a consciência unitária antes disso. Isto resultaria num total estancamento da evolução dos fatores existentes em um corpo, por milhões de anos, uma vez que a cadeia de ações e reações não estaria seguindo o padrão da criação e as leis de Prakrti. De acordo com a natureza de Prakrti, a criação tem que se transformar do estado sutil para o estado bruto e, com o decorrer do tempo, o ser humano também tem que abandonar o seu corpo, inevitavelmente. Isto também mostra que o corpo humano é feito de inumeráveis unidades dos cinco fatores fundamentais, nos diferentes estágios da criação, as quais, de acordo com o padrão da criação e as leis de Prakrti, se transformarão em inumeráveis consciências unitárias totalmente refletidas, habitando inumeráveis corpos humanos. Portanto, a morte é inevitável. Todos terão de deixar o seu corpo físico. A morte significa apenas que a consciência unitária e a mente se desassociam do corpo. A mente, por ser uma criação de Prakrti, sempre permanecerá com a consciência unitária. A individualidade dos seres humanos, ou a idéia de existência, consiste no seu sentimento de “eu”, o qual é uma parte da mente e sempre permanece com ela. Vimos anteriormente que a morte é apenas a dissociação da mente do corpo e não a morte da mente. Portanto, a individualidade do ser humano e o seu sentimento de “eu” não morrerão. Este “eu” continuará a existir com a consciência unitária enquanto a influência de Prakrti mantiver a mente. No momento em que Prakrti deixar de ter influência sobre a consciência unitária e se tornar incapaz de manter a existência da mente, este “eu” também deixará de existir. Os seres humanos, individualmente, e os seus “eus” não mais existirão, alcançando a emancipação (mukti). O ser humano atua com a sua mente e também experimenta as reações (karmaphala) através dela. É a mente que converte a ação mental em atividade física com a ajuda dos dez órgãos (indriyas) e é somente ela que experimenta as reações (karmaphala), como dor ou prazer. A morte ocorre somente no corpo físico, enquanto a mente simplesmente deixa o corpo. A mente, que é quem realiza todas as ações e suporta todas as conseqüências, sobrevive para poder vivenciar as reações decorrentes das ações feitas até o último momento da morte física. A questão sobre qual entidade deveria vivenciar as conseqüências das ações não é plausível. A mente é a entidade que age e que não morre. Portanto, somente ela terá de vivenciar as reações (karmaphala). A mente é sutil e tem de ser auxiliada por uma base mais densa (ádhára) para poder concretizar as ações. Esta base densa (ádhára) é o cérebro humano, e é com a ajuda dessa base (ádhára) que a nossa mente é capaz de atuar. A mente e o cérebro têm uma ligação tão estreita que um não pode atuar sem o outro. O cérebro sem a mente pára de funcionar. Da mesma forma, se a base da mente, o cérebro, não estiver funcionando corretamente, ela não será capaz de agir. Um cadáver possui um cérebro que não funciona porque está morto e porque não tem uma mente conectada a ele. Da mesma forma, quando uma pessoa fica inconsciente ou é levada a esse estado pelo efeito de uma substância anestésica, o seu cérebro se torna não-funcional por algum tempo e, por conseguinte, a mente também deixa de funcionar, tendo em conta que a sua parte física, o cérebro, não está em condições de funcionar. O estado de inconsciência não é o estado de morte; logo, nem a consciência unitária nem a mente abandonam o corpo. Nesse estado, mesmo permanecendo no corpo, a mente não funciona, porque o cérebro não funciona adequadamente e a pessoa é incapaz de compreender qualquer coisa. Dessa forma, é necessário que a mente esteja abrigada em um cérebro, utilizando-o como sua base física, para poder funcionar e também experimentar as reações (karmaphala) de suas ações. Após a morte, a mente abandona o corpo e também a sua base física, o cérebro. Entretanto, como estava fazendo uma ou outra ação até o momento da morte, terá de vivenciar as reações (karmaphala) dessas ações. Na verdade, visto que precisa vivenciar essas reações e por ser incapaz de vivenciá-las sem um cérebro, a mente tem de adquirir um novo corpo por meio de um nascimento subseqüente. A mente surge pela influência qualificadora de Prakrti sobre a consciência unitária, e como a consciência unitária e o seu princípio (Prakrti) são inseparáveis, a consciência unitária também assume um novo corpo junto com a mente. Em outras palavras, ambas, a mente e a consciência unitária, reencarnam. Elas terão de reencarnar de novo para vivenciar as reações referentes às ações da vida anterior. Conclui-se que, por ter nascido, a pessoa tem de confrontar a morte e que seu renascimento após a morte é também inevitável. Isso continuará alternadamente até que a jornada da consciência unitária do estado bruto para o estado sutil (até a união final com a Consciência Cósmica) termine. A consciência unitária terá de prosseguir nessa jornada por um período infinito, assumindo novos corpos, após se descartar dos anteriores. Após a morte, a mente não pode agir, porque não tem um cérebro como base física; por isso, tem de reencarnar para vivenciar as reações de suas ações passadas. Portanto, a concepção de céu e inferno, para onde se supõe que os seres humanos vão depois da morte, é inteiramente incorreta. Acredita-se que a pessoa experimentará os prazeres do céu, de acordo com o resultado de suas ações boas, e o sofrimento do inferno, se tiver cometido más ações. Entretanto, prazer e sofrimento não podem ser experimentados pela mente no estado em que ela se encontra após a morte, pois ela permanecerá não-funcional até adquirir um novo cérebro, por ocasião do renascimento. A concepção de um mundo de céu e inferno após a morte é uma fantasia equivocada. Não há nenhum outro mundo onde possa existir céu e inferno. É somente neste mundo mortal que a pessoa terá de renascer, para experimentar os prazeres do céu e os sofrimentos do inferno. A reencarnação também nos comprova que não existe nenhum espírito ou alma que se torne fantasma (pretátman). Se a reencarnação for aceita racionalmente, a questão da existência de fantasmas não surgirá. Por ser incapaz de agir e vivenciar as reações, a mente tem de renascer juntamente com a consciência unitária. Isso significa dizer que a mente não pode experimentar qualquer reação até que reencarne e, portanto, não pode sentir prazer nem dor sem a sua base física, o cérebro. Entre as teses da reencarnação e da existência de fantasmas, somente uma delas terá de ser aceita, porque se constituem como teses contraditórias. Racionalmente, a reencarnação deve ocorrer, já que a mente não pode ter nenhuma função e nem vivenciar os resultados (ou reações) sem um cérebro, o qual só pode ser obtido com um novo corpo, por ocasião do renascimento. Se a mente pudesse funcionar sem cérebro na sua existência pós-morte, ela prosseguiria sua prática intuitiva até o fim de sua jornada para unir-se à Consciência Cósmica, mas isto não é possível. A mente nunca poderá funcionar sem um cérebro. Devido a essa característica (dharma) da mente, é que se deve aceitar a reencarnação e rejeitar a existência de fantasmas, considerando-a como uma hipótese imaginária. Tendo em conta que a consciência unitária e a mente deixam seu receptáculo físico por ocasião da morte, a mente se torna não-funcional, devido à ausência de um cérebro. Estando a pessoa viva, sua mente pode se tornar não-funcional no estado de inconsciência, quando o cérebro – a base física da mente – deixa de funcionar por algum tempo. Os estados de inconsciência e morte são similares, exceto pelo fato de que o primeiro é momentâneo, uma situação em que a mente perde a consciência do ambiente, sem abandonar o corpo. O segundo, ou seja, a morte, é um estado mais prolongado, e a mente não-funcional deixa aquele corpo para sempre. A consciência e o seu princípio, Prakrti, são contrapartes inseparáveis. Quando a consciência unitária deixa o corpo físico, o qual é uma criação de Prakrti, também a mente deixa o corpo e se refugia na consciência unitária. A mente, mesmo nesse estado, está deformada devido às ações realizadas antes da morte. Para retornar ao seu estado normal, a mente terá de vivenciar as reações resultantes de suas ações, as quais os seres humanos recebem como prazer e sofrimento. Estando desprovida de cérebro, a mente se torna não-funcional após a morte, devendo, conseqüentemente, ficar com as deformações causadas pelas reações potenciais. É nesse estado de reações potenciais que a mente deixa o corpo e se refugia na consciência unitária. Essas reações são chamadas de sam'skáras. A deformidade mental adquirida por causa das ações realizadas até o momento da morte se estabelecerá na consciência unitária como reações em estado potencial (sam'skára), após a morte. Essas reações, devido ao fato de a mente tornar-se não-funcional, não podem se expressar como resultados de ações passadas (karmaphala); então, permanecem com a consciência unitária, até que ela assuma um novo corpo e adquira um cérebro para fazer a mente funcionar novamente. Assim, vemos que o renascimento ocorre somente para que as reações potenciais possam ser manifestadas e vividas como resultado das ações. A expressão e a vivência das reações começam a acontecer a partir do momento exato do nascimento, com o mesmo formato que a mente adquiriu ao comprimir e transformar suas reações potenciais (sam'skára) por ocasião da morte. O exemplo de uma bola de borracha representando a mente explicará esse processo mais claramente. Ao se fazer, com o dedo polegar, uma compressão na bola, pode-se deformá-la. A bola, de acordo com as leis de Prakrti, tentará recuperar o seu estado normal. A mente, com suas expansões e compressões, é semelhante à bola. Porém, devido à morte, não é possível a ela recuperar o seu estado normal, uma vez que nenhuma ação pode ser realizada após a morte. A mente apenas será capaz de realizar o seu propósito de recompor a sua forma normal com o renascimento, quando adquirir um novo cérebro. A reação deveria dar à mente o seu formato normal; porém, devido à morte, ela permanece incompleta e se refugia na consciência unitária como força ou energia em potencial (sam'skára). Com o intuito de eliminar essa reação é que a consciência unitária assume um novo corpo por ocasião do renascimento; e a reação potencial (sam'skára), ou força, se expressa e faz a mente reaparecer com as deformações efetivadas na vida anterior. A ação, seja boa ou má, causa deformidade na mente e, no processo de recuperação da sua forma normal, a pessoa vivencia as reações boas, como resultado de suas boas ações, e as reações más, como resultado das ações maléficas. Após a morte, a mente, com suas reações potenciais (sam'skáras), refugia-se na consciência unitária. A consciência unitária, para conseguir que essas reações potenciais adquiram expressão, terá de encontrar um corpo apropriado à expressão dessas reações. Por exemplo, Rama morre e a sua mente se refugia na sua consciência unitária (átman), na forma de reações potenciais (sam'skáras). Rama, de acordo com as suas ações desta vida, teria de vivenciar como reação (karmaphala) a dor equivalente, em termos mentais, à dor da fratura de um braço, com a idade de oito anos, e a ventura de conseguir uma fortuna, com a idade de dez anos, e o sofrimento da perda do pai, com a idade de onze anos. Ele terá de vivenciar tudo isso para que a sua mente deformada recupere o seu estado normal. Aqui, é importante esclarecer que a forma real do sofrimento não é predeterminada. Não podemos dizer qual será exatamente a reação para cada ação em particular. Por exemplo, não está predeterminado, no caso de alguém que comete um roubo, que suas coisas, com o mesmo valor, sejam roubadas como uma reação. O sofrimento é medido em termos de intensidade do sofrimento mental causado aos outros por ocasião do roubo. Assim, o padrão de medida para vivenciar o resultado de uma ação é mental, em termos de prazer e sofrimento, sendo que a forma real da experiência não tem nenhuma importância, neste aspecto. Rama terá de vivenciar o sofrimento e o prazer de todos esses acontecimentos; portanto, a sua consciência unitária terá de encontrar um corpo para renascer, no qual a oportunidade de experimentar tudo isso esteja disponível. Para sofrer a agonia mental da perda de seu pai na idade de onze anos, Rama terá de nascer numa família em que o pai, de acordo com suas próprias ações, também terá de morrer quando Rama atingir essa idade. Se assim não for, Rama não poderá vivenciar a reação (karmaphala) de sofrer com a perda do pai. Portanto, vemos que a consciência unitária e a reação potencial (sam'skára) não podem se abrigar em qualquer corpo indistintamente quando do renascimento. Um corpo apropriado, que possa proporcionar a oportunidade e o potencial de expressar as reações (karmaphala) da pessoa, terá de ser encontrado. Somente um corpo assim é que a consciência unitária, junto com todas as reações potenciais, buscará e, nele, renascerá. A consciência unitária e a reação potencial (sam'skára) têm de procurar um corpo que lhes proporcione um ambiente adequado para vivenciar o resultado de suas ações. Qual é o agente que seleciona esse ambiente apropriado para eles? A consciência unitária não pode realizar nenhuma ação. Ela é somente uma expectadora, e a mente se refugiou nela como uma força ou energia em potencial, na forma de reações potenciais (sam'skáras); logo, a mente é também não-funcional. Vimos anteriormente que a pessoa tem de vivenciar as reações de acordo com a lei de Prakrti; assim, é também uma responsabilidade de Prakrti fazer-nos vivenciar as reações remanescentes. Conseqüentemente, sob a lei de Prakrti a pessoa terá de renascer e também Prakrti que terá de encontrar o ambiente e o corpo apropriado para as reações potenciais (sam'skáras) e a consciência unitária. É por isso que se diz que, após a morte, Prakrti seleciona o ambiente apropriado para as reações potenciais. Tal ambiente poderá estar disponível em um dia, ou podem ser necessários milhões de anos para encontrá-lo, pois a mente não poderá ser abrigada em um corpo até que se obtenha o ambiente apropriado para a expressão das reações potenciais. Portanto, nunca será possível dizer onde nem quando uma pessoa será capaz de renascer após sua morte. Pode haver inúmeros planetas onde exista vida. A consciência unitária e as reações potenciais poderão encontrar um ambiente apropriado em qualquer um deles. Portanto, não é nem mesmo necessário que a pessoa tenha de renascer somente nesta Terra. Dessa forma, fica claro que aqueles que renascem aqui na Terra possuem um campo de ação adequado para este planeta e que eles assumem um corpo com o único objetivo de vivenciar as reações de suas ações passadas. Os seres humanos continuam a realizar novas ações ao mesmo tempo em que vivenciam as reações de suas ações passadas. Esta experiência do resultado das ações passadas é chamada de futuro desconhecido, ou destino (adrs't'a). A pessoa vivencia o resultado de suas ações na vida subseqüente, mas não consegue se lembrar das ações que resultam em felicidade ou sofrimento, porque a memória da pessoa não é suficientemente ampla para relembrar ou conhecer as ações de sua vida passada. As reações que os seres humanos vivenciam são acumuladas na vida anterior; por isso, na vida presente, eles não podem compreender a causa de tais experiências. Assim, eles as consideram como destino, ou futuro desconhecido. Freqüentemente, as pessoas consideram Parama Purus'a como o responsável pelos infortúnios que acontecem consigo mesmas, mas elas são as responsáveis, uma vez que um destino marcado pelo sofrimento é apenas a reação das próprias ações passadas. Como Parama Purus'a poderia ser o responsável? Os seres humanos são responsáveis por seu destino, visto que somente suas ações é que o constituem. Apenas eles terão de passar pelas conseqüências de todas as suas ações. Ninguém mais poderá substituí-los. As suas ações boas produzem bons resultados enquanto as ações más produzem maus resultados, e eles terão de vivenciar ambos os resultados, sem exceção. Esta é a lei de Prakrti, e ninguém poderá mudá-la.

P.R. Sarkar - Filosofia Elementar da Ananda Marga

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