27/04/2008

O QUE É DHARMA? - Parte I

Os seres humanos são os seres mais evoluídos. Eles possuem a consciência claramente refletida, a qual os torna superiores aos animais. Nenhum outro ser possui a consciência refletida de forma tão clara. Os seres humanos podem discernir entre o bem e o mal com o auxílio de sua consciência, e quando se deparam com problemas podem resolvê-los com a ajuda da consciência. Nenhum ser gosta de viver em penúria e sofrimento, e muito menos os seres humanos, cuja consciência está apta a encontrar meios que possam auxiliá-los. Uma vida sem dor e sofrimento é uma vida de felicidade e bem-aventurança, e é isto que as pessoas almejam. Todas as pessoas estão em busca de felicidade; na verdade, é próprio da natureza humana buscar a felicidade. Vejamos agora o que as pessoas fazem para alcançá-la e se conseguem alcançá-la por tais meios.
Na busca de felicidade, as pessoas primeiramente são atraídas por prazeres materiais. Elas tentam acumular riquezas e conquistar poder e posição social para satisfazer o seu desejo de felicidade. Aquele que tem cem rúpias (moeda indiana) não se satisfaz com essa quantia e se empenha para conseguir mil rúpias; porém, mesmo que consiga milhares de rúpias, não ficará satisfeito. Desejará um milhão, e assim por diante. Também observamos que uma pessoa que exerce sua influência sobre um município quer estendê-la ao nível de estado e que os líderes estaduais querem se tornar líderes nacionais e, quando lá chegam, surge o desejo pela liderança mundial. A mera aquisição de riqueza, poder e posição social não satisfaz a pessoa. A aquisição de uma coisa limitada apenas criará o desejo de mais, fazendo com que a busca de felicidade nunca chegue a um fim. A ânsia de possuir não tem limites: é ilimitada e infinita.
Ainda que a conquista seja digna ou grandiosa, ela não poderá impedir essa incessante busca individual por felicidade. Aqueles que anseiam por riqueza não ficarão satisfeitos até venham obter riqueza ilimitada. Também não se sentirá satisfeita a pessoa que busca poder, posição e prestígio, a menos que ela os obtenha em proporções ilimitadas. Entretanto, esse tipo de aquisição pertence a este mundo. Este mundo é finito e não pode oferecer coisas infinitas. Naturalmente, por maior que sejam as aquisições mundanas, até mesmo todo o planeta, elas não teriam nenhuma característica permanente ou infinita. O que, então, é esta coisa eterna e infinita que poderá prover felicidade permanente?
Somente a Entidade Cósmica é infinita e eterna. Somente Ela não tem limites. E o eterno desejo dos seres humanos por felicidade só pode ser saciado com a realização do Infinito. A natureza efêmera das posses mundanas, do poder e da posição social só pode levar uma pessoa a concluir que nenhuma dessas coisas deste mundo finito e limitado pode satisfazer o interminável anseio por felicidade. A aquisição de tais coisas mundanas apenas faz surgir mais desejos. Somente a realização do Infinito pode atender a esse anseio. Só pode existir um Infinito, e este é a Entidade Cósmica.
Portanto, somente a Entidade Cósmica pode prover felicidade permanente. Essa busca é a característica de cada ser humano. Na realidade, por trás dessa busca humana está oculto o desejo, o anseio de alcançar a Entidade Cósmica. Esta é a própria natureza de cada ser vivo. Somente isto constitui o dharma de cada pessoa.
A palavra dharma significa propriedade, natureza ou característica. A natureza do fogo é queimar e produzir calor. Essa é a característica ou a propriedade do fogo, ou ainda a natureza do fogo. Da mesma forma, o dharma ou a natureza do ser humano é buscar a Entidade Cósmica.
O grau de divindade nos seres humanos é definido pela clareza de sua consciência. Cada ser humano, por ter evoluído dos animais, é constituído de dois aspectos: o aspecto animal e o consciente, que o distingue dos animais. Os animais expressam principalmente a animalidade, enquanto os seres humanos, como possuem uma consciência claramente manifestada, também são dotados de racionalidade. A natureza animal dos seres humanos estimula as tendências à vida animal ou aos prazeres materiais.
Devido a essa influência, eles vão em busca de comida, bebida e outros atrativos físicos. Por influência da natureza animal, eles são atraídos por esses prazeres e promovem sua busca. Porém, esses atrativos não lhes proporcionam felicidade, porque sua busca por felicidade é infinita. Os animais se satisfazem com esses prazeres limitados, uma vez que seus anseios não são infinitos. Mesmo quando é oferecida uma grande quantidade de qualquer coisa a um animal, ele só come a porção de que necessita e não se preocupa com o restante. Porém os seres humanos, certamente, agem de forma diferente em tal situação. Isto apenas mostra que os animais se satisfazem com coisas limitadas, enquanto os seres humanos têm desejos ilimitados, embora em ambos os casos o desejo seja estimulado e controlado pelo aspecto animal da vida. A diferença entre os dois é que os seres humanos possuem uma consciência claramente refletida e os animais não. Por causa da consciência é que a busca humana por felicidade absoluta uma tem natureza infinita. Essa consciência não se satisfaz com os prazeres físicos advindos de posses, poder e posição social – coisas que, mesmo em grandes proporções, são somente de caráter transitório. É a consciência que inspira nos seres humanos o anseio pela Entidade Cósmica.
Os objetos do mundo físico – os atrativos materiais – não saciam a sede de felicidade do coração humano. Mesmo assim, percebemos que as pessoas se sentem atraídas por eles. A natureza animal impulsiona as pessoas a satisfazerem seus desejos animais, mas a racionalidade de suas consciências continua insaciável, uma vez que tais prazeres são transitórios e efêmeros. Eles são incapazes de apaziguar a sede constante e ilimitada da consciência humana. Ocorre, então, uma luta contínua nos seres humanos entre a natureza animal e a racionalidade. A natureza animal os atrai para os prazeres terrenos imediatos, enquanto a consciência, que não se satisfaz com esses prazeres, os atrai para a Entidade Cósmica – o Infinito. Isto resulta numa luta entre o aspecto animal e a consciência. Se os prazeres físicos obtidos com as conquistas de poder e posição social fossem intermináveis e infinitos, eles saciariam a eterna sede da consciência por felicidade. Todavia, eles não o conseguem, e é por isso que a glória fugaz dos prazeres temporários nunca poderá assegurar paz duradoura para a mente humana e levar a pessoa ao êxtase.
O que diferencia os seres humanos dos animais é a sua consciência claramente refletida. Por isso, não seria imperativo que os seres humanos utilizassem sua consciência? Quando a consciência permanece adormecida por causa da natureza animal, as pessoas estão predestinadas a se comportar como animais. Na verdade, elas se tornam piores do que os animais, visto que não a utilizam, mesmo sendo dotadas de uma consciência claramente refletida. Tais pessoas não merecem a denominação de seres humanos. Elas são animais na forma humana.
A natureza da consciência é a busca do Infinito ou a realização da Entidade Cósmica. Somente aqueles que utilizam suas consciências e seguem os seus ditames merecem ser chamados de seres humanos. Dessa forma, quando a pessoa faz uso apropriado de sua consciência refletida, ela ganha o direito de ser chamada de ser humano e descobre que o seu dharma (ou natureza) é somente buscar o Infinito ou a Entidade Cósmica. Tal desejo pelo Infinito é a qualidade inata, ou o dharma, que confere à pessoa a qualificação como ser humano.
A felicidade acontece quando se conquista o objeto desejado. Se alguém não consegue o que deseja, não pode ser feliz, sentindo-se triste e deprimido.
A consciência refletida nas pessoas – a única diferença em relação aos animais – anseia pela Entidade Cósmica ou o Infinito. Portanto, as pessoas só conseguem a verdadeira felicidade quando atingem o estágio da Entidade Cósmica ou quando desenvolvem esforços para alcançá-lo. A consciência não anseia por prazeres mundanos, porque eles são finitos e não podem satisfazê-la. Assim, concluímos que o dharma da humanidade é a realização do Infinito ou da Entidade Cósmica. Somente por meio deste dharma é que as pessoas podem desfrutar de felicidade e bem-aventurança eternas.
A característica ou dharma dos seres humanos é alcançar o estágio de Brahma. Portanto, faz-se necessário verificarmos se Brahma existe ou não, pois seria um esforço em vão tentar conseguir alguma coisa que não exista verdadeiramente. Se Brahma existe, temos que saber o que Ele é.
Aparentemente, cada ação realizada por uma pessoa é executada por seus órgãos sensoriais, ou indriyas. O número total de órgãos, ou indriyas, é dez. Assim, quase todas as ações realizadas por uma pessoa parecem ser consumadas por esses dez indriyas. Entretanto, não é isto o que acontece de fato. Se a mente não atuasse por trás deles, esses indriyas não poderiam fazer nada por si mesmos. A mente é que trabalha, e os dez indriyas são apenas os instrumentos por meio dos quais ela executa o trabalho. A ação, que se origina na mente, só encontra um meio de expressão externo com a ajuda dos indriyas. Para explicar isso, podemos tomar o exemplo de uma pessoa que vê um livro. Apenas a mente é que visualiza o livro com a ajuda dos olhos. Se a mente não funcionar, os olhos não poderão ver o livro. Por exemplo, uma pessoa em estado inconsciente, devido ao efeito de um anestésico ou por alguma outra razão, não é capaz de ver o livro, mesmo que seus olhos estejam completamente abertos. Em tal estado inconsciente, ainda que não estejam doentes, os olhos não podem realizar a sua função natural, porque estão desconectados da mente. É por isso que, sob o efeito da anestesia, os órgãos sensoriais, ou indriyas, não funcionam, mesmo que estejam em perfeito estado. Freqüentemente, quando estamos absortos em pensamentos, não notamos uma pessoa nem reconhecemos um amigo que esteja bem à nossa frente. Isto ocorre porque, mesmo estando com os olhos sadios e abertos, a mente – a qual realiza verdadeiramente todas as ações – não se utiliza dos indriyas (os olhos). A mente é que trabalha, e os indriyas apenas a ajudam a se manifestar externamente.
Se a mente é a única que trabalha, vejamos como ela age através desses indriyas. Por exemplo, o ato de olhar para um livro é uma ação que a mente realiza com a ajuda dos olhos. Quando a mente vê o livro, o que ocorre de fato é que a mente, com a ajuda dos olhos, toma a forma de alguma coisa a que chamamos de livro. Essa figura que a mente molda é diferente da imagem formada na retina, pois a mente pode ver e tomar a forma de um livro, mesmo que os olhos estejam fechados; porém, quando a mente não está funcionando, os olhos não podem enxergar. Desse modo, durante a percepção visual, a mente é que molda a forma do livro. Essa porção da mente que molda o livro é chamada de “citta”, ou matéria-prima mental. Mas, tendo em conta que citta toma a forma do livro, deve haver, além de citta, alguma outra entidade que realiza a função de ver. A parte da mente que realiza a função de ver é chamada de aham'tattva (ou “eu faço”). Porém, esse “eu” não será capaz de ver nada sem o “eu existo”. Assim, deve haver uma outra parte da mente que seja diferente dessas duas primeiras. Esta terceira porção da mente é a que proporciona o “sentimento de eu”, sendo chamada de mahatattva. Sem o sentimento da existência do “eu”, ou o conhecimento do “ser”, nenhuma ação poderá ser realizada. Este sentimento do “eu” (ou conhecimento do ser) vem de mahatattva, ou buddhitattva.
O nome coletivo para essas três partes – citta, aham'tattva e mahatattva – é mente (antahkaran'a, ou força psíquica de introversão). Todavia, estas três partes da mente são apenas as manifestações evidentes da mente. É com a mente que se realiza a ação de ver o livro, e isto é denominado de assimilação psíquica do rúpa tanmátra [vibração do elemento sólido].
Tanmátra é um termo novo que merece uma explicação. A fração microscópica de uma onda irradiada por um objeto e recebida pelos indriyas é chamada de tanmátra, ou inferência. Para uma melhor explicação, podemos dizer que a idéia do livro é concebida com a ajuda do rúpa tanmátra (a vibração ideativa dos nervos cria uma figura ou imagem na mente), quando a pessoa observa o livro. Entretanto, se os olhos estiverem fechados ou se a pessoa estiver num ambiente escuro, ela também poderá reconhecer o livro através do tato. Neste caso, a idéia do livro será concebida graças a outro tanmátra, isto é, ao tanmátra do tato, ou percepção táctil. Além disso, se o livro estiver fora do alcance das mãos e da percepção visual e alguém deixá-lo cair, será possível identificar o livro através do tanmátra do som.
Citta entra em contato com os tanmátras apenas quando aham'tattva assim o deseja. A percepção ou a identificação do livro deve ser realizada por aham'tattva, pois citta por si só não possui a capacidade de desempenhar nenhuma função. Quando aham'tattva (ou parte da mente que age) quer ver um livro, citta entra em contato com os órgãos da visão, ou seja, os olhos. Os olhos captam o rúpa tanmátra do livro. Esse tanmátra, presente no ambiente em forma de ondas, atinge citta por meio dos olhos, que são como uma porta de contato entre citta e o mundo externo. Citta, então, assume a forma do livro; e aham'tattva o identifica ou o vê de acordo com a forma assumida em citta. Do mesmo modo, quando aham'tattva quer escutar alguma coisa, ele faz citta entrar em contato com os órgãos auditivos (os ouvidos). Os ouvidos absorvem o tanmátra do som, que sempre está presente no ambiente, através das ondas sonoras. Citta, em função do impacto desse tanmátra, transforma-se no próprio som e aham'tattva escuta esse som. Isto demonstra que citta toma a forma do que quer que aham'tattva queira ou faça. Explicando de outra forma, citta reflete as ações que aham'tattva realiza.
Já dissemos que citta, aham'tattva e mahatattva (ou buddhitattva) constituem a mente. Citta apenas tem a capacidade de assumir a forma pretendida por aham'tattva. Do mesmo modo, aham'tattva tem apenas a capacidade de realizar ações. Aham'tattva pode apenas trabalhar. Por isso, tem de haver alguma entidade que o faça trabalhar. Essa entidade é mahatattva, ou buddhitattva, que dá à pessoa o “sentimento de eu”. Esse “sentimento de eu” se origina na mente, e é esse “eu” que faz com que aham'tattva e citta cumpram suas respectivas funções mentais. Sem esse “eu” seria impossível sentir ou ver o livro, mesmo que a influência de aham'tattva fizesse citta assumir a forma do livro. Entretanto, esse “eu” é apenas uma parte da mente. Ou seja, existe um outro “eu”, que é o “eu” possuidor, ou o “eu” que tem consciência de que a mente existe. A existência do “eu” na mente humana é uma prova de que existe outra entidade real, a qual está além da mente e reconhece sua existência. Esse “eu” – que é a entidade testemunhal, ou seja, a entidade que testemunha a existência da mente e de buddhitattva (ou sentimento de eu) – é chamado de átman, ou consciência individual. Assim, através da introspecção e do pensamento concentrado, a pessoa pode perceber que o átman e a mente – ou a consciência unitária e a mente – são duas entidades separadas.
O átman (ou consciência unitária) e a mente são duas entidades separadas, ainda que ambas estejam relacionadas entre si. Num primeiro momento, vem o sentimento de que estou consciente da minha existência. Então, esse mesmo “eu”, a prova aparente de minha existência, me faz agir, e uma parte da minha mente, chamada citta, assume a forma do livro através dos tanmátras, capacitando-me a ver o livro. O “eu” que me proporciona consciência ou o “eu” que testemunha a existência de minha mente, desse modo, proporciona o sentimento de que o “eu existo” é o átman, ou consciência individual. O “eu” que cria o sentimento de “eu existo” e também prova a existência do átman, ou consciência individual, é o mahatattva. O “eu” que age ou vê o livro é aham'tattva, e citta é a porção mental que assume a forma do livro e permite que aham'tattva possa vê-lo. Isso mostra que o mesmo “eu” tem diferentes funções em cada estágio.
O surgimento dessas diferentes funções do mesmo “eu” requer um esclarecimento maior. A afirmativa de que “eu existo” pressupõe a presença do “eu” que testemunha essa existência. Esta entidade testemunhal é o átman (ou consciência unitária), e sua presença é estabelecida pelo sentimento de existência que a pessoa manifesta em cada ação. A comprovação da diferença entre o “eu existencial” e o átman (ou consciência unitária) pode ser evidenciada pelo fato de que este “eu” pressupõe a presença do meu átman, ou consciência unitária. Esse sentimento prova que a consciência unitária é apenas consciência e que, sem esta consciência, não seria possível existir. Sem a consciência não pode haver nenhum sentimento de existência. Quem mais poderia testemunhar a existência do “eu”? A consciência, portanto, é essencial para criar o sentimento de mahatattva ou buddhitattva. Explicando melhor, mahatattva (ou buddhitattva) não pode existir sem o átman ou consciência unitária.
Todavia, a entidade testemunhal e o puro sentimento de “eu” parecem ser diferentes formas funcionais do mesmo “eu”. Na realidade, o “eu” que testemunha minha existência também se manifesta no “eu” de “eu existo”. O “eu” testemunhal é a consciência unitária (ou átman) que também se manifesta como mahatattva (ou buddhitattva) e assim estabelece a sua própria existência. A entidade testemunhal, ou consciência unitária, que assume a função de “eu” do “eu existo” é conhecida como mahatattva ou buddhitattva. Logo, a consciência unitária não é apenas consciência, uma vez que possui uma qualidade que lhe permite se manifestar por meio de diferentes funções. Essa qualidade não é consciência, porque se assim fosse não haveria necessidade de a consciência unitária se manifestar como mahatattva e se expressar como o “eu” do “eu existo”, o qual é diferente da entidade testemunhal. A consciência e sua qualidade são, portanto, duas entidades separadas dentro do átman, ou consciência unitária. Uma vez que essa qualidade é diferente da consciência, ela deve ter surgido de alguma parte. Deve haver algum outro fator que permita qualificar átman, fazendo-o manifestar-se como mahatattva. O fator que dá essa qualidade ao átman é chamado de Prakrti. Em outras palavras, Prakrti qualifica átman, fazendo com que este se manifeste como mahatattva e adquira o sentimento de “eu”.
É necessária uma explicação sobre Prakrti. Ela é a entidade que controla os fenômenos naturais. Prakrti não significa natureza nem qualidade. Por exemplo, pode-se afirmar que a capacidade de queimar é a natureza do fogo. Deve haver algo que dê essa qualidade ao fogo, assim como há alguma entidade que dá qualidade à consciência unitária. Aquilo que qualifica a consciência unitária é a própria Prakrti e não a qualidade expressada por Sua influência. Prakrti é uma palavra em sânscrito derivada de pra – kr + ktin, que significa fazer alguma coisa de uma forma especial. A consciência unitária estabelece a sua existência somente quando é qualificada por Prakrti. Em outras palavras, Prakrti qualifica a consciência unitária, ou átman, para conferir-lhe o sentimento de sua existência. A energia é um requisito fundamental para a realização de qualquer ação. Tendo em conta que Prakrti realiza a ação de qualificar átman, ou consciência unitária, Ela é uma força singular. Ela é o princípio que qualifica a consciência unitária. É Prakrti que, com sua influência, qualifica a consciência unitária, dando-lhe diferentes funções. Prakrti é uma força singular – um princípio. Entretanto, algumas perguntas surgem: Que princípio é este e de onde ele vem?
Prakrti é um princípio de Purus'a, o qual, através de Seu próprio princípio, é influenciado e qualificado. Por ser um princípio de Purus'a, Prakrti deve existir dentro de Purus'a. De fato, Ela sempre existiu dentro d'Ele. A consciência unitária e sua Prakrti nunca poderão ser separadas uma da outra, assim como a capacidade de queimar não pode ser separada do fogo. Nenhuma coisa que adquira uma determinada qualidade através da influência de um princípio (ou força) poderá continuar a existir se este princípio (ou força) for retirado dela. Os dois estarão sempre juntos; assim como a consciência unitária e seu princípio, Prakrti. A consciência unitária e sua Prakrti são inseparáveis como os dois lados de uma folha de papel. A única função de Prakrti é criar continuamente diferentes formas através de sua influência sobre a consciência.
A consciência unitária é a entidade testemunhal, a qual percebe a sua existência somente quando é qualificada e manifestada como o “eu” de “eu existo”. O princípio de Prakrti que estabelece a existência da consciência unitária com a qualificação de Purus'a é chamado de sattvagun'a (ou princípio sutil); e, conseqüentemente, a porção da mente que é formada para criar o sentimento de “eu existo”, chama-se mahatattva ou buddhitattva. É mais correto dizer que, sob a influência de sattvagun'a, a consciência unitária se manifesta como mahatattva ou buddhitattva.
Cada ação pressupõe a existência de algo ou alguém que pratica a ação. A não ser que eu existisse, jamais poderia enxergar. Aqui também podemos notar que o “eu” tem duas funções ou dois aspectos diferentes. A primeira função é a de entidade testemunhal ou consciência, a qual, para provar ou manifestar a sua existência, adquiriu o sentimento de “eu existo”, e o mesmo “eu” agora realiza a função de ver. O “eu” de “eu existo” é o buddhitattva, que, para ver alguma coisa, exerce a função de ver, além de estabelecer a existência da consciência unitária. Quando a consciência unitária é influenciada por Prakrti, ela se expressa como buddhitattva. Da mesma forma, a capacidade adicional de realizar uma ação é também criada pela influência de Prakrti sobre buddhitattva. Prakrti também está presente em buddhitattva, uma vez que este é apenas uma manifestação da consciência unitária, e Prakrti está predestinada a existir junto com a consciência unitária em qualquer lugar e em qualquer forma que puder existir. O princípio (ou gun'a) de Prakrti que dá essa qualidade ou capacidade a buddhitattva é chamado de rajogun'a, ou princípio mutatório. Assim, quando buddhitattva é influenciado por Prakrti, ele assume duas funções ou dois aspectos. O último aspecto, que foi obtido de rajogun'a e que lhe dá a capacidade ou a qualidade de realizar uma ação, é conhecido como aham'tattva. Quer dizer, buddhitattva se manifesta como aham'tattva quando é influenciado por rajogun'a, ou o princípio mutatório de Prakrti.
Cada ação implica alguma conseqüência final. Por exemplo, quando você olha para um livro, o resultado é que você vê o livro. Já explicamos anteriormente como vemos o livro. Citta, que é uma parte da mente, assimila o tanmátra que transmite a forma do livro e molda essa forma. É esse livro que aham'tattva vê. Citta molda a forma que aham'tattva quer. Quando aham'tattva vê o livro, citta se transforma nesse livro e, quando ouve um som, citta se transforma nesse som. Desse modo, citta é totalmente dependente de aham'tattva para assumir uma forma. Está sempre mudando sua forma sob o comando de aham'tattva. Então, citta deve ter uma relação muito estreita com aham'tattva.
A maneira como citta se forma requer um esclarecimento. Citta, como já foi explicado anteriormente, é uma parte da mente, e buddhitattva e aham'tattva constituem as outras duas partes. Buddhitattva e aham'tattva são expressões da consciência unitária formadas, respectivamente, pela influência de sattvagun'a de Prakrti sobre a consciência unitária e de rajogun'a sobre buddhitattva. Em outras palavras, a consciência unitária é que, sob a influência de Prakrti, assume a função de aham'tattva, no segundo estágio. Portanto, Prakrti está presente em aham'tattva e está destinada a qualificá-lo mais ainda. Assim, Prakrti qualifica aham'tattva e este se manifesta como citta. A qualidade de Prakrti que influencia aham'tattva é chamada de tamogun'a, ou princípio estático. Por influência de tamogun'a, aham'tattva (ou “eu faço”) assume a imagem mental resultante de sua ação. Isto significa que, quando “eu” vejo o livro, este “eu” é que toma a forma do livro. Dessa forma, um outro “eu” surge devido à influência de tamogun'a. Durante a percepção, este “eu” é que assume a imagem mental do livro. Este “eu”, que se transforma no livro ou que absorve a sua forma, é citta. Assim, é a consciência unitária que gradualmente se manifesta como citta.
Nos parágrafos anteriores, foi demonstrado através da lógica e da coerência que é a consciência unitária que, sob a influência dos diferentes princípios de Prakrti, manifesta-se gradualmente como citta, e como resultado surge a mente. A existência da consciência unitária é essencial para a mente – que é apenas uma manifestação gradual da consciência unitária sob a influência qualificadora de Prakrti. Na verdade, a mente não poderia ser formada sem a presença do átman, ou consciência unitária. Porém, sabemos que a mente está presente em cada indivíduo. Portanto, átman, ou consciência unitária, também está presente em cada indivíduo. Há inumeráveis indivíduos neste universo e, uma vez que o átman se reflete em cada um deles, temos a impressão de que existem muitos átmans ou consciências individuais. O nome coletivo para todos esses átmans ou consciências individuais é Paramátman, Bhúmácaetanya, Brahma ou Bhagava'n. Assim como doze unidades formam uma dúzia, vinte unidades constituem um grupo, e o nome coletivo para um grande número de soldados é exército, também o nome coletivo para todas as consciências unitárias é Paramátman, Bhúmácaetanya ou Bhagaván. O nome Bhagaván não deve estar relacionado com a idéia de uma figura humana poderosa, dotada de mãos e pés. Ele é a combinação de todos os nossos átmans. A palavra do idioma português que mais se aproxima do significado de átman, ou consciência unitária, é “alma”
[1], assim, Bhagaván também pode ser chamado de Consciência Universal ou Alma Universal. Isto mostra que Bhagaván existe de fato e que sua existência é definida como: Paramátman ou Alma Universal; Bhúmácaetanya ou Consciência Cósmica; ou Brahma, a Bem-Aventurança Eterna.
[1] N.T.: No original, o autor fez a comparação com a palavra inglesa “soul”.
P.R.SARKAR - Filosofia Elementar da Ananda Marga

19/04/2008

O CULTO DA ESPIRITUALIDADE - O Culto Focado no Ápice

Você sabe, espiritualismo e espiritualidade não são a mesma coisa. “Espiritualismo” está relacionado com os espíritos e “espiritualidade” diz respeito ao Princípio Cognitivo Supremo. Portanto, existe uma grande diferença entre os termos “espiritualismo” e “espiritualidade”. Nós estamos envolvidos com a espiritualidade.


Agora, para todas as ações – sejam elas intelectuais, intuitivas ou puramente psíquicas – deve haver uma base, um ponto estável, um ponto inicial. E deve haver também uma meta – uma Aspiração Suprema. Para esse culto da espiritualidade, a base é moralidade; sem moralidade, nada se pode fazer. E a moralidade tem dois tipos de ondas: as emanações psicofísicas; e as ondas físico-psíquicas, o movimento físico-psíquico. No caso das emanações psicofísicas, a pessoa deve ter controle apropriado sobre esses fluxos emanados. E no caso de movimento físico-psíquico, a pessoa deve manter um ajuste apropriado entre o mundo externo e o mundo interno, entre a esfera física externa e a esfera subjetiva interna. A meta é a realização daquele estágio supremo em que haverá justiça e equanimidade para todos os seres animados e inanimados.

Pra'n'a'h yatha'tmano'bhiis't'a'h

bhu'ta'na'm api te tatha';

Atmaopamyena bhu'ta'na'm

daya'm' kurvanti sa'dhavah.

“Assim como a minha vida é amada por mim; igualmente, a vida de outro ser é amada por ele. Toda entidade ama a sua própria existência. Sob a luz desta verdade, os seres humanos desenvolvidos se sentem gratos por todo e qualquer objeto desta criação.”

Você deveria se lembrar disso. Este tipo de lembrança é chamada sádhu dharma ou Bhágavata dharma, e a pessoa que pratica esse culto é um verdadeiro sádhu (renunciante). Então, não deve haver qualquer diferença entre seu pensamento e suas ações. Se existir qualquer diferença, essa diferença deverá ser minimizada passo a passo, e finalmente o pensamento e a ação deverão coincidir. Então, no seu plano de moralidade existem duas divisões: a emanação psicofísica e o movimento físico-psíquico. Em sânscrito, essa emanação psicofísica é chamada Yama e o movimento físico-psíquico é chamado Niyama.

Pregar a separação entre os seres humanos, ou a separação entre os seres vivos – seres humanos, animais, aves, plantas etc. – não constitui moralidade. A equanimidade suprema, a posição espiritual suprema não pode ser atingida enquanto existir qualquer pensamento de divisão. Então, desde o primeiro momento a pessoa deve praticar esses dois tipos de moralidade e se tornar um com elas.

Agora, a moralidade constitui a base e o Estágio Supremo é a meta. A moralidade impulsiona o microcosmo em direção a Ele sem nenhuma parada ou pausa. Uma vez que Parama Purus’a (Consciência Suprema) está atraindo a todas as entidades em direção a Si próprio, em sânscrito Ele é chamado "Krs’n'a". Um dos significados da palavra krs’n'a é “aquele que atrai”. Um outro significado é “a entidade da qual depende a existência de outras entidades”.

Assim, por um lado Parama Purus’a está atraindo os aspirantes espirituais a se moverem adiante; e por outro lado, os aspirantes espirituais, por meio dos seus próprios esforços, sua própria força moral, também estão se movendo em direção a Ele. Por causa desses estímulos, os seres humanos chegam ao seu destino. Se algumas pessoas sentirem que Parama Purus’a não é simpático ou amável com elas, que Ele não as está atraindo, neste caso eu as aconselharei a se estabelecerem firmemente na moralidade, e então elas instantaneamente sentirão a benção de Parama Purus’a, porque é através da sua própria força moral que elas se moverão adiante, Parama Purus’a cumpre a Sua missão de os atrair, e eles têm o compromisso individual de se moverem em direção à meta. Os sádhakas (aspirantes espirituais) cumprem o seu dever, e Parama Purus’a faz a Sua parte.

Então, o corpo físico deverá se tornar santificado através dos bons pensamentos, das boas ações e do bom alimento, e também por meio de várias práticas físicas que afetam as fibras nervosas do corpo; porque é através das fibras nervosas, através dos nervos aferentes e eferentes, que a primeira fase da realização é alcançada. A realização mais elevada não depende das células nem das fibras nervosas, mas para se alcançar isso também é necessário ter um bom alimento e autocontrole.

Não é apropriado que uma pessoa coma o que quer que ela consiga obter. Você deve comer somente aqueles alimentos que exercerão uma influência benéfica em seu corpo, na sua mente e no seu espírito. Não é apropriado que os seres humanos simplesmente comam tudo o que estiver disponível. Na verdade, até mesmo os animais têm preferências com relação aos alimentos. A este respeito o Senhor Shiva disse:


Phalis'yatiiti vishva'sah

siddherprathama laks'an'am;

Dvitiiyam' shraddhaya' yuktam'

trtiiyam' gurupu'janam.

Caturtho samata'bha'vo

paincamendriyanigrahah;

S'as't'hainca pramita'ha'ro saptamam'

naeva vidyate.*

*N.E.: Shiva Sam'hita'.

"Para alcançar o sucesso na vida, existem sete requisitos fundamentais. O primeiro é uma firme determinação: "Eu vou vencer". A segunda é o respeito. A terceira é guru puja ou a lembrança constante do mestre espiritual. A quarta é o equilíbrio mental. A quinta é o controle dos sentidos. A sexta é uma dieta equilibrada. O sétimo – Bem, o sétimo requisito não existe."

Esta santificação e purificação do corpo, através do alimento apropriado, do comportamento apropriado e de várias práticas, deve ser complementada por outras práticas, para criar um ajuste perfeito no corpo, entre as glândulas, as subglândulas e suas secreções hormonais. As propensões das estruturas vivas são, direta e indiretamente, controladas pelas secreções dos hormônios de diferentes glândulas e subglândulas localizadas perto dos diferentes plexos da estrutura corporal.

Agora, em todos os lugares, em cem por cento dos casos, existe desperdício da potencialidade psíquica humana. As potencialidades psíquicas dos seres humanos são imensas, mas as pessoas não as utilizam porque a maior parte do seu tempo disponível é gasto em pensamentos indesejáveis, em extravagância psíquica. Suponha que a longevidade humana seja uma média de sessenta anos. Vinte anos serão gastos dormindo, e os outros quarenta anos serão gastos em atividades insignificantes ou inúteis. Quanto tempo as pessoas realmente se dedicam a tarefas proveitosas.

Essa extravagância psíquica deveria ser controlada por uma prática física ou uma prática psíquica, ou uma prática psicoespiritual. As pessoas deveriam ter algum controle sobre a sua respiração, sobre o sistema respiratório, porque as ondas da respiração controlam as ondas do pensamento. Quando você está fazendo algo de natureza brutal, a sua respiração se torna agitada; e quando você está pensando em algo sutil, ela se torna lenta, extremamente lenta. E finalmente, quando a respiração coincide, ou se torna uma com as ondas pensamento da pessoa, este estágio é conhecido como hat’ha yoga samádhi. Ou seja, os esforços físicos, as emanações físicas se tornam uma só com as emanações psíquicas. Então, é essencial ter um certo controle sobre a respiração.

Eu já comentei que o alcance da racionalidade e da racionalização deve ser ampliado cada vez mais; e para isto, as ondas desnecessárias devem ser removidas do plano físico. Também as ondas desnecessárias da esfera psíquica devem ser removidas. Esta prática removerá muitas amarras da mente. "Eu não devo me envolver com coisas insignificantes, porque isso desperdiçará o meu tempo” – as pessoas deveriam se lembrar disto. Esta remoção, ou suspensão, dos pensamentos desnecessários e indesejáveis emanados da mente o ajudarão a racionalizar a maior parte de sua capacidade mental, portanto, isto também deve ser praticado. O culto da espiritualidade é o culto mais sublime.

Agora, o fluxo mental de uma pessoa está diretamente relacionado com a ideação e a meditação. No que diz respeito à ideação, pode-se dizer que há uma relação com a saúde e o funcionamento apropriado de glândulas e subglândulas. Também deveríamos nos lembrar de que a ideação não terá qualquer base para se sustentar se não houver uma idéia claramente definida. Então, a idéia também deve estar lá.

Ka'nha'se ham'sa' a'ila'

Ka'nha'ma'n sama'ila' ho ra'ma'

Ka'nha'ma'n gad'h bana'il ham'sa'

Ka'nha' ma'n lapt'a'il ho ra'ma'

Sagun' se ham'sa' a'ila'

Nirgun' ma'n sama'il ho ra'ma'

Ka'ya' gad'h bana'il ham'sa'

Ma'ya' man lapt'a'il ho ra'ma'.

"De onde veio o cisne (símbolo da consciência unitária)? Aonde ele foi? Em que lugar ele fez sua morada? Com quem ele se associou? Ele veio da Entidade Suprema Qualificada e depois imergiu na Entidade Suprema Não-Qualificada. O cisne fez a sua morada de seu próprio corpo e se associou com o Principio Criativo Cósmico."

Os aspirantes espirituais deveriam sempre manter a lembrança dessa idéia.

O que os seres humanos devem fazer no estado de ideação profunda? Eles devem manter suas glândulas e subglândulas equilibradas. E ao mesmo tempo, eles não devem pedir por poder oculto, mas sim praticar a ideação no Ser Supremo. Inspirados por essa ideação, eles devem meditar em Parama Purus’a. Mais adiante, acrescentarei alguns comentários sobre a ideação.

Agora, existe uma outra ordem da mente focalizada em um ponto, ou seja, a meditação. Meditação significa pensamento concentrado, associado com várias células sutis e importantes do cérebro humano. Toda célula nervosa tem seu próprio ponto de controle, e para todas as células nervosas existe um ponto de controle supremo. Esse ponto de controle supremo é chamado em sânscrito de “Guru cakra”, o plexo do Guru. Todas as glândulas são controladas por esse ponto de controle supremo. Assim, a pessoa que medita deve estar apropriadamente conectada com esse Guru cakra, o plexo do Guru. Shiva também disse:

Phalis'yatiiti vishva'sah

siddherprathama laks'an'am;

Dvitiiyam' shraddhaya' yuktam'

trtiiyam' gurupu'janam.

‘‘Há sete recomendações para se obter sucesso em qualquer missão. A primeira é uma firme determinação: "Eu vou vencer". A segunda é o respeito. A terceira é guru pújá, ou lembrança constante do mestre espiritual.”

Em sânscrito, gu significa “obscuridade”, e ru significa “dissipador". Assim, guru significa ‘‘aquele que dissipa a obscuridade da mente”. A obscuridade da mente deve ser dissipada. Não deve haver um festival de luzes no lado de fora da casa enquanto ela própria permanece na escuridão. Deve haver iluminação também dentro da própria casa, e isto significa a iluminação da mente, da alma.

No idioma védico, a palavra “guru" é derivada da raiz gur mais o sufixo un. A raiz gur significa ‘‘treinar os outros sobre o modo de falar, sobre o modo de se comportar de uma maneira digna”. O guru nos ensina a seguir um estilo de vida metódico. Amar não é o único trabalho do guru. Uma pessoa que somente ama você é sua inimiga, e aquela que somente pune também é sua inimiga. Mas aquele que tanto ama quanto pune de uma forma equilibrada é o verdadeiro guru.

Agora, a meditação deve ser feita de uma forma metódica, e isto envolve vários centros nervosos e também o centro coletivo das células nervosas situado no cérebro. Esta ordem focalizada da espiritualidade, seu ponto focalizado, seu ponto mais elevado é o estágio supremo. Com esse objetivo, os seres humanos têm feito esforços constantes desde tempos imemoriais, e esses esforços os fizeram seguir adiante, trazendo-os à condição atual.

Anteriormente, eu comentei que a ideação deve estar associada com a bem-aventurança. E como todos vocês sabem, as idéias são basicamente de três tipos: (1) intelectual-intuitiva; (2) relativa à ação; (3) devocional-emocional.

A respeito do intelecto e da intuição foi mencionado, Ekam’ jinánam anantam’ Brahma [“Brahma é o intelecto infinito personificado”]. Portanto, os aspirantes espirituais devem atingi-Lo através do conhecimento; é isto que os seguidores do caminho do conhecimento sustentam. Dizem eles: existe um fluxo infinito de conhecimento e intuição, mas não existe uma segunda entidade. Quando a dualidade é cogitada, isto ocorre devido à nossa ignorância, à nossa falta de conhecimento verdadeiro.

Mas você precisa se lembrar de que, na maioria das vezes, o intelecto humano e a intuição são desperdiçados em objetivos extravagantes, em buscas inúteis; eles não são utilizados em objetivos construtivos ou proveitosos. E o poder intuitivo humano também é desperdiçado quando o indivíduo tenta exibir poderes ocultos. Tais pessoas nunca poderão se mover em direção a Parama Purus’a..

Com relação à ação existe o seguinte ditado: Karma Brahmeti karma bahu kurviita - “O trabalho é Brahma; portanto, trabalhe cada vez mais”.

Tudo neste universo mantém sua existência através desse tipo de mobilidade constante. Este mundo é chamado de jagat; o termo jagat é derivado da raiz do verbo gam mais o sufixo kvip e significa “uma entidade em movimento”. Também é chamado de sam'sára, que é derivada de samsr + ghain; isto é, ‘‘entidade que se mantém em constante movimento”. Assim, os karma yogiis dizem que tudo neste universo está imbuído de ação, de movimento. Nada permanece parado, nada permanece fixo. Então, mova-se com sua capacidade de ação. Os karma yoguis, os seguidores do caminho da ação dizem que a ação é tudo – nós atingimos tudo através da ação.

Algumas pessoas pensam, “eu estou com fome, eu quero comer liit'i [uma iguaria da cozinha indiana]”, mas para comer liit'i nós teremos que providenciar a farinha de grão-de-bico, ghee etc. Tudo isto é feito através da ação. E o resultado desta ação será que, ao final, poderemos comer liit'i. Então, karma é a fonte de tudo, assim dizem os seguidores de Karma Yoga. Portanto, mantenha-se trabalhando: Marte marte ka’m karo, ka’m karte karte maro - “Morra engajado no trabalho, e trabalhe mesmo quando estiver morrendo”.

Até mesmo aqueles que são defensores das faculdades devocionais ou emocionais dizem que as pessoas adquirem propulsão para o movimento a partir da devoção ou da emoção. Quando a mente se move por um determinado caminho ou segue uma disciplina específica de uma forma metódica, isto é chamado de 'devoção' ou bhakti; mas quando ela não segue um método em particular, quando se move casualmente motivada por caprichos, isto é chamado de “emoção”. Esta é a diferença fundamental entre devoção e emoção. Você deve saber que esse é o fio de prata que separa devoção de emoção.

Aqueles que adotam este culto focado em um ponto sabem que deve haver uma combinação ideal entre a capacidade intelectual-intuitiva, a capacidade da ação e a capacidade devocional-emocional. Nenhuma dessas capacidades é menos importante, todas são igualmente importantes, mas a finalidade é a devoção. Ou seja, o resultado final da capacidade intelectual-intuitiva e da capacidade da ação é a devoção, não a emoção; e este é o motivo pelo qual os grandes sábios do passado disseram:

Bhaktir Bhagavato seva' bhaktih prema svaru'pinii;

Bhaktira'nanda rupa' ca bhakti

bhaktasya jiivanam.

Bhakti (devoção) é serviço a Deus; bhakti é a forma do amor divino; bhakti é a encarnação da bem-aventurança; bhakti é a vida do devoto”.

Então, vemos que a ideação está associada com uma idéia ou outra – conhecimento, ação ou devoção – assim como a meditação está associada com a ideologia. Assim, na meditação e na ideologia, o aspirante espiritual está se movendo em direção à Entidade Suprema Singular, à meta focada em um ponto. Se a mente aceitar duas metas, dois Mestres, a mente se tornará dividida.

Quando a ideologia está associada à meditação, ela é mais uma teoria do que um culto; mas quando a ideação está associada à idéia, ela é mais um culto do que uma teoria, e a expressão mais elevada da devoção é: Ananyamamatá Vis’n’ormamatá premasaungatá - “A devoção exclusiva à Entidade Suprema, deixando de lado todos os outros, é chamada de amor divino”.

Quando as ondas do pensamento ou quando os movimentos do pensamento são incitados por uma única idéia e quando o ponto culminante é também uma entidade única – ou seja, quando a atração por outras entidades, pelo mundo grosseiro ou pelo mundo psíquico está redirecionada para o Eu Supremo, para Vis’n’u – este é o estado supremo da devoção. Vis’n’u deriva da raiz do verbo vish, que significa "permear". A Entidade que permeia tudo que está presente em qualquer entidade manifestada, em toda e qualquer emanação deste universo, é Vis’n’u.

Vistárah sarvabhútasya

Vis'n'orvishvamidam' jagat;

Dras't'avyamátvatmavat tasmádabhedena vicaks'an'aeh.*

*N.E.: Vis'n'u Purán'a.

“Este universo é a expressão de Vis’n’u, a entidade que está latente em tudo. Portanto, as pessoas sábias deveriam ver tudo como parte de si mesmas, por uma perspectiva holística”.

Assim no caminho do progresso espiritual, todos os três – conhecimento, ação e devoção – são necessários. A devoção fornece a base, a ação fornece o vigor do movimento e o conhecimento mostra porque e como os aspirantes espirituais devem prosseguir. Assim, todos os três são importantes. Mas, conclusivamente, o conhecimento e ação se fundem na devoção, e por isso a devoção não está desprovida de conhecimento ou ação. Maharshi Narada foi a primeira pessoa a propor este tipo de culto devocional, o qual não é uma devoção cega, mas sim uma combinação ideal de conhecimento, ação e devoção. Esta devoção combinada permite que os aspirantes espirituais atinjam a meta máxima e única de suas vidas. É esta devoção que os seres humanos têm buscado desde tempos imemoriais. Quando finalmente eles chegam ao guru e obtém iniciação, começam a trilhar o caminho da devoção. E aqueles que começaram a trilhar este caminho percebem que eles certamente atingirão seu destino, que atingir sua meta é a única razão de seu nascimento. Você deveria se lembrar porque nasceu. Ao seguir o caminho da devoção, você finalmente terá que atingir Parama Purus’a. Este é o ponto máximo, o ponto supremo da glória humana. Você deveria sempre se lembrar disto durante toda a sua vida e até mesmo após a sua morte.

P.R. Sarkar - 3 de junho de 1990, DMC, Ananda Nagar - Subha's'ita Sam'graha, Parte 18


11/04/2008

MISTICISMO E YOGA

Quando o senso estético, baseado na ciência estética sutil, desenvolve-se até um certo nível, isto é o que chamamos de misticismo. E quando este misticismo alcança a suprema glória humana, ou a gloriosa excelência humana, isto é chamado espiritualidade. O que é misticismo? Misticismo é o esforço incansável para descobrir o elo entre o finito e o infinito. É o esforço incansável para descobrir o elo entre o “eu” e o “Super-eu”, “khud” e “khudá”. Isto é misticismo.

Uma das carências humanas é que os seres humanos nunca ficam satisfeitos com algo finito. Eles nunca estão satisfeitos com algo limitado. Em sânscrito se diz: “Nalpe sukhamasti bhunaeva sukhamasti”- (A sede humana não pode ser saciada com algo limitado, a fome humana não pode ser satisfeita com algo finito).

Isto é, na busca pelo infinito, os seres humanos primeiro entram em contato com a ciência estética. A ciência estética não implica sempre obter algo agradável; pode significar a obtenção de algo dificultoso, algo desagradável – pode ser ou não algo que dê prazer. A ciência estética é aquilo que a gente pode expressar de forma sutil, do sutil para o sutil, e quando esse estado alcança o ponto mais sutil, esse é o ponto mais elevado da glória humana. Agora, a tarefa dos artistas é expressar seu trabalho de forma agradável, de forma lúcida, e apresentá-lo ao mundo. Nem todos podem fazer isto. Mas cada ser humano tem a capacidade de apreciar algo com senso estético ou beleza estética.

Quando os seres humanos começaram a se movimentar em direção ao Ser Supremo, em busca da Bem-aventurança Suprema, eles primeiro entraram em contato com a espiritualidade. Uma vez que a espiritualidade está em contato com o infinito, o finito entra em contato com o infinito, e isto é chamado Yoga. Yoga é o ser unitário movendo-se em busca do infinito, o finito movendo-se em direção ao infinito em um estilo místico. Em sânscrito, Yoga significa “adição”. Por exemplo, dois mais dois são quatro. Mas para um místico, para um aspirante da meta mística ou do místico Desideratum, Yoga não é somente adição; aqui Yoga significa “unificação”. Que tipo de unificação? É como a união de açúcar e água. Digamos que somemos duas maçãs com mais duas. No caso da adição, haverá uma maçã, então duas, depois três e finalmente quatro maçãs. Cada maçã manterá sua característica individual, sem qualquer mudança, antes e depois da adição. Mas no caso da unificação, isto é, no exemplo do açúcar e da água, o açúcar não manterá sua identidade porque ele se tornará um com a água. Isto é unificação. No campo do misticismo, Yoga significa esse tipo de unificação. Ou seja, é como a unificação do açúcar com a água, e não simplesmente como a adição de dois mais dois.

Por isso, o ponto de partida é a apreciação estética ou a ciência estética. O ponto culminante, ou melhor, do ponto culminante começa o movimento do Encanto Supremo. Nesse movimento direcionado para o Encanto Supremo, os seres humanos tornam-se unidos à Entidade Suprema, cuja morada está além do ponto culminante da existência.

Esse movimento em direção ao Yoga, para a unificação do ser unitário com o Ser Supremo, o finito com o infinito, é uma obrigação de todo ser humano. A estrutura humana, tanto física como psíquica, é a mais apropriada para esse propósito. Os animais e as plantas agem de acordo com seus instintos inatos. Eles são mentalmente subdesenvolvidos, e por isso seus cérebros também são pouco desenvolvidos. O crânio é muito pequeno, e a porção mental de consciência é suficiente para eles; não há nenhuma necessidade ou há pouca necessidade das camadas subconsciente ou inconsciente. Uma planta obtém prazer ou dor quando seus instintos inatos são estimulados ou desestimulados. Quando os instintos inatos de uma planta ou de um animal são estimulados eles obtêm prazer, e quando os instintos inatos são desestimulados, suprimidos ou oprimidos, eles sentem dor. Mas no caso da psicologia humana, o movimento humano psicoespiritual não pode ser suprimido, não pode ser interrompido. Nisto consiste a especificidade da existência humana.

Agora, vejamos o yoga. Yoga é a mais desenvolvida e mais valiosa expressão das práticas humanas, por isso, na primeira fase do yoga, o ser humano se expressa através de várias artes e ciências. O ponto culminante de todos os movimentos artísticos e o ponto máximo de todos os ramos da ciência é a fonte suprema, a fonte perene de todas as energias, a morada suprema de todas as energias. Parama Purus’a, a Entidade Suprema, é o Pai de todos, a Matriz Causal de todos os seres criados do universo, animados e inanimados. É por isso que para todas as pessoas, inteligentes ou ignorantes, magras ou gordas, escolarizadas ou não-escolarizadas, a Entidade Suprema é o ponto culminante, o Desideratum de toda expressão humana. Quando os seres humanos carecem do espírito desse movimento, eles perdem o status de um ser humano. Todos vocês, rapazes e moças, devem se lembrar dessa suprema expressão da verdade.

P.R.Sarkar -14 de Setembro de 1979, Istanbul

(Ananda Vacanamrtam Parte 14)