23/08/2008

ABORDAGEM SUBJETIVA ATRAVÉS DE UM AJUSTAMENTO OBJETIVO

À proporção que a esfera do conhecimento aumenta, muitos segredos do mundo deixam de ser segredo. O Yoga é um desses segredos. É um culto, e, pela prática desse culto, a pessoa entra em contato com os fatores causais de muitos segredos. Há cerca de 7000 anos, um grande iogue, Sada’shiva, sistematizou diferentes ramos do Yoga. A sua esposa, Pa’rvatii, também era uma yoguini e, para o bem-estar de toda a sociedade humana, o Senhor Shiva e Pa’rvatii deram tudo de si para criar um culto prático. As questões formuladas por Párvatii a Shiva e as repostas dadas por Ele formam conjuntamente os Shastras. Agora, muitas questões importantes da mente humana foram feitas a Shiva. Estas perguntas, isto é, a parte que diz respeito às perguntas é conhecida como Nigama; e a parte que diz respeito às respostas, como Ágama. O nome que engloba os dois, Nigama e Ágama, é Tantra.
Uma vez Párvatii perguntou a Shiva: “Oh, Senhor! Para muitas obrigações, muitas responsabilidades existe um mínimo de qualificações prescritas; para um determinado trabalho, certas qualificações são necessárias. Assim, para alcançar a salvação, qual é a qualificação mínima?” Shiva disse que a qualificação mínima para alcançar a salvação é apenas possuir um corpo e uma mente humana. Isto é suficiente. Não há barreiras raciais, ou de cor, ou de lugar, ou barreiras de qualquer tipo. Ele disse:

“A’tmajina’namidam’ devi Param’ Moks’aaekasa’dhanam,
Sukrtaerm’navo Bhu’tva’ Jina’niice Moks’ama’pnuya’t.”
“Para alcançar a salvação é preciso conhecer a si mesmo; e, ao conhecer a si mesmo, atinge-se a salvação.”

Agora, vejamos o que é conhecimento e o que é autoconhecimento. O que é auto-realização? A mente humana possui três tipos de movimento. O primeiro é a projeção extro-interna, quer dizer, o objeto externo move-se para o âmbito interno da existência. O segundo tipo é a projeção intro-externa. Neste, o sentimento surge do âmbito interno e é expresso no mundo físico. E o terceiro é o movimento da mente em direção ao espirito.
Geralmente, “conhecer” significa a subjetivação da objetividade externa. Quando o objeto externo se unifica à porção objetiva da mente – o que ocorre na câmara objetiva da mente – chama-se a isso de conhecimento ou capacidade cognitiva. E o que é autoconhecimento ou auto-realização? Neste caso, a mente conhece o espírito, isto é o movimento da mente é em direção ao espírito. Agora, como pode a mente conhecer o espírito, quando o Espírito Supremo, o Parama Pitá, a Entidade Suprema, é a Entidade Onisciente, a única Entidade Onisciente deste mundo? O Ser Supremo, Parama Purusá, é onisciente. Ele não apenas vê o que você está contemplando e quais as ondas de pensamento de sua mente. Ele é onisciente, e você é o objeto d’Ele. Ele vê o que você faz. Ele é o sujeito, e você é o objeto. Come pode, então, a mente conhecê-Lo? Quer dizer, como pode a mente ser o sujeito e Ele o objeto? Ele vê a sua mente. Como pode a sua mente vê-lo? Como pode a sua mente aceitá-Lo como objeto e ser o sujeito? Aí está o segredo d’Ele. Qual é o segredo? Isto é, o que quer que você esteja fazendo, o que quer você esteja pensando, você deve sempre se lembrar de que suas ações, seus pensamentos estão sendo testemunhados por Ele. Se você lembrar disso, Ele permanece como o sujeito e você como o objeto.
Mas, o que acontece? Por você estar sempre pensando em Parama Purusá, Ele indiretamente também se torna o objeto, embora, na verdade, Ele seja o sujeito e você o objeto, já que Ele é a Entidade que tudo testemunha. Esta é uma política inteligente do devoto. Os devotos são muito inteligentes, não apenas inteligentes mas também muito espertos. Devido às suas mentes desenvolvidas, às suas mentes e aos seus intelectos elevados ao mais alto grau, eles trazem a Entidade Suprema para dentro da periferia de suas mentes. Portanto, o caminho da devoção ou o caminho da espiritualidade é para aqueles que são extremamente inteligentes ou espertos. Aqueles que pensam que Parama Purusá não os está vendo são os mais tolos dos tolos.
O Senhor Shiva disse que a mínima qualificação é uma mente e um corpo humanos, e com a ajuda deles qualquer um pode alcançar a salvação. As pessoas podem entrar em contato com Ele, porque é somente a mente humana que pode pensar que Parama Purusá está testemunhando todas as Suas atividades e todos os Seus pensamentos. Quando a pessoa se estabelece nessa posição, se diz que ela alcançou a salvação.
Existem tantos seres criados. Estes fatores qüinqüelementares do mundo – ar, água, terra etc. – também são criações cósmicas, porém suas mentes estão em uma condição inerte. Elas não podem funcionar independentemente. No caso dos protozoários, existe a mente, mas ela é guiada por instintos inatos. No caso das plantas, existe a mente, mas também é guiada por instintos inatos. Não há neles o pensamento independente. No caso dos animais, no caso dos metazoários, há o instinto inato, mas não o pensamento individual. Mas no caso dos metazoários desenvolvidos, dos animais desenvolvidos, existe um pouco de mente independente, e, entre estes metazoários desenvolvidos, aqueles que entram em contato com os seres humanos, como resultado de choques e coesões no mundo intelectual e na estrutura intercelular, suas mente se desenvolvem um pouco mais, como os cães, os macacos etc. Eles possuem um mente mais desenvolvida por estarem em contato íntimo com os seres humanos. Porém, no caso dos seres humanos, a mente se torna altamente desenvolvida, e, com essa mente desenvolvida, uma pessoa pode sentir que, o que quer que ela faça, o que quer que ela pense está sempre sendo testemunhada por Parama Purusá. Ninguém pode fazer nada secretamente. Agora, todas as coisas são criações do Pai Supremo, porém, na fase da introversão [Prati-Saincara
[1]], como resultado de choques e coesões, a mente se desenvolve, e o estágio do homem, dos seres humanos, é o mais desenvolvido no processo da introversão. Portanto, os seres humanos são abençoados, porque eles podem sentir o charme, o amor e a existência todo-abrangente do Senhor Supremo.
Vocês todos são seres humanos. Vocês todos são humanos dignos. Esqueçam todas as tendências fissíparas que algumas vezes funcionam dentro da mente humana. Lembrem-se: vocês são as crianças amadas de Parama Purusá, e sua Meta é Parama Purusá. O seu objetivo é a Entidade Suprema. Sua abordagem subjetiva através de um ajustamento objetivo. O movimento de vocês é em direção à Entidade Suprema. Todavia, enquanto seguem em direção à Entidade Suprema, vocês têm que fazer todas as suas atividades mundanas nas esferas sociais, econômicas e outras mais. Isto é, as suas mãos devem cuidar das obrigações mundanas, enquanto a mente deve se conduzir em direção à Entidade Suprema.
(P.R. Sarkar - A.V.M. Parte XII – Kingston, 21/09/1979)
[1] N.T.: O fluxo da Consciência Cósmica (Parama Purusá) se desenvolve em duas fases contrárias uma à outra. Na primeira fase, chamada de Saincara, também definida como fase da extroversão, a Consciência é crudificada pelo Princípio Operativo Supremo (Prakrti) até o estado sólido. Na segunda, chamada de Prati-Saincara, ou fase da introversão, a Consciência solidificada, através de choques e coesões, se desenvolve de volta ao estado original, passando pelos reinos vegetal, animal e humano, até alcançar a união com a Entidade Suprema. Este é o chamado fluxo de Bramacakra (círculo de Deus).

08/08/2008

A HUMANIDADE ESTÁ NO LIMIAR DE UMA NOVA ERA

Na fase primordial da civilização humana, há cerca de um milhão de anos, quando os seres humanos mal haviam se desenvolvido aqui na Terra, os seus cérebros eram pequenos e suas células nervosas tinham capacidade muito limitada para pensar e expressar idéias. Mas agora, os seres humanos são criaturas desenvolvidas; os seus cérebros tiveram um aumento considerável em tamanho, e suas células nervosas estão mais desenvolvidas e podem elaborar mais pensamentos. Os seres humanos dessa fase primordial da existência eram quase como animais; havia pouca diferença entre os primatas, os proto-primatas e os humanos. A civilização humana estava na sua fase embrionária; não havia nenhuma vida socio-econômico-cultural e dificilmente havia qualquer vida espiritual.
O tempo passou. A humanidade passou por muitas transmutações. As idéias humanas também passaram por mudanças que resultaram no desenvolvimento das células humanas – células protoplásmicas no âmbito físico e células nervosas no campo da intelectualidade. Algumas pessoas se destacaram e se tornaram líderes da sociedade, daí se iniciou a veneração pelos heróis. Esta foi a primeira fase, a fase rudimentar da vida socio-econômico-cultural humana. Uma grande aceleração da espiritualidade ocorreu e os valores humanos aumentaram. Esta foi uma nova era na existência humana. Mal havia vida econômica, mas havia um pouco de vida social e cultural.
As metamorfoses continuaram. Era após era se passaram, e muitos eventos marcaram época, alguns muito importantes outros não. O conjunto de todos esses eventos se tornou a história da humanidade pré-histórica.
Então, finalmente, nessa primeira fase da pré-história, a era da intelectualidade se iniciou. Nessa era certamente havia muito mais extravagâncias intelectuais. Os dogmas tomaram o espaço da simplicidade; e, em nome de tantas fés, crenças e cultos, muitos dogma conduziram a vida social. Esses cultos, crenças e fés não contribuíram para elevar o progresso coletivo dos seres humanos – na verdade, eles prejudicaram a nossa sociedade coletivamente, não apenas em um ponto determinado da Terra mas por todo o mundo. Estes dogmas eram a via principal da vida humana e a maioria da sociedade estava motivada por eles. Aqueles que se guiavam pela racionalidade e resistiam a esses dogmas, eram tratados como pessoas indesejáveis.
Mas, após essa fase, esses dogmas rapidamente foram substituídos pela racionalidade. Os seres humano com seus cérebros e células nervosas desenvolvidas começaram a sentir que não deviam trabalhar somente para uma tribo, um clã ou uma nação, em particular, mas que deviam trabalhar para a humanidade do cosmo inteiro.
Porém, mesmo essa visão expandida não será o suficiente para nos fazer merecedores desta forma humana. Na presente era, devemos uma vez mais pensar no que fazer. A humanidade constitui o ápice da existência? Não, não, não, certamente não. O universo não consiste apenas de seres humanos; outras criaturas, outros animais e as plantas também possuem o direito de viver. Portanto, o nosso universo não é o universo dos seres humanos apenas, mas o universo de todos – de todas as entidades criadas, tanto animadas com inanimadas.
A humanidade está, agora, no limiar de uma nova era. Esta nossa era é a era do neo-humanismo – a humanidade que provê o elixir da vida para cada um e para todos. Nós somos para todos, e com todos os recursos da existência, temos que construir uma sociedade humana, uma sociedade neo-humanista. Portanto, não devemos perder nosso tempo – deve existir máxima utilização de todas as potencialidades humanas. Se nos atrasarmos no cumprimento de nossas obrigações, as nuvens negras da destruição completa subjugará a nossa existência. Devemos estar conscientes disso; e não devemos perder nem mesmo um único momento de nossa valiosa existência.
Tantos eventos históricos, tantos eventos para entrarem nos anais da história estão por ser criados por nós – devemos assumir esta grande responsabilidade pelas eras futuras. Dogmas, nunca mais; dogma nunca mais – esta é a era do neo-humanismo.
Os sentimentos de toda humanidade são os mesmos; as expectativas de uma vida digna são as mesmas para todos. As exigências e as necessidades de todos os seres humanos são as mesmas, e assim a humanidade é uma entidade singular — é una e indivisível. Portanto, devemos manter equilíbrio entre os diferentes seres humanos por um desenvolvimento global, sem discriminação de casta, crença ou nacionalidade. Não deve existir nenhuma escassez de água e alimento no mundo. Ainda existem muitos lugares onde há água em abundância, e onde a produção de alimentos pode ser aumentada. Logo, todos esses potenciais podem ser distribuídos por todo o mundo. Em nenhum lugar do mundo as pessoas devem morrer de fome. Nós somos para todos os outros – e todas as coisas são para todas as pessoas.
Quantos evangelhos da paz, quantos textos e sermões já foram pregados. Mas, os assim-chamados “apóstolos da paz” não foram sinceros em sua missão. Não queremos mais sermões – queremos algo prático para o benefício de toda a raça humana, e, como resultado da elevação de todos os seres humanos, todas as entidades animadas e inanimadas também serão elevadas. Logo, o que é necessário agora é a elevação da mente humana e do espírito humano. Não necessitamos de mais dogmas – necessitamos cada vez mais de racionalidade, de movermo-nos para o objetivo final, Parama Purusá, o Desideratum Supremo, o núcleo universal do cosmos.
Muitas ondas vibratórias já foram emanadas do Núcleo da ordem cosmológica. Cada existência tem o seu próprio comprimento de onda e ritmo peculiar; porém quando o movimento é na direção da Entidade Suprema, todos os diferentes ritmos se tornam um. Tantas cores existem se movendo, com tantos comprimentos de onda – mas quando elas forem até a Etapa Final Suprema, e todos os ritmos forem unificados, haverá a unidade completa. Não haverá nenhuma heterogeneidade; todas as coisas se tornarão homogêneas na etapa final de nossa marcha universal.
Portanto, somente o neo-humanismo pode salvar o nosso universo, somente ele pode salvar a existência humana. Assim, devemos agora, cantar as canções do neo-humanismo. Devemos esquecer todos os erros do passado. Temos um futuro radiante – a luz carmim desse futuro está irrompendo pelo horizonte escuro do presente. Devemos dar-lhe as boas-vindas – não há outra alternativa a não ser essa.
Quando estivermos predispostos à alegria, deveremos distribuí-la por todo o universo – que todos os corações em todo o universo criado dancem em êxtase. Este é o objetivo do momento presente: nós somos para todos, nós somos para o progresso neo-humanista de todo o universo.

P.R. Sarkar -(Abhimata, 5/103 – Ranchi, 26/05/1984)