07/05/2008

O QUE É A ENTIDADE CÓSMICA? - Parte II

Foi esclarecido que Brahma existe e também que Ele é Paramátman, ou Bhúmácaetanya, a Consciência Universal ou Consciência em sua totalidade.

Bhúmácaetanya (Consciência Cósmica, ou Consciência em sua totalidade) também é conhecido como Citishakti ou Purus'a. Foi explicado também que Prakrti é um princípio, uma força ou energia singular de Purus'a (Consciência) e que Ela qualifica Purus'a. Prakrti é um princípio de Purus'a, ou seja, Ela está tão entrelaçada com Ele que é impossível separá-los. Eles são inseparáveis como o fogo e sua propriedade calorífica. Assim como estes dois não podem ser separados, Purus'a e Prakrti também não podem. Prakrti é uma força singular – o princípio qualificador de Purus'a. A força (ou princípio) que proporciona uma característica ou propriedade a alguma coisa não pode se separar dela.

Igualmente, mesmo que Purus'a e Prakrti sejam duas entidades distintas, elas não podem ser separadas uma da outra. Purus'a deve existir onde quer que Prakrti exista, e o termo coletivo para os dois é Brahma.

Purus'a também é conhecido como Jinána, Caetanya ou Consciência. Com base nestes termos, podemos deduzir a existência de algo, mas não podemos visualizar nenhuma figura ou forma. Podemos apenas formar uma idéia sobre Purus'a, ou Caetanya, com a ajuda de nosso bhávaná (fluxo 'introversivo' de nossa mente objetiva). Assim, Purus'a ou Caetanya é uma entidade abstrata, que só pode ser contemplada por nossa mente através da sua expressão objetiva. Prakrti – o princípio qualificador dessa entidade abstrata – também só pode ser compreendida como uma energia, princípio ou força, e mesmo que esteja qualificando a coisa mais bruta que exista, não poderá ser vista. A sua forma ou imagem não pode ser descrita. O fogo é uma entidade bruta e seu atributo, a sua capacidade de queimar, também é uma qualidade bruta. Entretanto, mesmo este atributo não pode ser visto. Não importa o quão bruto seja o atributo de alguma coisa, ele será sempre sutil na sua forma. Uma energia ou princípio nunca poderá ter uma forma. Ela não poderá ser vista ou escutada. Além disso, Prakrti, que é uma força ou princípio singular, é uma entidade sutil. Tanto Purus'a como Prakrti são sutis. Brahma, o nome coletivo para essas duas entidades, também é sutil e só poderá ser contemplado no estágio final da fusão da mente com seu criador. Desse modo, Brahma não pode ter qualquer forma ou figura. Seria impossível descrevê-Lo ou mesmo dizer qual é a Sua aparência. Brahma é desprovido de aparência ou forma. Ele não pode realmente ter forma.

Foi explicado antes que buddhitattva é criado por influência de sattvagun'a de Prakrti sobre a consciência individual ou átman. Aham'tattva é formado devido à influência de rajogun'a sobre buddhitattva e, por último, citta é o efeito da influência de tamogun'a sobre aham'tattva. A constituição de citta depende de aham'tattva, uma vez que o seu surgimento resulta da influência da tamogun'a sobre aham'tattva. A existência de citta não é, portanto, independente. Se tamogun'a de Prakrti não influenciasse aham'tattva ou se aham'tattva deixasse de existir, citta não poderia ser formado. Entretanto, a ausência de citta não implica a ausência de aham'tattva ou de Prakrti. Apenas quer dizer que tamogun'a de Prakrti não estaria influenciando aham'tattva e que a existência de aham'tattva independe da presença ou da ausência de citta. Aham'tattva independe de citta. Se usarmos do mesmo raciocínio para explicar aham'tattva, concluiremos que ele, por sua vez, depende da influência de rajogun'a de Prakrti sobre buddhitattva. Porém, a existência de buddhitattva independe da presença ou da ausência de aham'tattva. Da mesma forma, a existência de buddhitattva depende da influência de sattvagun'a de Prakrti sobre a consciência unitária. Porém, a existência da consciência unitária independe de buddhitattva. Por exemplo, o aço pode ser moldado para formar uma panela, entretanto, isto não quer dizer que, se a panela não existir, o aço também não existirá. Uma vez que a panela é feita de aço, ela depende dele, porém, o aço existe mesmo se não houver a panela. A existência do aço é, dessa forma, independente da existência da panela. Do mesmo modo, a consciência unitária independe de buddhitattva. Todas as diferentes formas, de citta a buddhitattva, são dependentes da consciência unitária, já que a existência de cada uma é dependente da outra. Porém, quando chegamos à consciência, percebemos que a sua existência não depende de nenhuma dessas formas. De fato, não podemos encontrar qualquer coisa da qual a consciência dependa. A Consciência é absolutamente independente.

A Consciência, ou Purus'a, é absolutamente independente. Foi visto no parágrafo anterior que ela não depende de coisa alguma e que não tem nenhum começo ou causa primária. Ela é não-causal. Prakrti – princípio qualificador de Purus'a – está destinada a existir onde quer que Purus'a exista. Todavia, isto não quer dizer que Prakrti tenha sido criada por Purus'a. A propriedade calorífica do fogo é seu princípio qualificador, o qual está presente onde quer que o fogo exista. Mesmo assim, esta qualidade não foi criada pelo fogo. Assim como o fogo não pode criar o seu princípio qualificador, também Purus'a não pode criar Prakrti, seu princípio qualificador. Purus'a é até mesmo incapaz de perceber a sua própria existência sem a influência qualificadora de Prakrti. Por isso, Purus'a jamais poderia criar Prakrti. Da mesma forma que ocorre com Purus'a, também a origem ou a causa da criação de Prakrti não pode ser encontrada. Prakrti também não tem causa. Assim, tanto Purus'a como Prakrti não têm causa. Brahma é o nome coletivo para Purus'a e Prakrti. Por isso, Brahma certamente não tem causa.

Brahma não tem começo nem causa primária. Ele não tem origem. Porém, será que Brahma teria uma dimensão ou um fim? Se Ele tivesse, deveríamos descobrir Sua extensão. Para descobrirmos isso, teríamos que medir Brahma. Diferentes objetos são medidos por diferentes instrumentos. Por exemplo, para medir a terra, precisamos de um teodolito [aparelho de topografia]; para pesar grãos comestíveis, precisamos de balança e pesos. Precisamos de um termômetro para medir a temperatura e de um barômetro para medir a pressão atmosférica. O instrumento apropriado depende da natureza do objeto a ser medido. Como vimos antes, Brahma é sutil e Sua expressão é um conceito ideológico. O instrumento para medir Brahma terá de ser sutil. Algo mais sutil do que Brahma terá de ser encontrado para medi-Lo.

Todas as matérias deste mundo podem ser classificadas em cinco fatores fundamentais, ou tattvas. A matéria pode existir como ákásha (fator etéreo), como váyu (fator aéreo), como agni (fator luminoso), como jala (fator líquido), ou como ks'iti (fator sólido). É a presença de tanmátras que permite distinguir uma coisa bruta de uma sutil. Uma coisa bruta tem sempre tanmátras, enquanto uma entidade sutil não tem nenhum tanmátra. Assim, qualquer coisa que possua um maior número de tanmátras será mais bruta. Existem cinco tanmátras: shabda (som); sparsha (vibração táctil); rúpa (forma); rasa (sabor) e gandha (odor). Ákásha – fator etéreo ou a suposta atmosfera sutil além da atmosfera dos planetas – não contém nada que possa ser visualizado. Mesmo assim, ele conduz shabda tanmátra (o som) e é considerado como denso. Váyu (o ar) conduz dois tanmátras: shabda e sparsha. Isto é, váyu propaga o som e também pode ser percebido pelo tato. Dessa forma, váyu é mais bruto do que ákásha. Agni, jala e ks'iti são ainda mais brutos, já que podem ser vistos; eles possuem o rúpa tanmátra, além de outros tanmátras. Portanto, todos os cinco fatores fundamentais, ou tattvas, que constituem a matéria, são fatores brutos. De nenhum deles poderíamos obter um instrumento suficientemente sutil para medir Brahma, que é uma entidade sutil.

Nestes cinco fatores fundamentais – ou seja, ákásha, váyu, agni, jala e ks'iti – existe um outro elemento além da matéria. Esse outro elemento é a mente ou antahkaran'a (força psíquica da introversão). Aplicando à mente o mesmo teste que utilizamos para os tanmátras, descobriremos que ela é sutil. Apenas a mente pode ser abstrata; ela não pode conter nenhum tanma'tra. Quer dizer, apenas a mente é sutil e tudo o mais neste universo é bruto. A mente, portanto, é a única coisa a partir da qual se pode obter um instrumento para medir Brahma. Todavia, uma vez que a mente não tem tanmátras, nenhuma forma física ou bruta poderá ser atribuída a ela. Ela não pode ser ouvida, tocada, vista, sentida ou mesmo cheirada. Na ausência destas qualidades, nenhum instrumento pode ser feito a partir da mente. A mente é sutil e possui apenas as seguintes qualidades: ter uma idéia, pensar e sentir. Estes são os meios com os quais a mente poderá medir Brahma.

A mente é formada por buddhitattva, aham'tattva e citta. Buddhitattva é formado por Prakrti quando Ela qualifica a consciência unitária, aham'tattva surge devido à posterior influência de Prakrti sobre buddhitattva. Da mesma forma, citta surge ao ser qualificado por Prakrti. Aham'tattva é a porção da mente que age. A capacidade para realizar qualquer ação existe somente em aham'tattva. Portanto, se Brahma tiver de ser medido pela mente, terá de ser por aham'tattva. Buddhitattva separa a consciência unitária de aham'tattva. Este aham'tattva não será, então, capaz de alcançar a consciência unitária a não ser que passe através de buddhitattva. Mas aham'tattva é apenas uma forma funcional de buddhitattva. O “eu” de “eu existo” de buddhitattva se transforma em aham'tattva quando assume a função de “eu faço”. No momento em que aham'tattva se transforma em buddhitattva, a identidade funcional do “eu faço” de aham'tattva deixa de existir. Aham'tattva não pode se unir à consciência unitária como aham'tattva. Ele terá que se transformar em buddhitattva antes de entrar em contato com a consciência unitária e, nesse estado, não poderá realizar nenhuma função, e muito menos medir a consciência unitária. Uma vez que a mente é incapaz de entrar em contato com a consciência unitária, ela nunca poderá medi-La. Brahma é o nome coletivo para todas as consciências unitárias. Se a mente não pode medir nem mesmo uma única consciência unitária, não se pode levantar a questão se ela poderia medir a entidade que é o múltiplo supremo de todas as consciências unitárias multiplicadas. A mente nunca poderá pensar, sentir ou compreender qualquer idéia da magnitude de Brahma.

A mente pode apenas dimensionar os limites de alguma coisa que esteja dentro de seu domínio. Ela não pode pôr limites a uma coisa situada além de seu alcance. A criação é apenas uma parte de Brahma. (Isto será explicado no próximo capítulo). A mente existe dentro desta criação. Se retrairmos a mente (aham'tattva) até seus limites, ainda assim encontraremos algo além dela, que ela não tem a capacidade de compreender. Dessa forma, a criação se estende além dos limites da mente. Ela é infinita. A criação é apenas uma parte e, se uma parte pode ser infinita, Brahma, o Todo, só pode ser infinito.

O nome coletivo de Purus'a e Prakrti é Brahma. Já foi visto anteriormente que tanto Purus'a como Prakrti são entidades não-causais. Naturalmente, se ambas são entidades não-causais, isto implica que uma é independente da outra. Nenhuma delas está subordinada à outra. O estado de Brahma no qual Purus'a e Prakrti são independentes, por serem não-causais, é o estado supremo de Brahma ou Brahmasvarúpa. Prakrti é um princípio (ou força singular), cuja função é atribuir gun'as (ou dar qualificação) a Purus'a. Ordinariamente, gun'a quer dizer atributo ou qualificação. Em sânscrito, gun'a significa uma corda que é utilizada para amarrar alguma coisa. Atribuir uma gun'a significa amarrar com uma corda. Quando Prakrti qualifica ou atribui gun'as a Purus'a, isto significa que Prakrti está prendendo Purus'a com uma corda e Purus'a está sendo conduzido de acordo com os desígnios e propósitos de Prakrti. Porém, no estado supremo de Brahmasvarúpa, Purus'a é independente. Portanto, nesse estágio, Prakrti não pode qualificar ou colocar Purus'a sob o seu domínio; mesmo assim, Prakrti aí existe junto com Purus'a, já que Brahma é o nome comum para ambos.

Aqueles que estão adormecidos são incapazes de usar suas faculdades ou a sua capacidade de trabalho. Nesse estado, eles estão inativos, ainda que possuam a capacidade de trabalhar. Da mesma forma, Prakrti está inativa em Brahmasvarúpa. Ela não realiza Suas funções, ou é incapaz de executá-las. A função de Prakrti é qualificar ou atribuir gun'as a Purus'a. Purus'a não adquire nenhum atributo ou qualificação quando Prakrti não atua. Logo, Ele está além das gun'as ou existe sem as gun'as.

Considerando o estágio de Nirgun'a Brahma, como é que Prakrti, cuja única função é qualificar Purus'a, deixa de influenciá-Lo ou está incapacitada de qualificá-Lo? Só pode haver duas razões para isto: ou Prakrti está latente e, assim, inativa, ou é mais fraca do que Purus'a e dessa forma incapaz de influenciar Purus'a. Se aceitarmos a primeira hipótese, teremos de admitir que Prakrti está latente em Nirgun'a Brahma ou Brahmasvarúpa. Todavia, em algum estágio, Prakrti qualifica Brahma. Se ela está adormecida no estado de Nirgun'a Brahma, alguém terá de acordá-la para que Ela possa qualificar Purus'a. Em Nirgun'a Brahma, há somente Purus'a e Prakrti. Já que não existe nenhuma outra entidade, somente Purus'a poderia fazer isso. Mas Purus'a, como sabemos, é incapaz até de perceber a própria existência se não for qualificado por Prakrti. Como então poderia realizar a função de despertar Prakrti? Dessa forma, teremos de descartar a possibilidade de Prakrti estar latente em Nirgun'a Brahma, pois, por não haver qualquer outra entidade, não seria possível despertar Prakrti, para que viesse a qualificar Purus'a, fazendo com que Ele se manifestasse como buddhitattva. Então, Prakrti está desperta mesmo em Nirgun'a Brahma. Ela não está adormecida.

A qualidade, dharma ou função de Prakrti é qualificar Purus'a, e uma vez que Ela está desperta em Nirgun'a Brahma, Ela deve qualificar Purus'a. Em Nirgun'a Brahma, Purus'a não está qualificado, mesmo que Prakrti esteja totalmente desperta. Então, a única razão para isto é que Prakrti é mais fraca do que Purus'a em Nirgun'a Brahma. Ela é menos poderosa, e assim é incapaz de qualificar Purus'a. É dessa forma que Prakrti e Purus'a existem em Brahma desde a eternidade. Logo, Purus'a é, por natureza, mais poderoso do que Prakrti, sendo Ele a entidade transcendental e Prakrti é Seu princípio inato. O estado em que Prakrti é mais fraca do que Purus'a e incapaz de influenciá-Lo ou qualificá-Lo é o estado de Nirgun'a Brahma ou Brahmasvarúpa, ou seja, o estado de Brahma em que Purus'a não está metamorfoseado.

No estado de Brahma em que Purus'a não é influenciado ou qualificado por Prakrti e que, portanto, Purus'a em Brahma permanece não-expressado, Purus'a é chamado de Nirgun'a Purus'a ou Consciência Não-Qualificada. E, no estado em que Purus'a é influenciado ou qualificado por Prakrti, Ele é chamado de Sagun'a ou Gun'ayukta Purus'a, ou Consciência Qualificada. Sagun'a Brahma é, dessa forma, o estágio de Brahma no qual Purus'a é influenciado e qualificado por Prakrti.

Disto surgem duas questões. A primeira: Se Nirgun'a Brahma é Brahmasvarúpa (estágio supremo de Brahma), então, o que poderá ser Sagun'a Brahma? A segunda: Se Purus'a é, por natureza, mais poderoso, como pode ser influenciado e qualificado por Prakrti em Sagun'a Brahma? Em outras palavras, a questão é saber como Sagun'a Brahma surgiu.

Nirgun'a e Sagun'a são somente dois estados diferentes de Brahma. No estado de Nirgun'a, Purus'a e Prakrti existem conjuntamente, porém Prakrti é incapaz de qualificar Purus'a. No estado de Sagun'a, Purus'a e Prakrti também existem juntos, mas aqui Prakrti influencia e qualifica Purus'a. Devido a esta diferença na relação entre Purus'a e Prakrti, o primeiro estado é chamado de Nirgun'a e o último, de Sagun'a Brahma. Rama adormecido e Rama desperto indicam dois estados diferentes da existência de uma mesma pessoa. Isto não significa que são duas pessoas diferentes. Da mesma forma, Nirgun'a e Sagun'a Brahma são dois estados diferentes do mesmo Brahma.

Concluímos anteriormente que buddhitattva surge logo que a consciência unitária é qualificada por Prakrti. Bhúmacaetanya (Parama Purus'a ou Consciência Cósmica) é apenas o nome coletivo para um número infinito de consciências unitárias. Parama Purus'a também tem de seguir os mesmos princípios, ou dharma, como a consciência unitária. As propriedades dos dois devem ser as mesmas, com a única diferença de que o alcance da consciência unitária é finito, enquanto o da Consciência Cósmica é infinito. Isto quer dizer que a criação se manifesta assim que a Consciência Cósmica (ou Parama Purus'a) é influenciada e qualificada por Prakrti. Este estágio no qual Purus'a é qualificado por Prakrti é Sagun'a Brahma. O universo é criado por causa de Sagun'a Brahma.

Nós temos de aceitar a existência de Sagun'a Brahma, pois esta criação, que é formada e surge por causa de Sagun'a Brahma, pode ser apreciada a cada momento de nossa existência. Isto mostra também que Prakrti influencia e qualifica Purus'a em Sagun'a Brahma. Só pode haver duas condições para que Prakrti possa influenciar Purus'a. Ou Prakrti em Sagun'a Brahma é mais forte do que em Nirgun'a, ou Purus'a em Sagun'a é mais fraco do que Prakrti. Prakrti, como sabemos, é um princípio especial ou uma força singular. Ela está presente com a mesma intensidade em todas as partes. Ela pode ser comparada a qualquer energia bruta, como a eletricidade, por exemplo. Uma corrente elétrica que passa por um fio com um quilômetro de comprimento registra 220 volts em cada ponto desse fio. A voltagem não será diferente nos diferentes pontos do fio. Da mesma forma, Prakrti, como uma força singular, estará sempre presente com a mesma força em todas as partes. A questão de Ela ser mais poderosa em Sagun'a Brahma é irrelevante. Purus'a em Sagun'a Brahma deve então ser mais fraco do que Prakrti. Caso contrário, Ele não poderia ser influenciado por Prakrti. Purus'a pode existir tanto de forma condensada como menos condensada no Brahma infinito. A consciência do Brahma Infinito não é a mesma em todas as partes. Prakrti qualifica Purus'a caso Ele esteja mais fraco e menos condensado e, como resultado disto, surge a criação[1]. Prakrti fica impotente e não pode qualificar Purus'a quando a consciência permanece de forma condensada. Purus'a neste estado é não-qualificado, chamando-se de Nirgun'a Brahma – Entidade Cósmica Não-Qualificada.

Brahma é infinito e Seu estado supremo é Nirgun'a. Sempre que Purus'a Infinito (Consciência) em Nirgun'a Brahma está menos concentrado, Prakrti O influencia, dando origem a Sagun'a Brahma. Certamente Sagun'a Brahma existe dentro de Nirgun'a Brahma. Aham'tattva é como um imenso “iceberg” em um oceano. Devido à variação das condições climáticas, uma parte do oceano se congela, formando um “iceberg”, porém o resto da água permanece no seu estado original. Da mesma forma, devido ao domínio de Prakrti sobre Purus'a, sempre que Purus'a está menos concentrado em Nirgun'a Brahma, Ele é qualificado e se torna Sagun'a Brahma. Porém, a parte remanescente d'Ele permanece em Nirgun'a. Sagun'a Brahma, conseqüentemente, existe dentro de Nirgun'a Brahma.

Sagun'a Purus'a (ou Consciência Qualificada) existe dentro de Nirgun'a (ou Consciência Não-Qualificada). Quando Purus'a é qualificado por Prakrti, Ele é chamado de Sagun'a. Vimos anteriormente que o estado supremo de Brahma (ou Brahmasvarúpa) é a Consciência Não-Qualificada. Dessa maneira, Sagun'a Brahma (ou Consciência Qualificada) não é o estado supremo de Brahmasvarúpa; mesmo assim, Ele terá de ser chamado de Brahma, uma vez que tanto Purus'a como Prakrti estão presentes. Sagun'a Brahma pode ser explicado usando-se novamente o exemplo do “iceberg” no oceano. Devido à variação da temperatura, uma parte da água do oceano se transforma em um “iceberg”. Se compararmos Nirgun'a Brahma ao oceano, o “iceberg” poderá ser comparado a Sagun'a Brahma. O gelo do “iceberg” é somente uma forma modificada da água do oceano. O gelo é comparável a Purus'a em Sagun'a Brahma; e a temperatura que congela a água, a Prakrti. A água não-congelada do oceano seria Purus'a em Nirgun'a Brahma. O gelo e a água não-transformada do oceano são somente duas formas diferentes da mesma água, havendo como única diferença a temperatura, que é capaz de transformar uma parte do oceano em gelo e outras não. O gelo é apenas uma forma modificada da água, porém não podemos chamá-lo de água. Ele tem de ser aceito unicamente como uma forma alterada da água. Do mesmo modo, não podemos chamar Sagun'a Brahma de estado supremo de Brahma ou Brahmasvarúpa. Ele é apenas um outro estado de Brahmasvarúpa. Portanto, para atingir a realização de Brahmasvarúpa, ou estado supremo, de Brahma, teremos de conhecer Nirgun'a Brahma. A mera realização do estado de Sagun'a Brahma não leva ao alcance do estado supremo, já que Sagun'a Brahma é apenas um estado alterado da condição suprema.

Então, o que são Bhagaván, Sagun'a ou Nirgun'a? Bhagaván é um termo em sânscrito derivado de bhaga + matup, isto é, aquele que tem bhaga é Bhagaván.

Bhaga significa poder absoluto, benevolência e luz. Bhagaván, então, é aquela entidade mais brilhante, benevolente e onipotente (jyotirmaya, maungalamaya e sarvashaktimán). Assim, Bhagaván possui esses atributos ou qualificações. Dessa forma, Bhagaván é o Purus'a Qualificado (Gun'ayukta). Em Nirgun'a Brahma, Purus'a não está qualificado. Ele está qualificado em Sagun'a Brahma. Logo, Bhagaván é apenas Sagun'a Brahma. Nirgun'a Brahma é o estado supremo de Brahma, ou Brahmasvarúpa. Brahma é somente o Seu outro estado. Portanto, Bhagaván não é o estado de realização de Brahmasvarúpa ou o estado supremo. Para conhecer Brahmasvarúpa, o indivíduo terá de ir além de Bhagaván e obter a realização de Nirgun'a Brahma. Esta é a entidade que terá de ser alcançada.


[1] N.E.: A questão de se saber por que Purus'a está em estado menos condensado do que Prakrti ou em que época Prakrti manifestou interesse em influenciar Purus'a é irrelevante. Isto porque a relação causal é apenas uma ação mental. Nem a Mente Cósmica nem a mente unitária existiam antes de Sagun'a Brahma. Mahattattva, Aham'tattva etc. também não tinham sido criados. Portanto, a lei de causa e efeito (relação causal) não existia. Investigar a causa da criação de Brahma está além do alcance da mente. Diz-se no Veda (Násadiiya Súkta) que mesmo Brahma não sabe a razão pela qual veio a existir. Isto é absolutamente verdadeiro. Se Brahma soubesse a causa de sua criação, nós não poderíamos dizer que Brahma é não-causal. Se Brahma fosse causal, Ele estaria submetido à lei de causa e efeito (relação causal) e teria havido outras entidades antecedentes, o que somente desfiguraria seu caráter de entidade infinita.

P.R.SARKAR - Filosofia Elementar da Ananda Marga