24/06/2008

COMO OS SERES HUMANOS DEVERIAM VIVER NESTE MUNDO? - Parte - VI

Os seres humanos têm uma consciência claramente refletida, que os torna capazes de agir com independência e também de discernir entre o bem e o mal. O bem e o mal são idéias relativas; é preciso determinar o que é bem e o que é mal.
O objetivo da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) em gerar a criação é libertar todos os seres unitários e torná-los seres emancipados como Ela própria se tornou. É com essa única intenção que, na última fase do movimento evolucionário do estado bruto para o sutil, os seres humanos, constituindo apenas uma porção ínfima de seres, surgem com uma consciência claramente refletida.


A influência que Prakrti exerce sobre a consciência unitária diminui na medida em que essa consciência progride em direção ao estado sutil. Vemos então que, nos seres humanos, a consciência está sob a influência de Prakrti em menor grau do que a consciência unitária dos animais. Essa diminuição da influência de Prakrti sobre a consciência unitária, obviamente, é determinada por Sagun'a Brahma.
A Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) e Prakrti devem ter entrado em comum acordo desde o início da criação para que isso acontecesse; caso contrário, Prakrti, cuja natureza é qualificar Purus'a ao máximo, não libertaria Purus'a de Sua influência. Na fase da criação em que o movimento é do estado bruto para o sutil, observa-se que Prakrti liberta a Consciência (Purus'a) de seu domínio, por Sua própria vontade. Ainda assim, a consciência unitária permanece sob o domínio de Prakrti, porque o movimento da criação do estado bruto para o sutil não chegou ao fim. Por estar em posição de subordinação, qualquer entidade consciente que agir de forma independente será punida por Prakrti, pois essa é a Sua natureza. Como resultado da punição, o movimento evolucionário da consciência unitária em direção ao sutil é temporariamente afetado.
Na criação, observa-se que a influência de Prakrti é menor quando o reflexo da consciência é mais nítido. Se a consciência unitária expandir e ampliar o seu reflexo, ela aumentará sua velocidade em direção ao estado sutil, na medida em que Prakrti diminui Sua influência sobre ela. Dessa forma, a consciência unitária poderá retornar, rapidamente, ao estado de sutileza total.
Portanto, boas ações são aquelas ações que aumentam o reflexo da consciência e não contrariam as leis de Prakrti. A obediência às leis de Prakrti e a atuação de acordo com os Seus ditames eliminarão o sofrimento do resultado das ações (karmaphala), do mesmo modo que a expansão do reflexo da consciência diminuirá o domínio de Prakrti. Isto torna o ser humano capaz de voltar ao estágio supremo rapidamente. As ações que fazem com que a pessoa siga as leis de Prakrti e que, ao mesmo tempo, ampliam o reflexo da consciência são chamadas de uttama karma (ações ideais) e também são conhecidas como Vidyámáyá – um princípio que está associado com vaerágya e viveka.
O termo vaerágya é comumente interpretado como a atitude da pessoa que abandona o mundo e leva uma vida de extrema austeridade. Vaerágya não significa isso, e não quer dizer que a pessoa tenha de se tornar reclusa. O único significado de vaerágya é tentar compreender o uso correto das coisas e usá-las adequadamente (obviamente, agir sem se deixar dominar pelos objetivos rudes da mente). Por exemplo, o álcool é um produto tóxico, que causa dano tanto ao corpo quanto à mente; por conseguinte, seu uso deve ser evitado. Contudo, os médicos prescrevem remédios compostos de álcool para a cura de várias doenças; então, o álcool, um produto tóxico, transforma-se em remédio, aliviando a dor de seus pacientes. Assim, uma mesma substância usada em circunstâncias diferentes altera a sua natureza, mudando a sua característica de produto tóxico para a condição de remédio. A utilização do álcool como remédio é correta, e a pessoa que o utiliza com o propósito de curar doenças não se coloca sob seu efeito dominante. Vaerágya é a correta utilização de uma coisa. A utilização correta de qualquer objeto, obedecendo à idéia de vaerágya, não escraviza a mente ao desejo compulsivo por esse objeto. A pessoa torna-se indiferente a ele. Quando desenvolve a indiferença ou não se sente atraída constantemente por coisas materiais, a mente se torna sutil. O movimento da mente em direção ao sutil significa que Prakrti diminuiu a sua influência sobre a mente, e isto constitui um progresso em direção à libertação (mukti), uma vez que a libertação só é possível quando a pessoa está livre da influência de Prakrti.
O discernimento entre o bem e o mal é viveka. Viveka é considerar o uso do álcool como maléfico, quando consumido como um produto tóxico, e como algo benéfico, quando é utilizado como remédio. Uma coisa pode ser boa ou má, dependendo do uso que se der a ela; e a este discernimento entre os dois usos dá-se o nome de viveka. Apenas quando usa o discernimento é que a mente pode determinar se uma coisa é benéfica ou maléfica de acordo com o seu uso. Viveka, portanto, é um requisito necessário para seguir vaerágya, e vaerágya é um fator que contribui para atingir a emancipação (mukti). Assim, somente vaerágya e viveka constituem boas ações, ou Vidyámáyá. Más ações, ou Avidyámáyá, são exatamente o oposto disto. As ações que diminuem a expressão da Consciência e levam a pessoa a infringir as leis de Prakrti são consideradas más ações.
A evolução da consciência unitária é medida apenas pelo reflexo da consciência, que se torna cada vez mais nítido e mais intenso, na medida em que a mente se torna mais sutil. Isto só será possível se a velocidade do movimento em direção ao estado sutil for aumentada, pois só assim a mente será capaz de se tornar sutil.
Quanto mais a mente é absorvida pelos objetivos do mundo material, tanto mais a consciência unitária regride, porque o reflexo da consciência unitária se torna enfraquecido na medida em que aumenta a expressão de Prakrti. Enquanto a mente está absorvida pelo mundo rudimentar, ela permanece sob maior influência de Prakrti, interrompendo, dessa forma, a marcha progressiva da consciência unitária. Assim, as ações que levam a pessoa a infringir as leis de Prakrti interrompem sua marcha evolutiva em direção ao estado sutil, porque as conseqüências da punição aplicada por Prakrti têm que ser sofridas antes de haver qualquer progresso, ficando então a consciência unitária impedida, durante esse tempo, de alcançar o estado sutil.
Aquelas ações que conduzem a mente para os objetivos materiais ou densos e que fazem a pessoa agir de forma contrária às leis de Prakrti são más, ou inspiradas em Avidyámáyá.
Avidyámáyá é a criadora dos seis inimigos, ou s'ad'ripu, e das oito amarras, ou as't'apásha.
OS SEIS INIMIGOS:
1) Kama (desejos por coisas materiais)
2) Krodha (ira)
3) Lobha (avareza)
4) Moha (apego às coisas materiais)
5) Mada (orgulho)
6) Mátsarya (inveja)

OITO AMARRAS:
1) Bhaya (medo)
2) Lajjá (vergonha)
3) Ghrn'á (ódio)
4) Shaunká (dúvida por medo)
5) Kula (orgulho de nome ou prestígio de família)
6) Shiila (orgulho da própria cultura)
7) Mána (vaidade)
8) Jugupsá (maledicência e hipocrisia)

S'at significa seis; e ripu, inimigos. Essas seis faculdades dos seres humanos são chamadas de inimigos, pois elas fazem com que a mente fique absorvida pelos objetos do mundo material, impedindo-a de seguir adiante em sua jornada para o estado sutil. O estágio supremo da consciência unitária é a sutileza, e todas as coisas que a impedem de atingir essa meta são consideradas suas inimigas. Essas seis faculdades da mente são, portanto, denominadas suas seis inimigas.

As't'apásha significa oito amarras. Qualquer pessoa atada por grilhões perde a capacidade de se movimentar. Na criação, vemos que o movimento dos seres humanos é do estado bruto para o estado sutil. Quer dizer, eles terão que se conduzir em direção ao estado sutil, mas como estão atados pelas oito amarras (lajjá, bhaya, ghrn'a etc.), ficam absorvidos pelas coisas mundanas, e o seu progresso em direção ao sutil é interrompido.
Seguir Vidyámáyá seria considerado uma boa ação, enquanto seguir Avidyámáyá seria uma má ação. Vidyámáyá leva a pessoa gradualmente ao estado sutil, enquanto Avidyámáyá impede o progresso em direção à sutileza. De acordo com a norma da criação, o movimento humano deve ser em direção ao sutil, devendo os seres humanos seguir Vidyámáyá, para que seu movimento em direção ao estado sutil seja acelerado e eles voltem rapidamente ao Estágio Supremo.
Aqueles que seguem Vidyámáyá podem ser classificados em quatro categorias.
Em primeiro lugar estão as pessoas boas, as que seguem as leis de Prakrti e se esforçam pelo progresso da consciência unitária. Em segundo, estão aquelas pessoas que seguem as leis de Prakrti, mas que não se esforçam para garantir o progresso da consciência unitária. Em terceiro, estão aquelas pessoas que não seguem as leis de Prakrti e que são indiferentes aos esforços que visam ao progresso da consciência unitária. Estas são consideradas as de categoria inferior. E em quarto lugar estão aquelas pessoas que não apenas não seguem as leis de Prakrti, como também contribuem para a degradação de suas próprias consciências unitárias. Estas são as de categoria ainda mais inferior.
O propósito da Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) ao criar os seres humanos foi fazer com que eles seguissem seu rumo em direção ao estado sutil, de forma a reconduzi-los ao Estágio Supremo. Isto constitui a natureza (dharma) dos seres humanos. Para retornar ao Estágio Supremo é necessário um esforço que eleve a consciência unitária, bem como é preciso que as ações individuais sigam as leis de Prakrti, para que Prakrti não crie obstáculos ao progresso. Portanto, as pessoas da primeira categoria, isto é, as pessoas boas, são “naturais” (prakrta manusya), uma vez que elas agem de acordo com sua natureza (dharma) e somente elas servem ao propósito para o qual a Entidade Suprema Qualificada (Sagun'a Brahma) as criou.
Os animais também seguem as leis de Prakrti, mas devido à ausência de manifestação clara da consciência unitária, eles não são capazes de fazer qualquer esforço para a elevação de sua consciência. As pessoas da segunda categoria, que apenas seguem as leis de Prakrti, não são diferentes dos animais. Elas não fazem uso de sua consciência unitária claramente expressada. Elas podem ser consideradas como nada mais do que animais na forma humana.
Aquelas pessoas da terceira e da quarta categoria são inferiores aos animais. Os animais seguem as leis de Prakrti, embora não façam nenhum esforço para a elevação de sua consciência unitária, já que esta, neles, não está claramente manifestada. Por estarem na completa dependência de Prakrti em todas as suas ações, os animais, com o passar do tempo, desenvolvem uma consciência unitária com reflexo pleno. Mas os seres humanos das categorias inferiores não fazem uso da consciência manifestada em si, agindo contra as leis de Prakrti; e os da categoria mais baixa proporcionam a degradação de suas próprias consciências unitárias por meio de suas ações. Estes, não só agem como animais na forma humana, como são até inferiores aos animais.
No capítulo anterior foi mencionado que as reações resultantes das ações (karmaphala) têm de ser vivenciadas. Ninguém é poupado dessas reações: as reações a cada uma das ações devem ser sofridas por quem as praticou. Há muitas pessoas que, com a intenção de se livrar do sofrimento resultante das suas próprias ações, tentam diversos métodos. Será abordado adiante até que ponto seus métodos e tentativas são baseados em um raciocínio lógico e se essas pessoas conseguem se livrar das reações.
Muitos acreditam que, neutralizando a influência das estrelas (grahashánti) ou fazendo rituais de sacrifício e arrependimento (práyashcitta), seria possível se livrar das conseqüências de suas ações. Essa crença não está correta porque, de acordo com as leis de Prakrti, cada ação deve ser seguida por sua reação. A mente precisa retornar ao seu estado normal através da reação. Esta é a lei de Prakrti, e ninguém pode se livrar deste princípio.
Há, contudo, maneiras de acelerar ou retardar a velocidade das reações que restituem o estado normal da mente. Reações que levariam um mês para reconduzir a mente ao estado normal podem, com a ajuda do Tantra, ter seu processo acelerado ou retardado e ser experimentadas num dia ou num ano, embora não seja possível evitá-las completamente. Por exemplo, alguém pode fazer um empréstimo de cem rúpias, sob a condição de devolver essa soma no período de um mês. Entretanto, será possível persuadir a pessoa que emprestou o dinheiro a prolongar o prazo de devolução em até um ano ou mesmo dois, mas não será possível livrar-se dessa dívida. Da mesma forma, uma pessoa que tenha depositado em sua conta a quantia de 150 rúpias, com a intenção de gastá-la em um mês, usando cinco rúpias por dia, poderá gastar as 150 rúpias em um único dia, ou seguir a programação original e gastar no período de um mês o valor depositado. O dinheiro será usado apenas pela pessoa para quem ele foi creditado, quer esse uso seja feito em um dia ou em um mês.
Como nos exemplos anteriores, com a ajuda de práticas tântricas, o modo de experimentar a reação à ação original pode sofrer transformações, mas a experiência da reação em si (ou destino) não pode ser evitada. O karmaphala – conseqüências, ou reações às próprias ações – terá que ser suportado pela pessoa. Quando muito, a intensidade do sofrimento dessas experiências poderá ser reduzida ou aumentada, ao se acelerar ou desacelerar a velocidade das reações. É possível que a devolução das 100 rúpias do exemplo anterior em uma única parcela seja muito difícil para a pessoa que pediu o dinheiro emprestado, mas essa mesma devolução, feita em parcelas menores, poderá não afetar o devedor. O período de sofrimento, então, seria dilatado com a ajuda das práticas tântricas, de tal forma que a pessoa não sentisse a intensidade do sofrimento. Com isso, ela poderia concluir erroneamente que a experiência das reações (karmaphala) teria sido afastada ou eliminada, devido ao efeito de grahashánti, isto é, ao efeito neutralizante das estrelas. Por exemplo, se ao ler o futuro de uma pessoa for verificado que ela terá de suportar o sofrimento mental causado pela fratura de um braço, é possível, com a ajuda de grahashánti, evitar a fratura do braço, exatamente, mas a quantidade de sofrimento mental não poderá ser modificada ou mesmo suprimida. O sofrimento poderá ser distribuído por um longo período de tempo, através de numerosos incidentes de menores proporções. Assim, neste caso, a mão da pessoa poderá sofrer uma pancada que venha a deixá-la doente, e ela poderá sofrer reações menores até que a quantidade de incidentes se iguale ao sofrimento mental que ela estava destinada a passar com a fratura do braço, como no exemplo acima, em que o devedor pagou a dívida em pequenas parcelas até que a divida de 100 rúpias foi liquidada. Aqui, o pagamento do débito total representa o sofrimento mental do braço fraturado, como se a dívida fosse paga em uma única parcela. Contudo, através de uma apelação e da insistência dirigida ao credor, isto é, através do efeito neutralizante das estrelas (grahashánti), a dívida foi paga em pequenas parcelas. Mas até que toda a dívida seja paga, os pagamentos terão que continuar a ser feitos.
Da mesma forma que é possível estender o período de vivência das ações com a ajuda de grahashánti, também é possível diminuir esse período. Algumas pessoas, por exemplo, acreditam que certas pedras preciosas, como a safira, podem mudar a forma de experimentar as reações. Ao usar tais pedras, pode-se ganhar uma fortuna numa loteria ou uma promoção no trabalho, fazendo com que a pessoa acredite que sua sorte ocorreu por causa do efeito de grahashánti, mas na verdade isso não teria ocorrido. O destino ou o quantum de experiências resultantes das próprias ações não podem ser evitados ou mudados. Foi explicado anteriormente que as ações que geram felicidade aos outros dão ao seu autor a mesma quantidade de felicidade, em termos de satisfação mental. O quantum de felicidade e sofrimento a ser experimentado não pode ser mudado. Somente o período de duração da experiência pode ser aumentado ou diminuído. No exemplo anterior, referente ao depósito de 150 rúpias, vimos que o beneficiado pode utilizar a quantia depositada gastando cinco rúpias por dia, ao longo de um mês, ou encurtar esse período, gastando-a em apenas um dia. Qualquer alteração no destino, provocada por grahashánti, é semelhante a isso. Por exemplo, um prêmio de mil rúpias ganho na loteria, devido ao poder da safira, representa a quantia que a pessoa deveria ganhar em pequenas parcelas num longo período de tempo. Esse dinheiro é recebido numa única parcela, desequilibrando o recebimento de futuras parcelas. Contudo, ao receber essa quantia de uma só vez, a pessoa acredita que grahashánti ou o uso da safira azul mudou seu destino.
Na verdade, o destino, ou a experiência das reações (karmaphala), jamais pode ser mudado. Apenas o tempo de duração da experiência é que pode ser mudado. Por isso, as pessoas que realizam práticas intuitivas (sádhaná) com a intenção de alcançar a emancipação, experimentam prazer e dor, felicidade e sofrimento rapidamente, de modo a completarem a experiência de suas reações tão rápido quanto possível.
Aqueles que desejam emancipação (mukti) querem realizá-la nesta vida, e assim vivenciam rapidamente suas reações (sam'skaras), para que nada seja deixado para uma outra vida e para que possam ser libertados das amarras de Prakrti.
Algumas pessoas pensam que as conseqüências das más ações podem ser compensadas ou eliminadas pelo resultado das boas ações. Elas acreditam que, se as más ações forem equivalentes às boas ações, não haverá saldo de reações a ser experimentado. Isto não tem acontecido e seria impossível que acontecesse. Já foi visto antes que tanto as boas ações como as más causam deformação na mente. No processo de readquirir a forma normal, a deformação é removida por uma reação igual e contrária. Portanto, as deformações causadas pelas más ações não podem ser removidas pelas boas ações, pois estas também causam deformação. Deve haver uma reação independente, de efeito igual e contrário a cada ação. Tendo em conta que cada deformação é removida por uma reação independente, a pessoa terá que sofrer as reações das boas e das más ações separadamente. Assim, o resultado das boas ações não pode ajudar a pessoa a se livrar do sofrimento resultante das más ações. As conseqüências das boas e das más ações terão que ser experimentadas separadamente. Esta é a lei de Prakrti.
Foi logicamente comprovado que não é possível se livrar das conseqüências (karmaphala) de uma ação. Assim sendo, é tolice culpar a Deus (Bhagaván) pelas conseqüências de nossas ações ou rezar para Ele nos livrar delas. Aquele que pratica as ações deve, por conseguinte, sofrer as reações. Se você colocar sua mão no fogo, é certo que se queimará. Culpar a Deus por você ter queimado a sua mão é ignorância ou estupidez. A natureza do fogo é queimar, e quem quer que entre em contato com ele se queimará. Da mesma forma, a lei de Prakrti é que todas as ações dêem origem a reações. Deus (Bhagaván) não é, de forma alguma, responsável por isto. O responsável é o autor da ação. O autor da ação é responsável por sua reação, uma vez que Deus não realiza ações e conseqüentemente não pode ser responsabilizado pelas reações. As pessoas são as únicas responsáveis pelas ações, bem como pelas reações correspondentes.
Oração é uma forma de fazer um pedido com fervor. É um meio de fazer uma súplica ao Ser Supremo, para que um benefício seja concedido. Ora-se a Deus para pedir aquilo que não se possui ou que alguém pensa que não possui. Pede-se um favor tendo-se a fé de que Deus concederá tudo e que, de acordo com a Sua simples vontade, todos os desejos serão satisfeitos. Através da oração ou da súplica, a pessoa deseja despertar a vontade de Deus para obter o que lhe falta. Pensando racionalmente, não seria isto uma tentativa da pessoa de despertar o desejo de Deus para preencher suas necessidades e atender aos seus desejos individuais, uma tentativa de lembrar a Deus que Ele lhe deve conceder as dádivas que Ele próprio se negou a dar? Não é necessário lembrá-Lo disso em orações ou tentar despertar Sua vontade para fazer algo. Por exemplo, digamos que alguém precise de dinheiro e faça uma oração, tendo fé em Deus de que Ele lhe irá conceder o dinheiro necessitado. Isto não seria uma tentativa de responsabilizar a Deus por ter mantido a pessoa sem dinheiro, já que é somente Ele que pode concedê-lo? Apenas Deus seria o culpado, e ao pedir dinheiro, a pessoa estaria apontando Sua parcialidade em não lhe conceder o dinheiro de que precisa. Portanto, a oração ou o pedido a Deus serve apenas para indicar que o Provedor Único errou ao conceder Seus favores. Isto pressupõe apenas que Deus não seria imparcial, responsabilizando-o por tornar uns ricos e outros pobres. Rogar a Deus favores não é senão culpá-Lo de parcialidade. Uma vez que a oração leva a essa conclusão, pode-se dizer que é ignorância pedir favores. Aquele que realiza ações deve sofrer as conseqüências. Portanto, acusar a Deus de parcialidade não fará com que a pessoa se livre das conseqüências de suas próprias ações.
Uma mão colocada no fogo certamente queimará. Nenhuma oração será capaz de livrar a pessoa disto. Para atender a um pedido como este, Deus teria que remover a propriedade calorífica do fogo ou mudar a composição da mão, de modo que esta não fosse afetada pelo fogo e não se queimasse. Isto não é possível. Na criação Divina não há falhas, porque todas as coisas, pequenas ou grandes, seguem sua própria natureza (dharma). Do contrário, teria havido desordem a cada passo. Orações que servem apenas para lembrar a Deus de Sua parcialidade não podem induzi-Lo a mudar as leis da criação. Aquele que espera que Deus mude Suas leis, por meio de orações, demonstra uma grande ignorância.
De acordo com as leis de Prakrti, a toda ação corresponderá uma reação, que terá de ser experimentada pela pessoa que a praticou. Esta lei é imutável, e rezar para mudá-la seria uma perda de tempo. As orações não podem mudar o destino; logo, a vivência das reações (karmaphala) é inevitável.
Stuti significa louvar ou elogiar as qualidades de Deus por meio de um hinário ou um cântico, mas isto constitui apenas uma forma de adulação. Normalmente, adula-se aquele que pode garantir favores ou aquele de quem se espera algum favor. Ao cantar, louvando as qualidades de Deus, a pessoa certamente tem a intenção de agradá-Lo, do contrário não faz sentido dizer a Deus que Ele é onisciente, onipotente, benevolente e misericordioso. A intenção por trás do elogio a Deus é a de adulá-Lo, a fim de que Ele possa derramar sua misericórdia sobre o adulador. Como Ele é Todo-Poderoso, poderá livrar a pessoa das conseqüências das suas ações por Sua própria autoridade. Stuti ou louvar as qualidades de Deus constitui, portanto, apenas uma adulação que tem por trás um interesse. Dessa forma, stuti é tão ineficaz quanto a oração, e se dedicar a isto é uma perda de tempo.
Orações e stuti (elogios) não servem a nenhum propósito, e dedicar-se a isto constitui apenas uma perda de tempo, já que as súplicas e os elogios não levam à realização de nada. Bhakti ou devoção, por sua vez, não é a mesma coisa. Vejamos o que é bhakti. Bhakti é uma palavra sânscrita derivada de bhaj + ktin, que significa “chamar com devoção”. Não é o mesmo que stuti, ou elogio. Também é diferente de fazer orações. É apenas dirigir-se a Deus com devoção. Vejamos o valor disto.
A consciência unitária que segue o propósito da criação instituído pela Entidade Suprema Qualificada, fazendo esforços para retornar à Consciência Cósmica Onipresente, ou aqueles que desejam alcançar a emancipação precisam recorrer a bhakti. O único caminho que conduz à Consciência Cósmica é o de se devotar inteiramente a Ela, chamando-A.
A qualidade ou a natureza da mente humana é transformar-se na idéia ou na entidade a que se devota. Por exemplo, se uma pessoa começa a pensar que está com raiva, ela realmente se zanga, pois a sua mente fica amplamente tomada pela idéia da raiva. Da mesma forma, se a pessoa se imagina com uma doença, pensando na doença o tempo todo, ela realmente desenvolve a doença. A mente humana é constituída de tal modo que possui a capacidade de se transformar no objeto ao qual está apegada. A consciência unitária que desejar retornar rapidamente à Consciência Cósmica terá que se dedicar à Consciência Cósmica; e isto é bhakti.
”Eu sou Aquela Entidade” é a idéia a que a consciência unitária terá que se devotar a fim de um dia se transformar n'Ela. Assim, bhakti (devoção ou invocação da Consciência Cósmica) leva a pessoa a se tornar a própria Consciência Cósmica.
Bhakti, ou devoção, não é nem oração nem stuti. Algumas pessoas, entretanto, dizem que o desejo de unir-se à Consciência Cósmica, ou o desejo de emancipar-se, constitui um favor que se busca através de bhakti e que, portanto, bhakti também é uma oração. Mas não é assim, porque o propósito de Deus, ao criar a humanidade, foi fazer com que a consciência unitária se torne emancipada, como Ele próprio, retornando à Posição Suprema. Esta é a vontade de Deus, e tudo o que existe na criação tem esse propósito e está voltado para esse fim. Aquele que faz esforços através de bhakti, com o intuito de alcançar esse propósito, para o qual foi criado, ou com a intenção de realizar o desejo de Deus, não está suplicando nenhum favor. Pois, mesmo que a pessoa não faça esforços ou se desvie do caminho, mais cedo ou mais tarde, ela será levada a retomar o caminho. Assim, bhakti, ou devoção, não é nem oração nem elogio a Deus (stuti). Estas duas práticas não ajudam ninguém a alcançar qualquer resultado, constituindo-se em mera perda de tempo. Bhakti é o método pelo qual a pessoa pode devotar-se completamente à Consciência Cósmica, sendo esta a única maneira de realizar rapidamente o retorno à Posição Suprema.
É necessário que as conseqüências das ações (karmaphala) sejam vivenciadas. Não há como evitá-las, nem mesmo com a oração ou o louvor às qualidades de Deus. Qual é, então, a maneira de se livrar dessas conseqüências? A única maneira é não cometer más ações, as quais colocam o seu autor sob o jugo de Prakrti, que aplica uma lição quando a pessoa experimenta as reações. Por exemplo, se a pessoa colocar a mão no fogo, esta se queimará, não havendo meio de evitar que isto aconteça, nem mesmo através de orações. A única maneira de evitar a queimadura é não colocar a mão no fogo. Da mesma forma, se não houver más ações, também não haverá más reações.
A regra de Prakrti de que cada um tem de suportar as conseqüências de suas ações, deve ter um outro propósito por trás, visando ao bem-estar da humanidade. O propósito de toda a criação é fazer com que cada ser criado seja capaz de alcançar a emancipação. Este é o grande objetivo da Entidade Suprema Qualificada ao gerar a criação; por isso, Ela deveria ser chamada unicamente de a Grande Benfeitora. Embora seja emancipada, essa entidade se sujeitou à influência de Prakrti para prover bem-estar a cada ser unitário. Karmaphala, ou seja, a absorção das conseqüências das próprias ações constituiu-se como uma regra muito estrita, visando apenas ao bem-estar dos seres humanos, já que este é o meio pelo qual Ele (Bhagaván) evita que os seres humanos cometam más ações, conduzindo-os à emancipação.
Deus, através da punição, ensina aos seres humanos que não se habituem à prática de más ações. Contudo, estes, por ignorância, acusam-No de fazê-los sofrer. Acusar a Deus de ser imparcial e sem misericórdia, por infligir dor e sofrimento, ou mesmo orar ou louvar a Deus para aliviar o sofrimento não constitui o curso correto da ação. O sábio considera a dor e o sofrimento como uma lição através da qual o Grande Benfeitor o ensina a evitar as más ações e a desenvolver discernimento. Portanto, abster-se das más ações é a atitude do sábio e o dever de cada ser humano.
P.R.SARKAR - Filosofia Elementar da Ananda Marga