08/05/2011

ALIMENTAÇÃO


De acordo com a ciência espiritual, a mente tem cinco camadas (ver Glossário: k’osa) e mais uma camada externa — que é conhecida como annamaya kos’a, ou seja, o corpo físico. Essa camada é constituída pelo alimento que ingerimos. Por isso, faz sentido afirmarmos: “Somos aquilo que comemos”. Os alimentos podem tanto ajudar como prejudicar o desenvolvimento mental e espiritual.
                           
A bioquímica dos alimentos interfere na bioquímica de nossos corpos, influenciando o sistema glandular, o sistema nervoso e o cérebro — que são os responsáveis pelas tendências mentais, ou instintos (vrttis). Quando esses instintos não são controlados, a mente fica perturbada. Assim, para mantermos a calma e o equilíbrio mental, os alimentos ingeridos devem ser dos tipos que não causam excitação glandular.
Na ioga, os alimentos estão classificados em três categorias principais.
1)  Sáttvika (sutis ou puros) são os alimentos saudáveis tanto para a mente como para o corpo. Nesta categoria se incluem todas as espécies de cereais, castanhas e frutas, temperos suaves, sal, açúcar, mel, chá de ervas, a maioria das verduras, dos legumes e das leguminosas, leite e produtos lácteos[1]. Os alimentos sáttvika são imprescindíveis para as pessoas que fazem ásanas.
2)  Rájasika (mutatórios ou ativos) são alimentos que afetam mais a mente e prejudicam menos o corpo, dependendo da quantidade ingerida. Nesta categoria se enquadram os seguintes produtos: rabanete, café, chá mate, chá preto, guaraná, refrigerantes carbonatados e chocolate “preto”, ou seja, produtos que contêm cafeína ou outras substâncias estimulantes.
3)  Támasika[2] (estáticos ou inertes) são os alimentos nocivos ao corpo e à mente. Aqui estão incluídos: carnes, produtos animais (inclusive a gelatina), peixe, ovos, cogumelos, cebola, alho, queijos que adquirem fungos no processamento, fumo, álcool, as sobras de alimentos cozidos e mal-conservados[3], folha de mostarda, lêvedos, drogas alucinógenas[4] e outras que alteram o estado normal do organismo. Obviamente, a ingestão em demasia de qualquer alimento, sáttvika ou rájasika, pode ter um efeito támasika.
Na presente sociedade encontramos várias dietas, todas elas com diferentes teorias. A diferença da dieta iogue é ela veio de práticas e experiências feitas por vários anos, para depois surgir a teoria. Primeiro, a meditação e as ásanas foram praticadas e, em seguida, as experiências com os alimentos comprovaram quais são os mais benéficos, ou não, para as práticas espirituais. Muitos praticantes espirituais novos não alteram seus hábitos alimentares logo de início, mas somente após algum tempo, quando sentem os efeitos nocivos da carne. Entretanto, o mais aconselhável é a pessoa comer somente os alimentos sáttvika a partir do momento em que se iniciar nas práticas espirituais.
     Já está bastante comprovado que a carne não faz bem à saúde. O corpo humano tem bioquímica ácida por natureza, devido às secreções das glândulas. O exemplo mais evidente é o ácido úrico — um subproduto do processo digestivo, que normalmente é eliminado pela urina. O corpo de um animal, da mesma forma que o corpo humano, também contém ácido úrico. Então, ao ingerir carne, o homem consome essa substância em grande proporção. Como o organismo humano não tem condições de eliminá-lo por completo, esse ácido acumula-se lentamente nas articulações e no sistema circulatório. As conseqüências são desde o enrijecimento das juntas até o aparecimento de doenças mais graves, como o reumatismo, a artrite, a dispepsia, a constipação, a paralisia, a úlcera, os cálculos renais, os distúrbios renais, as doenças cardíacas, a pressão alta, a asma, os distúrbios menstruais. Além disso, a concentração e a cristalização do ácido úrico afeta o sistema nervoso, acarretando nervosismo, depressão, temperamento agressivo e ansiedade. Por isso, devemos ser muito cautelosos com os alimentos ingeridos.
     A comparação entre a fisiologia dos seres humanos e a dos animais nos mostra diversos fatores que comprovam nossa qualificação como seres vegetarianos (leia o livro O que há de errado em comer carne). O intestino dos seres humanos é tão extenso quanto o dos animais herbívoros e frugívoros e totalmente diferente do intestino dos animais carnívoros, que é curto. Como a carne e o peixe entram em decomposição rapidamente, o intestino curto dos animais carnívoros é apropriado para a eliminação rápida das toxinas da carne. Entretanto, este não é o caso dos seres humanos, cujo intestino é ajustado para a digestão de frutas e legumes.
Ao serem sacrificados, os animais sentem medo, produzindo grande quantidade de adrenalina e outras secreções, que, por serem ácidas, causam malefícios ao corpo e à mente.
As proteínas necessárias ao corpo humano são facilmente encontradas nos alimentos sáttvika — tais como os produtos lácteos, os grãos, os legumes, as castanhas e as frutas secas. Na realidade, o leite e a soja, por si só, bastam para nutrir o corpo das proteínas necessárias. E com relação às vitaminas e aos sais minerais, não há melhor fonte natural do que os vegetais e as frutas.
Tanto quanto possível, devemos optar por alimentos provenientes de seres que tenham a consciência pouco desenvolvida. Isto significa que se os vegetais estiverem disponíveis, os animais devem ser poupados. Além disso, em qualquer caso, antes de matar um animal, quer ele tenha consciência desenvolvida ou não, deve-se considerar se seria possível viver com um corpo saudável sem eliminar tal vida”.
                                    Shrii Shrii Anandamurti -Extraído de Um guia para a conduta humana

Por isso, pergunta-se: “Se você ama os animais, por que comê-los?”.
Os ovos são prejudiciais à saúde pelo mesmo motivo que a carne. A natureza bioquímica do ovo é muito similar à da carne, ainda que aquele esteja em estágio menos desenvolvido. É um alimento que causa tensão ao corpo e dificulta a meditação. Além disso, o ovo tem muito colesterol, cujos efeitos nocivos sobre o coração e a arteriosclerose são bastante conhecidos.
Os alimentos támasika alteram o sistema glandular, ativando as tendências (vrtiis) mais baixas, tais como o medo, a raiva, o ódio, o desejo sexual etc. Com isso, a mente fica agitada, tornando-se difícil o controle mental.
A cebola e o alho causam aquecimento e estímulo às glândulas das partes inferiores. Tanto um como o outro são extremamente ácidos, inclusive mais do que a carne. Algumas pessoas que ingerem alho e cebola em demasia exalam o odor desses produtos, pois os poros da pele eliminam pequenas quantidades não absorvidas pelo organismo. É comum encontrarmos artigos que defendem o alho e a cebola como alimentos altamente benéficos. Do ponto de vista meramente físico essa afirmação faz sentido, porque, na verdade, quando esses alimentos são rejeitados pelo organismo, eles fazem uma espécie de limpeza sangüínea. Mas nós devemos nos preocupar principalmente com o efeito dos alimentos sobre a mente. O alho e a cebola ativam as partes inferiores — do manipura cakra (umbigo) para baixo —, causando desconforto mental. A melhor forma de comprovar esse efeito é através da experiência de passar um ano, ou até menos, sem comer tais alimentos e prová-los ao final. A pessoa notará que diferença significativa eles causam no estado mental.
Os cogumelos, por serem fungos (parasitas), vivem de matéria morta e decomposta e, quando ingeridos, absorvem a energia do corpo, ao invés de nutri-lo.
     Drogas, álcool e fumo são altamente prejudiciais ao corpo e à mente. Tudo que altera nosso estado mental por meios artificiais resulta em enfraquecimento da vontade e diminui a capacidade intelectual, o que torna o autocontrole quase impossível.
Devemos também estar atentos aos alimentos embalados, pois muitos deles possuem aditivos e conservantes prejudiciais à saúde.
Geralmente, fala-se somente das propriedades nutritivas dos alimentos. Entretanto, tão importante, ou talvez até mais importante, são as vibrações psíquicas e espirituais passadas aos alimentos durante o seu preparo. Se a comida for preparada por uma pessoa enraivecida, ou com pensamentos negativos e de mau humor, a vibração dessa pessoa passará para o alimento. Porém, se a comida for feita por alguém espiritualizado, esse alimento se tornará mais benéfico à mente.
Enquanto estiver cozinhando ou comendo, procure se manter com a mente tranqüila. Tente sempre comer junto de outras pessoas e procure conservar uma atmosfera agradável durante as refeições. É aconselhável comer de forma frugal, ou seja, alimentar-se no máximo quatro vezes ao dia e servir à mesa apenas quatro “pratos” diferentes, em cada refeição.


[1] Queijos preparados com coalho (subproduto do estômago de bezerros) ou que adquirem fungos durante sua maturação e, ainda, pães, bolos e biscoitos feitos com ovos ou gordura animal não são sáttvikas.
[2] Sáttvika, Rájasika, Támasika são termos em sânscrito, no plural e Sáttvik, Rájasik, Támasik, correspondem à forma no singular.
[3] É recomendável evitar comer no jantar os legumes cozidos para o almoço, pois estes alimentos, após um certo tempo, perdem suas propriedades nutritivas e se tornam tamásika. Nem sempre a conservação em geladeira evita esse processo, sendo, portanto, o mais recomendável comer os legumes recém-cozidos. Embora o congelamento não seja tamásico, seu uso diário não é recomendado, pois, nesse processo, o alimento perde a maioria do prana. 
[4] Considero que a autora aqui se refere a drogas tóxicas ou entorpecentes, tais como tabaco, álcool, cocaína, morfina, heroína, barbitúricos, etc.

16 PONTOS PARA O AUTO-DESENVOLVIMENTO - Técnicas para o Desenvolvimento Físico, Mental e Espiritual - Inspirado em textos de Shrii Shrii Ánandamúrti pela Avadhutiká Usa  Acharyá