08/11/2012

Ádarsha e Iśt́a


Shrii Shrii Anandamurti
DMC em Bhuvaneshwar, 20 de julho de 1979.


O assunto do discurso de hoje é ” Ádarsha e Iśt́a”.
 Agora, o que é Ádarsha e o que é Iśt́a?
 Todos nós estamos constantemente em mudança: toda e cada entidade do universo, desde os enormes dinossauros até a menor folha de grama, está em um estado de constante movimento. Nada está fixo, nada é estático. Movimento é vida e pericibilidade é a lei natural do universo. Quanto todas as coisas estão em um estado de movimento, então qual é o objetivo do movimento? Cada movimento certamente tem um certo ponto final, e esse ponto final é ádarsha. Os seres humanos também estão movendo-se, mas para moverem-se adiante eles algumas vezes precisam de energia. Mas de onde vem essa energia? A fonte de toda energia é Parama Puruśa [a Consciência Suprema]. Com a energia Dele, todas as entidades estão movendo-se. Nenhum ser vivo tem sua própria energia: dotado com a energia de Parama Puruśa, cada um move-se adiante em direção ao seu ádarsha.
Existe alguma diferença entre ádarsha e iśt́a

Essa é de fato uma questão complicada. 

 Ádarsha é aquilo que é o próprio objetivo em direção ao qual todas as entidades movem-se. A palavra ádarsha [em sânscrito] 
é derivada de ádrsh + ghaiṋ; quando o sufixo feminino uniiś é  
adicionado à palavra ádarsha, obtém-se a palavra ádarshii, que significa “um espelho”. Ádarsha é aquilo que os seres humanos desejam tornar-se.

Os seres humanos estão em constante mudança, mas a questão é: qual é o ponto culminante, o ponto que eles atingem no final do seu movimento? Pegue o caso de uma criança pequena: ela sempre é fraca e sem força. Se ela quiser ficar forte, ela terá de submeter-se a exercícios físicos regulares. Se a criança crescer forte e poderosa através de exercícios físicos, isso é o ádarsha dela – quer dizer: ádarsha é um estado dotado de qualidades particulares.

Agora, quando os seres humanos não se movem em direção a esse estado, o que acontece? Há pouco eu disse que movimento é a lei do universo. É um decreto providencial que o movimento seja uma necessidade para todos: caraeveti, caraeveti – “sigam adiante, sigam adiante”. Naturalmente os seres humanos têm que continuar movendo-se incessantemente. Mas suponha que uma pessoa não tenha um objetivo; então o movimento dela será como o de um navio sem leme navegando em um mar tempestuoso. Se você ficar remando um bote sem um objetivo determinado, todo o seu trabalho será em vão, todo o seu tempo será desperdiçado e você também correrá o risco de ficar preso em um redemoinho. Portanto, os seres humanos devem sempre ter um ádarsha – uma ideologia às suas frentes.

Agora, o que é iśt́a?

A palavra iśt́a tem dois significados: a entidade que você mais ama, ou que é a sua favorita, é o seu iśt́a. Agora a questão é: qual é o objeto mais preferido? Cada microcosmo tem um sentimento existencial de “eu”, e cada sentimento microcósmico de “eu” é uma expressão do sentimento mais amplo de “eu”. Agora, cada microcosmo tem dois “eus”: um é o pequeno “eu” e o outro é o “eu” maior. Parama Puruśa é o “eu” maior; o “eu” pequeno é a felicidade finita, enquanto que o “eu” maior representa a felicidade infinita. Cada microcosmo deseja felicidade finita, mas o objeto mais querido de todos é a felicidade infinita. A felicidade finita é um assunto individual, ao passo que a felicidade infinita é um assunto universal. A felicidade infinita é aquele aspecto de Parama Puruśa que em geral é chamado de Deus Pessoal.

De acordo com a filosofia, a Entidade Suprema que controla este universo é Parama Puruśa; Ela também é o núcleo da ordem cosmológica. Mas o Parama Puruśa da filosofia, o eixo do universo, é uma entidade sem forma, impessoal, enquanto que os seres humanos sempre preferem um Deus pessoal que eles possam amar, e a quem eles possam contar os prazeres e dores das suas vidas. Os seres humanos não conseguem sentir amor e afeição extremos por um Deus ou uma filosofia impessoais, porque isso é apenas um conceito metafísico e o coração humano não consegue identificar-se plenamente com uma idéia abstrata. Eles querem um Deus pessoal a quem possam expressar plenamente seus sentimentos e emoções. Essa é uma necessidade absoluta. Os seres humanos não procuram pelo Deus deles em nebulosas e meteoros distantes – eles O procuram bem próximo deles; precisamente em meio a eles. Eles querem aceitá-Lo totalmente como o seu abrigo na vida. No jogo da imaginação abstrata as pessoas podem obter alguma satisfação temporária, mas não paz duradoura. O Deus da filosofia não pode proporcionar satisfação completa aos anseios internos profundos das pessoas: elas querem Alguém a quem possam abrir seus corações. Uma tal entidade é o iśt́a da pessoa.

Qual é a diferença entre dharma e iśt́a?

Aquilo que sustenta é [chamado de] dharma:

Yah dhárańaḿ karoti sah dharma.
Dhriyate dharmah ityáhuh sa eva paramaḿ prabhuh.

Um microcosmo é distinguido pela sua propriedade inata: nós dizemos “isto é oxigênio” por causa que ele tem tais e tais características. Nós dizemos “isto é fogo” porque ele tem sua propriedade intrínseca. Similarmente, o ar também tem a sua propriedade singular. E dessa forma, cada objeto no universo é distinguido por sua característica peculiar. Se o fogo parar de queimar, nós deixamos de chamá-lo de fogo; se o vento parar de soprar, nós não mais o chamaremos de vento – porque a mobilidade é sua característica inerente. Em sânscrito existem duas palavras: nila e niila. Niila significa “cor azul”, enquanto que nila significa “fixo, estacionário”. Se o ar estiver imóvel, então ele torna-se nila ou estacionário, e não anila ou móvel. Portanto, propriedades ou características inatas dos objetos permitem distinguir entre entidades animadas e inanimadas, orgânicas e inorgânicas, móveis ou imóveis.

Seres humanos, animais e plantas – todos têm vida. Assim como as plantas têm certas características comuns, animais também têm certas características comuns. Dentre as numerosas diferenças entre plantas e animais, a maior delas é que as plantas são relativamente estáticas enquanto que os animais são dinâmicos. Então, se as plantas se tornarem mais dinâmicas, elas também entrarão na categoria de animais. Agora, qual é a diferença entre seres humanos e animais? Seres humanos seguem o Bhágavata dharma, mas os animais não. As características comuns compartilhadas por humanos e animais são comer, dormir e morrer. Mas os seres humanos têm a propriedade singular do Bhágavata dharma, que está ausente nos animais. Essa é a singularidade dos seres humanos.

Agora, se essa característica peculiar estiver faltando aos seres humanos, então eles irão degradar-se ao nível da animalidade; e se os animais desenvolverem essa característica, então eles serão elevados à condição de humanidade.

Quais são as características especiais do Bhágavata dharma? Elas são: vistára (expansão), rasa (fluxo), seva (serviço) e tadsthiti (realização do Supremo).

 O primeiro critério da grandeza humana é o espírito de expansão. Os seres humanos querem dar uma expressão estética aos seus sentimentos e propensidades internos; esse é o primeiro aspecto do Bhágavata dharma: vistára.

Rasa significa “fluxo”. Ondas infindáveis estão emanando do eixo da ordem cosmológica, e marulhando em cristas e cavas em todas as direções. Essas ondas de pensamento Macrocósmicas estão dançando de acordo com o desejo cósmico de Parama Puruśa. Os seres humanos também estão dançando no ritmo dessas ondas estéticas [1], conforme a melodia da doce cadência musical da flauta de Krśńa [2], enquanto Ele permanece no núcleo do universo. Este é o segundo aspecto do Bhágavata dharma.

O terceiro aspecto é sevá ou serviço. Então, o que é serviço?

Prańipátena pariprashnena sevayá. Entre os animais não existe espírito de serviço, mas entre os seres humanos ele certamente está presente. Prańipátena significa “através de entrega total”. Pariprashnena significa “através de questionamentos apropriados”. E sevayá significa “através de serviço” – quer dizer, Parama Puruśa pode ser alcançado através de entrega total, de questionamentos espirituais e de serviço altruísta. Parama Puruśa em Si mesmo não requer serviço algum, mas neste universo todo e cada objeto criado é Sua prole. Se vocês servirem às crianças de Parama Puruśa, se vocês servirem aos seres humanos em dificuldades e aflitos, se vocês prestarem serviço integral à humanidade nas esferas física, mental, mudana, supramundana, social e espiritual, Parama Puruśa certamente ficará contente. Este é o verdadeiro serviço ao Supremo. Se você quiser agradar uma mãe, simplesmente sirva as crianças dela e ela ficará satisfeita. Este é o terceiro aspecto do Bhágavata dharma.

Serviço é sempre unilateral: essa é a maior diferença entre serviço e negócio, pois negócio é mútuo: você dá algum dinheiro e pega alguma coisa – digamos, alguma leguminosa [como feijões] – em troca. A transação é mútua. Mas serviço é bem diferente: é sempre unilateral. Você dá algo para Parama Puruśa sem pedir nada em troca. Quando você oferece tudo a Parama Puruśa, o que mais Ele pode pedir? Além disso, quem é que vai pedir? Quando você ofereceu tudo a Parama Puruśa, então você se tornou uno com Parama Puruśa e obviamente não pode haver mais nada sobrando que se possa pedir.

O quarto aspecto do Bhágavata dharma é tadsthiti: significa fundir a sua identidade individual Nele, a sua Meta Suprema. Eu já disse que Parama Puruśa é Táraka Brahma  [3]; Ele é o seu iśt́a, o seu Deus pessoal. Isto não é um conceito teórico. A mente humana pode ficar encantada com algumas idéias filosóficas, mas o coração não se satisfaz dessa forma. Esse Bhágavata dharma, com seus quatro aspectos, é como uma linha de prata [4] de demarcação entre os seres humanos e os animais. Bhágavata dharma é o dharma humano – mánava dharma; além desse, não há outro dharma para a humanidade.

No Bhágavata Giitá o Senhor Krśńa proclamou:

Shreyán svadharma viguńah paradharmát svánuśt́hitát.

O que dizer do paradharma ou “dharma dos outros”! Aqui paradharma significa aquele dharma que é seguido pelas plantas e animais. O dharma dos seres humanos é o Bhágavata dharma. Os animais e plantas também têm o seu próprio dharma, mas este não deveria ser seguido pelos seres humanos. Então o Senhor Krśńa ainda declarou:

Svadharme nidhanaḿ shreyah paradharma bhayávaha

– a morte é preferível do que negligenciar o próprio dharma. Jamais deveria-se seguir o dharma de outros. Por ignorância, algumas pessoas interpretam paradharma erroneamente como sendo dharma hindu, dharma islâmico, dharma cristão etc., mas isso não é correto: paradharma significa o dharma de animais e plantas.

O dharma humano é um só: é o Bhágavata dharma. E iśt́a significa o Deus pessoal com o qual todos os seres unitários podem estabelecer uma relação de amor e afeição, a quem eles podem revelar suas dores e prazeres, entregarem-se e tomar Nele o abrigo mais seguro. Esse Parama Puruśa, esse Deus pessoal não é o Deus da filosofia. Os seres humanos não podem estabelecer um relacionamento íntimo com algo teórico. Se alguém seguir o Bhágavata dharma fielmente, o resultado final será a realização do Supremo – tornar-se uno com o seu iśt́a.

Algum tempo atrás eu disse:

Yato dharma tato iśt́ah
Yato iśt́a tato jayah.[5]

Quando os aspirantes espirituais tornam-se unos com o iśt́a deles, eles deixam de ser pessoas insignificantes; nesse caso, a felicidade finita deles é transformada em felicidade infinita. Então, com a sua força limitada eles tornam-se capazes de realizar tarefas gigantescas. Portanto, ainda que haja uma diferença teórica entre ádarsha e iśt́a, na prática ambos são a mesma coisa. Através de um esforço sem tréguas, os seres humanos podem tornar-se unos com o iśt́a deles. Aqueles que não seguem o Bhágavata dharma são quase como animais.

Um poeta místico disse:

Krśńa bhajibár tare saḿsáre áinu
Miche máyáy baddha haye brkśa sama hainu.

Os seres humanos vieram a esta Terra somente para seguir o Bhágavata dharma, e não por qualquer outro propósito. Vocês têm muitas tarefas a realizar: o que quer que façam, vocês devem sempre sentir que todas as suas ações são parte do Bhágavata dharma. Onde quer que vocês estejam, vocês devem fazer algo para acabar com a pobreza e as dificuldades das pessoas nessa localidade – para melhorar a condição sócio-econômica delas. E mesmo quando estiverem fazendo as suas tarefas dessa forma, vocês devem sempre lembrar-se que o que quer que estejam fazendo não é uma tarefa mundana e sim uma parte inseparável do Bhágavata dharma de vocês.

*      *      *
Tradução: Mahesh – Florianópolis; 1 e 2 de junho; 20, 21 e 23 de outubro; 6 e 8 de novembro de 2012.
Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês).
Publicado em:
Subháśita Saḿgraha Part 12
 (obra ainda não publicada em português)

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