05/03/2017

Krśńa Concede Seis Estágios de Realização¹

Shrii Shrii Anandamurti 
Calcutá, Índia, 7 de setembro de 1980. 

Quando Parama Purusá Se encarna como Táraka Brahma [a Entidade Suprema Liberadora] em um certo período de transição, as pessoas daquele período desfrutam certos privilégios especiais. Os privilégios desfrutados pelas pessoas são a verdadeira prova do advento ou encarnação de Táraka Brahma. Vamos analisar como Vraja Krśńa e Párthasárathi Krśńa procuraram ajudar e realmente ajudaram as pessoas no caminho da espiritualidade. 


Quando as pessoas obtêm progresso no reino da realização espiritual, esse progresso é dividido em seis estágios: sálokya, sámiipya, sáyujya, sárúpya, sárśth́ i e kaevalya

Sálokya: No estágio de sálokya as pessoas sentem que vieram à Terra ao mesmo tempo que Parama Purusá. A maior realização da vida humana é que a pessoa veio viver neste mundo na mesma época em que o Próprio Parama Purusá escolheu encarnar nesta Terra como Táraka Brahma. O grande devoto Vrindavana Das observou: “É meu maior infortúnio eu não ter nascido ao mesmo tempo em que o Senhor decidiu encarnar-Se nesta Terra.”

 E hena sampad kále goránábhajinu hele Tachu pade nákarinu ásh; Shrii Krsń́a Caetanya T́hákur Shrii Nityánanda Guoa gáy Vrindávana Das. 

Ele lamentou: “Quão desafortunado eu sou por não ter vindo quando o Senhor estava fisicamente presente nesta Terra. Eu nasci mais tarde.” É realmente um grande infortúnio, uma aflição espiritual, nascer um pouco antes ou depois do advento do Senhor – realmente é uma aflição espiritual. O próprio pensamento de que “Parama Purusá estava na Terra ao mesmo tempo em que eu estava” traz um senso de êxtase, uma alegria imensa. Esse estado de alegria ou de bem-aventurança é chamado de sálokya. (Loka significa “o mundo”. Em bengali, loka significa “ser humano”, mas em sânscrito significa um nível [neste caso, o mundo].)


Quando Krśńa estava em Vraja, as pessoas sentiram alegria intensa e um senso de orgulho de que uma grande personalidade na forma de um jovem homem havia escolhido viver entre eles. Aqueles que entraram em contato com Párthasárathi Krśńa também sentiram que Krśńa estava com eles, guiando-os, em todos os níveis. 

É bastante curioso que Duryodhana, ainda que aparentemente fosse um inimigo de Krśńa, estava convencido de que Krśńa não era uma pessoa comum . Ele pensou que se pudesse conseguir o apoio de Krśńa, ele seria muito afortunado. Assim, no limiar da guerra de Kuruksétra ele foi até o Senhor Krśńa pedir ajuda a Ele . Tanto Duryodhana quanto Arjuna foram até Krśńa em busca de ajuda². Arjuna estava mais avançado do que Duryodhana no que diz respeito à realização de sálokya.

Duryodhana chegou no palácio de Krśńa antes que Arjuna e encontrou Krśńa deitado na cama com os Seus olhos fechados, fingindo que estava dormindo profundamente. Arjuna chegou depois e sentou -se próximo dos pés de Krśńa. [Duryodhana havia se sentado ao lado da cabeça de Krśńa.] Subitamente Krśńa sentou-se e agiu como se tivesse recém acordado. Ele o fez de tal jeito que Ele olhou primeiro para Arjuna, sentado próximo dos Seus pés, e disse: “Ó, bem-vindo Arjuna, você veio. É bom ver você.” Então ele viu Duryodhana e disse: “Bem-vindo Duryodhana, você também veio. É bom te ver.” 

É claro que isso era tudo fingimento, porque na verdade Duryodhana havia chegado antes. Mas a realização de sálokya dele era menor do que a de Arjuna; ele não tinha a realização profunda de que Parama Purusá, Táraka Brahma, havia encarnado na Terra. Por isso ele não conseguiu obter os benefícios de sálokya, ao passo que Arjuna facilmente conseguiu. Agora, a entidade que estava fingindo estar adormecida não era Vraja Krśńa, aquele que constantemente segurava e tocava a flauta mágica , e sim Párthasárathi Krśńa, a pessoa perspicaz, a pessoa com o intelecto focado no ápice. Tivesse Ele sido Vraja Krśńa, Ele teria tocado a Sua flauta mágica, atraindo Duryodhana tão próximo de Si quanto Arjuna. Aqui está a diferença entre Vraja Krśńa e Párthasárathi Krśńa. Párthasárathi Krśńa empregou as táticas da diplomacia sempre que necessário – e naqueles dias isso era muito frequente. 

Sámiipya: O segundo estágio da realização espiritual é sámiipya. No primeiro estágio, as pessoas entendem que nasceram ao mesmo tempo e no mesmo mundo que o Senhor delas. Já no segundo estágio, elas se sentem próximas de Parama Purusá, próximas o bastante para falarem com Ele como amigos, até mesmo sobre assuntos extremamente pessoais, e assim podem ser aliviadas e confortadas por Ele. Algumas vezes as pessoas se sentem tão íntimas Dele que vão até Ele não necessariamente para expôr suas dificuldades pessoais, mas para obter alívio, consolo e para ganhar força suficiente para aguentar as dificuldades e problemas, as tempestades e tensões da vida pessoal. 

Muitas pessoas que se aproximaram de Vraja Krśńa – e elas eram pessoas muito comuns – tiveram essa realização de sámiipya. Mas aquelas que tinham o privilégio de entrar em contato com Párthasárathi Krśńa eram ou pessoas altamente instruídas e grandes santos, ou reis e dignatários. Não era qualquer pessoa que tinha o privilégio de entrar em contato com Párthasárathi Krśńa e desfrutar da realização de sámiipya

As pessoas que tiveram a experiência de sálokya ou sámiipya tiveram de passar por várias dificuldades e provações. O caminho da realização não era de forma alguma simples ou suave. No caso de Vraja Krśńa, a realização de sálokya e sámiipya era alcançada com muito pouca dificuldade , mas no caso de Párthasárathi a pessoa não necessariamente obtinha a realização de sámiipya como um concomitante inevitável de sálokya.

Sáyujya: Em seguida vem o estágio de sáyujya. Ele implica um contato íntimo, quase contato corporal – a maior proximidade imaginável. A maioria das pessoas de Vraja desfrutou da realização de sáyujya, pois elas comeram, cantaram, tocaram a flauta, dançaram com, e sentaram-se próximas de Krśńa, o mais querido delas. Mas não era tão fácil alcançar o estágio de sáyujya com Párthasárathi Krśńa. Somente Arjuna, o terceiro dos cinco irmãos Pandavas, foi abençoado com essa realização. Nenhum dos outros irmãos teve essa oportunidade.


Sárúpya: O próximo estágio da sádhaná [prática espiritual] é sárúpya. Ela implica que “Não apenas eu estou próximo Dele, mas sempre que eu penso Nele, eu O vejo por todos os lados.” Agora, como é que as pessoas atingem esse estado de realização? Uma pessoa pode atingir esse estado tornando-se Seu companheiro mais próximo e íntimo – Seu pai, mãe, esposa, filho ou qualquer parentesco próximo e querido – ou a pessoa também pode realizá-Lo de outro modo. Se uma pessoa comete muitos pecados e torna-se um pecador consumado, ela sempre terá um medo mortal e pensará Nele: “Ah, eu; eu estou fazendo essas coisas ignóbeis; o Senhor está vendo tudo.” Ao pensar desse jeito, a pessoa ou fica louca ou morre. Ravana³  via Parama Purusá como seu inimigo, e por fim morreu pelas mãos de Parama Purusá

Kansa também encarava Parama Purusá como seu inimigo. Consequentemente, apenas uma semana antes da sua morte, Kansa via o reflexo de Krśńa em todo lugar: no céu, no vento, nas árvores, na terra e na água. A história nos conta que naqueles tempos as crianças do ensino primário eram ensinadas que “Ka é de ‘Krśńa’” . Os seguidores de Krśńa diziam: “Ka é de ‘Krśńa’”. Mas Kansa, por um medo extremo de Krśńa – um tipo de complexo de medo – exigiu que os professores ao invés disso ensinassem “Ka é de ‘Kansa’”. Kansa O via em todo lugar e consequentemente ficou louco: ficou louco uma semana antes da sua morte, e então deparou-se com a sua morte física. (Ravana também via Parama Puruśa como seu inimigo.) 

Assim, é verdade que se pode alcançar Parama Purusá sendo Seu inimigo, mas esse caminho é torturante e cruel. Seria melhor que ninguém tivesse que passar por tais sofrimentos, porque uma pessoa assim acaba ficando condenada pela sociedade enquanto durar a história humana. Quando essa realização de sárúpya (ver Parama Purusá em toda e cada partícula deste universo) é consequência de um amor imenso por Parama Purusá, essa é a realização genuína, a verdadeira realização – e é algo que se pode desfrutar; algo extremamente doce e precioso. Quando os seres humanos ficam ansiosos para encontrar Parama Purusá; quando eles dão duro para realizá-Lo em todas as suas ações (e por fim conseguem) – o zelo deles, o seu anseio irresistível pelo Senhor, é chamado de arádhaná em sânscrito (a - rádh + anat́+ tá [sufixo feminino] = arádhaná). E a entidade que pratica essa arádhaná é conhecida como “Rádhá”. Aqui Rádhá representa a mente de um devoto . As pessoas de Vraja sentiram e realizaram Krśńa em todos os seus pensamentos e ações.

 Jale Hari, sthale Hari, anale anile Hari, Graha tárásúrje Hari, Harimay e trisaḿsár.
Hari está em todo lugar, Hari está em todas as coisas: na terra, na água, no vento e no fogo. Ele está no sol; Ele está nos três mundos.] 

No caso da sárúpya de Párthasárathi, as pessoas O viam em todas as coisas. Os Pandavas experimentaram essa realização como amigos e devotos inseparáveis de Krśńa, e os Kaoravas como os formidáveis inimigos Dele. As pessoas que são criminosas ou pecadoras pensam em Parama Purusá como sendo inimigo delas. “Vejam só”, pensam com medo os inimigos de Krśńa, “aqui vem o inimigo Párthasárathi Krśńa.” Portanto, o mundo inteiro ficou polarizado durante a vida Dele. Essa polarização também aconteceu durante o período de Vraja Krśńa, mas ela foi apenas parcial. Na época de Párthasárathi Krśńa polarização ficou completa. A sociedade ficou dividida em campos opostos: de um lado aqueles que eram extremamente comprometidos com Ele, sempre dispostos a dar suas vidas pela Sua missão e Sua ideologia; e do outro lado aqueles que ficaram tão raivosos e tão hostis que não podiam sequer tolerar o Seu nome – que dirá a Sua existência. 

Sárśth́i: E então temos sárśth́i. Sárśth́i acontece quando os aspirantes espirituais percebem Parama Purusá de todas as formas possíveis e de todas as maneiras concebíveis. Os devotos não somente O vêem – eles também permanecem unidos com Ele, unos com Ele. Ou seja: o sádhaka tem o sentimento de que “eu existo, Ele também existe, e há uma ligação entre nós.” Existe um sujeito, existe um objeto e existe um verbo que conecta os dois. Esse é o significado próprio de sárśth́i. Existe uma certa diferença entre os significados de sárśth́i e de sárúpya. Em sárúpya o sentido é “Eu existo, e Você, meu Senhor, também existe”, ao passo que em sárśth́i é “Eu me tornei uno com Você.” Mas ainda resta a questão dessa minha unificação com Você. Ou seja: existe um sentimento de “eu”, ainda que muito tênue. Do contrário, como é que eu poderia dizer que eu me tornei uno com Você? Colocando a ideia de outro modo: aqui em sárśth́i o devoto e o Senhor estão extremamente próximos, mas mesmo assim a dualidade ainda permanece. O devoto existe e sente que o seu Senhor também está ali – portanto há um dualismo. “Eu não quero me tornar açúcar, eu quero saborear o açúcar. Se eu me transformar em açúcar, como é que irei desfrutar o sabor dele?”

 Cini hate cáine re man, Cini khete bhálabási.
            – Ramprasad 

Portanto, tem de haver algum senso de dualidade. Esse senso de dualidade, ainda que muito tênue, é a palavra final na maioria das escolas de filosofia Vaeśoava e na maioria das religiões do mundo . Existem algumas escolas Vaeśoava que insistem que a última palavra é “Senhor, somente Você existe.” Esse estado de realização – “Somente Você existe” – é chamado de kaevalya. Nas escrituras Vaeśoava, não é feita muita menção a kaevalya (ainda que não seja completamente inexistente), pois sárśth́i em geral é considerado o estágio mais elevado. Esse estágio de realização foi alcançado através de Vraja Krśńa, e também através de Párthasárathi Krśńa, mas de um modo diferente. Falando de forma geral, a realização é similar tanto no caso de Vraja Krśńa quanto no de Párthasárathi Krśńa, mas para Vraja Krśńa as realizações de sámiipya, sáyujya, sárúpya e sárśth́i vieram através de madhura bháva [doçura], de ideação agradável e intimidade em cada estágio – através de alegria e bem-aventurança transbordante. Já no caso de Párthasárathi Krśńa, a realização veio através da luta, através de privações e adversidades. Diferentemente de Vraja Krśńa, Párthasárathi Krśńa no estágio de sálokya não inspira os corações dos Seus devotos tocando música bonita em Sua flauta. Pelo contrário, Suas instruções para os Seus devotos são: “Cumpram suas tarefas mundanas, construam uma sociedade estável sobre uma economia firme, lutem contra a injustiça e formem uma base segura para os indivíduos e para a coletividade. Sejam pragmáticos e permaneçam unidos contra todas as forças malignas. Unam os diferentes grupos na sociedade sobre uma plataforma comum.” 

Todos vocês sabem que foi o Senhor Shiva quem primeiro ensinou aos seres humanos como viver uma vida sistemática e harmoniosa, e como opor-se às tendências divisivas resultantes das propensões animais. Isso foi considerado como suficiente durante a época de Shiva, mas durante a época de Krśńa havia uma consciência social maior. Krśńa queria despertar nas mentes das pessoas um forte anseio de lutarem contra as forças malignas. Ainda que Krśńa não tenha fornecido qualquer teoria sócio-político-econômica, Ele tornou as pessoas conscientes nas esferas social, econômica e cultural e fez a sociedade avançar dando inspiração do Seu próprio jeito inigualável. Ou seja: Párthasárathi Krśńa ajudou as pessoas a avançarem expandindo a consciência social delas. É por isso que aqueles que receberam o treinamento de Párthasárathi pularam do estágio mais baixo, sálokya, direto para o estágio de sárśth́i. Eles não ascenderam gradualmente a estágios cada vez mais elevados através da alegria e de experiências doces e bem-aventuradas; em vez disso, avançaram para o estágio mais elevado de uma só vez. Mas essa expansão repentina envolveu trabalho, esforço árduo e luta. Ela implicava grande risco e exigia espírito de luta sem concessões.

No caso Vraja Krśńa, o devoto desenvolvia uma consciência espiritual especial. O único pensamento que preenchia a mente do devoto era “Eu quero ir até Parama Purusá”, e essa jornada passava por madhura bháva. Os ensinamentos de Párthasárathi eram bem diferentes. Ele disse: “Bem, você quer avançar. Isso está certo, mas outros terão de vir com você. Vocês devem vir todos juntos.” Essa abordagem certamente dificulta madhura bháva em certa medida porque ela envolve um elemento de aspereza. Se fôssemos usar uma analogia, poderíamos comparar Vraja Krśńa com uma manga muito doce de casca grossa. Você pode facilmente descascar e saborear a doce e suculenta fruta à vontade – sem problemas, apenas felicidade. Se alguém lhe perguntar quão doce ela era, você não conseguirá expressar o seu deleite em palavras e ilustrará a doçura através de gestos . Mas Párthasárathi Krśńa pode ser comparado com uma fruta bel [“maçã-de-madeira”] firme e madura com uma casca dura. Você terá certo trabalho para quebrar a casca, e quando for quebrá-la, terá de ter cuidado para não deixar a fruta cair no chão e se despedaçar. A polpa sem dúvida é muito boa para o estômago, talvez até melhor que uma manga , mas não é tão agradável de se comer . Ela não é tão suculenta quanto uma manga . Se Vraja Krśńa fosse comparado a bolos de alta qualidade como gokulapiith́ á ou pátísáptá́, Párthasárathi Krśńa poderia ser comparado a doces feitos de caldo de cana fervido e condensado.

Ao analisar-se esses seis estágios sucessivamente mais elevados, uma coisa mais deve ser considerada. Não somente os seres humanos, mas todas as expressões deste universo têm forma e cor. Uma pessoa deve estabelecer-se permanentemente acima de todos os tanmátras – elevando-se acima de som, toque, forma, sabor e cheiro. Quando a mente de vocês eleva -se acima das inferências com seus variados comprimentos de onda e finalmente alcança o comprimento de onda mais sutil – uma linha reta –, vocês realizam que Párthasárathi é o amigo mais querido de vocês, e o seu parente mais próximo. 

Atyágasahano bandhuh sadaevánumatah suhrd; Ekakriyaḿ bhavenmitraḿ samapráoah sakhá smrtah. 

“Alguém que não consegue tolerar a separação dos seus amigos é chamado de bandhu.” Os laços de amor são tão fortes que não podem ser rompidos. 


Sadaevánumatah suhrd 

– “quando dois amigos sempre concordam em tudo, jamais divergindo um do outro, eles são suhrd”. 

“Quando as pessoas praticam a mesma profissão e executam tarefas da mesma natureza, elas são chamadas de mitram.” (Por exemplo: dois advogados ou dois físicos são mitram.) 

“Quando o amor entre dois amigos é tão íntimo que eles parecem ser uma só vida, diz-se que eles são sakhá.” Arjuna era o sakhá de Krśńa. Párthasárathi era o sakhá de Arjuna. O amor mútuo entre eles era muito profundo. 

Arjuna alcançou Krśńa, o verdadeiro Krśńa, depois de superar os diferentes estágios que vão de sálokya até sárśth́i. Arjuna teve de passar por enormes dificuldades, sofrimentos e por um treinamento rigoroso. Quando ele sofreu uma crise psíquica no campo de batalha, ele recebeu vários golpes psíquicos duros até voltar à sua normalidade. Então ele reconheceu Krśńa clara e perfeitamente, e a sua vida tornou-se frutífera. 

Como é que se pode alcançar Puruśottama [o Núcleo Cósmico ], Párthasárathi Krśńa? No caso de Arjuna, nos estágios iniciais havia murmurinhos suaves, mas no estágio final havia o ruído ensurdecedor da Páiṋcajanya [o nome da concha de Krśńa], resultando na realização final e suprema de Arjuna. Contudo, as coisas eram diferentes com Vraja Krśńa. A Sua flauta produzia notas diferentes em momentos diferentes. Quando devotos obtêm algum progresso espiritual através de madhura bháva, eles ouvem um som similar ao som de um grilo. Se você meditar em um lugar solitário com profunda concentração, você ouvirá o som de grilos. É claro que os grilos ficam em silêncio após certo tempo, ao passo que o refrão contínuo do som Cósmico jamais cessa. Esse é o primeiro estágio do som da flauta de Vraja Krśńa. Existem outros sons em outros estágios, tal como o bramido de mares, o ribombar das nuvens e, finalmente, no estágio de sárśth́i, o som pluta do oṋḿkára, cujo fluxo eterno continua sem interrupção ou pausa. Mas enquanto ouvem o som do oṋḿkára, sádhakas escutam dentro dele o som da flauta. Eles o escutam com os seus próprios ouvidos físicos. 

Adyápi sei kálácánd bánsharii bájáy; Kona kona bhágyabán shuńibáre páy.

[Até hoje o Senhor Krśńa ainda toca a Sua flauta. Somente os poucos abençoados conseguem ouvir esse sagrado som.] 

Quando um sádhaka atinge esse estágio, ele ou ela atinge sárśth́i e sente “Senhor! Você existe. Eu existo. Nós estamos tão próximos que eu me tornei Você. Você se tornou eu.” Sem dúvida que se pode atingir sárśth́i através de Párthasárathi, mas não desse tipo. Em tal caso a ideação é: “Ó Parama Purusá, ó Senhor, ó Párthasárathi! Tu me fizeste exclusivamente Teu. Minha existência independente não pode ser mantida intacta. Eu sou um mero instrumento em Tuas mãos. Eu vou apontar minha flecha para onde Tu quiseres. Eu estou preparado para todos os tipos de trabalho.” 


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1 Nota do Tradutor em português: Este discurso é o Discurso 3 que integra o livro Namámi Krśńasundaram. 
2 N.E.: Duryodhana era o mais velho dos irmãos Kaorava e o líder do lado Kaorava na guerra do Mahábhárata. Arjuna era um dos irmãos Pandava e foi como representante do lado Pandava.
3 N.E.: O rei mitológico de Lanka no épico Ramáyána.
4 N.E.: Tanmátra significa literalmente “a menor fração daquilo”, i.e., de um dado fator rudimentar da matéria. Também se traduz como “onda inferencial”. Os vários tipos de tanmátra transmitem os sentidos da audição, toque, forma (visão), sabor e cheiro. 
5 N.E.: Prolongado. Veja também o Capítulo 5.

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Título original: Krśńa Imparts Six Stages of Realization (Discourse 3) 
Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês) 
Publicado em: Ananda Marga Philosophy in a Nutshell Part 6 [a compilation] Namámi Krśńasundaram (obra a ser publicada em português)
Tradução e revisão: Mahesh – Petrópolis, 2012-2017.¹¹

Ondas Gravitacionais - O Porquê das coisas

26/02/2017

O MICROCOSMO E SEU OBJETO DE IDEAÇÃO

Shrii Shrii Anandamurti 
12 de maio de 1979, Fiesch, Suíça. 

       O discurso de hoje é “O microcosmo e seu objeto de Ideação".
       O microcosmo é uma conação macropsíquica¹  e, portanto, todas as atribuições do Macrocosmo, todas as regras do Macrocosmo, também estão presentes no microcosmo, mas em forma de miniatura. Por natureza, o microcosmo é uma... contraparte objetivada do Macrocosmo. E, por estar dentro do âmbito infinito do Macrocosmo, ele continua movendo-se e movendo-se. O caminho é infinitamente longo. O microcosmo vai continuar movendo-se até atingir aquela meta específica. Qual seria a meta? Uma das regras psíquicas é que qualquer objeto toma a forma de sua meta, ou seja, ele é transmutado em seu próprio objeto. Portanto, o objeto de ideação do microcosmo deve ser selecionado com muito cuidado. 


    Agora vejamos: qual deve ser o melhor objeto de ideação?

    Primeiramente, consideremos o caso do tempo, o Tempo Eterno.

    O que é isto? Trata-se de uma medição psíquica da motilidade da ação. Agora, será que ela pode ser o objeto de ideação?
    Ela não pode ser o objeto de ideação, porque a primeira coisa é que ela é uma medição psíquica. Para ocorrer uma medição psíquica, deve haver um corpo psíquico, ou seja, um corpo psíquico unitário. E se o corpo psíquico unitário mede o tempo, o tempo não pode ser a Entidade Suprema. Por isso, ele não pode ser o objeto de ideação. 
    A segunda coisa é [...] que se trata de uma medição psíquica. [²] [...] Medição psíquica significa mobilidade psíquica. E mobilidade psíquica significa uma mudança de lugar. A entidade que requer uma mudança psíquica de lugar ou de espaço não pode ser a Entidade Suprema. Por esta razão também, o Tempo Eterno não pode ser o objeto de ideação de vocês.


    A terceira coisa é que esta medição depende da mobilidade ou motilidade da ação. O que é motilidade ou mobilidade? Ela também baseia-se na mudança de lugar ou de espaço físicos. Para isso se requer que este mundo físico seja criado, e depois que a medição da ação seja feita pelo corpo psíquico do Macrocosmo.
    Portanto, o fato é que a entidade cuja própria existência depende destes fatores físicos ou psicofísicos não pode ser a Entidade Suprema. Então, vemos assim que o Tempo Eterno não é a nossa meta; ele não é algo psíquico, e nem sequer é algo abstrato. É algo pior do que o abstrato. Portanto, ele é algo mais grosseiro do que os seres humanos; ao invés disso, os seres humanos é que são os criadores desta entidade. Portanto ela não é o nosso objeto de ideação; ela não pode ser o nosso objeto de meditação; ela não pode ser o nosso objeto de adoração ou de exaltação.
    
    Agora tomemos o caso da natureza. 

    Há algumas pessoas, ou houve algumas pessoas no passado que eram adoradoras da natureza, adorando árvores, adorando o céu, e assim por diante. Será que a natureza pode ser o objeto de ideação? 
    Não, certamente não. O que é a natureza? A natureza é o nome de um estilo particular segundo o qual o Princípio Operativo³ funciona. Ela é simplesmente um estilo. Esse estilo não pode ser o objeto de meditação ou de ideação. E a segunda coisa é que, como a natureza não é nada mais do que um estilo, se esse estilo torna-se o objeto, então a própria entidade será convertida somente em um estilo – em um mero estilo. É uma idéia tola. Portanto, tais adoradores da natureza podem ser estudiosos eruditos, mas na verdade eles vivem no paraíso dos tolos. A natureza não pode ser o nosso objeto de ideação.

    Terceiro, o Destino. 

    Houve, e há, muitas pessoas que são fatalistas. Os adoradores do destino. “Fatalista” significa adorador do destino – adorador da sorte e do destino. Eles são piores que os adoradores da natureza. O que é o destino? 
Não há nada chamado de destino neste universo. No que diz respeito à filosofia, não pode haver qualquer coisa chamada de destino. O que é o destino? 
    Toda e cada pessoa terá que sujeitar-se à reação de suas ações anteriores. Quando a ação original é conhecida, dizemos que esta é a reação daquela ação. Suponha que o seu dedo entre em contato com o fogo. Você vai sentir dor, você vai ter que sofrer – mas, nessa hora, você irá dizer, ou você irá sentir, que foi porque o seu dedo entrou em contato com o fogo que você está sofrendo. Mas quando a reação ocorre [  ] mais tarde e quando a ação original não é conhecida ou foi esquecida, ou quando a ação original aconteceu em uma vida passada, e você não sabe qual foi a ação original [  ] – neste caso você diz que isto “é o destino, é o destino”. Mas na verdade não existe destino. O que você chama de destino na verdade é a reação de nossas ações passadas. Em sânscrito isto é chamado de saḿskára. Saḿskára. Em latim, momenta⁶ reativos. 
Então, a terceira coisa... Portanto, o destino não pode ser o objeto de ideação. Destino é simplesmente a reação da ação original. E quando não existir uma ação original, não pode haver qualquer reação. Então a reação é uma criação da própria ação de vocês. Se a reação é uma criação da própria ação de vocês, vocês são os criadores, vocês são os pais da reação. Então, como pode a reação ser o objeto de ideação de vocês?
    Não. O ser humano não deve ser fatalista, o ser humano não deve ser adorador do destino, o ser humano deve ser firme. Você deve enfrentar firmemente todas as dificuldades, todas as conseqüências. Lembrem-se: vocês não devem ser fatalistas. Portanto, o destino não pode ser o objeto de meditação. Lute contra o destino.

    Então, algumas pessoas dizem que esta Terra é uma criação do acaso. Este universo é uma criação do acaso. O acaso é a causa essencial desta criação. Então, o acaso é o deus, porque ele criou o mundo. E portanto o acaso deverá ser o objeto de ideação.

    Esta também é uma idéia tola. O que é acaso ou acidente?

    Não existe nada chamado de acidente – tudo é incidente. Quando uma ação é materializada num intervalo de tempo curto – num intervalo de tempo muito curto – ou quando a causa básica da ação não é conhecida por nós – nós apenas estamos vendo a reação, apenas estamos vendo o incidente – o aspecto causal do incidente não é conhecido por nós – ou quando o aspecto causal é traduzido em ação dentro de um intervalo de tempo muito curto, nós dizemos que isto é um acidente. Mas na verdade nada é acidente, tudo é incidente. Por causa da nossa futilidade, ou por causa da nossa falta de conhecimento, nós dizemos que é um acidente. Quando o aspecto causal, quando o fator causal é traduzido em ação dentro de um intervalo muito curto – digamos, alguns segundos –, nós dizemos que é um acidente. E quando ele é traduzido em ação lentamente, nós não dizemos que é um acidente; nós dizemos que é um incidente. Portanto, um acidente não é algo providencial; ou, o nosso acidente não é algo fora do âmbito de tempo, espaço e pessoa. Porque todo acidente ocorre – todos os acidentes ocorrem dentro do escopo de tempo, espaço e pessoa. A entidade que está dentro – não fora – da periferia de tempo, lugar e pessoa não pode ser a meta de vocês, não pode ser o objeto de ideação de vocês, não pode ser o objeto de meditação de vocês e não pode ser... o criador ou a fonte de exaltação de vocês.

  Algumas pessoas dizem... que esses fatores quinqüelementais dos quais este universo é feito...

     Esses fatores quinqüelementais: o que são esses fatores? 
Eles não são nada além de uma forma condensada de energia. 
    E o que é energia? 
  Ela não é nada mais que uma forma condensada de estamina psíquica. Então, como podem esses fatores quinqüelementais deste mundo expresso serem o objeto de ideação? [  ] 
   Eles não podem ser a meta de vocês; eles não podem guiar vocês no caminho da beatitude. Portanto, aqueles que são adoradores ou meditadores dos fatores quinqüelementais são pessoas mal orientadas. Eles estão apenas desperdiçando a sua energia por nada.

   Algumas pessoas são da opinião de que a Energia Cósmica é a fonte original ou matriz causal do universo. Portanto, esta matriz causal deveria ser o objeto de ideação. 
     Mas o que é esta matriz causal? Matriz causal...
Essa Energia Cósmica não pode considerada como a matriz causal porque ela é uma força cega. A energia é uma força cega. A eletricidade é uma força cega. Ela é controlada pelo intelecto humano. Portanto, como a Energia Cósmica não tem apoio intelectual atrás de si, ela não pode ser a matriz causal. Porque em todos os lugares deste universo, vemos que todas as coisas seguem um estilo ordenado. Ou seja, existe algo intelectual por trás da Energia Cósmica. E é por isso que existe ordem em toda a parte. Existe sistema em toda a parte. Toda a criação tem uma ordem sistemática e por isso ela não pode ser criação de uma força cega ou de uma energia cega. Deve haver alguma força intelectual por trás dela. Portanto, a Energia Cósmica não pode ser tratada como a matriz causal, e não pode atribuir a ela... – não se pode atribuir nenhuma divindade a ela. Ela não pode receber a qualificação de matriz causal. 

    Algumas pessoas são da opinião de que existe a alma, de que existe um espírito em toda e cada estrutura e que esse espírito é a meta da nossa vida.  

    Vejam vocês, existem muitos espíritos e almas associados a muitos microcosmos. Mas eles têm que funcionar sob certas limitações. Eles não podem ir além da abrangência do microcosmo. Um objeto, ou melhor, uma entidade que tenha um alcance limitado como esse, tal como o espírito unitário ou a faculdade cognitiva unitária, não pode ser o objeto de ideação de vocês, não pode ser o Criador Supremo. 
    Então, quem é o objeto de ideação de vocês? Quem deve ser o objeto de ideação de vocês? Qual é o poder que criou vocês, que alimenta vocês e que põem vocês no Seu colo quando chega o momento apropriado? 
Ele é a Força Cognitiva¹⁰ por trás da Energia Cósmica. Ele controla a Energia Cósmica com o Seu poder intelectual e intuitivo. Ele é a Consciência Suprema. E na verdade Ele é a matriz causal, e Ele deveria ser o único objeto de ideação, o único objeto de meditação de vocês. E Ele é o Pai Supremo¹¹. Não há outra alternativa a não ser mover-se ao longo do caminho Dele. Ele sabe tudo. Unam-se com Ele.

   Agora, desde o exato início das suas vidas no passado distante até o ponto culminante de todos os seus movimentos e marchas, vocês estão com Ele, vocês estarão com Ele e... em nenhuma circunstância vocês estarão distantes Dele. Por isso, Ele é o único objeto de ideação – essa Consciência Suprema. 

   A raiz do significado do termo bábá é “o mais querido” ou “o mais próximo”. Como Ele é o Pai Supremo, a Consciência Suprema, Ele é Bábá de toda a criação. E como vocês são os seres criados, vocês são as amadas crianças Dele – vocês também são Bábá Dele – porque bábá significa “mais próximo e mais querido”.

    Como ele é o único objeto de ideação de vocês, e como o nome Dele é a única... projeção da entidade microcósmica de vocês, a única projeção de pensamento, a única projeção introversiva – projeção introversiva e extroversiva¹² –, então o nome Dele deveria estar sempre... com vocês, nas suas mentes, nas suas línguas, nas suas cordas vocais, em todos os lugares.


     E eu sinto, e eu também compreendo, e é por isso que eu digo: que quando os devotos Dele, as crianças Dele, cantam Bábá Nám Kevalam, Ele também canta Bábá Nám Kevalam¹³. 

    Kalyáňamastu. 
 [Que haja bem-estar.] 

* * *

Observação: As palavras em negrito correspondem aproximadamente a partes do discurso às quais o autor deu maior ênfase através da elevação do seu tom de voz. 

Revisão da transcrição do arquivo de áudio original, tradução e revisão da tradução: Mahesh – Florianópolis, 20 a 22 de março; 18 de setembro de 2009; 16 de março de 2011.

 Título original: Microcosm and Its Object of Ideation

Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês); e arquivo de áudio do discurso do autor. Publicado em: Subháśita Saḿgraha Part 12 Bábáin Fiesch (obras ainda não publicadas em português) 
______________

1 Nota do Tradutor (N.T.): Este é um aspecto da teoria cosmológica do autor. Tal afirmação equivale aproximadamente a dizer-se que todos os seres ou entidades unitárias (microcosmos) existem dentro de uma Mente Cósmica (Macrocosmo). Ou seja, suas existências dependem do funcionamento da Mente Cósmica – e mais: suas existências são propriamente pensamentos ou criações mentais (conações) dessa Mente Cósmica, e não possuem nenhuma existência separada da mesma.

 2 N.T.: Nesta altura, três frases do autor foram omitidas pois não estão completamente audíveis ou inteligíveis no áudio do discurso original. O que foi possível transcrever é o seguinte (incluindo as frases imediatamente precedente e subsequente): “Second thing is: […] that it is psychic measurement. Who measures? It is a […]. Now, psychic measurement means psychic mobility.”

3 N.T.: Aqui o autor lança mão de outro aspecto de sua teoria cosmológica – a saber: o Princípio Operativo é um dos dois princípios que, juntos, são responsáveis pela criação do universo manifesto, e inclusive da própria Mente Cósmica dentro da qual o mesmo existe. A interação desses dois princípios se dá com a influência do Princípio Operativo sobre o outro princípio, o Princípio Cognitivo. Em sua filosofia o autor explica que o Princípio Operativo pertence ou está subordinado ao Princípio Cognitivo. 

4 N.T.: Nesta altura, uma palavra do autor foi omitida pois não está completamente audível ou inteligível no áudio do discurso original.

5 N.T.: Esta última frase foi adaptada pois parte dela não está completamente audível ou inteligível no áudio do discurso original. O que foi possível transcrever é o seguinte: “…or the original action took place in another past life, [there is] not know what was the original action”. 

6 N.T.: plural de momentum - significando “impulso”, ou “quantidade de movimento”.

7 N.T.: Os chamados cinco fatores fundamentais. Em sua teoria cosmológica, o autor explica que esse cinco fatores fundamentais foram criados um após o outro, sucessivamente, dentro da Mente Cósmica, e que qualquer entidade material do universo manifesto é composta por uma combinação particular dos mesmos.

8 N.T.: Esta última frase foi adaptada pois parte dela não está completamente audível ou inteligível no áudio do discurso original. O que foi possível transcrever é o seguinte: “Then how […] these quinquelemental factors of this expressed world can be the object of ideation?” 

9 N.T.: O termo “Energia Cósmica” é um sinônimo de “Princípio Operativo”.

10 N.T.: Aqui, o termo “Força Cognitiva” é um sinônimo do antes mencionado “Princípio Cognitivo”. (Vide nota 3.) 

11 N.T.: O autor costuma referir-se à Consciência Suprema, ou ao Princípio Cognitivo, como “Pai Supremo”, e ao Princípio Operativo, ou “Energia Cósmica”, ou “Força da Natureza”, como a “Mãe Suprema”.

12 N.T.: “intro-cum-extroversial”, em inglês.

13 N.T.: O termo “bábá” já foi explicado pelo autor. “Nám” é uma raiz verbal em sânscrito que significa “Eu me entrego”. E “kevalam” significa que “é o único caminho, que não há alternativa”. De modo que o significado geral desse mantra pode ser entendido como “Somente a esse objetivo, a essa meta, eu me entrego” ou também “Eu estou tomando o nome da Entidade Suprema”.

06/02/2017

VOLTANDO PARA CASA¹


Shrii Shrii Anandamurti, Allahabad,Índia, 28 de maio de 1967. 



Em termos simples, o que temos a fazer é voltar para o lar de onde viemos. Todos nós viemos de Parama Puruśa, a Entidade Suprema, e do práńa-kendra, o núcleo do universo – quer dizer, Puruśottama. Nós temos de voltar para o mesmo lugar. É como o menino que brincou pelos campos o dia inteiro e agora que a noite está chegando, volta para casa. Sádhana é o processo de voltar para casa. A criança brincou fora o dia todo. Quando a noite se aproxima, ele pensa “O pai já deve ter voltado para casa. Eu também vou voltar para casa e sentar perto dele”. Quando uma pessoa está cansada deste mundo e das coisas mundanas, ela anseia voltar para a espiritualidade – quer dizer, para o seu lar.


E qual é a nossa morada permanente, a nossa casa? É Parama Puruśa paramáshrayah Shriinivásah. Aqui shrii se refere à Faculdade Criativa Universal, ou Parama Prakrti. Portanto, voltar para casa é uma tarefa simples. Não requer erudição, conhecimento ou capacidade intelectual – tampouco longas e tediosas palestras. As escrituras nos dizem que há três pontos a serem lembrados para voltarmos para casa. São eles: shravana [ouvir sobre o Supremo], manana [idear no Supremo] e nidi-dhyásana [meditar no Supremo com um fluxo ininterrupto da mente].

 Sabemos que a faculdade vibracional transforma ondas mais sutis em ondas mais densas na fase da criação. Hari kathá [conversa devocional] proporciona vibrações mais sutis. Você deve permitir-se receber essas ondas mais sutis. Já foi dito que as ondas sonoras são as mais sutis na sequência da expressão Cósmica. A importância de Hari kathá no desenvolvimento espiritual é grande. Ouvir a respeito de Deus é muito mais importante do que estudos sobre espiritualidade, uma vez que o som é mais sutil do que a forma visual. Portanto, sempre que tiver oportunidade, ouça o nome Dele e fale-o para outras pessoas. 

   Quando você fala o nome Dele para outros, você também o ouve. Esse duplo desfrute ao recitar o nome Dele é chamado de kiirtana. Bhajana, por outro lado, é quando você ouve sozinho o nome Dele².  Você deve fazer ambos: tanto bhajana quanto kiirtana. Isso é shravana. O efeito de shravana é que vibrações sonoras que estão se movendo do denso para o sutil são colocadas em movimento contra o fluxo da faculdade vibracional, no qual os sons mundanos se movem do sutil para o denso. Isso vai colocar um fluxo de sons em movimento reverso, o que irá levar a pessoa até o ponto inicial da faculdade vibracional. 

   Eu já afirmei que o ponto inicial da faculdade vibracional e o ponto culminante da faculdade primordial são um só e o mesmo. Vocês irão portanto atingir o ponto culminante da faculdade primordial. A fase vibracional é chamada de bhava – também bhava ságara ou bhava párávára [oceano da criação]. A palavra bhava consequentemente designa o reino inteiro do princípio vibracional. Esta é a esfera dos envolvimentos mundanos. O Caetanya ou Princípio Cognitivo dessa faculdade {vibracional} é chamado de Bhava, e a Shakti ou Princípio Operativo dessa faculdade {vibracional} é chamada de Bhavánii Shakti. Essa é a amarra mundana. Somente através de Hari kathá consegue-se atravessar esse oceano de bhava – o domínio inteiro da faculdade vibracional.

   Em seguida vem manana, isto é, pensar somente em Parama Puruśa e em mais ninguém. Se vier à sua mente o pensamento de qualquer outra pessoa ou coisa, atribua a qualidade de Brahma a essa pessoa ou coisa. Esse processo é manana; você aprende este processo por meio do Guru Mantra³.  O efeito de manana será levar você gradualmente do último ponto do princípio ou faculdade primordial até o ponto inicial da faculdade primordial. 

   Nesse ponto você encontra a faculdade básica ou princípio básico. O princípio ou faculdade básica é um ponto no triângulo não-equilibrado de forças. Ele está situado em um vértice específico do triângulo de forças. Manana pode levar você até esse ponto. O que então resta é o ponto da qualidade de “eu”  , o ego. Agora temos que remover essa qualidade de “eu”.

   Todos os pesos, todas as confusões, todas as considerações de respeito e desrespeito, tudo está ligado ao “eu”. Quando alguém discorda de você, você abre um processo judicial contra a pessoa. Por que você se dá a esse trabalho? Somente para provar que você está certo. Todos os incômodos e frustrações são somente devido ao ego individual. O fato é que mesmo depois de entregar tudo a Parama Puruśa, o seu arqui-inimigo – o “eu” – ainda permanece. Porque você dirá: “Eu entreguei tudo a Deus”. “Eu”, “eu”, “eu” – meu amigo, entregue esse “eu” a Deus. Somente assim a sua entrega será completa. Todos os problemas ocorrem por causa desse “eu”.

 Ratnákarastava grhaḿ grhińii ca padmá Deyaḿ kimapi bhavate Puruśottamáya Ábhiiravámanayanápahrtamánasáya Dattaḿ mana yadupate tvamidaḿ grháńa. 

[A Tua morada está transbordando de pedras preciosas e jóias. A deusa da fortuna é a Tua guardiã. O que posso Te oferecer, ó Senhor? Ah sim, existe uma coisa que Te falta, já que foi roubada pelos Teus devotos: a Tua mente. Portanto ofereço minha mente a Ti. Por favor aceite-a.] 

   Depois da entrega desse “eu”, Parama Puruśa fica satisfeito, pois você chegou ao ponto central do triângulo de forças

   Realmente a única tarefa a ser feita é entregar tudo a Ele. Tudo o que você possui – seu corpo, seu nome, fama, riqueza, tudo – você recebeu Dele. Então, o que você deve dar a Ele e como você fará isso? Até aqui você só estava devolvendo a Deus coisas que já pertenciam a Ele. Agora o que você tem que dar a Ele é algo que seja seu. Esse é o ponto crítico. Suponha que alguém lhe dê uma flor de presente e você lhe devolva a mesma flor.  Isso não é certo. Por que não dar o seu “eu” a Ele, que de qualquer forma é a fonte de todos os seus problemas, confusões e complicações? Não há nada mais precioso para você do que esse “eu”. Entregá-lo é a coisa mais difícil. Portanto, no shloka acima o devoto exclama:

 “Ó Senhor, este universo é a Tua morada. Ele está repleto de jóias preciosas. Tudo de valioso que existe neste mundo pertence a Ti. Então, qual presente precioso eu poderei Te dar? Tu não tens desejo de nada. Qual é o sentido em oferecer algo a alguém cuja casa está repleta de jóias preciosas? A toda-poderosa Prakrti é a Tua própria esposa; ao Teu desejo Ela fará inúmeras jóias em um instante: aghat́ana ghat́ana pat́iiyasii Máyá [„a habilidosa mão de Mayá, que consegue criar até mesmo coisas impossíveis de criar‟] – esse poder criativo está sempre pronto para Te servir. Ó Senhor dos senhores, embora eu anseie por Te oferecer algo, não sei o que poderia ser. Ainda que eu queira oferecer, Tu não tens desejo ou necessidade. Se nada Te falta, o que posso oferecer? Se eu soubesse de algo que Tu não tens, eu iria oferecer isso a Ti.” 

“Ó Senhor dos senhores, ouvimos dizer que Teus grandes devotos roubaram a Tua mente de Ti. O Senhor se torna o escravo dos Seus devotos. Um devoto rouba o coração do Senhor – quase que à força. Isso é feito abertamente, e não em segredo. Então, ó Senhor, tem uma coisa que Te falta: Tu não tens mente.” 

   O devoto diz: “Não Te desesperes, ó Senhor, eu estou Te oferecendo minha mente. Por favor a aceite.” 

  Essa oferenda da própria mente da pessoa ao Senhor é nididhyásana. O sentido intrínseco de nididhyásana é que todas as propensões da mente devem ser concentradas em um ponto que será oferecido a Parama Puruśa.

   Atualmente a mente humana consiste em cinqüenta propensões dominantes. Quando a estrutura humana ficar mais complexa ao longo da evolução, certamente o número dessas propensões também aumentará. O número desses vrttis não irá ficar em cinqüenta para sempre; ele irá aumentar. Similarmente, o número de glândulas aumentará, e também o número de subglândulas. E não apenas haverá aumento no número de propensões mentais: as propensões também sofrerão mudanças. O conceito de beleza também mudará com a mudança de perspectiva da mente humana. Uma coruja poderá então parecer bonita e um pavão, feio. 

  Portanto, shravana capacita a pessoa a cruzar a faculdade vibracional. Manana permite que ela cruze a faculdade primordial. E nididhyásana torna possível fundir-se na Entidade Suprema. Isso é a realização de Deus. Assim, o ponto essencial é despertar o mantra, independentemente de a pessoa fazer coisas intelectuais como ler e escrever ou não. O que é importante é ter shravana, manana e nididhyásana apropriados. Se a pessoa fizer isso, ela não mais achará difícil aprender a fazer qualquer coisa. Mantra caetanya com certeza conduzirá a mantra siddhi – à realização da meta suprema. O processo da sádhaná automaticamente irá despertar a devoção. 

   Quando você entrar em contato íntimo com a Entidade Suprema, você verá que não possui riqueza maior que a devoção. Todas as posses mundanas irão mostrar-se sem valor. Somente a devoção permite que você entre em contato íntimo com Ele. Essa é a meta da vida humana. Esse é o verdadeiro progresso. Você tem vagueado pelo labirinto por uma miríade de vidas. 

   Você tem avançado sempre em direção a esse estágio. Consciente ou inconscientemente, você está sendo atraído para Ele. Esse é o ápice da vida. Enquanto você não O tiver realizado, não haverá siddhi na sua vida. 


¹Nota do Tradutor (N.T.): Tradução do trecho final do discurso “Mantra Caetanya”. A presente tradução consiste na expansão e revisão da tradução existente no capítulo “Voltando para o Lar” do livro A Graça do Senhor – Parte 1, publicado em português.
²Nota do Editor da versão em inglês (N.E.): Kiirtana, assim como bhajana, pode ser praticado individualmente, mas é preferível praticá-lo coletivamente. 
³N.E.: Uma lição de meditação da Ananda Marga.
N.T.: O termo em inglês é “I”-hood. Em outro discurso o autor identifica o ego com ahaḿtattva ou o eu agente (“eu faço”) – diferente do sentimento puro de “eu” (mahattattva, “eu sou”) e do eu objetivado (citta, “eu fiz”). 5 N.E.: Quer dizer, você progrediu do princípio básico em um dos vértices do triângulo até Puruśottama, no ponto central do triângulo.

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Este texto é a tradução do trecho final do discurso “Mantra Caetanya”. A presente tradução consiste na expansão e revisão do texto intitulado “Voltando para o Lar”, no livro A Graça do Senhor – Parte 1, publicado em português. Tradução complementar e revisão: Mahesh, Petrópolis, 04 e 05/fev/2017. Título do discurso integral: “Mantra Caetanya” Fonte: Edição Eletrônica das Obras de P. R. Sarkar – versão 7.5 (em inglês). Publicado em: Ananda Marga Ideology and Way of Life in a Nutshell Part 11 [a compilation] Bábá's Grace [a compilation] {contém apenas uma parte resumida e adaptada do discurso integral} Discourses on Tantra Volume One [a compilation] Subháśita Saḿgraha Part 10 [unpublished in English] Supreme Expression Volume 1 [a compilation]