02/12/2010

Karpat́a a Karśú

Discurso de Shrii Shrii Anandamurti

25 de Janeiro de 1986, Calcutá

Kali

Kal + i = kali. O significado etimológico da palavra é “aquilo que é principalmente som” – mais conversa do que ação.Mukhena máritaḿ jagat. O significado coloquial da palavra kali é “a quarta yuga, ou yuga final, do kalpa”. O outro significado etimológico da palavra kali é “mover-se ao mesmo tempo em que se mede” – ou seja, é aquela época em que as pessoas medem e compreendem tudo, fazendo as coisas cuidadosamente, devido à magnanimidade das suas mentes.

Na opinião de muitas pessoas, existem quatro yugas em uma kalpa: satya, tretá, dvápara e kali. Na satya yuga tem-se jiňána-bhakti-karma [conhecimento, devoção e ação] – uma harmonia auspiciosa entre esses três aspectos. Ao mesmo tempo, na Satya yuga tem-se a predominância de sádhaná [prática espiritual]. As pessoas aceitam a renúncia pelo propósito da sádhaná; elas praticam austeridades. Por essa razão, a Satya yuga também é chamada de Krta yuga [krta significa “realizado, feito”].

Uttiśt́han tretá bhavati, krtam' sampadyate caran'.

“Na Tretá yuga tem-se a predominância da devoção; contudo, as austeridades da jiňána-karma sádhaná também são praticadas.”

Na Dvápara yuga tem-se a predominância da ação; contudo, as austeridades da jiňána-bhakti sádhaná também são praticadas.

Na Kali yuga tem-se a predominância da conversa. Na Kali yuga os seres vivos têm vida curta – eles desperdiçam seu curto tempo de vida em conversas supérfluas e em artifícios verbais.

Kalpa

Kalp + ac = kalpa. O significado etimológico da palavra kalpa é “o estado da imaginação”; coloquialmente kalpa significa:

1) A medição mental da motividade da ação, ou divisão do tempo.

2) O nome coletivo de Kali, Dvápara, Tretá e Satya Yugas. O término de um ciclo das quatro yugas é chamado de kalpánta. De acordo com a crença popular, se uma pessoa possui devoção, então ela irá obter a liberação nesta mesma kalpánta, independentemente de ela ter ou não quaisquer outras qualidades. Uma pessoa devota normalmente tem paciência e, portanto, não mistura outras coisas com a sua devoção. Ela permanece absorta na sua devoção, com a crença de que, se não hoje, então na kalpánta ela irá obter a liberação.

* * *

Tradução: Mahesh, Florianópolis, 20 de janeiro de 2010.

Publicado em: The Electronic Edition of the Works of P. R. Sarkar – versão 7 (EE7)

Shabda Cayaniká Part 3 [ainda não publicado em português]

Na Kali Yuga, a Força está em um Coletivo Organizado

Discurso de Shrii Shrii Anandamurti

30 de Dezembro de 1978, Patna

Diz-se que Saḿghe shaktih Kalao Yuge. [O significado disto é que] Na Kali Yuga, quer dizer, na assim-chamada “Era de Ferro”, a força real está em um coletivo [1] organizado. Isto equivale a dizer que as pessoas deveriam viver unidas.

Por quê?

No início da história humana, na assim chamada “Era de Ouro” ou Satya Yuga – no alvorecer da civilização humana –, as pessoas aceitaram o dharma [2] com sinceridade completa. Atingir o átman ou alma era o único objetivo querido dessas pessoas antigas. Eles iriam viver pelo átman delas e morrer pelo átman delas. Com relação ao direito de se fazer práticas espirituais, elas não iriam discriminar ninguém, nem mesmo amigos ou inimigos. Elas tinham tolerância com qualquer pessoa. Elas iriam até mesmo dar oportunidades especiais para seus inimigos declarados, para que aprendessem práticas espirituais. Com relação a isto, elas jamais perderam o seu espírito coletivo.

A próxima era foi chamada de Tretá Yuga – a assim-chamada “Era de Prata”. Nessa era, atingir o átman não era mais o fator dominante: as pessoas ficaram mais obcecadas com suas mentes. Em outras palavras, houve uma leve degeneração. Mesmo assim, elas ainda ajudavam-se umas às outras, para que o progresso coletivo fosse assegurado. Elas também não discriminavam entre amigo ou inimigo e jamais faziam mal a grandes estudiosos ou pessoas educadas, de forma alguma. Elas estavam conscientes da necessidade da justiça. Como elas tinham um objetivo coletivo comum na esfera espiritual da vida, elas não sentiam necessidade de qualquer corpo organizado e não sofriam como resultado [da falta disso]. Na Tretá Yuga, os seres humanos tornaram-se mais focados na mente.

Contudo, com a passagem do tempo, as diferenças de opinião entre os membros da sociedade aumentou. Vocês todos sabem que entre as pessoas educadas são comuns diferenças de opinião.

Shrutayo vibhinnáh smrtayo vibhinnáh

Naekamuniryasya mataḿ na bhinnam

Dharmasaya tattvaḿ nihitaḿ guháyám

Mahájano jena datah sa panthá.

[As escrituras variam, os códigos sociais diferem. Cada sábio tem uma opinião diferente. A essência do dharma está nas profundezas da mente. A pessoa realizada segue o caminho verdadeiro.]

Devido a essas diferenças, houve ainda mais degeneração e a humanidade entrou na Dvápara Yuga: a assim-chamada “Era de Cobre”. As pessoas ficaram mais focadas no corpo. À menor provocação, elas aniquilariam seus inimigos. É evidente que criaturas focadas no corpo são mais degeneradas do que criaturas focadas na mente.

Então veio Kali Yuga, a era atual. As pessoas desta era são focadas na comidas, e são grosseiramente materialistas. Comer é uma parte tão importante das suas vidas que, se houver falta de comida, elas pensam que certamente irão morrer. A existência delas é tão dependente de comida que elas ficam frágeis e perdem a vitalidade delas para continuar fazendo práticas espirituais vigorosas.

Vocês não deveriam depender tanto de comida. É por isso que eu prescrevi o jejum quatro dias por mês para algumas pessoas, e dois dias por mês para outras, e pessoalmente eu demonstrei, ao jejuar por cinco anos e oito meses de uma só vez, que se as pessoas tentarem, elas podem ficar sem comida. Se a dependência de uma pessoa em relação à comida diminuir, ela vai adquirir mais liberdade em algum aspecto particular da vida.

Na Kali Yuga, como eu disse, as pessoas estão obcecadas demais com comida e com outros objetos materiais. É por isso que se disse: Saḿghe shaktih kalao yuge.

É impossível resolver sozinho os problemas agudos de alimentação, cuidados médicos, habitação e educação com os quais nós nos confrontamos hoje em dia. Isto requer um esforço coletivo, organizado, seguindo o espírito de devábhágaḿ yathá púrve[nos dias antigos, os deuses costumavam compartilhar seu alimento].[3] Tendo este objetivo em vista, eu formulei uma filosofia sócio-econômica.[4] Quanto mais cedo vocês forem capazes de implementar coletivamente essa filosofia, melhor será para a sociedade. Ao mesmo tempo vocês devem sempre lembrar-se de manterem controle sobre a comida. Não dependam tanto de comida.

Pessoalmente eu não acredito que nessa divisão de tempo em Satya, Tretá, Dvápara e Kali Yugas, ainda que eu admita que há alguma verdade no seu espírito subjacente.[5] Vocês devem sempre lembrar-se que Kali Yuga – quando as pessoas estão continuamente obcecadas por comida – também é uma fase transitória e será seguida por uma nova Satya Yuga, quando as pessoas novamente ficarem mais focadas na alma. A Satya Yuga irá começar assim que vocês implementarem a ideologia sócio-econômica. Através dos seus esforços coletivos, que Satya Yuga seja estabelecida nesta terra poeirenta o quanto antes. Que vocês sejam vitoriosos!

* * *

Tradução: Mahesh, Florianópolis, 13 de janeiro de 2010.

Publicado em: The Electronic Edition of the Works of P. R. Sarkar – versão 7 (EE7)

Ánanda Vacanámrtam Part 7 [ainda não publicado em português]


[1] O autor usa o termo body, que pode significar “corpo”, ou também ter o sentido de “grupo”, “conjunto de partes” ou “coletivo”. Pelo contexto, fica claro que este segundo sentido é especialmente visado pelo autor.

[2] Dharma significa, aproximadamente, a natureza humana, implicando também o objetivo visado com o desenvolvimento ou prática dessa natureza.

[3] O autor cita um trecho do mantraSamgacchadvam”, normalmente entoado nos encontros de dharmachakra.

[4] O autor refere-se à Teoria da Utilização Progressiva (PROUT), que foi apresentada como uma parte – o quinto e último capítulo – de seu tratado filosófico Ananda Sutram.

[5] Isto significa que as fases temporais das várias yugas não correspondem a fases históricas de desenvolvimento da humanidade. A este respeito, o autor propôs a teoria dos ciclos sociais – uma teoria sobre a dinâmica dos coletivos humanos, apresentada como uma parte de sua teoria PROUT (especificamente os primeiros 7 princípios, dentre os 16 princípios de PROUT). Por outro lado, em outras ocasiões o autor deu à divisão das yugas um sentido mais individual e psicológico – eventualmente também com um sentido mais coletivo.